Os três ciclos republicanos no Brasil

Faço aqui uma proposição de análise sobre os ‘três ciclos republicanos’, como um exercício de interpretação das principais tendências observadas na evolução histórica do Brasil, desde o advento da República, em 1889. A cada um desses ciclos correspondeu a hegemonia intelectual e política de um determinado grupo profissional, articulado em suas instituições de classe e nas esferas institucionais do Estado, capaz de determinar e de delimitar os rumos do País. Primeiro, os engenheiros; em seguida, os economistas; e, atualmente, os juristas. Trata-se de uma indagação sobre a possibilidade de analisar os três ciclos do processo de desenvolvimento do Brasil republicano, sob a ótica dos formuladores das políticas públicas que orientaram o seu percurso até o presente.

Antes de estabelecer as diferenças e as especificidades de cada um desses grupos profissionais, talvez seja significativo questionar: o que há de comum entre eles? Em primeiro lugar, cumpre ressaltar que os luminares de cada profissão tendem a ser representantes diretos da classe dominante brasileira (aquela dos ‘donos do poder’), ou a ela se articulam ocupando os principais postos de comando do País, em suas respectivas áreas de atuação. Na maior parte dos casos, já nascem no berço esplêndido dos privilégios e das oportunidades. E são dotados de uma concepção elitista, na qual eles mesmos se atribuem o papel e a função de reformadores e intérpretes da sociedade em geral, cujas propostas e soluções são as melhores e não dependem (nem deveriam depender) do referendo popular.

São profissionais com instrução de nível superior, o que, numa formação social marcada por profunda desigualdade, já lhes confere autoridade e mérito para decidir quais os caminhos a serem trilhados pela maioria. O conhecimento científico e acadêmico que possuem, como conhecimento altamente especializado que é, tende a lhes garantir uma espécie de saber incontestável, uma supremacia intelectual quase natural, que raros ousam contestar. Disso resulta uma visão de mundo voluntarista e impositiva, que se une aos privilégios de origem e de riqueza, para configurar um padrão de organização social e política que reforça e aprofunda as disparidades, em vez de mitiga-las.

Engenheiros e economistas assentaram as suas bases profissionais sobre uma ideia de progresso que marcou de modo indelével o advento e a evolução das modernas sociedades industriais capitalistas. Quanto aos primeiros, sua matéria-prima fundamental tem sido a criação e o aprimoramento de métodos e técnicas destinados a aparelhar com eficiência e produtividade a organização da produção material. Já os segundos, vêm se propondo a oferecer os melhores instrumentos de administração dos ciclos econômicos, a fim de garantir bons resultados nas fases de expansão e algum equilíbrio nos momentos de retração. No caso brasileiro, por mais dependente e desarticulado que tenha sido, um princípio de desenvolvimento econômico se forjou nos dois ciclos conduzidos por engenheiros e economistas, com significativa expansão da atividade industrial, urbanização, diversificação agrícola e modernização dos serviços.

Tudo isso se deu sem um enfrentamento direto e sistemático da desigualdade secular do País, e as camadas mais pobres da população só puderam experimentar algum alívio em suas carências estruturais (saúde, educação, moradia, saneamento, mobilidade) de forma esporádica e pontual, num processo totalmente ausente de continuidade e de efetividade. Não raramente os ganhos obtidos em determinados períodos acabaram sendo perdidos por completo no desenrolar dos acontecimentos seguintes. Ao primeiro sinal de crise, os benefícios sociais que dependem de políticas públicas são rapidamente desarticulados e dão lugar a novas fases de penúria.

Pode-se dizer que o ciclo dos engenheiros se iniciou ainda no período monárquico, com a criação das escolas de engenharia e a construção ferroviária, mas se consolidou mesmo na Primeira República, quando os engenheiros brasileiros buscaram incorporar os principais atributos tecnológicos e científicos dos países industrializados à realidade brasileira. E fizeram isso sem um questionamento muito profundo das limitações impostas pelos séculos de colonização e de escravismo. Ao longo de décadas, o Brasil criou as suas ilhas de modernidade, em meio a um vasto cenário de incipiente progresso econômico e social, em que se habituaram a conviver duas realidades bastante distintas entre si, que se articulavam criando uma espécie de ‘colonialismo interno’. Nessa dinâmica contraditória, as regiões mais prósperas definiam e delimitavam a evolução do conjunto, sem corrigir as distorções assim geradas e, ao contrário, reforçando-as.

Em inúmeros aspectos, a engenharia brasileira se equiparou à engenharia do chamado mundo desenvolvido, embora o seu impacto transformador sobre as condições materiais do País tenha ficado aquém da sua própria capacidade técnica e científica, isto é, muito mais poderia ter sido feito em benefício da coletividade se essa capacitação intelectual dos engenheiros pudesse ter sido explorada de forma plena. Mais estradas, mais pontes, mais portos, mais moradias, mais saneamento, mais mobilidade urbana, mais energia: o conhecimento estava ali disponível, mas as condições políticas não fomentavam o seu emprego mais amplo e contínuo.

Nas décadas de 1930 e 1940, a economia ganhou autonomia e passou a ser ensinada nas universidades brasileiras como disciplina especializada, deixando de ser um apêndice dos cursos de direito e de engenharia. Desde a criação das primeiras faculdades de direito no Brasil, a Economia Política era estudada como matéria complementar. Na Escola Politécnica do Rio de Janeiro (‘berço da engenharia nacional’), passou a fazer parte da grade curricular em 1864, e teve entre os seus professores o célebre José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco, além dos engenheiros Vieira Souto e Aarão Reis. Não é de se estranhar que a economia tenha se tornado uma carreira de nível superior no Brasil, justamente naquele momento histórico em que o modelo agrário-exportador acabava de entrar em choque, com a crise de 1929 e a derrocada das exportações de café. Era preciso repensar o desenvolvimento do País, e ninguém poderia fazer isso melhor do que os novos especialistas.

Os economistas têm oscilado entre os pêndulos de um Estado intervencionista e indutor do desenvolvimento econômico e/ou de uma iniciativa privada como fonte primordial de todo o crescimento econômico e do progresso material em geral. Desde o início dos anos 1940, com a célebre controvérsia havida entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin em torno dos rumos a serem seguidos pela economia brasileira, diante da debacle do modelo primário-exportador, esse debate controverso tem se expandido e incorporado outros temas, mas preserva a sua essência. No cerne da discussão, a necessidade de se promover a industrialização do Brasil, para livrá-lo da dependência secular do setor exportador e garantir uma expansão contínua e acelerada de suas potencialidades. É na indústria que reside a redenção do atraso. E no Estado, a força propulsora. (Ou não.)

“Ao engenho e à capacidade da iniciativa privada, amparada e fomentada pelo Estado, cabe promover o bem-estar econômico e a melhoria do padrão de vida do povo brasileiro.”

“Ao Estado cabe cooperar com a iniciativa privada, através de medidas legislativas e administrativas, que permitam e facilitem a livre expansão de seus empreendimentos.”

“Deve o Estado abster-se de participar dos empreendimentos da seara da iniciativa privada ou de com eles concorrer por meio de organizações ou entidades estatais, paraestatais ou mistas.” (Eugênio Gudin, p.120)

“Se a renda nacional é baixíssima, se os níveis de vida, em grandes zonas, são miseráveis, se possuímos recursos naturais de monta e extensos espaços de terra não aproveitados, se a técnica e a ciência modernas oferecem os instrumentos essenciais para, dentro de um planejamento racional, corrigir esse estado de atraso, por que não adotá-lo? É um erro supor que o conceito de planejamento se prenda, obrigatoriamente, a escolas políticas ou econômicas antidemocráticas.” (Roberto Simonsen, p.134)

Tanto engenheiros como economistas têm em comum o fato de que atuam sobre a realidade concreta da produção e da distribuição de bens e serviços, para a qual julgaram (e ainda julgam) ter as melhores soluções. Muitas vezes, seus projetos são complementares; uns atrelados aos outros. Não há em seus propósitos a intenção de destruir as bases econômicas do Brasil: pelo contrário, há um esforço claro de defender políticas que venham a proporcionar o melhor ambiente para um desempenho positivo dos principais indicadores econômicos nacionais: renda, emprego, investimento, produção, comércio exterior etc. Pelo menos, é o que pregam.

Nos últimos anos, contudo, temos assistido à emergência de um novo grupo profissional hegemônico — os juristas —, que parece estar caminhando no sentido oposto. O ciclo republicano atual, no qual os juristas assumem o protagonismo, parece sugerir que estes pairam acima da realidade econômica e social, numa esfera de competência autoproclamada, em que se incumbem da missão ciclópica de ‘curar’ a doença da corrupção que gangrenou todo o sistema político brasileiro. E também o empresarial. Para cumprir a sua missão obstinada de ‘acabar de vez com a corrupção’, membros do Ministério Público e do judiciário têm desconsiderado o impacto de suas ações sobre o mundo real da economia, contribuindo para desarticular setores inteiros de atividade, com quedas bruscas no investimento e no emprego. Sem oferecer contrapartidas.

