Sobre a China

Ao ver os novos ataques desferidos pelos EUA à China, sobretudo, no campo das relações comerciais, é difícil não pensar num passado de agressões e desmandos semelhantes, que caracterizaram os primeiros contatos duradouros entre Ocidente e Oriente, na era moderna. Buscando escapar das restrições e dos controles estipulados pelo governo imperial chinês à presença de estrangeiros em seu território, as potências ocidentais não economizaram meios de dobrar a resistência chinesa e assim estabelecer o controle definitivo sobre o comércio de uma ampla região muito rica e bastante promissora. Entre esses meios, sem disfarces nem dissimulações, existiram subornos, contrabando e tráfico de drogas.

As marcas profundas desse vale-tudo não causaram impressão duradoura e traumática apenas nos chineses. A derrocada definitiva da resistência imperial e a instalação peremptória de representantes do Ocidente, com inúmeras prerrogativas exclusivas e privilégios insultuosos, percorreram todo o Oriente, levando assombro e perplexidade. Foram os japoneses que deram a isso a resposta mais radical e intensa.

A chegada da frota estadunidense na década de 1850 provocou uma reação em cadeia no Japão, culminando  com uma mudança política decisiva para as décadas seguintes — a Restauração Meiji. Substituindo o antigo regime feudal, cujas diretrizes mais importantes eram o aumento do cultivo de arroz e a coleta de impostos, os novos governantes estimularam a construção de ferrovias, siderurgias e navios de guerra. Essa modernização acelerada, imposta de cima para baixo, representou uma tentativa frenética de livrar o país do domínio imperialista do Ocidente. Nada impressionara mais o espírito dessa nova elite política japonesa do que a queda dramática da China diante das potências ocidentais e as sucessivas passagens humilhantes e grosseiras que marcariam a submissão completa do grande império chinês, com sua cultura milenar e suas tradições resplandecentes.

“Bem ao lado estava a majestosa China imperial — fonte de grande parte da arte, da religião, da escrita e da cultura do Japão. Não obstante, uma das primeiras coisas que as autoridades Meiji descobriram foi que as nações ocidentais avançavam sobre a China como um bando de lobos famintos, cada uma tentando arrancar o máximo que conseguisse. Essas potências, o mesmo tipo de gente que havia enviado seus navios de guerra ao Japão, e que podiam simplesmente destrinchar a China como um peru de Natal, derrotariam da noite para o dia as ilhas japonesas defendidas por bravos jovens e suas espadas.

Foi isso que o novo governo japonês procurou evitar a todo custo. Assim, numa demonstração de adaptabilidade que lhes seria muito útil no século seguinte, as autoridades japonesas decidiram seguir o exemplo das sociedades que temiam. E fariam aquilo que a China tinha deixado de fazer: construir um exército e uma força naval no estilo ocidental, equipá-los com armas ocidentais e garantir-lhes o apoio de uma base industrial nos moldes do Ocidente. Para o governo Meiji, essa foi a Prioridade Número Um.” (Miyashita & Russell, p.21)

Na base de todo esse desenrolar dramático das relações internacionais, no século XIX, estava o comércio, com seus lucros extraordinários e grandes fronteiras a explorar. Nos dias de hoje também: quem ganha mais com transações comerciais vantajosas e crescentes atrai o interesse de novos parceiros, e igualmente a ira de potenciais perdedores. Em meados do século XIX, sobretudo, após vencer a França e isolar a Rússia, quem pontificava como grande potência hegemônica era a Inglaterra, com uma frota mercante inigualável e uma rede mundial de atividades mercantis sem rivais. A “rainha dos mares”, como se tornara conhecida, advogava ainda um princípio que seria determinante na abertura de novos mercados: o liberalismo econômico. O fim do Antigo Regime, com todas as suas restrições e seus monopólios, exclusivismos e privilégios, abrira caminho para uma aceitação cada vez maior do credo liberal. Por bem ou por mal. Resistir a ele acabara se tornando um grande problema.

“Cabe dizer também que a doutrina do liberalismo econômico fazia grandes progressos na época e acabou mesmo por ser de direito divino: era antinatural, logo imoral, para os governos, fechar seu país à livre circulação comercial.” (Panikkar, p.125)

No caso da China, especificamente, a balança comercial mostrava-se sempre deficitária para o Ocidente. Havia pouco (ou nenhum) interesse dos chineses nos produtos ocidentais em oferta, e isso pode ser explicado em termos culturais também. Uma civilização milenar, autocentrada, com pequena abertura para o exterior, capaz de atender às suas necessidades principais por meios próprios, e majoritariamente agrícola.

