A “ordem das coisas”

Muitos têm se perguntado como é que os brasileiros aceitam esse golpe perpetrado contra a democracia, pelo qual tiraram do poder uma presidenta legitimamente eleita — com 54.501.118 votos — e a substituíram pelo seu vice, que se aliou ao grupo político derrotado nas urnas em quatro eleições presidenciais seguidas. Não apenas armaram uma situação jurídico-parlamentar confusa para o entendimento do grande público, como passaram a colocar em prática um programa de governo que vem sabotando e/ou destruindo as principais realizações de Lula e Dilma, nos últimos treze anos. Os projetos mais afetados são justamente aqueles destinados ao enfrentamento do maior problema do País — a sua enorme desigualdade social.

As áreas de saúde e educação têm sido as mais visadas pela sanha destruidora dos golpistas. Mas a cultura, outro setor de atividades que tem grande capacidade de promover a inclusão social, também vem sofrendo um desmonte acelerado e agressivo. E vários outros. Para coroar essa tragédia que se anuncia, puseram para tramitar no Congresso Nacional um projeto de lei que pretende “congelar” por vinte anos os investimentos públicos em saúde e educação (na verdade, corrigindo-os pelo índice de inflação do ano anterior, o que, na prática, significará uma redução brutal dos mesmos). Todo o esforço feito para debelar o flagelo da desigualdade social no Brasil, de 2003 a 2016, será perdido.

E o que fazem as pessoas? Em geral, não fazem nada. A não ser aquela parcela mais aguerrida e militante, engajada nos movimentos sociais e nos partidos políticos, que insiste em protestar e em reivindicar os seus direitos, o resto da população parece entorpecido. Honra seja feita a determinados grupos de intelectuais e juristas que também têm reclamado o pleno restabelecimento do regime democrático no País. Mas uma maioria significativa parece que não está nem um pouco preocupada. Talvez, porque acredite realmente na narrativa golpista e aceite a saída da presidenta legitimamente eleita como um fato inevitável. Talvez, porque não tenha compreendido exatamente a dimensão do que está sendo feito e ainda não tenha sentido em plenitude os efeitos das medidas adotadas. Isso leva tempo.

Os prognósticos (sobretudo, as pesquisas) sobre as eleições para as prefeituras que acontecem no próximo domingo, dia 02 de outubro, apontam para a vantagem de vários candidatos que votaram no Congresso Nacional pela saída da presidenta Dilma, que não cometeu nenhum crime de responsabilidade que justificasse o seu afastamento. Foi um golpe, portanto. Se tantos eleitores pretendem votar nesses candidatos deve ser porque concordam com a sua atuação política. De outra forma, estariam em desacordo com a postura adotada por eles. Mas, pode ser também que simplesmente enxerguem esse episódio triste da história brasileira como a “ordem das coisas”.

Aquela fotografia do presidente golpista sendo empossado com os seus ministros — todos velhos, brancos e ricos — foi emblemática dessa estrutura de poder que domina o Brasil há séculos. São eles que mandam. Assim como sempre mandaram. E de tal forma que a sua presença nas esferas de mando pode ser percebida como algo “natural” — no sentido da natureza mesmo. Coisas que se repetem de modo infindável acabam adquirindo essa feição costumeira, imutável, perene, e se confundem com a própria origem de tudo. Aquilo que sempre foi, e sempre será. E todos aceitam, e se submetem.

Porque há também certo anseio pela figura do “pai patrão” — aquele que organiza, que põe ordem no mundo, que define papeis e determina funções. A autoridade onipresente que atribui sentido e significado às coisas e às pessoas. E que assume a responsabilidade pelos resultados. Cômodo, confortável, conveniente.

Os velhos brancos e ricos, que sempre exerceram esse poder sobre os brasileiros, estão de volta. Eles se movem com a mais absoluta naturalidade, certos de que o seu lugar no mundo está previamente determinado pela “ordem das coisas”. Eles se julgam os únicos merecedores do direito de mandar, os verdadeiramente capazes de governar as cidades, os estados, o País, os exclusivos detentores da riqueza, do conhecimento e do poder, os legítimos autores dos projetos que definem os rumos do conjunto. Mas, para que exerçam de fato todo esse domínio, é fundamental que tenham a contrapartida de uma aceitação arraigada, obstinada, incontestável daqueles que os legitimam.