Não deixa de ser curioso pensar que isso ocorre num momento histórico em que se aprofunda e se agiganta o poder irrestrito do mercado financeiro sobre todas as coisas. A ‘financeirização’ da vida é um dado dramático e global que, desde a crise de 2008, tem contribuído para concentrar cada vez mais recursos nas mãos de uma minoria que controla, em todas as partes do mundo, as decisões mais importantes sobre investimento e desenvolvimento econômico. E faz isso levando em conta exclusivamente os seus próprios interesses lucrativos. Sem nenhuma conexão com as necessidades humanas. Os governos parecem ter sido todos capturados por essa lógica perversa que a tudo domina E, mais grave do que isso, as instituições dos Estados nacionais também. A comunidade internacional assumiu uma feição amorfa, em que tudo se parece e se ilude.

O judiciário se converteu, assim, numa trincheira de classe, que tem servido para legitimar as ações desses grupos poderosos que controlam o dinheiro do mundo. Eles abatem sem tréguas todos aqueles que resistem aos seus ataques ou que se interpõem em seu caminho. A criminalização das resistências tem se mostrado bastante efetiva nesse combate. Mas a corrupção de potenciais aliados também se revela muito funcional para os propósitos maléficos de concentração da riqueza em escala global.

Por isso mesmo, o combate à corrupção per se não significa um projeto político efetivo. Serve apenas para manipular a opinião pública e levar a cabo os desígnios de uma elite financeira predadora, que corrói as bases do desenvolvimento econômico e social voltado para o conjunto da sociedade. Rever a famosa controvérsia entre Simonsen e Gudin permite observar a atualidade das questões ali levantadas. Não deixa de ser inquietante pensar que, passadas tantas décadas, ainda estejamos naquele lugar.

 

Referências:

ciclo 1 espaço de tempo durante o qual ocorre e se completa, com regularidade, um fenômeno ou um fato, ou uma sequência de fenômenos ou fatos (os c. astronômicos podem ser determinados com exatidão) (o c. da vida) 2 série de fenômenos, fatos ou ações de caráter periódico que partem de um ponto inicial e terminam com a recorrência deste (o c. das estações) (o c. litúrgico da igreja) 3 conjunto de fatos, de ações, de obras que se sucedem no tempo e evoluem, marcando uma diferença entre o estágio inicial e o estágio conclusivo (o c. de fabricação de um automóvel) (o c. das sonatas de Beethoven) … 11 ECON flutuação das atividades econômicas que compreende períodos alternados de expansão e de recessão … 17 HIST SOC fase em que predomina determinado fato político, social, econômico etc. (o c. do ouro no Brasil) (o c. das navegações) 18 HIST SOC recorrência de fatos ou situações análogas e/ou vinculadas entre si (o c. das guerras de independência na América)

*Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 1ª ed., 2001, p.713.

http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/3183/1/livro_A_controv%C3%A9rsia_do_planejamento_na_economia_brasileira_3ed.pdf

 

Estado e cidadania

Está em curso no Brasil do golpe uma disputa muito clara pelos recursos públicos. Em manifestação constrangedoramente explícita, as camadas privilegiadas da sociedade brasileira desencadearam uma ação resoluta de retirada de direitos da população trabalhadora, que parece marcada por um visível espírito de revanche contra os mais pobres ou menos afortunados. A impressão que dá é que o governo implantado por meio de um golpe parlamentar em 2016 se move pela vingança e pela hostilidade contra os trabalhadores, que ousaram reivindicar mais direitos e desfrutar de alguns benefícios gerados por políticas públicas mais inclusivas, a partir de 2003.

Os argumentos vulgarmente empregados para a defesa daquilo que chamam de “Estado mínimo” se baseiam fundamentalmente na necessidade imperiosa de um ajuste fiscal — isto é, um equilíbrio relativo entre receitas e despesas no orçamento público — e de um governo, portanto, não intervencionista, inativo em relação à realidade econômica, da qual deve ser mero espectador recatado. No cerne dessa argumentação, repousa a ojeriza aos impostos e taxas, cuja permanência e/ou elevação poderia ampliar as receitas governamentais em benefício de mais gastos e investimentos. Ojeriza a cobranças sobre grandes fortunas e demais privilégios — que fique bem claro. Porque, na maior parte das vezes, são os próprios trabalhadores que pagam a conta dos desajustes orçamentários, por meio de impostos que incidem diretamente sobre o consumo e os salários. É assim, por exemplo, que as autoridades econômicas do golpe pretendem enfrentar o alegado déficit da previdência social: aumentando o tempo de contribuição para as aposentadorias e elevando as alíquotas pagas pelos trabalhadores assalariados. Os servidores do Estado do Rio de Janeiro tiveram as suas alíquotas previdenciárias elevadas de 11% para 14%, e parece que esse percentual será estendido para outros Estados da federação e para os servidores da União também.

Enquanto isso, grandes proprietários de terras (ligados ao agronegócio), bancos e outros investidores robustos têm recebido perdão para as suas dívidas previdenciárias e os seus impostos devidos. Perdão! A baixa arrecadação dos governos se explica também pelo não pagamento de montantes extraordinários por parte dos maiores devedores do País. Com seus serviços jurídicos muito bem remunerados, eles conseguem recursos e mais recursos nos tribunais para adiar e, por fim, evitar o acerto de contas com o erário. No limite, acabam se livrando da maior parte de suas obrigações fiscais. Ao lado disso, as maiores fortunas do Brasil se beneficiam ainda das altas taxas de juros que regulam a dívida pública brasileira e faturam fortunas ainda maiores no mercado de capitais. É o chamado “rentismo”, uma das piores desgraças do nosso modelo econômico, por meio do qual o dinheiro se remunera (e se multiplica) pelo simples fato de existir, sem precisar gerar nada. Nada mesmo. Os juros da dívida consomem mais de 40% do orçamento público federal — uma verdadeira indecência.

É claro que chegar a este ponto em que estamos dependeu de um trabalho ideológico maciço para desacreditar o Estado como regulador da economia. O grande apelo desse discurso tem sido o de condenar os “gastos públicos excessivos”, cujo corolário, segundo a lenda, é sempre o desajuste fiscal e o risco de aumento de impostos. Deve-se observar que aquilo que apontam como gastos públicos excessivos e perdulários são despesas efetuadas com finalidades sociais explícitas. O perdão às dívidas estratosféricas dos magnatas e o percentual elevadíssimo da dívida pública no orçamento da União jamais são considerados fatores de desequilíbrio econômico, aos olhos dos formuladores desse ideal de Estado mínimo. Disso resulta que suas propostas conduzem, inevitavelmente, à retirada de direitos dos trabalhadores e ao encolhimento significativo dos serviços públicos prestados à população. Duas facetas de um projeto perverso que só reduz benefícios ao grupo majoritário da sociedade.

Há fatos ilustrativos a esse respeito. No final de 2009, por exemplo, a BBC publicou uma pesquisa que buscou avaliar a percepção dos cidadãos em relação à presença do Estado na economia, e se surpreendeu com as respostas. Nessa investigação curiosa, descobriu que 64% dos brasileiros entrevistados queriam um maior controle do governo sobre as principais atividades econômicas do País. E apostavam, sobretudo, na riqueza do pré-sal para ampliar os investimentos em saúde e educação. Nas ruas de Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, a BBC ouviu 835 pessoas que opinaram, na maior parte, em favor de uma regulação estatal mais firme.

“Não apenas isso: 87% dos entrevistados defenderam que o governo tenha um maior papel regulando os negócios no país, enquanto 89% defendem que o Estado seja mais ativo promovendo a distribuição de riquezas.”

“A insatisfação dos brasileiros com o capitalismo de livre mercado chamou a atenção dos pesquisadores, que classificaram de ‘impressionantes’ os resultados do país.”

Ao cabo de quase duas décadas de globalização capitalista avançada, uma experiência histórica alardeada como o grande bálsamo para os males do mundo, a percepção dos entrevistados era mais cética e mais crítica. Um sistema econômico internacional globalizado, ao contrário do que prometera a intensa propaganda que o exaltara desde o começo dos anos 1990, não cumpriu exatamente as promessas de promover um desenvolvimento acelerado e dinâmico entre os países interligados à grande corrente global do capitalismo. Ao contrário, as desigualdades na distribuição da riqueza dentro dos e entre os países participantes tornara-se cada vez mais evidente. E mais incômoda também.

“Vimos em pesquisas anteriores que os brasileiros não são os mais entusiasmados com a globalização…”

“Eles ainda são bastante negativos em relação à globalização, e o que vemos aqui (nesta pesquisa) é mais o desejo de que o governo faça mais para mitigar os efeitos negativos dela, melhorar a distribuição de renda e colocar mais restrições à atividade das empresas.”