“O comércio com a China fora durante muito tempo de sentido único. Os europeus praticamente nada tinham para vender em troca das imensas quantidades de seda, de chá e de ruibarbo que compravam. O grande problema sempre consistira em encontrar algo que pudesse responder às necessidades chinesas e evitar as exportações de ouro que até então haviam servido para equilibrar a balança comercial.”(Panikkar, p.125)

“Como oferecer mercadorias que fossem aceitáveis para os chineses e que pagassem pelos chás, e talvez ainda pudessem dar algum lucro — era esse o problema.” (Greenberg, p.9)

Os ingleses buscaram desesperadamente uma solução para reverter esse quadro de déficit comercial permanente. E acabaram encontrando — o ópio. Embora o comércio dessa droga estivesse proibido, desde 1800, com restrições e punições cada vez mais severas, a Companhia das Índias Orientais (inglesa) intensificou essa atividade por meio de um sistema de contrabando (e de suborno de autoridades de fronteira), que se mostrou bastante eficaz.

As reações contrárias do governo chinês e suas sucessivas medidas de combate ao tráfico ilegal nas fronteiras levaram ao recrudescimento das tensões com os comerciantes estrangeiros, afetando, principalmente, as atividades controladas pelos ingleses. Em pouco tempo, os embates se transformaram em conflito militar aberto, resultando em duas “guerras do ópio”: a primeira, em 1839-1842; a segunda, em 1856-1860. Sob pretextos fúteis — como uma briga de rua causada por arruaceiros britânicos embriagados, por exemplo — os ingleses exploraram sua imensa superioridade naval para derrotar os chineses e impor a eles a aceitação de tratados altamente desvantajosos e humilhantes.

Pelo Tratado de Nanquim (29 de agosto de 1842), e mais adiante pelos Tratados de Tientsin, os comerciantes ocidentais passaram a ter acesso ao extraordinário interior do território chinês, que viriam a explorar pela navegação do rio Yangtse, uma das vias de comunicação e transporte mais importantes do Oriente. Também ao longo da costa, puderam estabelecer novos entrepostos e assim comercializar com amplas regiões inexploradas do país. As potencialidades incomparáveis do mercado que a China representava ajudaram a intensificar os esforços de dominação das potências do Ocidente. Para os chineses, inaugurava-se uma era de instabilidade e conflito, que perduraria por muitas décadas.

“O Tratado de Nanquim fixa por 100 anos as condições que regerão as relações entre a China e as nações europeias. Punha um termo forçado ao isolacionismo da China, obrigava-a a comerciar com os países ocidentais e ensinava-lhe, além disso, que, longe de ser superior a todas as outras nações do mundo, talvez fosse a última.” (Panikkar, p.134)

“(…) Não é de espantar, portanto, que os chineses fossem tomados de um ódio feroz pelo estrangeiro e que a autoridade governamental se enfraquecesse continuamente, sob a ameaça dos canhões ingleses, obrigada que era a dobrar-se às pretensões mais desarrazoadas, quase sempre desprezando o sentimento popular.” (Idem, p.137)

A revolta e o ressentimento que se abrigavam nos corações chineses não se deviam apenas aos termos injustos e grosseiros dos tratados impostos ao fim dos conflitos armados. Todas as vantagens comerciais e financeiras arrancadas aos governantes da China, todos os privilégios concedidos aos cidadãos ocidentais em território chinês, todas as excepcionalidades desfrutadas pelos estrangeiros, talvez, parecessem insignificantes diante da destruição perversa e leviana de monumentos e obras de arte cultivadas pelos chineses como verdadeiros tesouros.  Uma das facetas trágicas desse comportamento inaceitável foi a devastação do Palácio de Verão:

“(…) Aí, a soldadesca aliada retomou a tradição de vandalismo que já se manifestara no Pagode de Porcelana, em Nanquim: o palácio que, segundo as palavras do comandantes francês Montauben, ‘era de uma riqueza e de uma beleza sem igual na Europa’, foi submetido sistematicamente à pilhagem pelos oficiais.

Mas o insaciável Lorde Elgin, após ter entrado em Pequim, ordenou que se tocasse fogo a todos esses ‘esplendores’ que os próprios conquistadores haviam considerado ‘difíceis de descrever’. Elgin imaginava, candidamente, que o incêndio do Palácio de Verão impressionaria os orientais e deixaria aos chineses um duradouro pavor dos europeus. É de crer que, segundo uma lógica muito particular, os europeus se houvessem convencido de que o seu prestígio cresceria aos olhos dos asiáticos na proporção de sua crueldade e selvageria.” (Panikkar, p.139-140)

Esse barbarismo iníquo jamais produziu qualquer coisa além de ódio e desprezo. A destruição das realizações esplendorosas de um país e de seu povo não pode ser tratada a não ser pelo que é de fato: uma demonstração de incivilidade, de brutalidade, de desumanidade e, acima de tudo, de estupidez. A passagem do tempo pode ajudar a arrefecer os impulsos, mas não provoca, necessariamente, o esquecimento.

