O triunfo da mediocridade aventureira

“Nas formas da vida coletiva podem assinalar-se dois princípios que se combatem e regulam diversamente as atividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos tipos do aventureiro e do trabalhador.” (p.18)

Têm aparecido com muita frequência nas redes sociais comentários e postagens carregados de desprezo e de desrespeito pelos valores intelectuais estabelecidos e pelo conhecimento científico, em geral. Pretensos iconoclastas prometem colocar abaixo todas as concepções científicas e acadêmicas consolidadas ao longo de séculos de estudos, desautorizando, sem base nenhuma, a não ser as suas próprias convicções, todo o conjunto de enunciados científicos que marcam a história da civilização ocidental. O ápice dessa postura é a difusão da crença de que a Terra é plana. Lideranças políticas e religiosas proclamam o fim das universidades tal qual existem, e exigem que elas se dediquem a formar “profissionais adequados ao mercado de trabalho”, abandonando aquilo que chamam de “viés ideológico” em seus currículos acadêmicos, ementas e disciplinas lecionadas. O alvo principal dos ataques constantes desferidos contra a comunidade intelectual do país são os professores. E os professores de história em maior grau, é claro.

Ao mesmo tempo, tem se ampliado o debate em torno dessa tendência. Jornalistas, escritores, professores de várias áreas têm se dedicado a discutir as origens e os fundamentos dessa propensão ao obscurantismo, desse chamamento ao anti-intelectualismo em geral, desse combate permanente aos valores consagrados por séculos de estudos científicos e filosóficos, que pretenderam explicar o mundo e torná-lo plenamente habitável pela espécie humana. A experiência coletiva da humanidade em busca de condições satisfatórias para a vida sobre a terra — que envolve tanto os aspectos materiais da produção quanto os elementos imateriais da existência do homem — vem sendo progressivamente eliminada pelo voluntarismo grosseiro e incivilizado daqueles que enxergam em todas as expressões de saber uma conotação “esquerdista”, “marxista”, “comunista” a ser banida e excluída para sempre do mundo real.

No intuito de contribuir para o entendimento desse horror disseminado a tudo que diz respeito à cultura e ao conhecimento, lembro aqui um dos capítulos mais extraordinários de Sérgio Buarque de Holanda, em sua obra intitulada Raízes do Brasil. “Trabalho e aventura”, o capítulo 2, resume alguns dos aspectos mais marcantes da formação histórica brasileira, que podem ajudar na compreensão desse momento trágico em que se busca apagar os grandes ensinamentos de cientistas e filósofos, sem colocar absolutamente nada em seu lugar, a não ser uma pregação vazia e tosca de um suposto combate ao “comunismo” ou ao “marxismo cultural”, encarnados aleatoriamente na ciência, na filosofia e na cultura do mundo.

Parece relativamente claro que um movimento ideológico com essa envergadura não brota do chão por meio de geração espontânea. Para frutificar, ele precisa se ancorar em alguma ou em algumas facetas socioculturais arraigadas nas sociedades das quais retira a identificação e a simpatia dos grupos que assumirão afinidades diretas com ele. Os dois tipos que Sérgio Buarque de Holanda escolheu, nesse capítulo, para situar e ordenar o conhecimento dos homens e das formações sociais, conforme dito antes, foram o “trabalhador” e o “aventureiro” — e foi com eles que tentou compreender a grande obra de conquista e colonização dos novos mundos, dentro da qual surgiria o Brasil. São esses dois tipos, talvez, que poderão nos ensinar como se encaixa esse projeto de destruição do saber nos rumos atuais da sociedade brasileira.

Basicamente, o “trabalhador” e o “aventureiro” se distinguem por duas éticas totalmente distintas: ao primeiro, compraz o esforço alargado e contínuo, que se destina a conquistas sólidas que demandam tempo; ao segundo, só interessam as recompensas imediatas, as energias gastas apenas para um gozo subsequente. Olhando para o cenário atual, é inevitável fazer-se a pergunta: estaríamos nos voltando para uma conduta predominantemente apoiada na aventura, em detrimento do trabalho?

“Essa ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos, de posições e riquezas fáceis, tão notoriamente característica da gente de nossa terra, não é bem uma das manifestações mais cruas do espírito de aventura? Ainda hoje convivemos diariamente com a prole daquele militar (…) que não se envergonhava de solicitar colocação na música do palácio, do amanuense que não receava pedir um cargo de governador, do simples aplicador de ventosas que aspirava às funções de cirurgião-mor do reino…” (p.21-22)

Impossível não pensar nos dias atuais, em que ministros, políticos, militares mentem sobre suas qualificações, inventando currículos, títulos e diplomas que nunca tiveram. E em que figuras totalmente despreparadas assumam cargos e encargos relevantes na República, nomeados apenas e exclusivamente pelas relações pessoais que mantêm com os eleitos. Para o triunfo desses “aventureiros” medíocres, é necessário que o mérito dos “trabalhadores” seja completamente desmerecido e depreciado. Mesmo que seja com mentiras, com falseamentos, com acusações infundadas. Custe o que custar. Não é a competência que determina o exercício da atividade, é a boa relação com quem possa nomeá-lo. A imposição dessas condições na máquina pública se beneficia de uma desconstrução prévia de tudo que seja tributário da ciência, do conhecimento, do respeito ao saber e aos sábios. A aventura suplanta o trabalho.

“Em sociedade de origens tão personalistas como a nossa, é compreensível que os simples vínculos de pessoa a pessoa, independentes e até exclusivos de qualquer tendência para a cooperação autêntica entre os indivíduos, tenham sido quase sempre os mais decisivos. As agregações e relações pessoais, embora por vezes precárias e, de outro lado, as lutas entre facções, entre famílias, entre regionalismos, faziam dela um todo incoerente e amorfo. O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras.” (p.42)

Explica a formação histórica do Brasil. Mas vale ainda para os dias de hoje. A construção de um arcabouço político no país se fez tributária dessas características fundamentais. Sem eliminar seus fundamentos, periodicamente, elas teimam em voltar!

Referência:

Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. 4ª edição revista pelo autor. Prefácio de Antonio Candido. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1963.