Entre ricos e pobres

Temos acompanhado, nos últimos dias, uma série de denúncias de corrupção que atinge em cheio o núcleo do governo que tomou o poder após a destituição da presidenta eleita em 2014 — Dilma Rousseff. São casos graves de corrupção e tráfico de influência que envolvem, principalmente, o atual presidente, Michel Temer, e o principal líder político do governo, senador Aécio Neves. Tendo à frente dessas denúncias o procurador-geral da República (Rodrigo Janot) e o ministro do Supremo Tribunal Federal responsável pela operação que investiga a corrupção na Petrobras (Edson Facchin), percebe-se uma reviravolta no rumo das ações judiciais contra políticos, as quais, até então, miravam exclusivamente nos membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e seus aliados. Como explicar isso é o desafio enfrentado por todos aqueles que se interessam pelos destinos do Brasil. Por ora, as análises parecem todas inconclusivas. No calor da hora, é muito mais difícil perceber claramente a direção dos ventos.

Em todo caso, muitos analistas audaciosos que se dispõem a navegar nesses mares revoltos têm se perguntado onde estão aqueles que encheram as ruas e esbravejaram para tirar Dilma Rousseff da presidência? E sem que pesasse sobre ela nenhuma denúncia de corrupção ou malfeito. E o mais intrigante: a principal/maior rede de comunicação do País já desembarcou da canoa furada conduzida por Temer e pede a sua renúncia em editoriais e noticiários de TV. Algo impensável há apenas alguns dias…

Sempre desconfiei dos pruridos éticos de uma sociedade, como a brasileira, que tende a fechar os olhos para o golpismo e a vigarice. O convívio alegre e cordial com os mais variados tipos de escroque percorre a história do Brasil. Alguns, inclusive, passaram a fazer parte do folclore político e costumam ser evocados em artigos e charges. A chegada do PT ao poder, no entanto, produziu mudanças importantes nesse padrão de comportamento e deu origem a uma nova roupagem ideológica que seria vestida por muitos, muitos: a dos “moralistas sem moral”, como bem os definiu a presidenta Dilma Rousseff. De uma hora para outra, o País se encheu de indignados! Intolerantes e preconceituosos, e bastante influenciados pela mídia, eles passaram a identificar o PT e seus representantes com o que havia de pior na política. Práticas condenáveis, que jamais deveriam ter sido admitidas, mas sempre foram toleradas ou ignoradas, começaram a ser condenadas com violência e serviram de base a uma perseguição implacável aos petistas. O ponto culminante dessa escalada de ódio foi a destituição da presidenta Dilma, sem que pudessem lhe imputar nenhum crime de responsabilidade. Golpe, portanto.

Hoje, quando nos vemos diante de denúncias tão graves contra os atuais governantes, é impossível não indagar: onde estão os indignados de ontem? Por que não enchem mais as ruas com suas camisas da seleção brasileira de futebol para dar um basta à corrupção? Por que tantas vozes estridentes subitamente se calaram?

Não tenho respostas conclusivas, apenas indagações. Em primeiro lugar, observo que grande parte das massas que encheram as ruas para depor Dilma Rousseff era composta de membros da classe média. Em sua maioria, brancos, alguns acompanhados das babás dos seus filhos, outros a beber champanhe. Todos, sem exceção, se diziam patriotas e gritavam “eu quero o meu país de volta!”, tendo na bandeira brasileira o seu principal adereço. A ela se abraçavam com imenso ardor, como se lhe pedissem abrigo. Estavam inflamados de ódio ao PT e dispostos a fazer de tudo para escorraçá-lo.

Muito já se falou sobre o papel da classe média no tênue equilíbrio das sociedades capitalistas contemporâneas. “Espremida” entre os poucos ricos e os muitos pobres, a classe média tem enorme dificuldade de compreender o seu desconforto, porque não consegue ou não quer enxergar que seu algoz está no andar de cima, e não no andar de baixo. Isso ocorre, em grande medida, por causa das escolhas ideológicas que muitos membros da classe média costumam fazer, a meu ver, de forma equivocada. Como almejam pertencer um dia àquele 1% de ricos privilegiados que governam o mundo, tendem a negar qualquer crítica ou condenação a esse grupo e tentam preservá-lo a todo custo. Não se pode esquecer que a burguesia recém-criada na era dos Estados nacionais europeus buscou a ascensão social justamente por meio de casamentos e de alianças profissionais com os aristocratas — aqueles que detinham o poder de fato. Mal comparando, a classe média de hoje tem objetivos semelhantes: seu grande projeto é chegar lá, no mundo dos ricos (mesmo que faça isso servindo a eles).

Ora, a emergência dos pobres, por intermédio de políticas públicas de inclusão social e de enfrentamento às desigualdades, colocadas em prática pelos governos do PT, foi pressentida como uma grande ameaça a esses propósitos. Por um lado, porque aumentaria o contingente de remediados a disputar um lugar entre os ricos. Por outro, porque colocaria em risco os poucos privilégios já alcançados, que poderiam escapar das mãos diante de alguma eventualidade ou crise. Esses receios, embora possam parecer frutos da imaginação, na verdade, estão escorados em experiências históricas concretas que deixaram marcas profundas na formação ideológica desses grupos.