“(…) O incêndio do Palácio de Verão ainda hoje não foi esquecido e um alto funcionário do Governo Central da China Popular dizia-me, em 1951, que a conta ainda continuava aberta e que seria acertada, mais dia menos dia.” (Panikkar, p.140)

É o que vamos ver.

 

Referências:

GREENBERG, Michael. British Trade and the Opening of China, 1800-1842.  New York: Monthly Review Press, 1979.

MIYASHITA, Kenichi & RUSSELL, David. Keiretsu: Inside the Hidden Japanese Conglomerates. New York: McGraw-Hill, 1994.

PANNIKAR, K.M. A Dominação Ocidental na Ásia. 3ª ed. Tradução: Nemésio Sales. Prefácio: Otto Maria Carpeaux. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

 

Divagando sobre o golpe 2

Muito se falou, e ainda se fala, que não haveria golpe no Brasil de hoje por falta de apoio externo. Trocando em miúdos, afirma-se que não interessaria aos Estados Unidos da América (o dono do mundo e senhor absoluto das Américas) desestabilizar o Brasil — que tem a principal economia da América do Sul, a maior população e uma forte projeção cultural no cenário internacional —, sob pena de arrastar a maioria dos países do continente a uma crise política e social sem precedentes, cujo desfecho seria de todo imprevisível. Dadas essas suposições, portanto, o golpe político pretendido no Brasil — que seria perpetrado com a saída forçada de Dilma Rousseff da presidência — não vingaria a não ser como metáfora dos sonhos primeiros e últimos de suas elites mais retrógradas.

Pois eu discordo totalmente dessas avaliações. Justamente porque o Brasil é uma peça assim tão importante do tabuleiro geopolítico atual é que interessaria, sim, aos Estados Unidos da América colocá-lo sob sua tutela direta, garantindo que todo o resto do continente se submetesse aos desígnios econômicos e políticos da potência hegemônica. Seria muito mais fácil realinhar toda a América Latina ao projeto de poder estadunidense se um de seus países mais ricos e mais proeminentes — o Brasil — fosse imediatamente assimilado. Grupos políticos internos garantiriam essa transição dando-lhe a “legitimidade” necessária e colocando em prática as medidas de política econômica concernentes a esse objetivo. Basta observar a dificuldade que estão tendo para aprovar mudanças na legislação que regula a exploração do pré-sal (petróleo), para perceber que um governo mais alinhado aos interesses dos Estados Unidos da América daria suporte e rapidez à adoção dessas propostas, tornando-as mais urgentes e efetivas. O governo brasileiro atual, autor da lei de partilha que está em vigor, e que dá à Petrobras papel de destaque na apropriação dos recursos petroleiros, é um obstáculo evidente ao alcance dessas pretensões.

Senão, vejamos. Historicamente falando, Washington sempre esteve à frente dos principais golpes políticos engendrados na América Latina — e o Brasil não é uma exceção a essa regra. Hoje, sabemos que o regime militar implantado aqui em 1964, por exemplo, contou com a colaboração direta do serviço secreto estadunidense; uma farta documentação sobre esse processo histórico vem sendo disponibilizada e permite confirmar todas as hipóteses e suspeitas alimentadas durante décadas. Em anos mais recentes, veio à tona a denúncia de que esse mesmo serviço secreto estadunidense espionava (e continua espionando) altas figuras da administração pública brasileira, inclusive a presidenta da República e a cúpula da Petrobras. A reação indignada do governo brasileiro tinha fundamentos: essa prática — de todo ilegal — não se coaduna com a postura de países aliados. Washington jamais pediu desculpas por esse ataque à soberania do País, e ficou o dito pelo não dito. Na visita recente de Dilma Rousseff à Casa Branca, o presidente Barack Obama fez o seu teatrinho de “bom amigo e companheiro”, mas muita gente sabe que o serviço secreto estadunidense continua atuando em prol de seus interesses geopolíticos e econômicos. Que não costumam ser exatamente os interesses de seus parceiros não hegemônicos.