Essas respostas revelam o espírito de uma época. Não são conclusivas, por certo, mas permitem compreender um estado de alma prevalente naqueles anos em que o Brasil tentou dar um salto maior em direção ao desenvolvimento econômico com justiça social. O Estado, como instituição reguladora primária, era visto por muitos como o instrumento definidor por excelência desse projeto, capaz de dar a ele a abrangência e a dimensão necessárias. Daí que, para aniquilar esse espírito da época, marcado por esperanças e desejos de superação das graves dificuldades sociais e econômicas do Brasil, promoveu-se uma campanha ideológica maciça e incansável, destinada a desacreditar por completo os governos e os governantes que ousaram escutá-lo. O ponto culminante desses esforços sórdidos de desestabilização daquele projeto foram os meses que antecederam o golpe de 2016. As medidas tomadas a partir dali, no sentido de retirar direitos dos trabalhadores e de jogar sobre os seus ombros todo o peso do desajuste fiscal, são as faces mais visíveis da retomada do controle sobre os recursos públicos, por parte daqueles que sempre se julgaram os únicos merecedores dos benefícios proporcionados pelo conjunto da sociedade brasileira.

https://noticias.uol.com.br/bbc/2009/11/09/ult5022u3974.jhtm?action…

Religião e contrarrevolução

“O Metodismo impediu a revolução, ou o desenvolvimento de um movimento revolucionário na Inglaterra? A pergunta há muito interessa aos historiadores. O período de 1789-1848 é cheio de revoluções em todas as partes da Europa Ocidental, mas não na Inglaterra, e ele parece também ser o período em que o Metodismo cresceu mais rapidamente neste país. Que o Metodismo tenha mantido a Inglaterra imune à revolução é, na verdade, uma crença generalizada. A History of the English People do falecido Elie Halévy sustenta fortemente esta opinião. Pode, portanto, ser útil elucidar as relações entre o Metodismo e a ameaça de revolução neste período.” (p.32)

Muitos têm se perguntado por que a população brasileira em geral se mostra tão apática diante dos desmandos praticados pelo governo de Michel Temer, que resultou do golpe parlamentar de 2016, que destituiu Dilma Rousseff. Não apenas pela gravidade do golpe em si, que tirou do cargo uma presidenta legitimamente eleita, sem que ela tivesse cometido qualquer crime de responsabilidade devidamente comprovado. Mas também pelas inúmeras medidas que vêm sendo adotadas pelo governo e pelas leis que vêm sendo aprovadas no Congresso Nacional, cujo teor fundamental é justamente a retirada de direitos dos cidadãos brasileiros. E mais: como explicar ainda tamanha insensibilidade das pessoas diante da sucessão de denúncias de corrupção que são apresentadas contra o presidente golpista, acusado de diversos crimes e flagrado em conversas estranhas com um empresário para lá de suspeito?

Essa apatia, que também pode ser chamada de indiferença, desinteresse, omissão, desleixo, desperta a curiosidade de qualquer observador mais atento. E estimula a busca de explicações possíveis. Neste sentido, parece oportuno voltar a esse texto em que Eric Hobsbawm explora as relações prováveis entre o crescimento de determinadas seitas pentecostais na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX e a ausência de movimentos revolucionários, no mesmo período. Embora existisse uma razoável tradição historiográfica que defendia uma correlação direta entre esses dois fenômenos — estabelecendo um peso mais considerável sobre o Metodismo Wesleyano (do fundador John Wesley), uma das vertentes mais profundamente contrárias à ideia de revolução — Hobsbawm afirmou que a relação é complexa e difícil de determinar.

“Não houve assim nenhuma revolução e o Metodismo Wesleyano era hostil a ela; mas daí não segue que o segundo fato foi a causa do primeiro.” (p.33)

A liderança oficial da seita metodista era terminantemente contrária a qualquer agitação radical, quanto mais revolucionária. A pregação conservadora, no entanto, dificilmente teria sido suficiente, sozinha, para afastar todos os seus seguidores das lutas sociais. É pouco provável que todos os adeptos tenham se mantido alheios aos movimentos sociais, sobretudo, àqueles que envolveram a luta por direitos trabalhistas e eclodiram nos momentos de maior turbulência entre os trabalhadores. Pode-se supor que as condições materiais adversas e os sofrimentos impostos pela rotina fabril tenham feito a sua parte. Não há dúvida de que muitas seitas tendem a pregar a resignação e a estrita obediência àquilo que chamam os “desígnios de Deus”. Mas, não operam isoladamente nos contextos sociais e dependem da interação com diversos outros fatores.

“… é pouco provável que o Wesleyanismo pudesse ter impedido uma revolução se outras condições a houvessem favorecido na primeira metade do século dezenove.” (p.41)

Citando Lênin, Hobsbawm argumenta que uma deterioração das condições de vida das massas e um aumento da sua atividade política não são suficientes para causar uma revolução. Uma conjuntura favorável a isso pressupõe o surgimento de uma crise severa no seio do poder dominante e, ao mesmo tempo, uma liderança revolucionária capaz de conduzir o movimento. Sem isso, dificilmente ocorre uma mobilização social vigorosa, que produza mudanças significativas e desejadas.

Ora, segundo afirma Hobsbawm, “a classe dominante inglesa nunca perdeu o controle da situação política” (p.33). E esse era o principal ponto de contato de um texto que trata da primeira metade do século XIX, na Inglaterra, com a realidade do Brasil, em pleno ano de 2017, em minha opinião. O controle efetivo do poder político pela classe dominante, corolário do seu completo domínio sobre o poder econômico, é de tal porte e de tal amplitude temporal que beira a ordem natural do mundo. E isso se demonstra, inclusive, nos contextos em que, aparentemente, ela se retira de cena. Já escrevi sobre isso aqui neste espaço, num texto chamado “A ordem das coisas” (28 de setembro de 2016). A classe dominante brasileira também jamais saiu do comando:

“Aquela fotografia do presidente golpista sendo empossado com os seus ministros — todos velhos, brancos e ricos — foi emblemática dessa estrutura de poder que domina o Brasil há séculos. São eles que mandam. Assim como sempre mandaram. E de tal forma que a sua presença nas esferas de mando pode ser percebida como algo ‘natural’ — no sentido da natureza mesmo. Coisas que se repetem de modo infindável acabam adquirindo essa feição costumeira, imutável, perene, e se confundem com a própria origem de tudo. Aquilo que sempre foi e sempre será. E todos aceitam, e se submetem.”

Isso não quer dizer que as mudanças sejam impossíveis. Quer dizer apenas que teremos um pouquinho mais de trabalho para compreender as condições que poderão torná-las possíveis. A contrarrevolução não está numa apatia supostamente determinada pela religião ou por qualquer outro tipo de crença, isoladamente. Ela se configura num conjunto complexo de forças que atuam em consonância, para legitimar estruturas de poder que se perpetuam graças à aceitação da grande maioria. O silêncio e a distância dos brasileiros em relação aos desmandos do golpe atual expressam, em parte, essa noção amplamente disseminada de que estamos vivendo sob a ordem das coisas.

“Os velhos brancos e ricos, que sempre exerceram esse poder sobre os brasileiros, estão de volta. Eles se movem com a mais absoluta naturalidade, certos de que o seu lugar no mundo está previamente determinado pela ‘ordem das coisas’. Eles se julgam os únicos merecedores do direito de mandar, os verdadeiramente capazes de governar as cidades, os estados, o País, os exclusivos detentores da riqueza, do conhecimento e do poder, os legítimos autores dos projetos que definem os rumos do conjunto. Mas, para que exerçam de fato todo esse domínio, é fundamental que tenham a contrapartida de uma aceitação arraigada, obstinada, incontestável daqueles que os legitimam.”

Referência:

Eric Hobsbawm. Os Trabalhadores. Estudos sobre a história do operariado. (Cap. 3 “O Metodismo e a ameaça de revolução na Inglaterra”) Tradução: Marina Leão T. V. de Medeiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

Diretas já, 1984: último ato

As condições socioeconômicas que prevaleciam no Brasil, no alvorecer de 1984 — o ano das “diretas já” —, não eram nem um pouco alvissareiras. Logo no início de janeiro, um estudo do Instituto de Planejamento da Seplan (Secretaria de Planejamento do governo federal) indicava que o País fechara 1983 com um total de 10 milhões de desempregados, o que representava 22% da população economicamente ativa de 45 milhões de brasileiros. Diante desse número, os analistas concluíram que, se o governo não criasse programas emergenciais para enfrentar o problema, já em 1986, haveria nada menos do que 14,5 milhões de desocupados em todo o território nacional. Numa perspectiva comparada, sugerindo um retorno aos índices de 1978, o estudo apontava que seria necessário criar pelo menos 7,5 milhões de empregos novos; e a economia precisaria crescer a taxas anuais de 7% a 8%. Um assombro. (Jornal do Brasil, 08 de janeiro de 1984, p.1 e 15)

Há estudos e análises econômicos bastante competentes, que explicam de forma detalhada e completa o significado desse período histórico. A contribuição do noticiário da época é fornecer instantâneos cotidianos que conferem ao quadro teórico explicativo uma dimensão humana mais concreta e dar, portanto, uma ideia mais palpável dos dramas pessoais e coletivos que caracterizaram aquele momento. Precisamos deixar claro que não temos a pretensão de substituir as explicações acadêmicas sobre o tema.

As dificuldades econômicas afetavam a tudo e todos, indiscriminadamente, embora sempre tenham existido aqueles que passaram por todas as crises impunemente. Uma minoria privilegiada e invisível. A maioria, no entanto, penava para dar conta das suas obrigações e necessidades mais elementares. Entre elas, estava o cuidado com a saúde, na sua versão preventiva ou curativa: os preços estavam se tornando proibitivos. Para grande parte da população brasileira, o acesso a medicamentos e tratamentos de saúde parecia ficar cada vez mais distante:

“Os consultórios médicos estão ficando cada vez mais vazios, não por falta de doentes ou de doenças graves, mas devido à deterioração dos salários, ao alto preço dos remédios e dos exames de laboratório e de raios X — é a saúde que fica cada vez mais cara. Os médicos constatam também que a crise está tornando comum a teleconsulta (consulta por telefone), bem como os pedidos de desconto em exames.” (Jornal do Brasil, 03 de junho de 1984, p.1)

Uma das razões apontadas pelo jornal para esse recuo lamentável dos cuidados médicos da população brasileira foi indicada numa manchete de primeira página: “a classe média perdeu 30% da renda em quatro anos”. De acordo com um estudo da Ordem dos Economistas de São Paulo, essa queda do poder aquisitivo de quem ganhava 20 salários mínimos (faixa de renda atribuída à classe média) se devia basicamente à desindexação dos salários que vinha sendo usada para conter a escalada inflacionária. Os reajustes salariais passaram a ser dados apenas sobre 80% do índice de inflação apurado, o que corroeu os salários rapidamente. Segundo esse estudo, se fossem levados em contra outros fatores, como a carga tributária, por exemplo, essa perda de renda seria considerada ainda maior. (Jornal do Brasil, 29 de julho de 1984, p.1 e 23) Tal era a situação da classe média assalariada. Boa parte da população trabalhadora, que ganhava um ou dois salários mínimos por mês, enfrentava adversidades ainda mais graves.

