Abaixo a ditadura!

Ontem, 21 nov, finalmente foi desmontado o acampamento armado no gramado do Congresso Nacional, cujo objetivo, segundo seus organizadores, era permanecer ali até que fosse votado (a favor, é claro) o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Como houve alguns incidentes perigosos nos dias anteriores, inclusive com disparos de arma de fogo por um dos acampados, contra participantes da Marcha das Mulheres Negras, as autoridades competentes resolveram acatar o pedido de parlamentares que já vinham solicitando o desmonte daquelas barracas. No final da noite deste sábado, 21 nov, o tal acampamento estava devidamente desfeito.

Na realidade, eram dois grupos numa mesma área do gramado. Um, formado pelos arautos do impeachment. Outro, composto por indivíduos adeptos do regime militar, que pregavam a volta da ditadura. Tanto um quanto outro não se constrangem em vilipendiar o Estado de direito e em suprimir a democracia. Acham-se portadores da única “solução” possível para o Brasil: a supressão dos direitos civis. Cidadãos no pleno uso de suas prerrogativas constitucionais não se coadunam com o projeto político desses grupos, se é que se pode chamá-lo assim…

Como se costuma dizer que o brasileiro tem memória curta, resolvi me lembrar. E não acho que o brasileiro tenha memória curta; acho que tem é um raso conhecimento de história e, portanto, uma consciência política capenga. Quando coisas marcantes e decisivas acontecem, por exemplo, faltam-nos elementos sólidos para lhes contrapor ou defender. E é nessas horas que se cumpre o famoso ditado popular: “em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

A ditadura, ao contrário do que muitos dizem creditar, não traz soluções, mas problemas. E, diferentemente do que tentam apregoar, a ditadura interfere em todos os planos da vida humana, constrangendo, reprimindo, tolhendo, ameaçando; e acaba afetando inclusive a intimidade e as relações interpessoais dos indivíduos. Tudo é contaminado pela ambiente de vigilância, censura, repressão e medo. Não apenas as ideias, os projetos políticos, os debates ideológicos sofrem reproche permanente dos órgãos de controle; no plano dos hábitos e costumes incide também a sanha do repressor. Comportamentos e manifestações dotados de liberalidade costumam ser sumariamente rejeitados e reprimidos. Em alguns casos, com a prisão ou com a morte. Ditaduras, em geral, não nutrem nenhuma simpatia pela causa dos excluídos, dos marginalizados, dos oprimidos. Ao contrário, as ditaduras se alimentam justamente do ódio e da rejeição aos ditos “diferentes”. É contra eles que se juntam os ressentimentos dispersos pela sociedade.

Eu estava terminando o ensino médio e me preparando para entrar na faculdade quando se acirrou a repressão do regime militar que se instalara no Brasil em 1964. No colégio, a maioria dos meus professores era de direita e pregava contra os comunistas, os socialistas, os esquerdistas. É provável que os que não fossem preferissem o silêncio — essa também é uma característica das ditaduras: às vezes, é melhor se calar para sobreviver. Meu professor de história era dos mais reacionários e sempre bradava contra o Pasquim, um jornal semanário sensacional, publicado por Ziraldo, Jaguar, Millôr e tantos outros, que acabou se tornando uma das principais trincheiras da resistência ao regime. Eu só olhava para ele, com o meu exemplar do Pasquim devidamente escondido dentro do fichário.

Na faculdade, o ambiente era ainda mais tenso. Havia espiões do governo espalhados por todas as salas, e alguns a gente conseguia identificar com certa facilidade (pelo modo de falar e de se vestir, principalmente). Outros eram mais bem disfarçados e se confundiam com qualquer estudante (por isso, eram mais perigosos) Um desses espiões manjados por todos era o Rubens (seria um codinome?) — um negro alto e forte que não fazia questão de esconder suas intenções. Tanto que, certo dia, sentou-se ao meu lado na sala de aula e, vendo que eu lia o Pasquim, comentou: “Ontem, estive com essa turma do Pasquim.” Eu fiquei curiosa e quis saber onde ele os havia encontrado. Para minha surpresa, ele respondeu: “No quartel da Aeronáutica, no Galeão.” Gelei, mas segurei a onda, tentando aparentar tranquilidade. A gente ainda não sabia que o pessoal tinha sido preso e nem o que aconteceria depois. Por sorte, foi mera intimidação, porque o jornal vinha subindo o tom contra as arbitrariedades do regime. Foi sorte, sim, pois o destino de muitos outros seria bem pior.

