O jogo político da contravenção

“(…) Assim o jogo do bicho, a ‘fezinha’ da população mais pobre atraída pela tentativa de se obter uma riqueza rápida e fácil que a dura realidade não lhe permitia encontrar, foi deitando raízes nos hábitos populares e justificando a construção de uma verdadeira rede de contatos, um histórico, uma relação de lideranças e traços de fidelidades entre diferentes grupos e pessoas.” (Evangelista, p.31)

O jogo do bicho, como é de domínio público, foi uma das invenções mais populares do Rio de Janeiro. Criado pelo Barão de Drummond, em 1892, para financiar o jardim zoológico que este mantinha no bairro de Vila Isabel, o famoso jogo de apostas acabou ganhando vida própria e resistiu às inúmeras mudanças sociais ocorridas na história da cidade e às diversas investidas das forças de segurança para mantê-lo sob rígido controle e até para eliminá-lo. Combinando uma lista de 25 animais bastante conhecidos (águia, borboleta, cachorro, galo, macaco, porco, veado e outros) com pares de números de 00 a 99, o jogo caiu no gosto popular com enorme rapidez e se difundiu para além das fronteiras do próprio RJ, dando ainda origem a um grupo de “banqueiros”, como são chamados os operadores do negócio, que marcariam época na vida da cidade.

Não cabe aqui uma análise detalhada do jogo do bicho e de suas implicações na história do Rio de Janeiro. Há vários estudos competentes sobre isso, como esse que está referido abaixo. O objetivo que se apresenta é mostrar um momento da ação política desse grupo de contraventores dedicados basicamente à exploração da rentável tarefa de coordenar as apostas na tabela dos bichos e suas dezenas combinadas. O mês era junho de 1985, e o Jornal do Brasil estampava em primeira página a seguinte manchete: “Jogo do bicho paga campanha de candidatos” e, na matéria completa, anunciava que “O jogo do bicho financiará candidatos que o tolerarem”. Assinada por Luiz Eduardo Rezende, a reportagem deu amplo espaço ao porta-voz da contravenção.

A previsão de gastos dos bicheiros com as campanhas dos candidatos à Prefeitura do Rio de Janeiro alcançaria a cifra das centenas de milhões, e teria como sua principal meta que os políticos assumissem publicamente o compromisso de tolerar a contravenção e de lutar pela legalização do jogo, a mais alta aspiração do grupo. Eles acreditavam-se “apolíticos”, de acordo com o seu porta-voz, e se declaravam interessados apenas na “preservação do jogo do bicho no Rio”. Por isso mesmo, não mostravam preferências partidárias e distribuíam os recursos sem ver as siglas, visando apenas e exclusivamente os próprios objetivos.

— O nosso apoio aos candidatos, além de se traduzir em muitos votos, será financeiro. Mas não daremos dinheiro vivo na mão de ninguém. Vamos é pagar cédulas, santinhos, panfletos e cartazes. (Jornal do Brasil, 22 de junho de 1985, p.4)

Em defesa da sua tese apartidária, o porta-voz da contravenção lembrou que apenas dois candidatos não haviam recebido apoio financeiro dos banqueiros do bicho, na eleição para governador do RJ, em 1982: Lysâneas Maciel, do PT, “porque não tinha nenhuma possibilidade de vitória e nós não podemos jogar para perder”; e outro postulante que ousou fazer “exigências consideradas acima do normal” e ameaçou perseguir os contraventores depois de eleito, caso não atendessem ao seu pleito de receber sozinho todas as doações destinadas aos demais candidatos. Tentou o tudo ou nada, e ganhou o apoio dos bicheiros contra a sua candidatura! Perdeu a eleição.

O que mais chama a atenção é o tratamento dado ao assunto na reportagem. Mais isenção impossível! Nenhuma crítica, nenhum espanto. Tudo dentro da mais completa normalidade. O jogo político da contravenção não choca nem escandaliza o distinto público. Falar no financiamento de campanhas políticas pelos banqueiros do bicho soa como algo corriqueiro, abordado assim com certa naturalidade embaraçosa. Isso se devia, talvez, ao fato de que os personagens ligados à banca do bicho estavam se tornando populares, e sua imagem vinha sendo cuidadosamente burilada para agradar parcelas cada vez mais amplas da população:

“(…) ao longo da década de 1980, no entanto, os principais chefes passaram a ser personalidades comuns na mídia. Foi uma época em que eles passaram a promover, de forma mais clara e aberta, escolas de samba, clubes de futebol e atividades assistenciais (creches etc.).” (Evangelista, p.36)

Assim sendo, tratava-se de uma época de franca ascensão social dos banqueiros do bicho, oriundos dos subúrbios do Rio de Janeiro, que buscavam, por todos os meios disponíveis, legitimar-se como empresários e benfeitores. A passarela do samba, o famoso Sambódromo, inaugurado um pouco antes, tornara-se a sua vitrine preferencial, e nela as escolas de samba patrocinadas pelos maiores contraventores da região desfilavam toda a sua arte e grandiosidade cenográfica para o mundo ver.

“(…) foi a partir do início da década de 1980 que os bicheiros ascenderam em termos de representatividade social, ou seja, se antes eles tinham poder econômico e respectiva respeitabilidade de sua comunidade local, foi durante os anos oitenta que tiveram uma notória ascensão diante da opinião pública carioca/fluminense. Foi a época, por exemplo, que eles tornaram notória a sua ação nas escolas de samba e no campo do futebol; enfim, foi quando eles alcançaram as principais colunas sociais dos jornais do Estado. Os nomes dos principais bicheiros foram conhecidos por boa parte da população fluminense.” (Evangelista, p.32)

Esse período extraordinário de luxo e riqueza em nada parecia prenunciar os revezes que se aproximariam dos contraventores do jogo do bicho, anos depois, jogando muitos deles na cadeia e provocando uma séria desorganização em seus negócios e fortunas. Para eles, esse foi um tempo de glórias e colheitas, que dificilmente voltaria a se repetir. Um tempo em que um grande jornal da capital mencionaria seus lances políticos escancarados, sem nenhum assombro. E em que podiam desfilar nos cenários mais glamorosos sem serem incomodados sequer por caras feias ou ofensas verbais.

* * *

Enquanto isso, um censo de saúde realizado em Brasília, entre 5 mil funcionários federais, constatou que muitos deles sofriam de doenças graves, como a sífilis e a doença de Chagas, ao passo que outros apresentavam sintomas que o médico consultor da Fundação Centro de Formação do Servido Público atribuiu à desnutrição. Apenas 1% dos funcionários recenseados pela pesquisa foi considerado sadio.

