Um modelo excludente

Gentrificação é uma palavra nova em nossa língua. Na realidade, é mais do que um simples neologismo, porque se trata da importação direta de uma experiência histórica por trás da palavra. A gentry, tal como ficou conhecida, era uma camada relativamente numerosa de pequena nobreza rural inglesa, cuja principal característica sociocultural foi justamente o seu progressivo aburguesamento, ou melhor, a sua mais rápida integração aos valores do capitalismo em formação. Longe de se identificar ao Antigo Regime, a gentry projetou-se no novo modelo socioeconômico em formação e se tornou uma de suas principais protagonistas. É uma “nobreza burguesa”, portanto.

Gentrificação vem daí. O termo começou a ser empregado na própria Inglaterra, a partir dos anos1960, para se referir aos processos de remodelação urbana que se caracterizavam pela rápida valorização imobiliária de determinados bairros e áreas, cujas consequências mais imediatas costumavam ser o deslocamento de antigos moradores e demais ocupantes, em virtude do encarecimento acentuado dos imóveis para compra e/ou aluguel. Embora o termo seja recente, o fenômeno é bastante antigo na história das cidades. O Rio de Janeiro, por exemplo, é pródigo em experiências de gentrificação, que datam mesmo do início do século XX.

Embora seja mais comum tratar do fenômeno da gentrificação em termos de bairros e áreas urbanas mais amplas, podemos começar a pensar em pequenas inserções dessa transformação que acabam afetando sobremaneira a vida cotidiana de diversos grupos sociais e pessoas. Ontem, observei alguns detalhes que me fizeram pensar sobre isso. No bairro onde moro, há um grande supermercado situado bem próximo à única favela do local. Para os moradores do morro, basta descer a ladeira e a rua que fica em frente para chegar lá, o que é uma boa facilidade para quem não tem carro e faz as suas compras (grandes ou pequenas) carregando todo o peso na mão.

Pois bem, o tal supermercado sofreu uma reforma recente, mudou de nome e de fachada, ficou mais limpo e organizado, e aumentou os preços! Ontem, ao entrar lá, me surpreendi com as novas características do local e, sobretudo, com os preços: estavam bem mais caros do que os outros supermercados do bairro costumam cobrar. E percebi que o público pagante era formado principalmente por pessoas brancas e de classe média, pelo menos era isso que seu aspecto indicava (o tipo de roupa e de acessórios que usavam, os carros parados no estacionamento). Enfim, um caso de gentrificação restrito a uma loja, mas capaz de provocar modificações importantes na vida das pessoas do bairro. Os moradores da favela, em sua maioria, provavelmente, serão afastados dali em virtude dos preços cobrados pelos bens essenciais comercializados. E terão de fazer as suas compras em mercados mais distantes, com melhores preços, obrigando-os a andar distâncias maiores ou até a tomar uma condução.

Por enquanto, foi o supermercado que se aburguesou e afastou os consumidores de renda mais baixa. Num claro processo de gentrificação. Mas a cidade do Rio de Janeiro está em ebulição, passando por diversas obras de remodelação como as da área portuária e as da Olimpíada de 2016. É bem provável que esse modelo excludente siga em frente e continue provocando o deslocamento das camadas mais desfavorecidas, privando-as de pequenas comodidades e de pequenos confortos que se tornam tão importantes na vida complexa das grandes cidades. E fazendo com que recaia sobre elas o peso maior da mudança.

Foi na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII que se fortaleceu uma camada social rural, a gentry, cujo processo de ascensão econômica e social se deu em simultâneo às perdas significativas sofridas pelo campesinato. Incapazes de manter os seus pedaços de terra, em razão de endividamentos, más colheitas, degradação ambiental, os camponeses ingleses foram sendo progressivamente privados da sua condição de pequenos proprietários rurais, perdendo a terra e se tornando proletários no campo e/ou na cidade. Qualquer semelhança com os processos atuais de gentrificação, aqui e em qualquer outro lugar do mundo, não é mera coincidência!

Rio de Janeiro, 18 de novembro de 2014.

 

Falta d’água

O abastecimento de água para as populações urbanas sempre foi uma questão crucial. As cidades dependem do fornecimento regular dos bens e serviços essenciais à existência das comunidades humanas. Do contrário, pela própria natureza da aglomeração populacional e da interdependência que se estabelece entre todos os habitantes dos centros urbanos, instalam-se situações de calamidade e de risco. Pena que só nos lembramos disso nos momentos de crise.

Historicamente, pode-se dizer que a falta d’água tem sido um fenômeno recorrente. Pelo menos no caso do Rio de Janeiro são relativamente abundantes os casos de interrupção do fornecimento regular de água para a população, se não em todo o espaço geográfico da cidade, ao menos em muitas de suas regiões e de seus bairros, de modo contínuo ou alternado. Olhando em retrospectiva, é possível observar que, de fato, o problema nunca foi completamente solucionado.

Vou citar aqui dois casos específicos que estudei um pouco. Deve haver muitos outros. Os exemplos citados não são exceções.