A escalada da violência urbana assumiu contornos dramáticos. No Rio de Janeiro, eram diários os registros na imprensa de assaltos, invasões de domicílios, roubos de todos os tipos, e até assassinatos. Andar de ônibus, ou mesmo nas calçadas da cidade, era sempre um risco. Os arrastões se tornaram corriqueiros nas praias cheias, em todos os fins de semana. Muitos moradores do Rio criaram o hábito de ter sempre na bolsa ou no bolso o que chamavam de “o dinheiro do assaltante”. Era uma determinada quantia, a depender da disponibilidade de cada um, que seria entregue aos bandidos durante um assalto, na esperança de, com isso, escapar de um tiro ou uma coronhada. O estado de espírito da população era o pior possível. E não poderia ser de outro jeito.

Num contexto de instabilidade e crise tão aguçadas, o Nordeste brasileiro ganhava especial destaque como região assolada pela fome e pela miséria mais abjetas. O Estado de Minas Gerais tinha sua área do Vale do Jequitinhonha localizada no semiárido brasileiro e, portanto, fazia parte da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) e compartia os principais indicadores socioeconômicos que caracterizavam a região mais desfavorecida do Brasil: elevados índices de pobreza, desnutrição, analfabetismo, mortalidade, desemprego e êxodo rural. Tancredo Neves encomendou um estudo que nortearia suas políticas para o Vale, não só como governador de Minas Gerais, mas também como candidato a presidente da República.

Ele tinha planos de vincular a Sudene diretamente à Secretaria de Planejamento da Presidência da República, com atribuição de opinar e propor ações sobre todos os projetos para o Nordeste, em qualquer área. Além disso, pretendia realizar uma reforma agrária na região semiárida, junto com uma reforma tributária que incluísse a revisão dos incentivos fiscais para o Nordeste, a fim de estimular investimentos. Tancredo Neves apresentaria parte dessas propostas na reunião da Sudene a ser realizada no dia 29 de junho de 1984, na cidade mineira de Montes Claros. A desigualdade regional que castigava os Estados nordestinos, assim como a desigualdade social que penalizava um grande número de brasileiros, não escapava aos olhares dos formuladores das políticas públicas. Seu enfrentamento se mostrava inadiável.

Entre os dados fornecidos pelo estudo encomendado por Tancredo Neves sobressaía-se a “dura face da pobreza”. Naquele período, a mortalidade infantil do Nordeste era 40% maior do que a do Sudeste do País. A expectativa de vida dos nordestinos era 10 anos inferior à dos moradores do Sudeste, ao mesmo tempo em que se verificava que ali se concentrava 30% da população brasileira, sendo que 63% desse total apresentava déficit calorífico superior a 200 calorias/dia. Ou seja, muita gente desnutrida. Embora fosse responsável por 10% da produção do País, o Nordeste não produzia os alimentos suficientes para seu próprio consumo. Mais da metade dos analfabetos brasileiros com mais de 10 anos de idade estava concentrada no Nordeste, assim como 45% dos trabalhadores que ganhavam até um salário mínimo e 54% dos que recebiam até meio salário mínimo. Mais da metade dos brasileiros mais pobres.

O documento apontava ainda que, nos últimos vinte anos, 3,4 milhões de nordestinos deixaram as suas casas para buscar a sobrevivência em outras paragens. Naquela data, 17% dos nordestinos viviam fora do Nordeste (em 1940, eram 5%; em 1960, eram 11%; e em 1970, 13%). Dos 5,6 milhões de trabalhadores rurais da região, 4,6 milhões recebiam um rendimento igual ou inferior a um salário mínimo, e 2,5 milhões sobreviviam (sabe-se lá como…) ganhando até meio salário mínimo por mês, num vasto território em que o número de leitos hospitalares e de médicos por habitantes era praticamente a metade da média nacional. Quer dizer, a desassistência era total. Em plena década de 1980, o nível de renda médio continuava igual ao dos anos 1950: metade da renda per capita do País e um terço da renda per capita do Sudeste, algo em torno de 870 dólares, com uma concentração de poder aquisitivo descomunal. (Jornal do Brasil, 24 de junho de 1984, p.8)

Conforme o acordo avançava em torno da candidatura única da oposição, os compromissos da Aliança Democrática (Tancredo-Sarney) iam se tornando públicos e revelavam-se ambiciosos e ousados, na sua busca de atender às inúmeras demandas reprimidas por décadas de exceção. Variavam desde política cultural a defesa das minorias, convocação da Constituinte, reforma da legislação eleitoral, política externa independente, retomada do desenvolvimento com reforma tributária, combate à inflação, renegociação da dívida externa, combate a discriminações e preconceitos, reestruturação da previdência social, incentivos à agropecuária, criação de empregos e combate à fome, prioridade ao Nordeste, proteção ao meio-ambiente e defesa da Amazônia, apoio à livre iniciativa e fortalecimento das empresas nacionais, revisão da política salarial, educação fundamental para todos e efetivação da autonomia universitária. Grande parte dos anseios populares estava ali contemplada.

Num discurso proferido em Brasília, Tancredo abordou alguns temas preferenciais do programa de governo que seguia elaborando com seus aliados mais próximos. A democracia e a convocação de uma Constituinte apareciam como os comprometimentos basilares de seu projeto político, que reafirmava a pretensão inarredável de restabelecer as eleições diretas para presidente da República. Ao mesmo tempo, o economista Celso Furtado coordenava a preparação do programa econômico da Aliança Democrática, no qual a prioridade seria a reativação da economia, com o fim da recessão.

Ao mencionar os graves problemas sociais do Brasil, Tancredo afirmou:

“Sem justiça social, nós seremos sempre uma nação dominada pelo dinheiro, seremos sempre uma nação dominada pelas plutocracias nacionais e internacionais. A nossa gente, o nosso povo já atingiu o estágio de emancipação que não permite e nem admite viver subjugado aos grandes interesses capitalistas internacionais.”

Ele reconheceu ainda que moradia e emprego constituíam direitos básicos de cidadania:

“Que a casa própria seja em verdade o asilo inviolável do nosso trabalhador e do nosso homem do povo e não esse instrumento de permanente suplício que lhe tira até a alegria. Que haja nesta pátria emprego para todos, que não haja trabalhador sem trabalho e que haja salários dignos e justos para todos.”

E defendeu a previdência social como instrumento de proteção dos trabalhadores:

“Que a Previdência Social deixe de financiar o rico e o abastado e passe a ser realmente um instrumento protetor do nosso trabalhador, da nossa dona de casa e das nossas camadas mas infelicitadas.”

Além de constatar a importância dos sindicatos na defesa dos direitos trabalhistas:

“Que o sindicado deixe de ser este fantasma com que o pintam, esse instrumento de intranquilidade, de desajustamento e de desassossego da sociedade, mas instrumento de legítimas conquistas dos trabalhadores e instrumento de paz social, porque esta é a sua finalidade e esta é a sua filosofia.” (Jornal do Brasil, 08 de agosto de 1984, p.4)

Todos nós sabemos que Tancredo Neves não governou o Brasil. Assim, jamais poderemos julgar se teria posto em prática de fato todas as promessas que fizera em seu plano de governo. Embora vitorioso no Colégio Eleitoral que escolheu o sucessor de Figueiredo, ele morreu antes de assumir o cargo, deixando-o para o seu vice, José Sarney. De todo esse processo histórico já sobejamente trágico, uma das coisas que mais impressiona é a rápida aceitação pela população brasileira, em geral, das condições em que se deu a chamada “transição democrática” do País. Depois de toda aquela exibição clamorosa de anseio pelas eleições diretas, o povo simplesmente saiu das ruas e das praças e se acomodou ao arranjo feito pelo alto, que resultou na eleição da chapa da Aliança Democrática pelo Colégio Eleitoral. Mais uma vez, assistiria bestificado às tramas urdidas, quase nunca às claras, para garantir o controle do poder “pelos mesmos de sempre”. A frustração e a dor pela derrota da Emenda Dante de Oliveira no Congresso Nacional não durariam uma semana. Nem resultariam em novas bandeiras de luta. E a vida seguiu, sem choro nem vela. Cada qual cuidando da sua vidinha…

Mas, afinal, isso seria 1984 ou 2017?!