O perfil dos funcionários traçado pelo censo indicava que eles faziam parte de uma massa semialfabetizada de aproximadamente 700 mil brasileiros, com idade média de 49 anos e cerca de 3 dependentes. A maioria ganhava de um e meio a dois salários mínimos, não tinha a assistência médica de que necessitava e vivia sem perspectivas.

Entre os funcionários recenseados do Ministério das Relações Exteriores, do Tribunal de Contas da União, do DASP e da Superintendência da Borracha, cerca de 96% apresentaram problemas dentários e de acuidade visual, sensitiva e auditiva. 60% dos servidores entrevistados queixaram-se de dor de cabeça e de estômago, provavelmente, em decorrência da desnutrição. (Jornal do Brasil, 20 de janeiro de 1985, p.1 e 12)

Eram trabalhadores que não ganhavam o suficiente para sobreviver dignamente. Sua carência de meios se refletia na péssima condição de saúde apresentada e indicava uma sobrevida bem curta, na maioria dos casos. Era o Brasil dos anos 1980.

Referência:

Evangelista, Helio de Araujo. Rio de Janeiro: Violência, Jogo do Bicho e Narcotráfico segundo uma interpretação. Rio de Janeiro: Revan, 2003.

Contrabando nas repartições públicas

Quinhentos e vinte e duas garrafas de uísque escocês, aparelhos de videocassete e vídeo-tape, secretárias eletrônicas, toca-discos, rádios para carro e dezenas de fitas de videocassete, entre elas vinte e dois filmes eróticos, foram tirados do rol de mercadorias contrabandeadas apreendidas e entregues pela Receita Federal à Escola Superior de Guerra (ESG), entre abril e novembro de 1984.

Essa listagem constava de um processo em andamento na 1ª Auditoria de Marinha, que se iniciara como uma investigação destinada a apurar o sumiço de material depositado no almoxarifado da instituição. Um caso típico de atirar no que viu e acertar no que não viu. As suspeitas iniciais acabariam levando à revelação de um esquema com desvios de grandes proporções. Embora houvesse previsão legal para a solicitação de objetos e produtos necessários ou pertinentes às atividades da instituição, descobriu-se na apuração a existência de farto material totalmente alheio às atribuições da escola.

A legislação então em vigor previa que “mercadorias introduzidas clandestinamente” no País, e apreendidas, deveriam ser leiloadas a bem do erário (Lei nº 2.653 de 24 de novembro de 1955). Um decreto posterior determinou que aquelas mercadorias apreendidas que não pudessem ser leiloadas, caso estivessem danificadas, por exemplo, deveriam ser doadas a entidades beneficentes ou assistenciais (Decreto-lei nº 37 de 18 de novembro de 1966). Outro decreto subsequente autorizou, por fim, a incorporação de mercadorias apreendidas ao “patrimônio de órgão da administração pública” (Decreto-lei nº1.455 de 07 de abril de 1976). E foi assim que se sucederam os escândalos, ou os deslizes, se melhor aprouver.

Não é porque se origina de um decreto que a determinação é útil ou justa. Muitas vezes, dá-se exatamente o contrário. O fato de estar objetivamente autorizado não garante lisura a determinado procedimento, há questões éticas envolvidas que merecem atenção. Os equipamentos eletrônicos, por exemplo, foram solicitados pela ESG à Receita Federal para prover as necessidades do auditório da instituição, como consta de suas alegações — tudo dentro dos marcos legais estabelecidos, nos quais as superintendências regionais da Receita Federal tinham total poder de decisão sobre o destino das mercadorias. Mas, observando-se a listagem, causam estranheza certos itens como rádios para carro, toca-discos e secretárias eletrônicas. Os riscos existentes nesse modelo de incorporação de bens ao patrimônio das repartições públicas eram bastante evidentes. E os problemas, como se pode perceber, não tardaram a acontecer.

Quinhentos e vinte e duas garrafas de uísque escocês, de abril a novembro de 1984, representam uma média de 65 garrafas por mês. É um assombro, sem dúvida. No caso das “bebidas finas”, a justificativa era a de que elas serviriam para os eventos de representação — festas, coquetéis, recepções. Não custa perguntar quantas festividades tiveram lugar no âmbito da ESG, para justificar tal montante tão significativo. Embora nunca se tenha feito uma fiscalização rigorosa desse uso alegado, ficava aí subentendida uma “economia” para os cofres públicos, que se dispensariam da aquisição dessas bebidas para os seus eventos oficiais. Mas, o exagero é indiscutível, e as fraudes se avolumaram. (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1985, p.1 e 4)

No entanto, fitas pornôs?! Qual seria a justificativa para o almoxarifado da ESG solicitá-las à Receita Federal? E para o fiscal encarregado de atender a esse pedido? Os filmes da série Swedish Erotica, entregues à ESG, constavam entre as produções pornográficas mais disputadas nos videoclubes especializados de Rio de Janeiro e São Paulo. De acordo com a reportagem do JB, eles eram produzidos com a “mais alta qualidade técnica” (seja lá o que isso queira dizer) e utilizavam atores e atrizes “cuidadosamente selecionados” (isto é, belos e bem dotados). Embora referenciados à Suécia, eram filmados em estúdios da Califórnia, e não eram propriamente baratos. Não fica difícil imaginar que existissem vasos comunicantes entre as diversas repartições e a Receita Federal para a apropriação (muitas vezes indevida, apesar da legislação permissiva) dos itens apreendidos pela fiscalização aduaneira. (Jornal do Brasil, 22 de agosto de 1985, p.2)

Mas, não parou por aí. Na mesma edição do jornal, o distinto público foi informado da abertura de um Inquérito Policial Militar (IPM) destinado a apurar a existência de uma quadrilha de contrabandistas formada por quarenta militares da FAB (Força Aérea Brasileira) e oito civis, que transportavam ilegalmente equipamentos eletrônicos em aviões da Aeronáutica. Segundo os militares indagados, um funcionário aposentado da Panair (antiga companhia aérea brasileira) seria um dos chefes da organização criminosa, que trazia principalmente de Miami o material contrabandeado. Um dos envolvidos assumiu haver “excesso de credibilidade por parte dos pilotos das aeronaves”, que não exigiriam uma inspeção rigorosa dos demais passageiros que realizavam missões no exterior, não havendo ainda verificação da bagagem dos tripulantes e nem a conferência da carga oficial proveniente do exterior. As soluções óbvias passariam pela revisão dos controles. (Idem, p.5)

Punição a juízes corruptos

Segundo matérias do Jornal do Brasil, publicadas a partir de 25 de abril de 1985, pela primeira vez na história do poder judiciário brasileiro, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decidiu instaurar um procedimento investigativo contra juízes de quatro varas de falências e concordatas desse Estado. A motivação desse inquérito adveio de uma denúncia de existência de fraudes e corrupção nos casos pertinentes às empresas Capemi, Esusa, Coroa-Brastel e Nova América. Os juízes em questão tinham em suas mãos quatro dos maiores processos de fraudes que o Brasil conheceu, cujas cifras atingiram patamares jamais vistos até então.

