Adeus ao 13º!

Temos lido nos noticiários recentes que uma das medidas previstas pelos golpistas é a eliminação da obrigatoriedade do 13º salário, que passaria a ser negociado entre patrões e empregados, de acordo com as condições específicas de cada grupo ou categoria ou unidade empresarial, dentro de uma proposta de flexibilização da legislação trabalhista vigente no Brasil. Atualmente, a gratificação natalina é paga na forma de um salário integral a cada trabalhador portador de plenos direitos e constitui uma obrigação dos empregadores, não negociável, portanto. Segundo a lei em vigor, seu pagamento deve ser feito em duas parcelas no ano, sendo a primeira entre fevereiro e novembro e a segunda no mês de dezembro. Caso a proposta em questão seja aprovada, isso também deverá ser revisto, ou simplesmente eliminado.

A título de recordação, o 13º salário obrigatório foi criado pelo presidente João Goulart, em 13 de julho de 1962, como resultado do projeto de lei apresentado pelo deputado federal Aarão Steinbruch. Até aquela data, a gratificação natalina era uma espécie de presente dos empregadores aos seus empregados, podendo variar ao sabor dos ventos e não correspondendo, necessariamente, a um salário integral. E nem todos recebiam. Era assim um “agrado”, como se dizia antigamente, uma demonstração do mais puro “espírito natalino”, uma forma de agradecer e estimular o desempenho dos funcionários. Ao se tornar obrigatório na letra da lei, o 13º se estendeu a todos os trabalhadores, independentemente das condições particulares de seus ofícios, transformando-se num direito cujo princípio elementar é a isonomia — ou seja, sem nenhuma distinção entre pessoas que se encontram na mesma situação.

Se para os trabalhadores, em geral, o 13º salário foi uma conquista memorável, para os empregadores, no entanto, não foi bem assim. Empresários de todos os setores alegaram que essa obrigação tornaria diversos negócios inviáveis, além de sacrificar as empresas e fomentar a inflação. Durante as discussões da matéria no Congresso, o jornal O Globo se encarregou de vocalizar essa apreensão, chegando a afirmar que o 13º seria “desastroso” para o País. Não foi, entretanto. Como um robusto senhor de meia idade, e tendo completado seus 50 anos recentemente, o salário de Natal se transformou numa das conquistas mais importantes dos trabalhadores brasileiros, sendo responsável inclusive pela movimentação de um grande volume de recursos na economia, perto dos 3% do PIB em anos mais recentes.

Caso seja aprovada a eliminação da sua obrigatoriedade, a perda da isonomia entre os trabalhadores será imediata. Em situações de crise prolongada, as negociações entre patrões e empregados tendem a penalizar os trabalhadores com redução da jornada e dos salários, com supressão de vantagens e bônus, e até com perda do emprego. O embate entre ambos para mitigar os efeitos negativos das recessões e demais tribulações econômicas tende a favorecer os empregadores nas situações de maior penúria. Se fosse um marxista, diria logo de cara: “é a questão social, estúpido”!

Para os trabalhadores brasileiros, será um tempo de mudanças. Sobretudo, de mudanças de hábitos. Quem se acostumou a receber o 13º salário todos os anos, e a programar os seus gastos extras com base nas maiores necessidades do momento ou nas principais expectativas, vai sofrer um choque. Não vai ter mais dinheiro para o pagamento das dívidas em atraso, ou a compra daquele eletrodoméstico tão aguardado, ou a viagem de férias com a família, as roupas novas, os banquetes de final de ano, os presentes para familiares e amigos, ou mesmo aquele pequeno luxo permitido uma vez na vida! Acabou! Adeus ao 13º!

Repensar hábitos e costumes nunca foi uma coisa fácil. No caso, será uma imposição da política econômica, da qual ninguém conseguirá escapar. Melhorar é sempre mais simples do que piorar. Perder poder aquisitivo, então, é dureza. Rever conceitos, concepções, gostos, necessidades é ainda mais complicado. Sem grandes pretensões, deixo aqui uma modesta contribuição ao debate. E uma primeira boa notícia: ficaremos livres das notícias enfadonhas sobre o aumento das vendas de Natal, sobre a alegria ou a tristeza dos comerciantes, sobre os prognósticos e as frustrações dos dirigentes lojistas e administradores de shoppings!

Para os que são religiosos, será um tempo de passar o Natal realmente em comunhão com os ensinamentos do Cristo. Em vez das festas pantagruélicas, as missas e os cultos, a introspecção e o fervor da fé. Nada de comer em excesso e de encher a cara de álcool! Será um tempo de gastos comedidos e de parcimônia. Sem aquela decoração cafona e exagerada de ruas, casas e lojas, sem o apelo contínuo ao supérfluo e ao descartável. Ao mesmo tempo, os mais irritadiços deverão comemorar o fim daquelas “festas da firma” verdadeiramente intragáveis, com os engraçadinhos de praxe e as lembrancinhas de amigo oculto cada vez mais ordinárias! E as listas infindáveis de “livros de ouro”, e as caixinhas colocadas estrategicamente diante dos nossos olhos em todos os cantos, à espera de uma gratificação natalina qualquer. Também deixarão de existir.