Diretas já, 1984: segundo ato

Apesar dos comícios gigantescos — os que chegaram a reunir mais de um milhão de manifestantes foram os de Rio e São Paulo, mas muitas outras cidades brasileiras, incluindo as capitais estaduais, conseguiram mobilizar dezenas e até centenas de milhares de pessoas em defesa das eleições diretas para presidente; apesar do engajamento muitas vezes apaixonado de lideranças políticas importantes como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Luís Inácio Lula da Silva — apenas para citar os políticos mais populares da época, que tinham grande ascendência sobre parcelas consideráveis do eleitorado brasileiro; apesar do envolvimento de artistas, poetas, escritores, músicos e demais celebridades nacionais — que emprestaram o seu talento e a sua popularidade à causa democrática que se impunha ao Brasil naquele momento histórico; a Emenda Dante de Oliveira foi rejeitada no Congresso Nacional, ao não atingir o quórum determinado pela Constituição. Foram 298 votos SIM à emenda, 65 votos NÃO, 3 abstenções e 113 ausentes.

“Ao final de mais de 60 discursos, numa das mais longas (16 horas) e tensas sessões de sua história, o Congresso Nacional rejeitou às primeiras horas de hoje, por não ter alcançado quórum constitucional, a Emenda Dante de Oliveira que previa eleições diretas já para a Presidência da República. Houve 298 votos favoráveis, 65 contrários e 3 abstenções. Não compareceram 113 deputados. As ausências — estratégia do PDS — provocaram a rejeição da emenda. A aprovação exigia 320 votos para, a seguir, a proposta ser submetida ao Senado.” (Jornal do Brasil, 26 de abril de 1984, p.1)

A estratégia montada pelo governo deu certo. Impedir que a votação da emenda das diretas saísse vitoriosa significava garantir para o regime em vigor o controle do processo sucessório. No entanto, mesmo com a costura dessa conduta parlamentar nos bastidores, o presidente Figueiredo ainda decretou “medidas de emergência” que vigorariam por 60 dias, a contar de 19 de abril, por temor da ocorrência de distúrbios que pudessem influenciar a decisão do Congresso. Distrito Federal, Goiânia e mais nove municípios do Estado de Goiás (no entorno de Brasília) ficariam submetidos a severas restrições das liberdades. Uma revivescência dos piores anos da ditadura determinava as seguintes medidas: busca e apreensão em domicílio; suspensão da liberdade de reunião e de associação; intervenção em entidades de classes ou categorias profissionais (sindicatos); censura das telecomunicações; uso ou ocupação de bens de autarquias, empresas públicas, sociedades de economia mista ou concessionárias de serviços públicos. (Jornal do Brasil, 19 de abril de 1984, p.1)

“Governo cerca Brasília — O decreto do Governo, que põe 11 cidades sob emergência e entrega a execução das medidas ao comandante militar do Planalto, General Newton Cruz, envolveu Brasília por um cinturão para impedir que o Distrito Federal seja ‘alvo da ação de manifestantes recrutados em várias regiões do país’. Na justificativa que enviou ao Congresso, o Presidente da República alerta que a presença de manifestantes ‘visa intimidar e coagir parlamentares, tornando impossível o livre exercício do Poder Legislativo’.” (Jornal do Brasil, 19 de abril de 1984, p.1)

Embora as notícias das medidas de emergência ganhassem destaque nas letras garrafais das manchetes dos jornais, já era possível observar, nas entrelinhas do noticiário, a preparação de um grande acordo nacional para encaminhar a sucessão presidencial, mesmo sem a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que previa a realização de eleições diretas para o sucessor de Figueiredo. Tancredo Neves, então governador de Minas Gerais pelo PMDB, era o nome da oposição que os principais expoentes do governo federal apontavam como o negociador ideal para tratar da questão da sucessão. Ulysses Guimarães — presidente nacional do PMDB, principal partido de oposição — afastou qualquer possibilidade de negociar com os governistas enquanto vigorassem as medidas de emergência. Na sua visão, era necessário o retorno das garantias mínimas ao pleno debate político, pois “não haveria diálogo possível com a força”; para Ulysses, a força simplesmente se impõe.

Tancredo Neves, por sua vez, assumia cada vez mais claramente o papel de principal articulador político do processo sucessório em curso. Em seu discurso no encerramento da Semana da Inconfidência, realizado na cidade de Ouro Preto, Tancredo apelou à negociação e à conciliação, a fim de se evitar o retrocesso. Segundo sua avaliação, só haveria saída para a crise “sem precedentes na História”, se os representantes do poder e da sociedade civil “contiverem as suas posições de radicalismo, que levem a confrontos desiguais e funestos”, e, fundamentalmente, “se colocarem as aspirações nacionais acima dos interesses sectários ou ambições personalistas”. (Jornal do Brasil, 22 de abril de 1984, p.3) Ficava claro, em sua fala, que Tancredo já aceitara a atribuição que as forças do regime decidiram lhe conferir naquele processo de transição política que se avizinhava. Ele precisaria ainda garantir o apoio de grande parte da oposição, mas isso também não tardaria. Uma solução negociada, bem na medida do pendor à conciliação que sempre existiu nas elites brasileiras, era o que Tancredo Neves representaria, de modo exemplar, naquele momento histórico. A “saída ideal” para o impasse que se criara com as aspirações populares em torno da realização de diretas para presidente seria pelo alto, num acordo entre as principais forças políticas do País, mas sem voto, sem participação das massas.

Tancredo Neves serviria para corporificar o elo fundamental que uniria os divergentes, superando ao mesmo tempo o passado representado pelo regime militar. Um presidente civil, ligado ao principal partido de oposição, que sabia dialogar e conciliar à perfeição. Como ele mesmo advertiu em seu discurso de Ouro Preto: “Há momentos nas vidas dos povos em que eles não podem se dar ao luxo da divisão e das retaliações. Se divididos em facções afrontadas estarão praticando o trágico exercício da desagregação nacional.” (Jornal do Brasil, 22 de abril de 1984, p.3) Caberia a ele, Tancredo, ser a força de união entre os discordantes.

O que os defensores do regime instalado em 1964 mais temiam era a chegada ao poder de uma liderança genuinamente popular, que pudesse mudar os rumos políticos e econômicos do País, de maneira sensível. Dias antes da votação no Congresso da emenda das diretas, por exemplo, o General Rubem Ludwig (primeiramente, ministro da Educação do governo Figueiredo, e depois, chefe do Gabinete Militar) se manifestou a respeito da intensificação dos comícios em várias cidades brasileiras com uma frase de impacto: “estão armando a baderna, estão investindo na violência, estamos repetindo 64”. Uma argumentação tão estapafúrdia que mereceu do advogado Sobral Pinto — um dos ícones da luta pela redemocratização do Brasil — uma resposta dura em forma de carta que divulgou para toda a imprensa nacional. Duas de suas alegações merecem destaque especial:

“São comícios em que cidadãos patriotas, ordeiros, trabalhadores, comparecem em locais públicos para apoiar a voz daqueles que pedem, enérgica mas respeitosamente, seja obedecido, na iminente escolha do futuro Presidente da República, o categórico preceito que a Constituição impõe no parágrafo 1º do artigo 1º: ‘Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido’.

Será que Vossa Excelência pretende, com a falsa comparação que formulou, preparar outro golpe de força igual ao de 1964, para que continuem no poder aqueles que se mostraram ineptos a ponto de jogá-lo [o Brasil] na crise moral, política, financeira, econômica e social, sem precedente na sua história, em que ele se debate, sem a menor perspectiva de se livrar dela  se o atual regime se mantiver e continuar a ser manipulado pelos mesmos homens, civis e militares, que detêm as suas rédeas.” (Jornal do Brasil, 20 de abril de 1984, p.2)

Naquela conjuntura de tensões e contramarchas, os políticos da oposição começaram, então, a discutir a apresentação de um candidato único das oposições a fim de que as eleições diretas para presidente não despertassem mais esse temor de ascensão de uma candidatura indesejável pelas elites locais. Eles ainda apostavam na viabilidade da aprovação de uma nova emenda constitucional que reintroduzisse as eleições diretas para a Presidência da República, já no próximo pleito. E os comícios pelas “diretas já” retornaram às ruas das principais cidades brasileiras. O número de participantes havia caído bastante, mas algumas dezenas de milhares de pessoas ainda se sentiam motivadas a insistir no desejo de votar no presidente. Nesse contexto, o nome de Tancredo Neves continuava sendo o preferido para vencer as resistências daqueles que se opunham a uma solução de consenso, que contemplasse os principais anseios da população e as advertências dos defensores do regime.