No verão de 1889, e debaixo de um forte calor que atormentava os moradores do Rio de Janeiro, então a sede da monarquia, ocorreu um período de grave estiagem que acabou por comprometer o já precário sistema de abastecimento de água da Capital. Devido às graves dificuldades que isso trazia para a população, o assunto ganhou estrondosa repercussão na imprensa, provocando vários debates e discussões que terminavam sempre reclamando uma solução urgente por parte do governo.

Coube a Rui Barbosa, então redator do jornal Diário de Notícias, fazer uma das mais ardorosas defesas de medidas drásticas para resolver o problema, agravado pela presença de uma epidemia de febre amarela associada a vários casos de varíola, que dizimavam a população. No início de março de 1889, depois de assistir a inúmeras idas e vindas das autoridades, que não apresentavam nenhuma medida emergencial efetiva, o Diário de Notícias lançou um desafio aos técnicos e engenheiros para que oferecessem as devidas providências. No dia 15 de março, o jornal publicou uma carta assinada pelo engenheiro Paulo de Frontin, na qual ele se comprometia a solucionar a questão “em apenas seis dias”.

As autoridades competentes, aparentemente satisfeitas e aliviadas com o surgimento de uma proposta para solucionar o problema, logo aceitaram as condições impostas pelo engenheiro Frontin para realizar os trabalhos no prazo previsto. No dia seguinte, embarcaram o material e o pessoal necessários ao empreendimento rumo à Serra do Tinguá, onde seria feito o desvio das águas destinado a abastecer o Rio de Janeiro.

Um correspondente do jornal Diário de Notícias (o jornalista Luiz de Andrade) fez parte da comitiva e acompanhou de perto a atividade frenética desenvolvida sob o comando de Frontin. Sua última coluna sobre o episódio, datada do dia 25 de março de 1889 e publicada na primeira página do jornal, é uma simpática descrição das belezas do lugar e do sucesso final dos trabalhos.

Ao cabo dos seis dias definidos no contrato, jorraram nos reservatórios da cidade do Rio de Janeiro os milhões de litros d’água que haviam sido prometidos, para alívio da população e dos governantes. Apesar de barrenta, a água chegou abundante e solucionou temporariamente a grave crise de abastecimento. Nem a chuva torrencial que se abateu sobre a cidade naquele mesmo dia foi capaz de empanar o brilho do feito heroico. Conhecido como “água em seis dias”, o episódio muito contribuiu para a construção do mito em torno de Paulo de Frontin, cujo nome passou a ser associado a competência técnica e capacidade profissional.

Décadas depois, o Rio de Janeiro voltava a exibir um enorme descontentamento de seus habitantes diante da precariedade do fornecimento de água, que se tornava ainda mais dramático nos meses de verão, por causa do intenso calor. As manifestações de contrariedade e revolta dos moradores longe de mobilizarem as autoridades competentes para a mais rápida solução do problema arrancavam delas declarações estapafúrdias e inconsequentes: “Não há falta d’água, o povo tem psicose” (de um diretor do Departamento de Águas e Esgotos do Distrito Federal, publicada no Diário de Notícias, em 14 de janeiro de 1956, Segunda Seção, p.1).

A imprensa carioca deu grande destaque ao problema grave e incômodo da falta d’água. Ao entrevistar engenheiros da Prefeitura, obteve explicações como o aumento considerável da população local, a ocorrência de um número maior de vazamentos (causados pelo tráfego pesado de veículos sobre os encanamentos) e a redução do volume de água distribuída durante os períodos de estiagem nas adutoras e nos mananciais que abasteciam a cidade (Jornal do Brasil, 04 de junho de 1957, p.11).

Os jornais da Capital publicavam boletins diários apontando se estava ou não normalizado o abastecimento nesse ou naquele bairro e anunciando as medidas de racionamento adotadas para enfrentar o problema, que já alcançara o déficit estimado de 100 milhões de litros de água/dia. Havia grande preocupação não apenas com relação à população do Rio, mas também quanto à capacidade que a cidade teria de se tornar um destino turístico apreciável, em especial para um público mais exigente e sofisticado.

Apesar da gravidade do tema, e da aflição que causava, não faltaram as galhofas de praxe. Foi assim que um deputado subiu à tribuna da Câmara para reclamar da prolongada falta d’água no bairro de Copacabana: sua conclusão foi a de que, a continuar aquele estado calamitoso, a Câmara dos Deputados seria obrigada a solicitar a inclusão de Copacabana no Polígono das Secas! (Diário Carioca, 24 de fevereiro de 1956, p.4)

O fato de que o problema esteja de volta às manchetes dos jornais e dos portais de notícias da Internet suscita diversas questões. Uma delas remete à nossa incapacidade secular de apresentar soluções duradouras para as principais necessidades. Outra, no entanto, revela graus muito distintos de comprometimento da imprensa nativa, ontem e hoje, com as causas do bem-estar geral da população.

Rio de Janeiro, 07 de novembro de 2014.