Sobre os degredados

Li recentemente que um procurador da República deu declarações tentando explicar a diferença que existe entre Brasil e Estados Unidos, no que tange á corrupção: segundo ele, para cá, Portugal enviou, sobretudo, os degredados (criminosos de todos os tipos), ao passo que, para os Estados Unidos, se dirigiram principalmente cristãos de boa cepa, homens de fé e de princípios que decidiram ali criar uma civilização baseada na ética do trabalho e da justiça. Na origem dos dois países, portanto, estaria a famigerada explicação para uma renitente, persistente, incontrolável tendência à corrupção que se verifica no Brasil. Mais de cinco séculos de história entre aquele início e a atualidade não teriam nenhuma importância na conformação do caráter nacional…

Não foi à toa que denominei este modesto blog de Falta História. Interpretações como essa citada pelo referido procurador estão completamente ultrapassadas. De fato, podem ser consideradas como verdadeiros anacronismos. Que só resistem à passagem do tempo e ao acúmulo do conhecimento por conta da preguiça de alguns e da ignorância de muitos. E servem a propósitos políticos de má fé, que pretendem dar uma aparência de reflexão à simples manifestação do preconceito e da intolerância.

A empreitada colonial foi uma realização grandiosa, que requereu enormes esforços e atividades incessantes. Teve muito de brutalidade, de destruição, de desumanidade; mas também contou com altas doses de dinamismo, energia, determinação e coragem. A criação, no Brasil, de um gigantesco território colonial produtivo, gerador de riquezas, integrado, ocupado e unificado nessa imensidão quase continental não pode ser assim menosprezada. Houve muito trabalho aqui. Houve muita ousadia no desbravamento do meio natural desconhecido. Houve muita bravura no enfrentamento das intempéries e dos perigos. Quantas vidas se perderam? Quantos recursos se dissiparam?

Mesmo no início mais primitivo de sua história, o Brasil contou com a contribuição de três grupos étnicos fundamentais: os portugueses, os índios e os negros. Não foram os degredados que definiram o caráter do seu povo. Antes de tudo, a miscigenação e a interação entre esses três tipos humanos foram muito mais marcantes do que qualquer outra forma de qualificação. Há influências decisivas dessas três matrizes culturais na formação do povo brasileiro: na música, na culinária, na literatura, na arquitetura, nas artes, de um modo geral. A partir da segunda metade do século XIX, outros povos de origem europeia e asiática vieram se juntar a eles e ampliaram ainda mais as referências sociais e culturais predominantes no Brasil. E enriqueceram a civilização brasileira.

Há muito que dizer sobre o tema. Curiosamente, o Brasil é um país no qual os historiadores são bastante criativos e estudiosos. Existem livros e mais livros publicados sobre isso, além de teses e dissertações que ainda estão restritas aos bancos de dados das universidades. Mas são acessíveis a qualquer interessado. Para quem não enfrenta os estudos acadêmicos com facilidade, tem também uma revista publicada pela Biblioteca Nacional, chamada Revista de História, que é um verdadeiro primor. Além dos textos magníficos sobre os assuntos mais variados da história brasileira, traz ainda em cada número imagens simplesmente sensacionais de todas as passagens extraordinárias da vida do País. Ou seja, não faltam informações disponíveis, para todos os gostos. O que falta mesmo é um pingo de seriedade ao tratar do assunto.

Qualquer um pode dizer asneiras, cometer gafes ou sair do tom. Dizem que Deus permite a cada um certa dose de loucura! O que não dá para engolir é um procurador da República se metendo a dar palpite sobre aquilo que não sabe, e fazendo isso da maneira mais preconceituosa e ofensiva que pode existir. E com ares de autoridade!

Quem sente um mínimo de apreço pelo Brasil e pelo seu povo, tem obrigação de reagir a esse tipo de conduta, porque ela é muito ameaçadora e porque ela tem o condão de arrastar consigo inúmeras consciências. Os mais desavisados tendem a acreditar nas palavras das autoridades, assim como se fossem sempre a expressão da verdade.

Não, o Brasil não é o subproduto malsão de uma confraria de degredados. Longe disso, é uma formação social rica e dinâmica, cuja evolução é digna de uma reflexão séria e honesta, que ajude a compreender os seus dramas e as suas virtudes, em todas as dimensões necessárias. Essa deveria ser a missão de todos os que estão comprometidos, direta e indiretamente, com a administração do País.