Era uma universidade federal que havia sofrido uma verdadeira “limpa” no seu quadro de professores. A maioria tinha sido cassada — perdendo os cargos e sendo impedida de recorrer na justiça. Restara um lacaio do regime que colocara nas disciplinas um monte de mulheres incompetentes e pretensiosas — que haviam sido “assistentes” dele (e sabe-se lá mais o quê). As aulas eram insuportáveis: superficiais e monótonas, não estimulavam ninguém a estudar. Por mais incrível que possa parecer, havia um inspetor na faculdade, que percorria o pátio e os corredores nos intervalos das aulas, dispersando os estudantes que conversavam em grupos. Ele vinha batendo palmas e gritando: “Dispersar! Mais de dois é reunião!” Ou seja, se mais de dois jovens se reunissem para conversar ali, era risco certo de subversão! É inacreditável. Esse era o ambiente tóxico de uma universidade pública que havia sido transformada numa extensão do terror e da repressão com que o regime tentava conter os que resistissem e se opusessem a ele.

Alguns colegas desapareceram. Presos e torturados, não voltaram mais para a faculdade. Um deles, em especial, me tocou sensivelmente. Ficamos amigos durante um bom tempo, mas nossas vidas acabaram tomando rumos diferentes. Sei que ele está bem, apesar dos pesares. Outros não tiveram a mesma sorte. Era terrível viver a juventude naquela época. Em alguns anos, me transferi para outra universidade e comecei tudo outra vez — o ambiente era um pouco melhor, e já começava certa distensão no regime.

Nas artes, em geral, o cerceamento da expressão foi extremamente doloroso. A censura pesava a mão sobre o processo criativo de forma danosa e torpe. O mais cruel, às vezes, era ver a ignorância dos censores, que apresentavam argumentos estapafúrdios e simplórios para justificar os cortes e as proibições que faziam. E mais cruel ainda era perceber a aflição dos artistas, que viviam dificuldades ainda mais dramáticas do que o habitual, para exercer o seu ofício. Teatros eram invadidos, shows eram interrompidos e proibidos, espetáculos eram cancelados em plena temporada. Sem esquecer a “bomba do Riocentro”, que explodiu um pouco antes de realizar o seu intento, que era o de detonar uma manifestação coletiva pacífica em favor da liberdade, que reunia no palco artistas brasileiros consagrados e na plateia, milhares de pessoas.

Presto aqui minha homenagem a todos aqueles que lutaram em favor do Estado de direito, da democracia e da cidadania no Brasil. Ainda temos muito por fazer em benefício da nossa população. Mas já começamos. Preservar essas conquistas é um dever. Avançar em direção à plenitude desses direitos é uma missão. Abaixo a ditadura!

Repressão e racismo

Foi difícil escolher um título para este comentário. O racismo é de tal forma opressivo que a repressão é uma consequência natural de sua mera existência. Toda vítima de racismo é oprimida. Em decorrência disso, as manifestações racistas são também altamente repressoras, pois visam impedir, pela ameaça ou pelo constrangimento, a livre expressão dos oprimidos. No caso específico deste comentário, contudo, a repressão se refere ao conjunto de ações desencadeadas pelo regime militar que vigorou no Brasil de 1964 a 1985, com o objetivo de calar todos aqueles que se insurgissem contra ele. Essa repressão, cujo impacto foi mesmo incisivo sobre o conjunto da sociedade, também teve o seu componente de racismo.

