De volta às classes sociais

Yanis Varoufakis, o renomado economista grego, publicou um artigo, recentemente, no qual retomou a noção de ‘guerra de classes’. Ele fez isso com o intuito de abordar os dois grandes eventos que marcaram o mundo anglo-saxônico atual e tiveram, ao mesmo tempo, forte impacto nas relações internacionais: a eleição de Donald Trump, nos EUA, e a escolha pela saída da União Europeia por parte da Grã-Bretanha, o Brexit. Em ambos os casos, Varoufakis identificou uma guinada ideológica importante da classe trabalhadora, na direção de lideranças de estrato populista, que só pode ser corretamente compreendida à luz da implacável guerra empreendida contra os pobres e da eliminação da noção de classe e de conflito de classe na política.

À parte o interesse intrínseco dessa análise, que lança um olhar curioso e perspicaz sobre a realidade política dos dois principais eixos do poder mundial — Estados Unidos e Reino Unido —, suas principais observações transcendem os limites geopolíticos de ambos e permitem paralelos úteis com outras experiências contemporâneas. A negação das classes e da guerra de classes, assim como a emergência de lideranças populistas na esteira desse descrédito generalizado que se faz da política, têm servido para alimentar ressentimentos e desconfianças, levando a escolhas duvidosas e decepcionantes. No limite, esse projeto político pretende mesmo é apagar qualquer vestígio da classe trabalhadora como protagonista da sua própria história. E conduz a uma cegueira ideológica que beira a demência.

Tanto Trump quanto o Brexit estão sendo digeridos com alguma dificuldade por setores consolidados do sistema capitalista anglo-saxão. Não é de todo estranho o fato de que havia outras preferências políticas, em ambos os lados do Atlântico. Mas, de modo até certo ponto surpreendente, os eleitores fizeram escolhas próprias, ignorando a vontade manifesta desses grupos tradicionalmente hegemônicos, e deixando a perplexidade tomar conta dos analistas de plantão. De um lado, estes se aferram à crença de que foram roubados pelos hackers russos; de outro, iludem-se com a perspectiva de que, afinal de contas, o abandono da União Europeia poderá não ser assim tão ruim. O mais difícil, como aponta Varoufakis, é perceber e/ou reconhecer que há elementos extremamente relevantes que não estão sendo levados em conta pelas abordagens críticas, na dimensão e na profundidade que mereceriam.

“A amplitude das análises encolheu. O crescimento do paroquialismo militante nos dois lados do Atlântico está sendo abordado sob todos os ângulos imagináveis: psicanaliticamente, culturalmente, antropologicamente, esteticamente e, é claro, em termos de identidade política. O único ângulo que tem permanecido totalmente inexplorado é aquele que melhor ajuda a entender o que está acontecendo: a guerra de classes sem tréguas, que foi desencadeada contra os pobres desde o final dos anos 1970.

Desde a grave crise de 2008, as condições socioeconômicas da população trabalhadora, de um modo geral, têm-se deteriorado no mundo todo. E isso tem uma explicação convincente, não é obra do acaso nem produto de qualquer tipo de negligência ou incompetência pessoal. As perdas gigantescas provocadas por uma atividade financeira irresponsável e aventureira foram lançadas sobre os ombros dos trabalhadores pobres, em todas as partes do mundo. Esses mesmos trabalhadores que os analistas preferidos do sistema capitalista se negavam a enxergar como classe e, portanto, como atores políticos fundamentais. Ao ignorá-los como protagonistas, relegaram sua percepção ideológica ao limbo. Quando eles puderam manifestar seu ressentimento e sua aversão ao modelo imposto de cima, foi um “Deus nos acuda” generalizado.

Mas a conta bastante elevada da crise financeira pesou demasiadamente sobre os trabalhadores do mundo, inclusive aqueles dos países mais poderosos e mais prósperos. O empobrecimento de grande parcela da classe trabalhadora não tardou a mostrar as suas várias facetas trágicas, e vem se agravando ao passar dos anos. A insistência na preservação desse modelo altamente concentrador de renda e de privilégios não tem servido para mitigar tais condições.

“Em 2016, o ano do Brexit e do Trump, dois conjuntos de dados, criteriosamente ignorados pelos analistas mais astutos do sistema, contaram a história. Nos Estados Unidos, mais da metade das famílias não tinha condições, segundo os números do Federal Reserve, de fazer um empréstimo para comprar o carro mais barato do mercado (o sedã Nissan Versa, vendido por 12.825 dólares). Por sua vez, no Reino Unido, mais de 40% das famílias dependiam de crédito ou de bancos de alimentos para se alimentar e cobrir suas necessidades básicas.”

Quem melhor soube se aproveitar desse abandono a que fora relegada a classe trabalhadora, nos EUA e no Reino Unido, foram algumas lideranças de cunho populista, que obtiveram os melhores resultados eleitorais, culminando em Trump e Brexit. Ao “abraçar” a classe trabalhadora, acenando-lhe com o reconhecimento das suas dificuldades e dos seus direitos, esses líderes obtiveram forte apoio eleitoral que lhes garantiu condições de levar a cabo inúmeras medidas impopulares que, de outro modo, teriam sido muito mais custosas politicamente falando. No Brasil, por exemplo, a elite só tem conseguido fazer isso por meio de um golpe parlamentar e judicial. Cortes nos investimentos sociais, aumento de impostos, isenções para as corporações e os ricaços têm levado ao agravamento da pobreza e da privação, e não ao contrário. Mas o voto já foi dado, então, só resta aguardar uma próxima rodada eleitoral…

“Trump não teve constrangimentos ao falar abertamente sobre classe, e ao abraçar — embora de modo enganoso — aqueles que são tão pobres que não podem comprar um carro, que dirá mandar os filhos para Harvard. Os defensores do Brexit também abraçaram o ‘populacho’, algo que se refletiu nas imagens do líder do Partido Independente, Nigel Farage, bebendo nos pubs com os ‘homens comuns’. Então, quando grandes parcelas da classe trabalhadora se voltaram contra os filhos prediletos do sistema (os Clinton, Bush, Blair, Cameron) e legitimaram o paroquialismo militante, os comentaristas culparam as ilusões da ralé a respeito do capitalismo.”

Haja meritocracia! Todos os fracassos do sistema em proporcionar uma vida digna à maioria dos cidadãos são jogados sobre os ombros daqueles que constituem as suas principais vítimas. O que se verifica hoje, em larga escala, é que os países capitalistas se especializaram em oferecer todos os tipos de isenções tributárias e vantagens econômico-financeiras aos mais ricos, em troca de uma progressiva retirada de direitos e de benefícios dos mais pobres. Não há outro nome para isso, como sugere Varoufakis: é guerra de classes!

https://www.project-syndicate.org/commentary/class-warfare-fuels-trump-and-brexit-by-yanis-varoufakis-2017-12