O advogado de uma dessas massas falidas, que apresentou a denúncia ao Órgão Especial, respondeu ao questionamento da reportagem nos seguintes termos:

“Estou pagando para ver como a justiça vai se comportar. Meu interesse é purificar uma justiça com a qual convivi durante 57 anos, sem qualquer deslize. Posso enfrentar a luta porque, mesmo tendo de ir para casa, sou um velho que sobrevive sem precisar que um genro me sustente. O que há é muita fome de dinheiro. E isso tem de ser denunciado…” (Jornal do Brasil, 25 de abril de 1985, p.13)

O primeiro escândalo estourou ainda em 1982, com o caso Capemi, num processo que chegou a envolver 16 pessoas, inclusive dois generais, e montantes que superaram as dezenas de bilhões. Por fim, o juiz encarregado acabou responsabilizando apenas três diretores menores da empresa. O segundo caso foi um dos mais rumorosos do mercado financeiro do País e atingiu em cheio o grupo Coroa-Brastel, cujo rombo elevou-se a centenas de bilhões em letras de câmbio frias e cheques sem fundos. A quebra da Esusa Engenharia e Construções Ltda. — que chegou a fazer grandes obras em Basra e Bagdá, no Iraque — também causou enorme turbulência no mercado financeiro, com um rombo de bilhões no Brasil e de milhões de dólares no exterior. A falência da Nova América, embora menos ruidosa, causou grande comoção popular em razão da situação de desamparo em que ficaram os seus inúmeros empregados.

Segundo as matérias do JB, um juiz de falências e concordatas tinha então total autonomia sobre qualquer processo em seu juízo, atuando como superintendente da massa falida e podendo decidir a respeito de todos os interesses da mesma. Na prática, o juiz substituía o conselho de administração da empresa, e as irregularidades que podiam ser cometidas eram de vários tipos. Entre essas irregularidades, como argumentou um especialista em direito falimentar consultado pela reportagem, estavam a renúncia graciosa de direitos da massa falida, a aceitação de avaliações inadequadas feitas pelos síndicos para atribuir valor aos bens da empresa, a permissão para que se realizassem leilões em que os bens da mesma eram vendidos abaixo do valor real, a autorização para a continuidade de negócios em que o síndico indicava um gerente e o juiz atuava como superintendente.

No dia seguinte à primeira reportagem sobre os escândalos, o advogado octogenário que fez a denúncia afirmou ter recebido ameaças por telefone e pediu reforço do policiamento no Tribunal de Justiça. Embora não tivesse medo das ameaças, achou por bem evitar problemas na instituição. Sua atuação começara com um pedido dirigido aos desembargadores do Órgão Especial para que destituíssem o síndico nomeado para a massa falida da Esusa, apontando diversas irregularidades por ele cometidas. Em sua petição, alegou que “instalaram-se à sombra desses juízes autênticas máfias, dentro do Foro, que têm como objetivo o enriquecimento ilícito à custa do empobrecimento das massas falidas e das firmas em concordatas, impossibilitando a recuperação das mesmas”. (Jornal do Brasil, 26 de abril de 1985, p.4)

A maior fraude começava com a nomeação de amigos dos juízes encarregados para os principais cargos de administração das massas falidas, colocando em prática alguns procedimentos que dificultariam o reerguimento dos negócios, como, por exemplo, o desfazer-se de ativos valiosos que poderiam ajudar a salvá-los. Prosseguindo em sua denúncia, o velho advogado ainda declarou:

“Então, foi criado um favorecimento para um grupo de pessoas que estão ficando muito ricas. É a degradação do Poder Judiciário, através das Varas de Falências. Amo esta casa e vendo-a degradar-se cada dia mais, resolvi prestar um serviço com minha denúncia. O Poder Judiciário fica me devendo este favor. Quando enviei minha petição ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça, perguntei a advogados de prestígio se queriam assiná-la comigo. Ninguém aceitou.” (Jornal do Brasil, 26 de abril de 1985, p.4)

Ao dizer que nenhum colega aceitou assinar a petição que apresentaria ao Órgão Especial, o advogado mostrou não apenas a covardia que ajuda a fomentar os malfeitos, mas também a cumplicidade de muitos profissionais que preferem fechar os olhos para os desvios, na expectativa de obter alguma vantagem com isso. Nem que seja apenas a de continuar trabalhando nos casos judiciais desejados.

A mulher de um dos juízes, que atuava como sua advogada no caso, acusou os advogados das massas falidas de tentarem protelar as decisões judiciais, para que os tais crimes ali encontrados prescrevessem e para que seus altos honorários continuassem sendo pagos pelos clientes, por tempo indeterminado. Ela afirmou ainda que todas as pessoas nomeadas pelos juízes para atuar nos casos em questão eram reconhecidamente honestas e idôneas. Os juízes acusados, por sua vez, repudiaram todas as denúncias contra a sua honra e se disseram vítimas de interesses escusos.

Um mês depois da aceitação da denúncia, em decisão inédita na história do poder judiciário brasileiro, quatro juízes das Varas de Falências e Concordatas do Rio de Janeiro foram afastados compulsoriamente das suas funções, em resolução tomada em sessão secreta pelos desembargadores do Órgão Especial do Tribunal de Justiça, que acolheu as conclusões de uma investigação realizada durante sete meses por uma comissão de três desembargadores. Os juízes afastados ainda poderiam ser excluídos em definitivo da magistratura, no julgamento final do seu processo, dentro de mais ou menos 30 dias. (Jornal do Brasil, 29 de maio de 1985, p.1 e 13)

Diante dessa resolução, uma última consideração do advogado denunciante merece ser registrada: as nomeações “entre amigos” realizadas pelos juízes ocorriam apenas nos casos de grandes falências, os quais envolviam muito dinheiro em jogo e favoreciam esquemas fraudulentos que enriqueciam síndicos e administradores das massas falidas. Já nos processos de pequenas falências, os magistrados nomeavam para a sindicância apenas os liquidantes judiciais, que são funcionários do próprio tribunal.