“O Governador de São Paulo [Franco Montoro – PMDB] argumenta que com um candidato único indicado por todos os partidos de oposição — inclusive pelo Governador Leonel Brizola e o presidente do PT Luís Inácio Lula da Silva — cai por terra o argumento do Planalto contrário às diretas, porque tanto o Governador fluminense quanto o presidente do Partido dos Trabalhadores seriam candidatos inaceitáveis pelo sistema.” (Jornal do Brasil, 28 de maio de 1984, p.3)

Dias depois dessas declarações, o mesmo Franco Montoro reafirmou o nome de Tancredo Neves como aquele capaz de unir os brasileiros e afastar os temores de uma eventual “subversão da ordem”, como alegavam os representantes do governo Figueiredo. Ao ser perguntado numa entrevista se apoiava a candidatura de Tancredo porque ela significava uma opção “aceita pelo sistema”, ele respondeu:

“Não, é porque ele destrói os fantasmas e os argumentos ad terrorem criados pelos continuístas do sistema. Com ele, o grande argumento contra as diretas cai por terra. Diziam: ‘Se houver direta, haverá subversão.’ Ora, o candidato que estamos apresentando, positivamente, não será um subversivo, um agitador. Ao contrário, será um homem capaz de conduzir o país com tranquilidade. Esse fato pesará profundamente na deliberação dos que ainda não se decidiram a votar pelas diretas.” (Jornal do Brasil, 17 de junho de 1984, p.7)

Enquanto os partidos de oposição tentavam emplacar uma nova emenda constitucional que aprovasse eleições diretas para a presidência — usando o forte argumento de um candidato único de consenso —, o governo Figueiredo encaminhava uma outra proposta ao Congresso prevendo eleição direta para o sucessor do seu sucessor (este último deveria ser ainda escolhido pelo Colégio Eleitoral). Todavia, com a insistência dos oposicionistas na realização das “diretas já”, Figueiredo acabou retirando a sua proposta do Congresso e fez com que a sua sucessão ficasse restrita mesmo ao Colégio Eleitoral e ponto final. Essa contramarcha obrigou os partidos de oposição a reformular as suas estratégias. Apesar de todo o discurso que empregaram durante meses contra as eleições indiretas, eles acabaram optando por participar da disputa no Colégio Eleitoral. E mais: aceitaram o nome de José Sarney, ex-presidente do PDS (o partido do governo), para ser o candidato a vice na chapa de Tancredo Neves. Um grupo de dissidentes dentro do PDS havia formado a chamada Frente Liberal, que se dispôs a aceitar a candidatura de consenso das oposições e a participar do processo eleitoral do lado oposto ao do governo que representara até muito recentemente. Contando com 63 votos no Colégio Eleitoral (número que ajudaria Tancredo Neves a vencer a disputa contra o candidato governista, Paulo Maluf), a Frente Liberal tratou logo de apresentar ao futuro governo as suas demandas e expectativas:

“Além do direito de indicar o Vice-Presidente da República, a Frente Liberal pretende assegurar, em troca dos 63 votos que espera dar à candidatura do Governador Tancredo Neves, uma fatia do poder que inclua a presidência do Banco do Brasil e os Ministérios das Minas e Energia, da Justiça e do Interior, com todos os órgãos a eles vinculados.” (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1984, p.1)

Ou seja, o apoio dado a Tancredo Neves no Colégio Eleitoral representaria, para a assim chamada Frente Liberal, o controle sobre nada mais nada menos que Petrobrás, Eletrobrás, BNH, Vale e Banco do Brasil! Um verdadeiro “negócio da China”!

Os governistas atacavam o projeto da oposição usando como um dos seus argumentos principais o temor de que o futuro presidente da República, saído das fileiras oposicionistas, não fosse capaz de controlar os radicais e promovesse aquilo que chamaram de uma “esquerdização” do Brasil. Tancredo Neves não demorou a responder a esses ataques e prometeu que não lançaria mão da repressão contra as esquerdas, mas também não transigiria “no que tange a matéria de princípios, à ordem pública, às nossas instituições civis e militares, à segurança nacional, à soberania do povo brasileiro”. (Jornal do Brasil, 20 de julho de 1984, p.1) As posições não poderiam ter ficado mais claras. Em outra alusão evidente à transição democrática que estava em vias de se completar, Tancredo ainda repeliu qualquer tentativa de “passar a limpo” os abusos do regime militar, e disse que o revanchismo seria “uma forma de subdesenvolvimento político que o Brasil no seu estágio atual não admite”. (Jornal do Brasil, 26 de julho de 1984, p.1)

Coube a Luís Inácio Lula da Silva responder a essas considerações. A ele, parecia cada dia mais claro que o alegado consenso representado pela candidatura única das oposições era, na verdade, uma forma de exclusão de determinadas demandas e de certas lideranças, cuja natureza e cujo figurino não convinham à conciliação que se fazia pelo alto, à revelia do voto popular.

“O presidente nacional do PT, Luís Inácio da Silva, o Lula, afirmou ontem, ao desembarcar de uma viagem de três semanas a Cuba e Nicarágua, que a candidatura Tancredo Neves ‘a cada dia que passa mais assume a sua conotação de direita’. Segundo Lula, o Governador de Minas Gerais é ‘um candidato que está sendo induzido a agradar muito mais ao regime do que ao povo brasileiro’.

‘Com todo o respeito que eu tenho pela sua sabedoria política, o Governador Tancredo Neves tem que levar em consideração duas coisas: primeiro, que ninguém fala em revanche, o que se quer é que as pessoas que roubaram, torturaram, cometerem crimes políticos no Brasil sejam julgadas, no mínimo, pelos tribunais que elas criaram; segundo, é que quem não deve não teme. Se ninguém cometeu crime, torturou, corrompeu, enriqueceu ilicitamente nesse país, por que o medo da justiça?’ — afirmou Lula.” (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1984, p.2)

Enfim, ainda continuamos esperando por isso.

Diretas Já, 1984: primeiro ato

Temos assistido, nos últimos dias, ao crescimento de um movimento em prol das eleições diretas para presidente, em vista da crise política que vai se aprofundando no Brasil e que vai tornando cada vez mais impopular e indesejado o atual ocupante do cargo — Michel Temer. De acordo com a Constituição brasileira, no entanto, neste momento do atual mandato presidencial (que se encontra no 3º ano do seu exercício), a previsão é de que a escolha de um eventual substituto seja feita pelo Congresso Nacional, por meio de uma eleição indireta, portanto. Cabe aos parlamentares, e não ao povo votante, a definição de um novo mandatário para o País, no caso da renúncia ou da cassação de Michel Temer. Ambas as hipóteses vem sendo debatidas com relativa frequência, depois que o próprio foi flagrado em conversas nada republicanas com um conhecido empresário do ramo de carnes e passou a ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal, após denúncia do Procurador-Geral da República.

Embora Temer esteja demonstrando uma surpreendente capacidade de se manter no cargo, mesmo com a “oposição” da principal rede de mídia do País, e com a intensificação da pressão popular por sua saída, o fato é que a probabilidade da sua substituição tem mobilizado as forças políticas no sentido de encontrar aquela que seria a solução mais adequada às pretensões colocadas sobre a mesa. Há diferentes projetos em disputa, gerando diferentes perspectivas, portanto.

Os partidos que apoiam o atual governo já fecharam questão em favor das eleições indiretas para a escolha de um eventual substituto. Há quem diga, inclusive, que Temer vai se aguentando porque ainda não definiram um “nome de consenso” para indicar ao colégio eleitoral do Congresso. Parece que consideram mais importante não perder o controle da situação, não permitir que o poder caia fora de suas mãos. A solução da crise atual ficaria num plano secundário. A oposição, por sua vez, ou melhor, as oposições tendem a preferir eleições diretas e devem se apresentar com mais de um candidato se houver disputa. Entre seus lemas, diante da gravidade da crise atual, chegam a afirmar que somente um governo eleito por voto popular terá condições de propor soluções para os sérios problemas enfrentados pelos brasileiros. Entre eles, o desemprego se sobressai com o número alarmante de aproximadamente 14 milhões de desocupados.

Ao ouvir o brado por “diretas já” que começa a ecoar pelas esquinas, é impossível não se lembrar da campanha pelas diretas que sacudiu o Brasil em 1984. Era o penúltimo ano do mandato presidencial do general João Figueiredo, e o regime instaurado em 1964 com os governos militares se preparava para devolver o poder federal aos civis — o próximo presidente, portanto, deveria sair dos meios políticos, e não das casernas. E aí começou o bafafá!

No novo arranjo partidário que havia nascido do processo de abertura política iniciado em 1979, o partido que dava sustentação ao governo era o PDS, que abrigava algumas das lideranças políticas mais alinhadas com o poder econômico e com as oligarquias tradicionais que controlavam a vida política em grande parte do País. Seu presidente era José Sarney. Logo no início de 1984, quando começaram os primeiros debates acerca da sucessão presidencial, a executiva nacional do PDS decidiu que não negociaria mudanças nas regras que estabeleceram as eleições indiretas e defendeu a legitimidade do colégio eleitoral. (Jornal do Brasil, 18 de janeiro de 1984, p.1 e 4) Cabe observar que havia dissidências no partido, sendo que alguns parlamentares e governadores da legenda se insurgiam contra a escolha do novo presidente pelo Congresso e apoiavam as diretas.

O PMDB, principal partido de oposição, comandava a reação contrária à hegemonia do colégio eleitoral (e era secundado pelas demais agremiações oposicionistas, como PDT e PT). Das suas fileiras saiu uma proposta de emenda constitucional que devolvia aos eleitores o direito de escolher o presidente da República — apresentada pelo deputado mato-grossense Dante de Oliveira. A emenda se transformou na centelha que faltava para incendiar o País: por toda parte, ergueu-se uma onda de manifestações e movimentos em prol da sua aprovação na Câmara dos Deputados, ao mesmo tempo em que os defensores do regime recrutavam os seus adeptos e simpatizantes para lhe fazer frente. A imprensa, em geral, manteve-se cautelosa e arredia à onda democratizante que corria o Brasil e fez a defesa de uma “transição segura”:

“A eleição indireta para a Presidência da República não é, portanto, um item esquecido da abertura, nem um retorno ao autoritarismo. Foi, calculadamente, deixada para o fim de um processo a que se deu o nome de abertura do regime, a desembocar numa reforma constitucional que garantirá ao país o lastro de estabilidade para ser uma democracia e sustentar-se com os mecanismos normais.” (Jornal do Brasil, Editorial: “Falsa prioridade”, 07 de janeiro de 1984, p.10)

Qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência!