Para ilustrar essa afirmação, vamos lançar mão de dois exemplos colhidos na leitura da biografia de Elis Regina, publicada recentemente. É do conhecimento geral que os compositores brasileiros foram alvos preferenciais da censura imposta à criação artística pela ditadura militar. Todas as letras das canções tinham de passar pelo crivo dos censores antes de serem divulgadas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com João Bosco e Aldir Blanc, no caso de um de seus maiores sucessos: originalmente intitulado “Almirante Negro” acabou sendo batizado como “Mestre-Sala dos Mares” por exigência dos militares encarregados dos serviços de censura do regime. O relato dessa experiência merece ser transcrito:

“Aldir Blanc foi chamado para olhar o diabo nos olhos no Palácio do Catete, no Rio. (…) um oficial se aproximou a ponto de deixar o coldre da arma encostar em seu nariz para dizer que ele e João Bosco estavam errados em fazer uma música exaltando a raça negra.” (p. 218)

Tratava-se de João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, reconhecido herói da Revolta da Chibata (1910), que tentou por um fim às práticas escravocratas violentas e degradantes impostas pelos oficiais da Marinha brasileira aos seus marinheiros, inclusive as temidas chibatadas. Surpreendentemente, mais do que um mero desconhecimento da história do Brasil (o que, em si, já seria muito desabonador), os censores revelaram o seu profundo racismo:

“(…) Depois de Aldir dar uma rápida aula de História e explicar quem era o Almirante Negro, o interrogador aceitou a gravação mas avisou com ameaça: ‘De negro não se fala nem bem nem mal. Simplesmente, não se fala.’ Assim como Cândido Felisberto, o oficial também era negro.” (p. 219)

O silêncio imposto pela censura aos negros nas manifestações culturais brasileiras é bastante emblemático. Embora não houvesse em curso nenhum tipo de movimento ou resistência de conotação explicitamente racial, ele estava sempre implícito. O que isso quer dizer é que, por sua própria trajetória histórica, os negros eram de fato, aos olhos do regime, potencialmente revolucionários. Submetidos a séculos de opressão e maus tratos, explorados e renegados, constituíam per se uma ameaça permanente. Por isso, a necessidade de manter sob controle qualquer fagulha que desencadeasse a sua revolta e/ou despertasse o seu orgulho. A exaltação de seus heróis era uma delas. Em especial, pelo caráter pedagógico de um exemplo de luta que frutificou.

Um outro exemplo marcante que revelou o racismo presente no regime militar se deu com o cantor Toni Tornado, que ficou famoso ao interpretar a canção “BR-3” num Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Sua figura em si já era uma exaltação: alto, forte, vibrante, e com os cabelos em estilo “Black Power”, um sinal claro de afirmação da própria negritude. Com toda a sua exuberância e com o talento reconhecido como intérprete, começou a ser imitado pelos jovens e ganhou expressão popular. Quanto mais crescia o seu prestígio, mais atenção despertava nos círculos de censura e repressão do regime. Toni Tornado começou a causar preocupação:

“(…) Ainda que não tivesse a poesia perigosa e bem informada de um Chico Buarque, sua afirmação racial, confirmada orgulhosamente todas as vezes em que subia a um palco, incomodava e o classificava, na caneta da censura, como uma ameaça ao bem-estar da família brasileira.” (p. 222)

Ao erguer o braço para o alto, com o punho fechado, toda vez que subia ao palco, Tornado despertou as preocupações do regime. Esse era o gesto característico dos Panteras Negras, um partido político fundado nos Estados Unidos, na década de 1960, que propunha o enfrentamento radical do racismo institucionalizado e da brutalidade da polícia contra os negros, em claro antagonismo às ações pacíficas (e pacifistas) realizadas pelos grupos liderados por Martin Luther King e Malcom X. Embora Tornado não estivesse ligado a nenhuma facção revolucionária, foi duramente ameaçado para abandonar o gestual que remetia aos rebeldes. A mera simbologia de seu punho cerrado para o alto era suficiente para desencadear a repressão.

Era isso mesmo que a censura fazia: destruir os símbolos que representavam a ânsia de liberdade e a luta por direitos. Entre tantos, os negros, de um modo geral, tinham muito a reclamar e, ao menos potencialmente, representavam um perigo efetivo ao expressar suas reivindicações por mais direitos. Silenciá-los era, assim, uma medida extrema que pretendia assegurar a continuidade do regime.

Referência:

Julio Maria. Elis Regina. Nada será como antes. São Paulo: Editora Master Books, 2015.