A decisão final do Órgão Especial do Tribunal de Justiça foi pela punição dos quatro juízes investigados por irregularidades no exercício de suas funções. Três deles foram colocados em disponibilidade, com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço, e um foi transferido compulsoriamente para uma vara criminal, constando a pena em sua folha funcional, o que impediria promoções futuras. Aos que ficaram em disponibilidade até a aposentadoria caberia solicitar ao tribunal o seu reaproveitamento, após dois anos da condenação, o que poderia ser aceito ou não. Os juízes afirmaram que iriam recorrer, mas a matéria do jornal informou que não caberia mais análise do mérito após a decisão do pleno de desembargadores que proferiu a sentença. (Jornal do Brasil, 13 de agosto de 1985, p.1 e 8)

Sobre o Sínodo da Amazônia

“Fiquei surpreso ao saber que a Igreja Católica em Manaus está sob suspeita de estar preparando uma ofensiva contra o governo no Sínodo que vai acontecer em outubro. Ao que tudo indica, as reuniões preparatórias que aconteceram na nossa cidade foram monitoradas pelos órgãos de informação. A minha primeira reação foi de estranheza, pois nada fizemos de secreto.” Dom Sérgio Eduardo Castriani, Arcebispo de Manaus

Dias atrás, correu a notícia de que o governo brasileiro, através de suas instituições de inteligência, estaria preocupado em “conter os avanços” da Igreja Católica na liderança da oposição a Jair Bolsonaro. O foco principal dessa preocupação é a realização do Sínodo da Amazônia, que reunirá em Roma, sob os auspícios do Papa Francisco, um grande número de bispos católicos de todos os continentes, em outubro deste ano.

Segundo matérias veiculadas pela imprensa, durante os 23 dias do Sínodo, o Vaticano pretende debater a situação da Amazônia e abordar alguns temas sociais sensíveis, como a condição atual dos povos indígenas, a gravidade da degradação ambiental e a vulnerabilidade das populações ribeirinhas da região. De acordo com o exposto na mídia, para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), trata-se de uma “agenda de esquerda” que visa elevar as críticas ao governo atual e ganhar visibilidade internacional. Com o intuito de neutralizar esse risco, os escritórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) dos Estados amazônicos — Roraima, Pará, Amazonas — estariam sendo mobilizados para “acompanhar” as reuniões preparatórias para o Sínodo, em várias paróquias e dioceses.

Ecoaram protestos e queixas contra a espionagem dos bispos católicos pelo governo brasileiro. Era a essa intromissão que Dom Sérgio se referia na epígrafe acima. Diante do exposto, é inevitável qualificá-la como um anacronismo…

Parece que os fantasmas do passado ainda assombram os militares que comandam o governo atual. Nos anos 1960 e 1970, a Teologia da Libertação, com sua “opção preferencial pelos pobres”, ocupou um espaço extraordinário na luta política travada em benefício das pautas progressistas, e ajudou a intensificar o combate à desigualdade social e à degradação ambiental. Naquela época, quando as oposições de esquerda se encontravam esmagadas pela ditadura militar, as vozes da Igreja Católica foram fundamentais para manter ativas as agendas sociais. Hoje, embora a Teologia da Libertação não seja mais uma corrente poderosa dentro do catolicismo, os principais movimentos sociais mundo afora carregam as bandeiras mais importantes levantadas pelos seus teólogos.

Num contexto global como o atual, em que a desigualdade social explode sem controle, em que 1% da população mundial concentra mais de 50% da riqueza existente, em que os desastres ambientais se acumulam assustadoramente, em que o aquecimento global faz cada vez um número maior de vítimas, é de se esperar que novas vozes se levantem contra as injustiças e despertem seguidores. São muitos os fluxos que alimentam essa correnteza, eles não são exclusivamente católicos. Mas, ao mesmo tempo, com seus discursos e com sua postura, o Papa Francisco tem se tornado “suspeito” de trazer de volta esses ideais para o cerne da Igreja Católica. Daí o medo da liderança dos bispos e padres, como demonstra, por exemplo, a reação dos militares brasileiros.

Não é exatamente uma novidade que a Igreja Católica entre na mira dos serviços de inteligência. Ao longo da segunda metade do século XX, a força do clero progressista junto às massas sempre foi reconhecida como um “perigo” pelos governos de direita, e sempre esteve no radar dos seus espiões. Controlar a palavra dos “emissários de Deus” tem sido missão regular dos movimentos conservadores — muitas vezes, por meio de manobras políticas eficazes; outras vezes, por intermédio de atividades e dispositivos nem tão imaculados assim…

Em fevereiro de 1985, a Linha V da CNBB — Divisão de Ecumenismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil — lançou um documento em que denunciava os grupos religiosos de origem estadunidense que teriam sido infiltrados pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos, no território brasileiro. De acordo com a denúncia, esses “grupos evangélicos fundamentalistas e violentamente anticomunistas” pretendiam dificultar e até eliminar a ação da Igreja Católica progressista. Sua entrada no Brasil seria amplamente facilitada pelos órgãos fiscalizadores, ao passo que missionários católicos ou evangélicos comprometidos com as “causas dos marginalizados” enfrentavam inúmeras dificuldades e, muitas vezes, tinham até o visto negado. Autoridades de vários matizes colaboravam com a estratégia exposta.

“Segundo o documento, há indicações de que esse plano não é só de governos nacionais de direita ou militares, mas faz parte também da geopolítica norte-americana. Haveria infiltração da CIA em certos grupos ou estes estariam a serviço da mesma.” (Jornal do Brasil, 15 de fevereiro de 1985, p.1 e 4)

Enquanto os meandros da ação política destinada a enfraquecer ou eliminar os movimentos religiosos progressistas permaneciam resguardados pela censura ou pelo poderio extraordinário dos seus artífices, suspeitas e desconfianças ganhavam terreno entre os adeptos das agendas sociais. Entre as denúncias apresentadas no documento da Linha V da CNBB, acima citado, incluía-se a suspeição de que muito dinheiro vinha sendo destinado ao financiamento das seitas religiosas infiltradas pela CIA no Brasil. Isso era de tal forma escandaloso que exigiu um comunicado incisivo da cúpula episcopal, no sentido de amenizar o seu impacto:

“A CNBB divulgou nota oficial afirmando que o documento é de inteira responsabilidade da Linha V e que não envolve formalmente o órgão episcopal. Diz a nota que o relatório julga carecer de fundamentos qualquer afirmação generalizada sobre somas fabulosas vindas do exterior, especialmente dos Estados Unidos, para tais grupos e movimentos, destacando que se refere apenas a indícios de infiltrações da CIA.” (Idem)

No corpo da matéria do jornal, lê-se ainda que a embaixada estadunidense, é claro, declarou oficialmente que “o governo dos Estados Unidos não tem nenhum interesse em fomentar a criação ou o desenvolvimento de seitas, quaisquer que sejam, na América Latina”. Imagine se admitiria uma atuação desse porte.