Conforme se aproximava a data da votação da Emenda Dante de Oliveira — marcada para o dia 25 de abril de 1984 —, maior ficava a tensão nas fileiras governistas. Uma derrota desse porte, naquele momento, com a aprovação das eleições diretas para presidente da República, seria verdadeiramente desastrosa para as forças políticas que sustentavam o regime e temiam perder o controle da situação. Os movimentos que faziam nos bastidores deixavam claras as suas preocupações.

“O líder do PDS na Câmara, deputado Nelson Marchezan, admite que o Governo ‘poderá reagir com medidas de emergência caso haja radicalizações das oposições’. Marchezan aponta, no caso, a proposta de greve dia 25, na votação da Emenda Dante de Oliveira, ofensas pessoais a membros do Governo ou agressões às instituições ou às Forças Armadas.”

“O Conselho de Segurança Nacional examina relatórios dos órgãos de segurança sobre a mobilização popular, para elaborar um parecer que será entregue ao Presidente João Figueiredo. (…) O porta-voz Carlos Átila disse que o governo ainda não detectou sinais de grave ameaça à República.”

“O PDS decidiu não comparecer ao Congresso no dia da votação da Emenda Dante de Oliveira — dia 35 — que estabelece eleições diretas para a Presidência ainda este ano, revelou o presidente do partido, Senador José Sarney. A tática de negar quórum é a opção definitiva e Sarney estima que as dissidências no PDS não irão além de 40 deputados e cinco senadores.”

(Jornal do Brasil, 07 de abril de 1984, p.1)

Todavia, as oposições ganharam as ruas. O comício das diretas no Rio de Janeiro, realizado na Candelária, no dia 10 de abril, foi um marco das mobilizações pela redemocratização do Brasil e ajudou a expandir os apelos por todo o País. O mesmo jornal que dias antes exigira prudência dos defensores da emenda acabou se rendendo ao impacto da festa e deu total cobertura ao evento. Afinal de contas, a matéria-prima de um jornal é a notícia!

Conduzido por políticos e artistas, o comício da Candelária se prolongou por horas a fio e chegou a juntar um milhão de pessoas no centro do Rio. As fotos estampadas no jornal são belíssimas: um mar de gente cobrindo toda a extensão da enorme avenida. Teve desfiles, batucada e muita confraternização entre os manifestantes. Eram estudantes, professores, funcionários públicos, donas de casa, profissionais liberais e até torcidas organizadas dos times de futebol cariocas, muitos portando faixas e cartazes que pediam eleições diretas. E não houve tumulto, nem confusão. A Polícia Militar manteve-se tranquila, à distância. E os discursos se sucederam:

“Tancredo argumentou em seu discurso que ‘é uma balela dizer que as eleições diretas não vão resolver os problemas do povo’, acentuando que, como primeiro passo para superação da crise, ‘é preciso que o povo retome a sua soberania’. Observou que ‘estão fazendo do nosso país uma democracia sem povo e sem voto’. (…) Recordando o comício de Belo Horizonte — que antecedeu o de ontem — Tancredo disse que trazia a ‘solidariedade de Minas’ e acentuou: ‘Tenho a impressão de que são 130 milhões de brasileiros que estão aqui representados’.”

“O Brasil tem um povo que, embora dominado por 20 anos, jamais aceitou esse domínio, afirmou Brizola. Condenou a insistência do governo em não permitir o restabelecimento das eleições diretas — ‘eles querem continuar no poder’ — e conclamou a multidão: ‘Vamos eleger alguém que represente as aspirações de mudança do povo brasileiro’.”

“Ao iniciar seu discurso, o presidente do PT, Luís Inácio da Silva, Lula, declarou que homenagearia um ausente e chamou à frente do palanque Denise Goulart, filha de João Goulart. Depois, mencionou outra ausência, ‘a do Presidente Figueiredo que, quando está no exterior, fala de coisas boas que não acontecem aqui’.”

“Na hora em que o público aumentou, no começo da noite, Chacrinha, o Velho Guerreiro, comandou o coro das diretas. Milhares de vozes cantaram com ele os refrões condenando o Colégio Eleitoral, repudiando as candidaturas de Andreazza e Maluf, pedindo ‘a cabeça do Delfim’ e exigindo a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, no dia 25.”

(Jornal do Brasil, 11 de abril de 1984, p.3 e 4)

Os governistas não se deixaram intimidar pela grandiosidade do comício da Candelária. Pelo menos, foi o que demonstraram. Pareciam seguros da própria força, e conheciam bem os limites de uma ação popular como aquela. Um dos líderes do governo chegou a classificar o evento como showmício, e atribuiu a grande concentração de pessoas na Candelária à presença de artistas!

“Se houver qualquer constrangimento ao Congresso na votação da emenda das diretas, as medidas de emergência virão. Quem garante é o líder do governo no Senado, Aloysio Chaves. Ontem, o Senador ironizou o comício das diretas no Rio, afirmando que ‘o Rio não é Atenas, nem a Candelária o palco de uma democracia grega, para decidir a forma de eleição do Presidente da República’.” (Jornal do Brasil, 11 de abril de 1984, p.5)

A partir do sucesso da Candelária, os comícios se espalharam por todo o Brasil. Mas é preciso fazer justiça e reconhecer que a partida havia sido dada em Curitiba, logo no começo do ano. A Candelária catalisou as expectativas que se amontoavam, e dali a coisa se espalhou.

“A escalada de comícios pró-eleições diretas para Presidente da República começou no dia 12 de janeiro, em Curitiba. Na Rua das Flores, 50 mil pessoas, na maior concentração pública já realizada na capital do Paraná, aplaudiram os líderes da oposição. ‘Começamos triunfalmente’ — disse o deputado Ulysses Guimarães, presidente do PMDB.” (Jornal do Brasil, 11 de abril de 1984, p.5)

O ponto culminante dessa escalada se deu em São Paulo, em 16 de abril, alimentado pela proximidade com a data da votação da Emenda Dante de Oliveira no Congresso. Mais de 1 milhão e 300 mil pessoas lotaram o Vale do Anhangabaú, no centro da cidade de São Paulo, que desde cedo viveu um clima de festa, com chuva de papel picado caindo dos edifícios comerciais e muita movimentação de camelôs e ambulantes, que disputavam o espaço com suas mercadorias de ocasião. Mais uma vez comandado por artistas e políticos, o comício transcorreu sem transtornos e consolidou o apoio popular à redemocratização plena do País. A força das ruas acabou se impondo, ao menos momentaneamente, sobre o projeto de “conciliação” que se queria fazer pelo alto, sem o povo, sem o voto popular.

“Só depois que quase 1 milhão de pessoas se reuniram na Candelária, no Rio, para participar do comício pelas eleições diretas, o Governador Franco Montoro, o Senador Fernando Henrique Cardoso e a maioria do PMDB paulista decidiram apoiar o trabalho pela realização da passeata de ontem, pelas ruas da Capital, que terminou com o comício no Vale do Anhangabaú. (…) Apesar disso, a passeata já era considerada um fato irreversível, levado adiante pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e pelos setores mais radicais do PMDB de São Paulo (entre eles o PCdoB e movimentos estudantis).” (Jornal do Brasil, 17 de abril de 1984, p.2)

O governo federal fazia as suas ameaças, alegando que manifestações e comícios em prol das diretas promoviam instabilidade e prejudicavam o andamento das negociações sobre a transição. E declarava, através de seus porta-vozes formais e informais, que não aguentaria nenhum tipo de contestação à ordem institucional do País. A resposta da oposição não tardou a se dar.

“A nação não aguenta mais isso que aí está. O desemprego, a inflação, a fome, as falências, a corrupção impune, sobretudo o FMI como gestor da economia e das finanças do Brasil — disse o presidente do PMDB, Ulysses Guimarães, também em nota oficial. Ressaltou o caráter pacífico das manifestações e afirmou que o governo quer criar um pretexto para as medidas de emergência.” (Jornal do Brasil, 18 de abril de 1984, p.1)

Um dia depois do comício em São Paulo, 4 mil mulheres provenientes de todas as partes do Brasil tomaram conta de Brasília. Para surpresa geral, elas ocuparam o Congresso Nacional e circularam com desenvoltura pelos corredores, pelo plenário e pela rampa de acesso. Nesse percurso, pressionaram todos os parlamentares que encontraram para que aprovassem a emenda das diretas. Tendo à frente atrizes, cantoras, escritoras e demais celebridades, elas reivindicaram a ampliação dos seus direitos, o que seria mais efetivo com a restauração plena da democracia brasileira. Numa antevisão espantosa, admirável, os maiores aplausos foram dirigidos ao deputado Mario Juruna, recebido em delírio pelas moças, após proferir uma frase curta, de grande impacto:

“Juruna quer ver mulher na presidência.” (Jornal do Brasil, 18 de abril de 1984, p.2)

Entre ricos e pobres

Temos acompanhado, nos últimos dias, uma série de denúncias de corrupção que atinge em cheio o núcleo do governo que tomou o poder após a destituição da presidenta eleita em 2014 — Dilma Rousseff. São casos graves de corrupção e tráfico de influência que envolvem, principalmente, o atual presidente, Michel Temer, e o principal líder político do governo, senador Aécio Neves. Tendo à frente dessas denúncias o procurador-geral da República (Rodrigo Janot) e o ministro do Supremo Tribunal Federal responsável pela operação que investiga a corrupção na Petrobras (Edson Facchin), percebe-se uma reviravolta no rumo das ações judiciais contra políticos, as quais, até então, miravam exclusivamente nos membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e seus aliados. Como explicar isso é o desafio enfrentado por todos aqueles que se interessam pelos destinos do Brasil. Por ora, as análises parecem todas inconclusivas. No calor da hora, é muito mais difícil perceber claramente a direção dos ventos.