Assim sendo, não pareceria de todo irreal que o próprio serviço secreto dos Estados Unidos da América espalhasse essa ideia de que não é seu objetivo perpetrar golpes e desestabilizar o Brasil. É interessante observar que isso começou a circular junto com a intensificação dos esforços para desacreditar Dilma Rousseff e tirá-la do poder. E quando passou a ser dito por gente séria e honesta, que acredita piamente nessa afirmação (ou quer acreditar), ficou ainda mais verossímil. Ou seja, o que se pode supor diante dessa hipótese é que, com base nesse aparente desinteresse que convenceu muitas pessoas, Washington estaria se eximindo de qualquer responsabilidade sobre um eventual golpe, mas poderia estar trabalhando de modo intenso, nos bastidores, para dominar o Brasil e recuperar sua posição hegemônica no continente.

Além disso, nos últimos anos, Washington acumulou também uma grande experiência em derrubar governos, colocando em seu lugar lideranças francamente alinhadas à sua política de poder. Há aspectos traumáticos em todos esses eventos, sem dúvida, mas quem mais sofre mesmo é a população civil. A visão que se tem hoje de milhares de refugiados espalhados pelo mundo é de fato desalentadora. Pessoas arrancadas de suas casas, de seus trabalhos, de seus modos de vida e lançadas no abismo de uma existência sem raízes e sem destino. Rejeitadas, enxotadas, ameaçadas em todos os cantos do mundo. Todavia, passado o sufoco inicial das guerras e dos conflitos, as grandes empresas multinacionais “aparecem” para resolver os principais problemas resultantes, e todo o sofrimento do povo perde significado. O que fica mesmo é a recomposição das esferas de comando, sob a tutela estadunidense. Não creio que desconsiderassem a possibilidade de fazer o mesmo na América Latina, porque as vantagens obtidas seriam infinitamente superiores às eventuais desvantagens que pudessem surgir.

Quem teria mesmo a perder com essa mudança súbita no equilíbrio de poder nas Américas? A China. Por meio de uma diplomacia baseada, sobretudo, nos acordos comerciais, os chineses expandiram e aprofundaram suas posições no continente, sendo que o Brasil aparece numa condição de significativo relevo. Em maio de 2015, o governo de Pequim anunciou investimentos da ordem de 53 bilhões de dólares na economia brasileira, em grande parte destinados a obras de infraestrutura como ferrovias, portos, aeroportos, rodovias e hidrelétricas. O governo brasileiro conta com esses recursos para ajudar o País na retomada do crescimento e na modernização da sua infraestrutura. Isso possibilitaria um salto qualitativo importante, capaz de assegurar algumas décadas de expansão econômica sustentada. Para a China, por meio da compra de participação em negócios nos leilões de concessão feitos pelo governo brasileiro ou do financiamento de bancos chineses a obras desse tipo, é a subida de alguns degraus na escala da sua influência econômica e política sobre o continente americano. Não à toa, escolheu o Brasil como ponta de lança. Seu propósito é elevar os investimentos na América Latina para 250 bilhões de dólares, em uma década.

Tendo isso em vista, pode-se perguntar se os interesses geopolíticos e econômicos dos Estados Unidos da América e da República Popular da China estariam enfrentando hoje uma disputa ferrenha no plano global, com a América Latina (mas não apenas) como um de seus principais cenários. Essa disputa em curso, embora não seja explícita nem assumida claramente, pode estar condicionando determinadas iniciativas e posturas de ambas as potências, com amplas repercussões nacionais e internacionais. Caso isso seja verdadeiro, e diante do acirramento dos intentos de golpe político dos últimos meses, no Brasil, caberia indagar se teria havido alguma contrarreação da China, no sentido de evitar uma troca de comando no governo brasileiro e, assim, assegurar a continuidade de sua influência crescente sobre o Brasil e a América Latina? Teria sido a China capaz de se antepor à sanha golpista de Washington, forçando um recuo das usuais tramoias e maquinações que põem e dispõem sobre os destinos dos povos latino-americanos (ainda que temporário)? Trata-se aqui de meras especulações. Só o tempo dirá se alguma delas tem algum fundamento.

Corrupção (e impunidade)

Certa vez, eu disse, em sala de aula, que a polícia “precisava” ser corrupta no sistema capitalista, pois, caso contrário, inúmeras atividades altamente lucrativas deixariam de existir. Foi um verdadeiro “Deus nos acuda”! A maioria dos alunos foi tomada de profunda indignação: como eu podia fazer uma afirmação daquelas?! Afinal de contas, a corrupção policial estava na origem dos mais variados tipos de crimes e devia ser combatida com todo rigor, sem tréguas. Deixei claro que não estava defendendo a corrupção da polícia; apenas fazia o registro de sua sistemática ocorrência, a fim de introduzir o tema da aula. Negar a corrupção policial, por outro lado, ou simplesmente ignorá-la não nos ajudaria a entender muitos fenômenos e processos históricos que nos dizem respeito.