Dois dias depois disso, Dom Hélder Câmara, um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação, no Brasil, ganhou destaque no Caderno Especial do Jornal do Brasil, por ocasião do recebimento do seu 14º prêmio internacional — o Testimonio 85. Em sua longa entrevista, ele defendeu o voto para os analfabetos, analisou a pobreza no Nordeste, disse que “a reforma agrária precisaria vir para evitar a violência” e afirmou que “hoje quem manda no mundo são as multinacionais”. (Jornal do Brasil, 17 de fevereiro de 1985, p.1 e Caderno Especial)

A atualidade da sua agenda é impressionante. Talvez por isso mesmo, pela perenidade dos anseios dos homens por justiça social e por direitos humanos, a identificação entre os padres progressistas e os movimentos sociais continue assombrando os grupos que estão no comando do país. A vigilância sobre o Sínodo da Amazônia é mais um capítulo dessa longa história de sonhos e de lutas por um mundo melhor. Por um Brasil melhor.

Referências:

http://www.vermelho.org.br/noticia/318759-1#.XG3ZPplh3ic.twitter

https://www.brasil247.com/pt/247/brasilia/383383/Abin-espiona-bispos-e-cardeais-e-Heleno-tra%C3%A7a-combate-%C3%A0-igreja-cat%C3%B3lica.htm

O triunfo da mediocridade aventureira

“Nas formas da vida coletiva podem assinalar-se dois princípios que se combatem e regulam diversamente as atividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos tipos do aventureiro e do trabalhador.” (p.18)

Têm aparecido com muita frequência nas redes sociais comentários e postagens carregados de desprezo e de desrespeito pelos valores intelectuais estabelecidos e pelo conhecimento científico, em geral. Pretensos iconoclastas prometem colocar abaixo todas as concepções científicas e acadêmicas consolidadas ao longo de séculos de estudos, desautorizando, sem base nenhuma, a não ser as suas próprias convicções, todo o conjunto de enunciados científicos que marcam a história da civilização ocidental. O ápice dessa postura é a difusão da crença de que a Terra é plana. Lideranças políticas e religiosas proclamam o fim das universidades tal qual existem, e exigem que elas se dediquem a formar “profissionais adequados ao mercado de trabalho”, abandonando aquilo que chamam de “viés ideológico” em seus currículos acadêmicos, ementas e disciplinas lecionadas. O alvo principal dos ataques constantes desferidos contra a comunidade intelectual do país são os professores. E os professores de história em maior grau, é claro.

Ao mesmo tempo, tem se ampliado o debate em torno dessa tendência. Jornalistas, escritores, professores de várias áreas têm se dedicado a discutir as origens e os fundamentos dessa propensão ao obscurantismo, desse chamamento ao anti-intelectualismo em geral, desse combate permanente aos valores consagrados por séculos de estudos científicos e filosóficos, que pretenderam explicar o mundo e torná-lo plenamente habitável pela espécie humana. A experiência coletiva da humanidade em busca de condições satisfatórias para a vida sobre a terra — que envolve tanto os aspectos materiais da produção quanto os elementos imateriais da existência do homem — vem sendo progressivamente eliminada pelo voluntarismo grosseiro e incivilizado daqueles que enxergam em todas as expressões de saber uma conotação “esquerdista”, “marxista”, “comunista” a ser banida e excluída para sempre do mundo real.

No intuito de contribuir para o entendimento desse horror disseminado a tudo que diz respeito à cultura e ao conhecimento, lembro aqui um dos capítulos mais extraordinários de Sérgio Buarque de Holanda, em sua obra intitulada Raízes do Brasil. “Trabalho e aventura”, o capítulo 2, resume alguns dos aspectos mais marcantes da formação histórica brasileira, que podem ajudar na compreensão desse momento trágico em que se busca apagar os grandes ensinamentos de cientistas e filósofos, sem colocar absolutamente nada em seu lugar, a não ser uma pregação vazia e tosca de um suposto combate ao “comunismo” ou ao “marxismo cultural”, encarnados aleatoriamente na ciência, na filosofia e na cultura do mundo.

Parece relativamente claro que um movimento ideológico com essa envergadura não brota do chão por meio de geração espontânea. Para frutificar, ele precisa se ancorar em alguma ou em algumas facetas socioculturais arraigadas nas sociedades das quais retira a identificação e a simpatia dos grupos que assumirão afinidades diretas com ele. Os dois tipos que Sérgio Buarque de Holanda escolheu, nesse capítulo, para situar e ordenar o conhecimento dos homens e das formações sociais, conforme dito antes, foram o “trabalhador” e o “aventureiro” — e foi com eles que tentou compreender a grande obra de conquista e colonização dos novos mundos, dentro da qual surgiria o Brasil. São esses dois tipos, talvez, que poderão nos ensinar como se encaixa esse projeto de destruição do saber nos rumos atuais da sociedade brasileira.

Basicamente, o “trabalhador” e o “aventureiro” se distinguem por duas éticas totalmente distintas: ao primeiro, compraz o esforço alargado e contínuo, que se destina a conquistas sólidas que demandam tempo; ao segundo, só interessam as recompensas imediatas, as energias gastas apenas para um gozo subsequente. Olhando para o cenário atual, é inevitável fazer-se a pergunta: estaríamos nos voltando para uma conduta predominantemente apoiada na aventura, em detrimento do trabalho?

“Essa ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos, de posições e riquezas fáceis, tão notoriamente característica da gente de nossa terra, não é bem uma das manifestações mais cruas do espírito de aventura? Ainda hoje convivemos diariamente com a prole daquele militar (…) que não se envergonhava de solicitar colocação na música do palácio, do amanuense que não receava pedir um cargo de governador, do simples aplicador de ventosas que aspirava às funções de cirurgião-mor do reino…” (p.21-22)

Impossível não pensar nos dias atuais, em que ministros, políticos, militares mentem sobre suas qualificações, inventando currículos, títulos e diplomas que nunca tiveram. E em que figuras totalmente despreparadas assumam cargos e encargos relevantes na República, nomeados apenas e exclusivamente pelas relações pessoais que mantêm com os eleitos. Para o triunfo desses “aventureiros” medíocres, é necessário que o mérito dos “trabalhadores” seja completamente desmerecido e depreciado. Mesmo que seja com mentiras, com falseamentos, com acusações infundadas. Custe o que custar. Não é a competência que determina o exercício da atividade, é a boa relação com quem possa nomeá-lo. A imposição dessas condições na máquina pública se beneficia de uma desconstrução prévia de tudo que seja tributário da ciência, do conhecimento, do respeito ao saber e aos sábios. A aventura suplanta o trabalho.

“Em sociedade de origens tão personalistas como a nossa, é compreensível que os simples vínculos de pessoa a pessoa, independentes e até exclusivos de qualquer tendência para a cooperação autêntica entre os indivíduos, tenham sido quase sempre os mais decisivos. As agregações e relações pessoais, embora por vezes precárias e, de outro lado, as lutas entre facções, entre famílias, entre regionalismos, faziam dela um todo incoerente e amorfo. O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras.” (p.42)

Explica a formação histórica do Brasil. Mas vale ainda para os dias de hoje. A construção de um arcabouço político no país se fez tributária dessas características fundamentais. Sem eliminar seus fundamentos, periodicamente, elas teimam em voltar!