Aos amigos e conhecidos que ouço sempre se queixar, resta o consolo de que as famigeradas festas de final de ano em família serão finalmente suprimidas do calendário. Nada de aguentar aquele tio metido a engraçado que faz sempre as mesmas piadas infames todos os anos. Nada de suportar com heroísmo as maldades que os primos mais velhos sempre fazem com os mais tímidos e mais sensíveis, tudo em nome do espírito de Natal e da paz entre os homens de boa vontade. Sem essa! Nada de engolir as farpas e indiretas daquelas tias, primas e cunhadas invejosas que sempre têm uma palavrinha amarga para nos brindar. Chega! Com o término do 13º, chegam ao fim também vários hábitos que cultivamos sem imaginar que podemos nos livrar deles, ainda que a um alto custo de mandar muita gente para “aquele lugar”. O golpismo vai dar uma mãozinha! Ao abolir os ganhos extras do Natal, acabará produzindo uma mudança profunda na nossa sociabilidade convencional.

Junto com o fim dos festejos natalinos tradicionais, virá a necessidade de reorganizar a virada do ano, pois uma coisa anda sempre ligada à outra. Festas suntuosas, geralmente pagas com o 13º, ou com o que sobrou dele, ficarão totalmente fora de questão. Algumas cidades brasileiras contam com belas comemorações pela passagem do ano, há décadas, como o Rio de Janeiro, em sua famosa praia de Copacabana, e São Paulo, em sua elegante Avenida Paulista. Manaus tem a linda praia da Ponta Negra, por exemplo. E muitas outras cidades, grandes e pequenas, Brasil afora. São festas públicas e gratuitas, em que qualquer um pode chegar. Os brasileiros terão de se acostumar cada vez mais aos espaços públicos, ficando as áreas particulares de clubes e mansões restritas aos mais afortunados, que não dependem (nunca dependeram) do 13º salário! Os demais terão que se misturar!

E nada mais de bacalhau da Noruega, castanhas de Portugal, nozes e amêndoas dos países frios da Europa. Vinhos, então, nem pensar! Brindes com champanhe, não vai dar! Um alívio para a balança comercial. O dólar subiu demais. Cardápios e receitas serão adaptados, quem sabe ao bom e velho feijão com arroz! Talvez, um aipim frito e um gole de cachaça. E olhe lá!

Feliz Natal!

 

 

13º salário: gastar ou poupar?

Todo final de ano, no Brasil, os noticiários começam a divulgar o nível “preocupante” de endividamento das pessoas (e, por conseguinte, das famílias). Repórteres variados cercam os incautos pelas ruas e perguntam como eles pretendem gastar o seu 13º salário (gratificação natalina). Grande número desses entrevistados promete quitar as dívidas. É quase uma promessa cívica que os noticiários, sobretudo, os da televisão, parecem aguardar com imensa expectativa. “Já que vai entrar um dinheirinho extra na conta, o mais apropriado é pagar o que deve”, esse é o mantra repetido monotonamente pelo jornalismo brasileiro aos cidadãos. Quase um conselho, ou, em alguns casos, praticamente uma ordem! Sempre falando em nome dos credores!

Talvez, falte abordar as razões desse endividamento recorrente, mas isso seria esperar demais. Por que as pessoas gastam mais do que ganham? Por que compram sem parar? Uma senhora respondeu candidamente a um repórter, outro dia, que o problema era o cartão de crédito: “com ele na mão, a gente vai gastando sem pensar”. Mas, não é só isso. A grande armadilha é que o consumo tem sido tomado como a principal fonte de satisfação das pessoas. Na maior parte dos casos, as tarefas executadas e as funções desempenhadas por aqueles que trabalham nada têm de inerentemente interessante. Em situações extremas, elas podem chegar mesmo a ser humanamente degradantes. Tanto num caso quanto noutro, os trabalhadores se ressentem do tempo (enorme) que dedicam a fazer coisas de que não gostam e que não constituem uma fonte de realização pessoal e/ou profissional. Tudo se resume a ganhar a vida. Daí, o pagamento se torna a única justificativa relevante para todo o sacrifício que envolve o trabalho.

Se o dinheiro é a recompensa que recebem pelo sofrimento que o trabalho lhes causa, em geral, os indivíduos tendem a extrair dessa recompensa o prazer, a satisfação e a realização que não obtiveram de outra forma. O respeito, o reconhecimento e a estima que esperam alcançar em suas relações com os outros são deslocados para a posse de bens materiais — ou seja, quanto mais variados e mais caros esses bens, mais valorizados e realizados esses indivíduos poderão se sentir.

Na medida em que esse deslocamento é apenas um subterfúgio, um artifício cujo resultado é meramente passageiro, os trabalhadores/consumidores nunca se sentem verdadeiramente satisfeitos. Passam de uma coisa a outra, de um modismo a outro, de um modelo a outro, nessa ambiguidade incessante de comprar para satisfazer necessidades que, no entanto, estão deslocadas. Não é à toa que, todos os anos, os noticiários brasileiros se inquietam com o nível de endividamento das pessoas…

“(…) Procurando continuamente alguma forma nova de superar sua fome emocional [o consumidor é] proverbialmente inquieto, sempre sensível a novas modas e manias, a novos produtos e modelos — e a novos tranquilizantes e analgésicos.” (pp.354-355)

Referência:

Paul A Baran & Paul M. Sweezy. Capitalismo Monopolista. Ensaios sobre a ordem econômica e social americana. Tradução: Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966.