O tema da aula era a expansão do comércio britânico no século XIX, sendo que um dos seus aspectos mais marcantes havia sido justamente a “abertura” da China. Durante muito tempo, as trocas comerciais dos europeus com a China foram amplamente favoráveis a esta última. As imensas quantidades de seda, chá e ruibarbo que os chineses vendiam não encontravam correspondência nos produtos oferecidos pelos europeus, obrigando-os a promover a exportação de grandes quantidades de ouro, a fim de equilibrar a sua balança comercial. Desde meados do século XVIII, o chá tinha se tornado a “bebida nacional” da Grã-Bretanha, levando as autoridades a demandarem que os mercadores jamais deixassem faltar o produto na mesa da população, sob pena de provocar uma crise sem precedentes.

O comércio do ópio, embora totalmente proibido em território chinês desde 1800, foi o ponto de partida para uma radical reversão dessa tendência que marcava as relações comerciais entre europeus (sobretudo, britânicos) e chineses. Por meio de métodos ilícitos como o contrabando, o tráfico de drogas e a pirataria, os mercadores estrangeiros conseguiram penetrar no território da China, até então bastante restrito à sua atividade predadora, contando ainda com a cumplicidade de diversos funcionários públicos, com destaque especial para a polícia de fronteiras. Sem essa ajuda, certamente, teria sido muito mais difícil burlar as regras rígidas com que o governo imperial tentava coibir o comércio do ópio dentro do país. De modo progressivo, o consumo da droga foi se alastrando entre a população, até alcançar o patamar de regularidade pretendido.

Oficialmente, as potências ocidentais alegavam as virtudes do livre comércio para justificar os “esforços” que faziam no sentido de ampliar as trocas comerciais com a China, um império fechado à penetração estrangeira e orgulhoso de suas tradições e superioridade. A bandeira do livre comércio incluiu até o progressivo desaparecimento do monopólio desfrutado pela centenária Companhia das Índias Orientais, dando lugar ao florescimento de novos grupos mercantis mais propensos a operar em escala global. Embora essas mudanças pudessem dar a aparência de novos ares nas relações entre Oriente e Ocidente, o fato é que as potências ocidentais jamais deixaram de zelar pelos próprios interesses, mesmo que isso significasse proteger atividades ilícitas que podiam por em risco a segurança de terceiros.

Quando o governo imperial chinês finalmente resolveu confrontar os traficantes de ópio em seu território, foi surpreendido pela intervenção da marinha britânica no conflito, decidida a resguardar os “interesses comerciais” de seus súditos e fortemente armada e preparada para os combates. O pretexto surgido foi amplamente aproveitado para forçar uma série de concessões da parte do governo da China, o que ficou consagrado no Tratado de Nanquim, assinado em 29 de agosto de 1842. Todas as medidas previstas no tratado convergiam para aquele que fora o grande objetivo britânico (e que, secundariamente, acabou sendo também explorado pelas demais potências): a abertura comercial (quase irrestrita) da China e a obtenção de vantagens extraordinárias para os mercadores europeus.

A supremacia do Ocidente na China perduraria por mais de um século. Iniciada com a venda ilegal do ópio produzido na Índia, sob os auspícios das autoridades coloniais britânicas, essa dominação prosseguiu e se expandiu por intermédio de uma série de elementos de cunho político e jurídico, que incluíam até mesmo o chamado direito de extraterritorialidade (quando os indivíduos podem ser julgados pelas leis de seu próprio país, mesmo estando em território estrangeiro). Dessa forma, a polícia, assim como o legislativo e o judiciário, foi largamente corrompida para garantir aos dominadores que seus arbítrios e ilegalidades não fossem punidos de acordo com os costumes, as leis e as tradições das populações subjugadas. O resultado disso foi a mais completa impunidade. Como eu disse no início, para que muitas atividades altamente lucrativas possam continuar existindo, é preciso corromper algumas das instituições mais efetivas no combate à criminalidade. Foram essas as explicações que acabaram acalmando os meus alunos naquele dia…

Referências:

Michael Greenberg. British Trade and the Opening of China, 1800-1842. Nova York, Londres: Monthly Review Press.

  1. M. Panikkar. A Dominação Ocidental na Ásia. Do século XV aos nossos dias. 3ª ed. Tradução: Nemésio Salles. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

Rio de Janeiro, 04 de janeiro de 2015.