Referência:

Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. 4ª edição revista pelo autor. Prefácio de Antonio Candido. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1963.

Recordar é viver

O Brasil vive hoje um novo quadro de transição política, em que o presidente eleito já dá os seus primeiros passos na composição do futuro governo e no lançamento das diretrizes principais que irão nortear a sua presidência. Como sempre acontece nessas ocasiões, há muita expectativa e sobram especulações na imprensa e nas redes sociais. A cada gesto ou palavra emitidos, vem uma enxurrada de críticas ou de elogios, à espera de que se cumpram os vaticínios mais ambiciosos. Vai dar certo! Não vai dar certo!

Lá atrás, quando a sociedade brasileira se viu diante do enorme desafio de suplantar os anos da ditadura militar e de rumar em direção a uma nova fase de democracia plena, com eleições diretas e livres e uma “constituição cidadã” a balizar as suas escolhas, o processo se iniciou de fato com a eleição de um novo presidente, desta vez civil, por um Colégio Eleitoral composto por representantes do Congresso Nacional. Não foram os eleitores habilitados a escolher, mas, sim, os seus representantes.

A imprensa noticiava um “país em festa” com a chegada do grande dia — 15 de janeiro de 1985 — quando, finalmente, seria conhecido o nome do primeiro presidente civil após duas décadas de governos militares. Embora todos já soubessem antecipadamente que o candidato da oposição, Tancredo Neves, possuía considerável vantagem em relação ao seu adversário, Paulo Maluf, do partido do governo, e estava praticamente eleito, ninguém ousava admitir em público essa verdade.

Uma das razões para essa cautela talvez possa estar nas divagações de um dos mais renomados colunistas políticos da época, que pontificava no Jornal do Brasil. No dia mesmo da eleição no Colégio Eleitoral, “A Coluna do Castello” ofereceu uma das suas análises mais interessantes sobre os processos de transição política que marcaram a história do Brasil desde a Era Vargas. Com o sugestivo título de “Pela primeira vez não se fala em golpe”, teceu assim as suas considerações sobre a sucessão iminente:

“Hoje ainda não é o último dia. É apenas o primeiro dia. Com a eleição, inicia-se a liquidação de um regime de vinte anos e retomamos uma experiência democrática que, de 1946 a 1964, foi insegura, instável e tumultuada.

Pela primeira vez, depois de longo interregno, teremos escolhido um Presidente civil e, talvez por força da longa provação dos militares no poder, este paisano saia das urnas de um Colégio Eleitoral cuidadosamente preparado como termo de transição, sem que pese sobre ele a ameaça de não assumir as funções para as quais estará sendo designado.

No regime que antecedeu o consulado militar, os Presidentes se elegiam e passavam a lutar pela posse. O Marechal Dutra foi o único a não passar por transe semelhante, pois, embora vencendo nas urnas populares, ele chegava lado a lado com o Brigadeiro Eduardo Gomes no dorso de um golpe militar, que punha fim a uma ditadura e gerava uma esperança de uma democracia. Mas a partir da eleição do primeiro civil, já com o país vivendo sob regime constitucional, o período entre a eleição e a posse foi sempre uma provação.

É verdade que todos tomaram posse, mas com a exceção única de Juscelino, os demais foram depostos ou renunciaram. De Getúlio Vargas, dizia Otávio Mangabeira que não seria candidato; se fosse candidato não se elegeria; se se elegesse não tomaria posse; se tomasse posse, não governaria; se governasse, seria deposto. A profecia cumpriu-se na sua etapa final. Porém, ela era a substância do inconformismo udenista que, dirigindo política e espiritualmente o regime, não conseguiu jamais mobilizar o eleitorado para assumir o poder.

(…) Legalista por conveniência e por experiência, Juscelino não admitiu conspirar contra a posse de Jânio Quadros. Na realidade, a conspiração foi tentada. Estranhamente, eram os herdeiros trabalhistas do getulismo que se propunham a uma sortida anti democrática, dramaticamente paralisada pelo presidente mineiro e pessedista.

João Goulart iria sofrer, na sua hora, o drama que tentou impor a Jânio Quadros, que não completaria sete meses de mandato preferindo retirar-se para uma suposta aventura de tentar a volta ao poder “nos braços do povo”. Os ministros militares, que haviam vetado em nota escrita a posse de Juscelino, comunicando ao presidente Café Filho que o então Governador de Minas Gerais não teria acesso à Presidência da República por incompatibilidade com os comandos militares, repetiram a dose com o veto à posse de João Goulart.

Juscelino venceu-os com o golpe preventivo do [General Odylo] Denis. João Goulart voltou ao poder por uma rebelião do Sul, comandada por seu cunhado Leonel Brizola e apoiada pelo III Exército embora, para evitar o confronto armado, tivesse de aceitar as ponderações de Tancredo Neves e submeter-se a um período de carência durante o qual assumiria a Presidência sem assumir o Governo. Em pouco tempo, ele mudou os termos da equação. Assumiu o poder mas, por isso mesmo, perderia a Presidência, deposto pelos militares (…).

Não foi proveitosa para os militares sua longa passagem pelo Governo, tanto que eles mesmos assimilaram as pressões populares e promoveram a lenta, segura e gradual retirada do poder. A eleição de hoje é um ato que oficializa essa transição, suscitada pelo povo, mas realizada como uma retirada em ordem sob comando e sem pânico. É um momento importante na vida brasileira, que faz um trânsito pacífico e retoma sua experiência sem que dessa vez se ouça o rumor dos tacões nos quartéis, nem o sussurro das sereias civis insinuando a Generais que barrem ao eleito o caminho do poder.” (Jornal do Brasil, 15 de janeiro de 1985, p.2)

A tragédia de todo esse processo em curso foi que o presidente eleito pelo Colégio Eleitoral não precisaria “brigar pela sua posse”, como os que o antecederam tiveram que fazer, mas acabaria impedido de assumir o cargo para o qual havia sido escolhido pelo motivo mais triste e insuperável — o de sua própria morte, a poucos dias da posse. Independentemente dessa circunstância, as palavras do jornalista Carlos Castello Branco nessa coluna marcante levam a pensar nas características mais imperativas da história política recente do Brasil. Uma trajetória errática, como ele mesmo afirmou no início, “insegura, instável e tumultuada”, com seus constantes atritos e uma indisposição quase perene das forças políticas conservadoras diante do resultado das urnas.