Em todo caso, muitos analistas audaciosos que se dispõem a navegar nesses mares revoltos têm se perguntado onde estão aqueles que encheram as ruas e esbravejaram para tirar Dilma Rousseff da presidência? E sem que pesasse sobre ela nenhuma denúncia de corrupção ou malfeito. E o mais intrigante: a principal/maior rede de comunicação do País já desembarcou da canoa furada conduzida por Temer e pede a sua renúncia em editoriais e noticiários de TV. Algo impensável há apenas alguns dias…

Sempre desconfiei dos pruridos éticos de uma sociedade, como a brasileira, que tende a fechar os olhos para o golpismo e a vigarice. O convívio alegre e cordial com os mais variados tipos de escroque percorre a história do Brasil. Alguns, inclusive, passaram a fazer parte do folclore político e costumam ser evocados em artigos e charges. A chegada do PT ao poder, no entanto, produziu mudanças importantes nesse padrão de comportamento e deu origem a uma nova roupagem ideológica que seria vestida por muitos, muitos: a dos “moralistas sem moral”, como bem os definiu a presidenta Dilma Rousseff. De uma hora para outra, o País se encheu de indignados! Intolerantes e preconceituosos, e bastante influenciados pela mídia, eles passaram a identificar o PT e seus representantes com o que havia de pior na política. Práticas condenáveis, que jamais deveriam ter sido admitidas, mas sempre foram toleradas ou ignoradas, começaram a ser condenadas com violência e serviram de base a uma perseguição implacável aos petistas. O ponto culminante dessa escalada de ódio foi a destituição da presidenta Dilma, sem que pudessem lhe imputar nenhum crime de responsabilidade. Golpe, portanto.

Hoje, quando nos vemos diante de denúncias tão graves contra os atuais governantes, é impossível não indagar: onde estão os indignados de ontem? Por que não enchem mais as ruas com suas camisas da seleção brasileira de futebol para dar um basta à corrupção? Por que tantas vozes estridentes subitamente se calaram?

Não tenho respostas conclusivas, apenas indagações. Em primeiro lugar, observo que grande parte das massas que encheram as ruas para depor Dilma Rousseff era composta de membros da classe média. Em sua maioria, brancos, alguns acompanhados das babás dos seus filhos, outros a beber champanhe. Todos, sem exceção, se diziam patriotas e gritavam “eu quero o meu país de volta!”, tendo na bandeira brasileira o seu principal adereço. A ela se abraçavam com imenso ardor, como se lhe pedissem abrigo. Estavam inflamados de ódio ao PT e dispostos a fazer de tudo para escorraçá-lo.

Muito já se falou sobre o papel da classe média no tênue equilíbrio das sociedades capitalistas contemporâneas. “Espremida” entre os poucos ricos e os muitos pobres, a classe média tem enorme dificuldade de compreender o seu desconforto, porque não consegue ou não quer enxergar que seu algoz está no andar de cima, e não no andar de baixo. Isso ocorre, em grande medida, por causa das escolhas ideológicas que muitos membros da classe média costumam fazer, a meu ver, de forma equivocada. Como almejam pertencer um dia àquele 1% de ricos privilegiados que governam o mundo, tendem a negar qualquer crítica ou condenação a esse grupo e tentam preservá-lo a todo custo. Não se pode esquecer que a burguesia recém-criada na era dos Estados nacionais europeus buscou a ascensão social justamente por meio de casamentos e de alianças profissionais com os aristocratas — aqueles que detinham o poder de fato. Mal comparando, a classe média de hoje tem objetivos semelhantes: seu grande projeto é chegar lá, no mundo dos ricos (mesmo que faça isso servindo a eles).

Ora, a emergência dos pobres, por intermédio de políticas públicas de inclusão social e de enfrentamento às desigualdades, colocadas em prática pelos governos do PT, foi pressentida como uma grande ameaça a esses propósitos. Por um lado, porque aumentaria o contingente de remediados a disputar um lugar entre os ricos. Por outro, porque colocaria em risco os poucos privilégios já alcançados, que poderiam escapar das mãos diante de alguma eventualidade ou crise. Esses receios, embora possam parecer frutos da imaginação, na verdade, estão escorados em experiências históricas concretas que deixaram marcas profundas na formação ideológica desses grupos.

Períodos prolongados de recessão econômica, por exemplo, costumam jogar muita gente na pobreza. Os ricos, que estão respaldados em patrimônios de grande porte e variedade, normalmente, têm mais segurança para enfrentar etapas demoradas de dificuldade. Os pobres, por sua vez, oscilam entre situações mais ou menos dramáticas de privação, e podem ser transformados em miseráveis. É um risco sempre presente, sobretudo, porque as condições sociais de sua existência só se modificam com muita lentidão e excepcionalidade. Sem ações governamentais concretas, a pobreza raramente retrocede. A história tem demonstrado isso, mesmo nos países mais desenvolvidos. Já a classe média, diante de situações extremas de crise, enfrenta enormes dificuldades decorrentes da perda de poder aquisitivo e da necessidade de mudança de hábitos. Esse declínio não é apenas de natureza material, mas também simbólica. É decréscimo de prestígio, de significado, de posição. É um recuo de vantagens e benefícios usufruídos, uma aproximação perigosa e indesejada da pobreza. E, ao mesmo tempo, um distanciamento cada vez maior daquele mundo almejado dos ricos.

Em meio ao quadro de recessão que marcou a economia brasileira nos anos 1980, os jornais noticiavam que “o empobrecimento causava a evasão escolar”. Dos mais pobres? Não, da classe média, que, encontrando-se “apertada” (sem dinheiro), tirava os filhos das escolas particulares e os transferia para a rede pública. Ao todo, no Rio de Janeiro, entre 1975 e 1981, por exemplo, estimava-se que 100 colégios particulares tinham sido fechados, provocando o aumento do desemprego entre os professores. No depoimento de uma mãe, é possível perceber como parcelas da classe média enxergavam o problema sob o prisma da desdita:

“Conheço muita gente que não encara com naturalidade a escola pública e, algumas vezes, vê a situação como sendo humilhante. A visão que a escola pública não é boa abrange o preconceito de que quem a frequenta são favelados, crianças da periferia e subúrbios. Assim, muitas pessoas acham que elas são portadoras da violência, transmitindo tais impressões para os filhos.” (Jornal do Brasil, 07 de janeiro de 1982, p.8)

O terrível mesmo é a proximidade com a pobreza, o compartilhamento dos mesmos espaços, o risco de contágio da pior doença social — a violência.

O prolongamento da recessão serviu para agravar ainda mais a condição da classe média, nesse período. A instabilidade econômica afetava não apenas os salários mais altos, mas também as faixas intermediárias de remuneração. Tanto no valor nominal dos salários pagos quanto na oferta de empregos qualificados e mais bem remunerados, as perdas havidas se davam tanto no plano material quanto no plano simbólico. Essas experiências marcaram de modo profundo a visão de mundo desse grupo.

“O poder aquisitivo da classe média está sofrendo uma corrosão aguda, concluiu um estudo produzido por economistas da Federação do Comércio de São Paulo. Dois são os agentes da corrosão: o reajuste semestral [de salários] em índices abaixo do INPC (índice nacional de preços ao consumidor) e a incidência crescente de tributos, especialmente o Imposto de Renda sobre os salários.” (Jornal do Brasil, 04 de agosto de 1982, p.15)

“São Paulo — De 1975 até agora, os executivos brasileiros (os profissionais em cargos de gerência e diretoria nas empresas) tiveram uma perda real de 85% em seu poder aquisitivo. Enquanto em 1975 eles chegavam a ganhar, em dólares anuais, 30% mais do que um executivo norte-americano em cargo semelhante, hoje ganham 30% menos. A perda é um pouco mais amena na área dos bancos, que pagam salários até 20% superiores aos vigentes no mercado.” (Jornal do Brasil, 19 de agosto de 1982, p.22)

Pelos cálculos dos consultores contratados para avaliar a situação, os salários dos executivos haviam retrocedido ao nível de 1971. Em parte, pela queda na demanda por esse tipo de profissional, tendo em vista que as empresas estavam fazendo mais “reposição” de pessoal do que criação de novos cargos. A recessão, por sua vez, levava à diminuição das contratações nessa faixa de atuação (gerentes de vendas, gerentes de marketing, gerentes de produção e gerentes de produto).

Esses episódios, que se repetiram e se repetem em outros períodos históricos e de outras maneiras, são exemplos das contingências sociais e políticas que influenciam a formação ideológica de boa parcela da classe média brasileira, em especial, nos grandes centros urbanos do País. Embora não provem nada, posto que não possuam dimensão estatística, ajudam a pensar sobre as características desse imenso grupo de pessoas que, ontem, encheram as ruas plenas de indignação, e, hoje, diante de circunstâncias ainda mais graves, talvez, simplesmente se calam e lavam as mãos.