Pobre de direita

Tem uma expressão que circula com bastante frequência no Twitter, que é um misto de ironia e perplexidade por representar uma contradição em si mesma. Essa expressão é “pobre de direita”. Ela pretende designar aquela pessoa que, não sendo rica nem privilegiada, defende com unhas e dentes os valores e os princípios dos endinheirados e privilegiados. Ao tomar para si a defesa desses interesses, por suposto, o pobre de direita assume uma postura de reprovação a toda e qualquer iniciativa que vise ampliar os direitos sociais por meio de políticas públicas afirmativas. Como os projetos políticos da esquerda se identificam com tais ações sociais, cabe justamente à direita configurar o campo de oposição a elas e exercer o combate efetivo à implantação ou à continuação de suas trajetórias. Daí, o fenômeno do pobre de direita.

Em geral, o pobre de direita odeia o sistema de cotas — que oferece oportunidades àqueles que sempre foram sistematicamente excluídos dos benefícios sociais (como negros, índios e deficientes, por exemplo). O pobre de direita também odeia o programa Bolsa Família — que oferece uma renda mínima às famílias mais pobres, para que não passem fome. O pobre de direita rejeita toda e qualquer iniciativa que destine recursos ou benefícios às camadas mais pobres da população, sejam eles referentes à moradia, assistência médica e hospitalar, ensino e qualificação profissional, e tantas outras. O pobre de direita é um defensor intransigente da meritocracia alardeada pelos ricos e privilegiados. Segundo os critérios do mérito, “cada um recebe aquilo que fez por merecer”. Por um lado, se você alcança o sucesso na vida pessoal e profissional, é porque é merecedor: se esforçou, se dedicou, batalhou muito para chegar lá. Por outro, se você fracassa parcial ou integralmente na vida pessoal e profissional, é porque não é merecedor, não se esforçou, não se dedicou, não batalhou muito para chegar lá. O sucesso ou o fracasso dependem apenas de você! Simples assim.

Na base da meritocracia, reside o mais profundo menosprezo pela desigualdade social escandalosa que sempre caracterizou o Brasil. Não importam as condições díspares e desconformes das quais temos de partir em direção ao futuro. A meritocracia como princípio organizador da vida social é um verdadeiro tapa na cara da justiça social. Prega o desnível, a assimetria, a dissemelhança como virtude. Já falei sobre isso no post anterior. O mais extraordinário em tudo isso é a emergência da figura do pobre de direita. Desse cidadão ou dessa cidadã que, sendo o objeto preferencial das políticas públicas destinadas a vencer as desigualdades sociais, as rejeita e despreza sem peias.

Joãozinho Trinta, um carnavalesco que ficou muito famoso pelo luxo exuberante que adicionava às fantasias e alegorias das escolas de samba que preparava para o grande desfile do Carnaval, cunhou uma frase lapidar ao responder às interrogações que lhe faziam sobre o porquê de tamanha ostentação: “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. E então exagerava ao máximo na exuberância das suas escolas de samba, pelas quais se sagrou campeão do carnaval do Rio de Janeiro por tantas vezes. De 1974 a 1978, pelo Salgueiro e pela Beija-Flor, Joãozinho Trinta arrebatou o primeiro lugar em todos os desfiles. Depois disso, ainda teve a consagração de ser campeão em outras edições do Carnaval (1980, 1983, 1990), com outras escolas de samba. Fez história como artista e como intérprete da cultura popular.

Numa época como a que estamos vivendo hoje, no Brasil, em que se espalha velozmente um ódio incontido a tudo que diz respeito ao Partido dos Trabalhadores e às suas políticas de inclusão social, não espanta o crescimento enorme desse contingente de pobres de direita. Sem dúvida, soa contraditório que justamente as pessoas que deveriam constituir-se como objeto dessas políticas se coloquem contra elas. É estranho mesmo. Mas não é absurdo. Quem gostaria de ficar na mira desse ódio? Quem gostaria de se sentir tão envergonhado ao receber uma assistência governamental considerada por muitos como “coisa de vagabundo, de preguiçoso” que não quer trabalhar? Quem gostaria de se ver tão humilhado a ponto de precisar de um apoio oficial para conseguir uma vaga de emprego ou de estudo? Pobre gosta de luxo, doutor.

Para o efetivo aumento desse contingente de pobres identificados com a ideologia dos poderosos, a classe média tem dado uma contribuição inigualável. Para qualquer um, chegar à classe média significa escapar da pobreza e realizar o sonho da ascensão social. Mas isso é o máximo permitido aos indivíduos no capitalismo. O seu patamar de prosperidade e de bem-estar na classe média é ainda muito distante daquele desfrutado pelos ricos. Muito distante mesmo. Por essa razão, o risco de descenso e, portanto, de empobrecimento, é o verdadeiro grande pavor da classe média. E é isso o que afasta os seus membros de uma percepção mais objetiva dos limites da sua própria condição social e os impede de enxergar com clareza as pressões e exigências — de consumo, de produção, tributárias etc. — às quais estão sistematicamente submetidos.

Diante de qualquer sintoma de mudança, o modo de vida da classe média reage em conjunto com uma fúria desmedida. E passa a fazer carga pesada contra toda e qualquer iniciativa de promoção social que eleve a condição dos mais pobres. Uma grande ameaça é percebida quando começam a se mover as engrenagens sociais, no sentido de uma participação mais ampla de novos contingentes populacionais nos benefícios oferecidos pela sociedade. O risco de perda dos privilégios conquistados enfurece uma grande parte da classe média e a converte num poderoso e intimidador vetor de ódio e de ressentimento, que perpassa todo o conjunto das relações sociais. E ela se dispõe a defender de modo intransigente e radical as regalias dos ricos, como se fossem suas, numa tentativa quase desesperada de salvar o seu quinhão. É com essa visão de mundo que o pobre de direita se identifica. Pois é a ascensão à classe média o que ele almeja mais imediatamente.

Aquele 1% mais rico, que consegue se apropriar cada vez mais facilmente da maior parcela da riqueza nacional, sem fazer muita força, observa com sarcasmo “os de baixo” fazerem o trabalho para ele. Enquanto pobres e remediados se digladiam por uma fatia minúscula do bem-estar social que lhes é permitida, os ricaços se refestelam em seus banquetes infindáveis de luxo e esplendor. Estão de tal forma seguros, que nada nem ninguém consegue atingir a alegria, a exaltação e o conforto supremo que uma prosperidade extraordinária e inabalável pode sempre lhes proporcionar.

Referência:

István Mészáros. O poder da ideologia. Tradução: Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004.