Castello afirmou em sua coluna que a passagem dos militares pelo poder não tinha sido “proveitosa”. Parte dessa avaliação pode ser atribuída ao quadro socioeconômico geral do país, que não se mostrava dos mais alvissareiros. Um endividamento crescente era acompanhado de inflação persistente e exorbitante, o desemprego era alto e a pobreza se expandia com indisfarçável rapidez. Essas questões preocupantes apareceram no relato de um correspondente do Jornal do Brasil na Europa, que pinçou algumas observações dos principais veículos de imprensa do continente e as divulgou para os seus leitores:

“O otimismo brasileiro com a eleição de Tancredo Neves tomou conta também da imprensa europeia. Apesar de preocupados com a situação econômica, os principais jornais e cadeias de televisão acham que a volta dos generais aos quarteis abre boas perspectivas para o país.

(…) Na França, no domingo, Tancredo apareceu na televisão dizendo em entrevista ao repórter francês que dará prioridade para o social: “A desigualdade aumentou de forma gritante”, afirmou.

Na Inglaterra, a BBC mandou ao ar quatro especiais sobre o Brasil, o último ontem à noite. De novo as perspectiva econômicas eram a preocupação central, com personalidades como Celso Furtado sendo entrevistadas sobre os grandes projetos da era dos militares e suas consequências negativas para o país.

(…) A herança dos militares, acentuou ontem o Les Echos, francês, será, de qualquer maneira, bastante pesada. ‘Mas foi a crise econômica’, comentou o Le Matin, ‘que apressou consideravelmente o processo de liberalização’.” (“Europa aguarda com otimismo”, por William Waack. Jornal do Brasil, 15 de janeiro de 1985, p.7)

Grandes esperanças de redenção social recaíam sobre os ombros do presidente eleito, Tancredo Neves. No frágil equilíbrio de forças que marcava o sistema político brasileiro, como bem o demonstrou em sua coluna o jornalista Carlos Castello Branco, era urgente a consolidação de um pacto social que garantisse condições mínimas para a implantação de políticas voltadas para a redução das desigualdades e o combate à pobreza e à fome. O melhor resumo das expectativas coube ao presidente da CNBB, ao comentar os anseios que sua instituição mantinha quanto à possibilidade de finalmente se conseguir juntar eleições democráticas com democracia econômica:

“O Presidente da CNBB, Dom Ivo Lorscheiter, afirmou ontem que o presidente eleito, Tancredo Neves, ‘tem sensibilidade bastante para promover a justiça social’. Sustentou que a democracia política ‘só é válida se desemboca na democracia econômica’ e anunciou que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ‘pressionará para que o novo Governo assuma esta bandeira’.

(…) Ao expressar sua confiança na sensibilidade do presidente eleito ante a situação dos pobres — ‘que não podem ceder mais e devem ser contemplados com um programa de emergência’ — Dom Ivo disse esperar que os empresários e os ricos ‘entendam que o sacrifício não deve caber mais aos trabalhadores’.” (Jornal do Brasil, 17 de janeiro de 1985, p.2)

Era preciso tirar o peso dos ombros dos trabalhadores pobres e dividi-lo com o restante da sociedade. Um sonho que permanece.

 

Sobre a China

Ao ver os novos ataques desferidos pelos EUA à China, sobretudo, no campo das relações comerciais, é difícil não pensar num passado de agressões e desmandos semelhantes, que caracterizaram os primeiros contatos duradouros entre Ocidente e Oriente, na era moderna. Buscando escapar das restrições e dos controles estipulados pelo governo imperial chinês à presença de estrangeiros em seu território, as potências ocidentais não economizaram meios de dobrar a resistência chinesa e assim estabelecer o controle definitivo sobre o comércio de uma ampla região muito rica e bastante promissora. Entre esses meios, sem disfarces nem dissimulações, existiram subornos, contrabando e tráfico de drogas.

As marcas profundas desse vale-tudo não causaram impressão duradoura e traumática apenas nos chineses. A derrocada definitiva da resistência imperial e a instalação peremptória de representantes do Ocidente, com inúmeras prerrogativas exclusivas e privilégios insultuosos, percorreram todo o Oriente, levando assombro e perplexidade. Foram os japoneses que deram a isso a resposta mais radical e intensa.

A chegada da frota estadunidense na década de 1850 provocou uma reação em cadeia no Japão, culminando  com uma mudança política decisiva para as décadas seguintes — a Restauração Meiji. Substituindo o antigo regime feudal, cujas diretrizes mais importantes eram o aumento do cultivo de arroz e a coleta de impostos, os novos governantes estimularam a construção de ferrovias, siderurgias e navios de guerra. Essa modernização acelerada, imposta de cima para baixo, representou uma tentativa frenética de livrar o país do domínio imperialista do Ocidente. Nada impressionara mais o espírito dessa nova elite política japonesa do que a queda dramática da China diante das potências ocidentais e as sucessivas passagens humilhantes e grosseiras que marcariam a submissão completa do grande império chinês, com sua cultura milenar e suas tradições resplandecentes.

“Bem ao lado estava a majestosa China imperial — fonte de grande parte da arte, da religião, da escrita e da cultura do Japão. Não obstante, uma das primeiras coisas que as autoridades Meiji descobriram foi que as nações ocidentais avançavam sobre a China como um bando de lobos famintos, cada uma tentando arrancar o máximo que conseguisse. Essas potências, o mesmo tipo de gente que havia enviado seus navios de guerra ao Japão, e que podiam simplesmente destrinchar a China como um peru de Natal, derrotariam da noite para o dia as ilhas japonesas defendidas por bravos jovens e suas espadas.

Foi isso que o novo governo japonês procurou evitar a todo custo. Assim, numa demonstração de adaptabilidade que lhes seria muito útil no século seguinte, as autoridades japonesas decidiram seguir o exemplo das sociedades que temiam. E fariam aquilo que a China tinha deixado de fazer: construir um exército e uma força naval no estilo ocidental, equipá-los com armas ocidentais e garantir-lhes o apoio de uma base industrial nos moldes do Ocidente. Para o governo Meiji, essa foi a Prioridade Número Um.” (Miyashita & Russell, p.21)

Na base de todo esse desenrolar dramático das relações internacionais, no século XIX, estava o comércio, com seus lucros extraordinários e grandes fronteiras a explorar. Nos dias de hoje também: quem ganha mais com transações comerciais vantajosas e crescentes atrai o interesse de novos parceiros, e igualmente a ira de potenciais perdedores. Em meados do século XIX, sobretudo, após vencer a França e isolar a Rússia, quem pontificava como grande potência hegemônica era a Inglaterra, com uma frota mercante inigualável e uma rede mundial de atividades mercantis sem rivais. A “rainha dos mares”, como se tornara conhecida, advogava ainda um princípio que seria determinante na abertura de novos mercados: o liberalismo econômico. O fim do Antigo Regime, com todas as suas restrições e seus monopólios, exclusivismos e privilégios, abrira caminho para uma aceitação cada vez maior do credo liberal. Por bem ou por mal. Resistir a ele acabara se tornando um grande problema.

