“Bate em mulher!”

No sábado dia 1º de outubro, véspera da eleição municipal, deparei com uma pequena carreata do candidato do PMDB, Pedro Paulo, na principal rua do meu bairro. O PMDB é o partido do atual governador e do atual prefeito do Rio de Janeiro, e também do presidente que assumiu o poder com o golpe iniciado em maio de 2016. Foi muito espantoso observar que, mesmo com toda essa máquina pública nas mãos, o referido candidato não logrou êxito em sua campanha para a prefeitura da Cidade Maravilhosa. O segundo turno da eleição no Rio de Janeiro será disputado entre um representante evangélico, ligado a uma das legendas pentecostais mais estridentes, e um deputado estadual de esquerda. Dizem as pesquisas mais recentes que o evangélico possui larga vantagem de votos.

Quando a pequena carreata se aproximou — eram no máximo uns cinco ou seis carros cujos passageiros buzinavam e tremulavam bandeiras do Pedro Paulo —, observei que alguns populares começaram a se manifestar com gritos de “bate em mulher, bate em mulher!” Achei muito curioso. Logo no início da campanha eleitoral, espalhou-se com bastante rapidez a acusação de que o jovem candidato carregava no currículo uma passagem desabonadora com sua ex-mulher, que o acusara de violência física. Embora existam versões dizendo que ela retirou a queixa na polícia e “tudo foi resolvido de forma amigável”, o fato é que a desconfiança permaneceu e perseguiu sua candidatura até o final. É muito provável que outras insatisfações com a atual gestão da prefeitura da cidade tenham pesado fortemente na decisão dos eleitores, e não foi exclusivamente por esse fato que eles rejeitaram o candidato da situação. Mas os gritos daqueles populares que receberam a passagem da carreata com indignação chamou a minha atenção.

Por que certas acusações pegam, e outras, não? Por que foi tão fácil e rápido convencer tantas pessoas de que o referido candidato agrediu sua ex-mulher fisicamente e, portanto, mereceu ser recusado, talvez, banido da vida pública? Com certeza, seriam necessárias as contribuições de diversos campos do conhecimento para responder a essa questão, e eu não me atreveria a oferecer uma solução definitiva para o caso. Apenas fiquei intrigada com o que vi e me fiz algumas perguntas que deixo aqui registradas. O primeiro aspecto que considero essencial é que as pessoas tendem a acreditar naquilo que reconhecem como possível, verdadeiro e/ou real. Pesquisas indicam que a violência contra as mulheres é endêmica no Brasil, de tal modo que foi necessário criar uma série de mecanismos legais e institucionais para começar a combatê-la com maior eficiência. Um dos marcos desse processo recente de enfrentamento foi a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, que tipifica e pune os crimes cometidos contra as mulheres, em razão da sua condição, sobretudo no ambiente doméstico e familiar.

Embora essas medidas venham se revelando fundamentais para coibir a violência contra as mulheres e para lhes garantir um mínimo de proteção legal e de amparo assistencial, o fato é que o problema ainda continua a assombrar milhares de famílias, impondo à condição feminina riscos gravíssimos e perdas lamentáveis. Talvez por isso mesmo a acusação que foi lançada sobre o candidato do PMDB à prefeitura do Rio tenha sido tão eficaz na rejeição do eleitorado à sua figura. De um lado, as pessoas reconhecem como potencialmente verdadeira a desconfiança de que um homem tenha agredido uma mulher, sobretudo, se for a sua mulher. De outro, toda uma legislação que visa proteger as filhas, mães, esposas, companheiras, da brutalidade de seus familiares e parceiros é, de certo modo, uma espécie de guia para as consciências e de referência para os julgamentos. Por mais que essa violência esteja disseminada no meio social, já existe quanto a ela uma restrição moral também generalizada pela força da lei. Não é mais apenas um problema de marido e mulher, no qual ninguém mete a colher!

Do ponto de vista do conjunto, a sociedade brasileira começa a desenvolver uma visão de que a violência doméstica contra as mulheres não é admissível, e deve ser combatida de todas as formas possíveis. Ainda que o problema persista em escalas avassaladoras e dramáticas, a conscientização quanto à sua inaceitabilidade é uma boa notícia, sem dúvida. Ao ouvir os gritos dos populares que receberam a mini carreata do candidato do PMDB bradando “bate em mulher, bate em mulher”, não pude deixar de sentir certo alívio de surpresa. Não é que muitas pessoas já não admitem como corriqueira essa covardia contra as mulheres?! Certamente, o quadro ainda é preocupante e há muito a ser feito. Mas, parece que já temos um começo. Tímido, parcial, lento, mas um começo. Nossos princípios civilizatórios não podem se perder. Precisamos reafirmá-los sempre.