Períodos prolongados de recessão econômica, por exemplo, costumam jogar muita gente na pobreza. Os ricos, que estão respaldados em patrimônios de grande porte e variedade, normalmente, têm mais segurança para enfrentar etapas demoradas de dificuldade. Os pobres, por sua vez, oscilam entre situações mais ou menos dramáticas de privação, e podem ser transformados em miseráveis. É um risco sempre presente, sobretudo, porque as condições sociais de sua existência só se modificam com muita lentidão e excepcionalidade. Sem ações governamentais concretas, a pobreza raramente retrocede. A história tem demonstrado isso, mesmo nos países mais desenvolvidos. Já a classe média, diante de situações extremas de crise, enfrenta enormes dificuldades decorrentes da perda de poder aquisitivo e da necessidade de mudança de hábitos. Esse declínio não é apenas de natureza material, mas também simbólica. É decréscimo de prestígio, de significado, de posição. É um recuo de vantagens e benefícios usufruídos, uma aproximação perigosa e indesejada da pobreza. E, ao mesmo tempo, um distanciamento cada vez maior daquele mundo almejado dos ricos.

Em meio ao quadro de recessão que marcou a economia brasileira nos anos 1980, os jornais noticiavam que “o empobrecimento causava a evasão escolar”. Dos mais pobres? Não, da classe média, que, encontrando-se “apertada” (sem dinheiro), tirava os filhos das escolas particulares e os transferia para a rede pública. Ao todo, no Rio de Janeiro, entre 1975 e 1981, por exemplo, estimava-se que 100 colégios particulares tinham sido fechados, provocando o aumento do desemprego entre os professores. No depoimento de uma mãe, é possível perceber como parcelas da classe média enxergavam o problema sob o prisma da desdita:

“Conheço muita gente que não encara com naturalidade a escola pública e, algumas vezes, vê a situação como sendo humilhante. A visão que a escola pública não é boa abrange o preconceito de que quem a frequenta são favelados, crianças da periferia e subúrbios. Assim, muitas pessoas acham que elas são portadoras da violência, transmitindo tais impressões para os filhos.” (Jornal do Brasil, 07 de janeiro de 1982, p.8)

O terrível mesmo é a proximidade com a pobreza, o compartilhamento dos mesmos espaços, o risco de contágio da pior doença social — a violência.

O prolongamento da recessão serviu para agravar ainda mais a condição da classe média, nesse período. A instabilidade econômica afetava não apenas os salários mais altos, mas também as faixas intermediárias de remuneração. Tanto no valor nominal dos salários pagos quanto na oferta de empregos qualificados e mais bem remunerados, as perdas havidas se davam tanto no plano material quanto no plano simbólico. Essas experiências marcaram de modo profundo a visão de mundo desse grupo.

“O poder aquisitivo da classe média está sofrendo uma corrosão aguda, concluiu um estudo produzido por economistas da Federação do Comércio de São Paulo. Dois são os agentes da corrosão: o reajuste semestral [de salários] em índices abaixo do INPC (índice nacional de preços ao consumidor) e a incidência crescente de tributos, especialmente o Imposto de Renda sobre os salários.” (Jornal do Brasil, 04 de agosto de 1982, p.15)

“São Paulo — De 1975 até agora, os executivos brasileiros (os profissionais em cargos de gerência e diretoria nas empresas) tiveram uma perda real de 85% em seu poder aquisitivo. Enquanto em 1975 eles chegavam a ganhar, em dólares anuais, 30% mais do que um executivo norte-americano em cargo semelhante, hoje ganham 30% menos. A perda é um pouco mais amena na área dos bancos, que pagam salários até 20% superiores aos vigentes no mercado.” (Jornal do Brasil, 19 de agosto de 1982, p.22)

Pelos cálculos dos consultores contratados para avaliar a situação, os salários dos executivos haviam retrocedido ao nível de 1971. Em parte, pela queda na demanda por esse tipo de profissional, tendo em vista que as empresas estavam fazendo mais “reposição” de pessoal do que criação de novos cargos. A recessão, por sua vez, levava à diminuição das contratações nessa faixa de atuação (gerentes de vendas, gerentes de marketing, gerentes de produção e gerentes de produto).

Esses episódios, que se repetiram e se repetem em outros períodos históricos e de outras maneiras, são exemplos das contingências sociais e políticas que influenciam a formação ideológica de boa parcela da classe média brasileira, em especial, nos grandes centros urbanos do País. Embora não provem nada, posto que não possuam dimensão estatística, ajudam a pensar sobre as características desse imenso grupo de pessoas que, ontem, encheram as ruas plenas de indignação, e, hoje, diante de circunstâncias ainda mais graves, talvez, simplesmente se calam e lavam as mãos.