“Cabe dizer também que a doutrina do liberalismo econômico fazia grandes progressos na época e acabou mesmo por ser de direito divino: era antinatural, logo imoral, para os governos, fechar seu país à livre circulação comercial.” (Panikkar, p.125)

No caso da China, especificamente, a balança comercial mostrava-se sempre deficitária para o Ocidente. Havia pouco (ou nenhum) interesse dos chineses nos produtos ocidentais em oferta, e isso pode ser explicado em termos culturais também. Uma civilização milenar, autocentrada, com pequena abertura para o exterior, capaz de atender às suas necessidades principais por meios próprios, e majoritariamente agrícola.

“O comércio com a China fora durante muito tempo de sentido único. Os europeus praticamente nada tinham para vender em troca das imensas quantidades de seda, de chá e de ruibarbo que compravam. O grande problema sempre consistira em encontrar algo que pudesse responder às necessidades chinesas e evitar as exportações de ouro que até então haviam servido para equilibrar a balança comercial.”(Panikkar, p.125)

“Como oferecer mercadorias que fossem aceitáveis para os chineses e que pagassem pelos chás, e talvez ainda pudessem dar algum lucro — era esse o problema.” (Greenberg, p.9)

Os ingleses buscaram desesperadamente uma solução para reverter esse quadro de déficit comercial permanente. E acabaram encontrando — o ópio. Embora o comércio dessa droga estivesse proibido, desde 1800, com restrições e punições cada vez mais severas, a Companhia das Índias Orientais (inglesa) intensificou essa atividade por meio de um sistema de contrabando (e de suborno de autoridades de fronteira), que se mostrou bastante eficaz.

As reações contrárias do governo chinês e suas sucessivas medidas de combate ao tráfico ilegal nas fronteiras levaram ao recrudescimento das tensões com os comerciantes estrangeiros, afetando, principalmente, as atividades controladas pelos ingleses. Em pouco tempo, os embates se transformaram em conflito militar aberto, resultando em duas “guerras do ópio”: a primeira, em 1839-1842; a segunda, em 1856-1860. Sob pretextos fúteis — como uma briga de rua causada por arruaceiros britânicos embriagados, por exemplo — os ingleses exploraram sua imensa superioridade naval para derrotar os chineses e impor a eles a aceitação de tratados altamente desvantajosos e humilhantes.

Pelo Tratado de Nanquim (29 de agosto de 1842), e mais adiante pelos Tratados de Tientsin, os comerciantes ocidentais passaram a ter acesso ao extraordinário interior do território chinês, que viriam a explorar pela navegação do rio Yangtse, uma das vias de comunicação e transporte mais importantes do Oriente. Também ao longo da costa, puderam estabelecer novos entrepostos e assim comercializar com amplas regiões inexploradas do país. As potencialidades incomparáveis do mercado que a China representava ajudaram a intensificar os esforços de dominação das potências do Ocidente. Para os chineses, inaugurava-se uma era de instabilidade e conflito, que perduraria por muitas décadas.

“O Tratado de Nanquim fixa por 100 anos as condições que regerão as relações entre a China e as nações europeias. Punha um termo forçado ao isolacionismo da China, obrigava-a a comerciar com os países ocidentais e ensinava-lhe, além disso, que, longe de ser superior a todas as outras nações do mundo, talvez fosse a última.” (Panikkar, p.134)

“(…) Não é de espantar, portanto, que os chineses fossem tomados de um ódio feroz pelo estrangeiro e que a autoridade governamental se enfraquecesse continuamente, sob a ameaça dos canhões ingleses, obrigada que era a dobrar-se às pretensões mais desarrazoadas, quase sempre desprezando o sentimento popular.” (Idem, p.137)

A revolta e o ressentimento que se abrigavam nos corações chineses não se deviam apenas aos termos injustos e grosseiros dos tratados impostos ao fim dos conflitos armados. Todas as vantagens comerciais e financeiras arrancadas aos governantes da China, todos os privilégios concedidos aos cidadãos ocidentais em território chinês, todas as excepcionalidades desfrutadas pelos estrangeiros, talvez, parecessem insignificantes diante da destruição perversa e leviana de monumentos e obras de arte cultivadas pelos chineses como verdadeiros tesouros.  Uma das facetas trágicas desse comportamento inaceitável foi a devastação do Palácio de Verão:

“(…) Aí, a soldadesca aliada retomou a tradição de vandalismo que já se manifestara no Pagode de Porcelana, em Nanquim: o palácio que, segundo as palavras do comandantes francês Montauben, ‘era de uma riqueza e de uma beleza sem igual na Europa’, foi submetido sistematicamente à pilhagem pelos oficiais.

Mas o insaciável Lorde Elgin, após ter entrado em Pequim, ordenou que se tocasse fogo a todos esses ‘esplendores’ que os próprios conquistadores haviam considerado ‘difíceis de descrever’. Elgin imaginava, candidamente, que o incêndio do Palácio de Verão impressionaria os orientais e deixaria aos chineses um duradouro pavor dos europeus. É de crer que, segundo uma lógica muito particular, os europeus se houvessem convencido de que o seu prestígio cresceria aos olhos dos asiáticos na proporção de sua crueldade e selvageria.” (Panikkar, p.139-140)

Esse barbarismo iníquo jamais produziu qualquer coisa além de ódio e desprezo. A destruição das realizações esplendorosas de um país e de seu povo não pode ser tratada a não ser pelo que é de fato: uma demonstração de incivilidade, de brutalidade, de desumanidade e, acima de tudo, de estupidez. A passagem do tempo pode ajudar a arrefecer os impulsos, mas não provoca, necessariamente, o esquecimento.

“(…) O incêndio do Palácio de Verão ainda hoje não foi esquecido e um alto funcionário do Governo Central da China Popular dizia-me, em 1951, que a conta ainda continuava aberta e que seria acertada, mais dia menos dia.” (Panikkar, p.140)

É o que vamos ver.

 

Referências:

GREENBERG, Michael. British Trade and the Opening of China, 1800-1842.  New York: Monthly Review Press, 1979.

MIYASHITA, Kenichi & RUSSELL, David. Keiretsu: Inside the Hidden Japanese Conglomerates. New York: McGraw-Hill, 1994.

PANNIKAR, K.M. A Dominação Ocidental na Ásia. 3ª ed. Tradução: Nemésio Sales. Prefácio: Otto Maria Carpeaux. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.