Religião e contrarrevolução

“O Metodismo impediu a revolução, ou o desenvolvimento de um movimento revolucionário na Inglaterra? A pergunta há muito interessa aos historiadores. O período de 1789-1848 é cheio de revoluções em todas as partes da Europa Ocidental, mas não na Inglaterra, e ele parece também ser o período em que o Metodismo cresceu mais rapidamente neste país. Que o Metodismo tenha mantido a Inglaterra imune à revolução é, na verdade, uma crença generalizada. A History of the English People do falecido Elie Halévy sustenta fortemente esta opinião. Pode, portanto, ser útil elucidar as relações entre o Metodismo e a ameaça de revolução neste período.” (p.32)

Muitos têm se perguntado por que a população brasileira em geral se mostra tão apática diante dos desmandos praticados pelo governo de Michel Temer, que resultou do golpe parlamentar de 2016, que destituiu Dilma Rousseff. Não apenas pela gravidade do golpe em si, que tirou do cargo uma presidenta legitimamente eleita, sem que ela tivesse cometido qualquer crime de responsabilidade devidamente comprovado. Mas também pelas inúmeras medidas que vêm sendo adotadas pelo governo e pelas leis que vêm sendo aprovadas no Congresso Nacional, cujo teor fundamental é justamente a retirada de direitos dos cidadãos brasileiros. E mais: como explicar ainda tamanha insensibilidade das pessoas diante da sucessão de denúncias de corrupção que são apresentadas contra o presidente golpista, acusado de diversos crimes e flagrado em conversas estranhas com um empresário para lá de suspeito?

Essa apatia, que também pode ser chamada de indiferença, desinteresse, omissão, desleixo, desperta a curiosidade de qualquer observador mais atento. E estimula a busca de explicações possíveis. Neste sentido, parece oportuno voltar a esse texto em que Eric Hobsbawm explora as relações prováveis entre o crescimento de determinadas seitas pentecostais na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX e a ausência de movimentos revolucionários, no mesmo período. Embora existisse uma razoável tradição historiográfica que defendia uma correlação direta entre esses dois fenômenos — estabelecendo um peso mais considerável sobre o Metodismo Wesleyano (do fundador John Wesley), uma das vertentes mais profundamente contrárias à ideia de revolução — Hobsbawm afirmou que a relação é complexa e difícil de determinar.

“Não houve assim nenhuma revolução e o Metodismo Wesleyano era hostil a ela; mas daí não segue que o segundo fato foi a causa do primeiro.” (p.33)

A liderança oficial da seita metodista era terminantemente contrária a qualquer agitação radical, quanto mais revolucionária. A pregação conservadora, no entanto, dificilmente teria sido suficiente, sozinha, para afastar todos os seus seguidores das lutas sociais. É pouco provável que todos os adeptos tenham se mantido alheios aos movimentos sociais, sobretudo, àqueles que envolveram a luta por direitos trabalhistas e eclodiram nos momentos de maior turbulência entre os trabalhadores. Pode-se supor que as condições materiais adversas e os sofrimentos impostos pela rotina fabril tenham feito a sua parte. Não há dúvida de que muitas seitas tendem a pregar a resignação e a estrita obediência àquilo que chamam os “desígnios de Deus”. Mas, não operam isoladamente nos contextos sociais e dependem da interação com diversos outros fatores.

“… é pouco provável que o Wesleyanismo pudesse ter impedido uma revolução se outras condições a houvessem favorecido na primeira metade do século dezenove.” (p.41)

Citando Lênin, Hobsbawm argumenta que uma deterioração das condições de vida das massas e um aumento da sua atividade política não são suficientes para causar uma revolução. Uma conjuntura favorável a isso pressupõe o surgimento de uma crise severa no seio do poder dominante e, ao mesmo tempo, uma liderança revolucionária capaz de conduzir o movimento. Sem isso, dificilmente ocorre uma mobilização social vigorosa, que produza mudanças significativas e desejadas.

Ora, segundo afirma Hobsbawm, “a classe dominante inglesa nunca perdeu o controle da situação política” (p.33). E esse era o principal ponto de contato de um texto que trata da primeira metade do século XIX, na Inglaterra, com a realidade do Brasil, em pleno ano de 2017, em minha opinião. O controle efetivo do poder político pela classe dominante, corolário do seu completo domínio sobre o poder econômico, é de tal porte e de tal amplitude temporal que beira a ordem natural do mundo. E isso se demonstra, inclusive, nos contextos em que, aparentemente, ela se retira de cena. Já escrevi sobre isso aqui neste espaço, num texto chamado “A ordem das coisas” (28 de setembro de 2016). A classe dominante brasileira também jamais saiu do comando:

“Aquela fotografia do presidente golpista sendo empossado com os seus ministros — todos velhos, brancos e ricos — foi emblemática dessa estrutura de poder que domina o Brasil há séculos. São eles que mandam. Assim como sempre mandaram. E de tal forma que a sua presença nas esferas de mando pode ser percebida como algo ‘natural’ — no sentido da natureza mesmo. Coisas que se repetem de modo infindável acabam adquirindo essa feição costumeira, imutável, perene, e se confundem com a própria origem de tudo. Aquilo que sempre foi e sempre será. E todos aceitam, e se submetem.”

Isso não quer dizer que as mudanças sejam impossíveis. Quer dizer apenas que teremos um pouquinho mais de trabalho para compreender as condições que poderão torná-las possíveis. A contrarrevolução não está numa apatia supostamente determinada pela religião ou por qualquer outro tipo de crença, isoladamente. Ela se configura num conjunto complexo de forças que atuam em consonância, para legitimar estruturas de poder que se perpetuam graças à aceitação da grande maioria. O silêncio e a distância dos brasileiros em relação aos desmandos do golpe atual expressam, em parte, essa noção amplamente disseminada de que estamos vivendo sob a ordem das coisas.

“Os velhos brancos e ricos, que sempre exerceram esse poder sobre os brasileiros, estão de volta. Eles se movem com a mais absoluta naturalidade, certos de que o seu lugar no mundo está previamente determinado pela ‘ordem das coisas’. Eles se julgam os únicos merecedores do direito de mandar, os verdadeiramente capazes de governar as cidades, os estados, o País, os exclusivos detentores da riqueza, do conhecimento e do poder, os legítimos autores dos projetos que definem os rumos do conjunto. Mas, para que exerçam de fato todo esse domínio, é fundamental que tenham a contrapartida de uma aceitação arraigada, obstinada, incontestável daqueles que os legitimam.”

Referência:

Eric Hobsbawm. Os Trabalhadores. Estudos sobre a história do operariado. (Cap. 3 “O Metodismo e a ameaça de revolução na Inglaterra”) Tradução: Marina Leão T. V. de Medeiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.