Pobre de direita

Tem uma expressão que circula com bastante frequência no Twitter, que é um misto de ironia e perplexidade por representar uma contradição em si mesma. Essa expressão é “pobre de direita”. Ela pretende designar aquela pessoa que, não sendo rica nem privilegiada, defende com unhas e dentes os valores e os princípios dos endinheirados e privilegiados. Ao tomar para si a defesa desses interesses, por suposto, o pobre de direita assume uma postura de reprovação a toda e qualquer iniciativa que vise ampliar os direitos sociais por meio de políticas públicas afirmativas. Como os projetos políticos da esquerda se identificam com tais ações sociais, cabe justamente à direita configurar o campo de oposição a elas e exercer o combate efetivo à implantação ou à continuação de suas trajetórias. Daí, o fenômeno do pobre de direita.

Em geral, o pobre de direita odeia o sistema de cotas — que oferece oportunidades àqueles que sempre foram sistematicamente excluídos dos benefícios sociais (como negros, índios e deficientes, por exemplo). O pobre de direita também odeia o programa Bolsa Família — que oferece uma renda mínima às famílias mais pobres, para que não passem fome. O pobre de direita rejeita toda e qualquer iniciativa que destine recursos ou benefícios às camadas mais pobres da população, sejam eles referentes à moradia, assistência médica e hospitalar, ensino e qualificação profissional, e tantas outras. O pobre de direita é um defensor intransigente da meritocracia alardeada pelos ricos e privilegiados. Segundo os critérios do mérito, “cada um recebe aquilo que fez por merecer”. Por um lado, se você alcança o sucesso na vida pessoal e profissional, é porque é merecedor: se esforçou, se dedicou, batalhou muito para chegar lá. Por outro, se você fracassa parcial ou integralmente na vida pessoal e profissional, é porque não é merecedor, não se esforçou, não se dedicou, não batalhou muito para chegar lá. O sucesso ou o fracasso dependem apenas de você! Simples assim.

Na base da meritocracia, reside o mais profundo menosprezo pela desigualdade social escandalosa que sempre caracterizou o Brasil. Não importam as condições díspares e desconformes das quais temos de partir em direção ao futuro. A meritocracia como princípio organizador da vida social é um verdadeiro tapa na cara da justiça social. Prega o desnível, a assimetria, a dissemelhança como virtude. Já falei sobre isso no post anterior. O mais extraordinário em tudo isso é a emergência da figura do pobre de direita. Desse cidadão ou dessa cidadã que, sendo o objeto preferencial das políticas públicas destinadas a vencer as desigualdades sociais, as rejeita e despreza sem peias.

Joãozinho Trinta, um carnavalesco que ficou muito famoso pelo luxo exuberante que adicionava às fantasias e alegorias das escolas de samba que preparava para o grande desfile do Carnaval, cunhou uma frase lapidar ao responder às interrogações que lhe faziam sobre o porquê de tamanha ostentação: “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. E então exagerava ao máximo na exuberância das suas escolas de samba, pelas quais se sagrou campeão do carnaval do Rio de Janeiro por tantas vezes. De 1974 a 1978, pelo Salgueiro e pela Beija-Flor, Joãozinho Trinta arrebatou o primeiro lugar em todos os desfiles. Depois disso, ainda teve a consagração de ser campeão em outras edições do Carnaval (1980, 1983, 1990), com outras escolas de samba. Fez história como artista e como intérprete da cultura popular.

Numa época como a que estamos vivendo hoje, no Brasil, em que se espalha velozmente um ódio incontido a tudo que diz respeito ao Partido dos Trabalhadores e às suas políticas de inclusão social, não espanta o crescimento enorme desse contingente de pobres de direita. Sem dúvida, soa contraditório que justamente as pessoas que deveriam constituir-se como objeto dessas políticas se coloquem contra elas. É estranho mesmo. Mas não é absurdo. Quem gostaria de ficar na mira desse ódio? Quem gostaria de se sentir tão envergonhado ao receber uma assistência governamental considerada por muitos como “coisa de vagabundo, de preguiçoso” que não quer trabalhar? Quem gostaria de se ver tão humilhado a ponto de precisar de um apoio oficial para conseguir uma vaga de emprego ou de estudo? Pobre gosta de luxo, doutor.

Para o efetivo aumento desse contingente de pobres identificados com a ideologia dos poderosos, a classe média tem dado uma contribuição inigualável. Para qualquer um, chegar à classe média significa escapar da pobreza e realizar o sonho da ascensão social. Mas isso é o máximo permitido aos indivíduos no capitalismo. O seu patamar de prosperidade e de bem-estar na classe média é ainda muito distante daquele desfrutado pelos ricos. Muito distante mesmo. Por essa razão, o risco de descenso e, portanto, de empobrecimento, é o verdadeiro grande pavor da classe média. E é isso o que afasta os seus membros de uma percepção mais objetiva dos limites da sua própria condição social e os impede de enxergar com clareza as pressões e exigências — de consumo, de produção, tributárias etc. — às quais estão sistematicamente submetidos.

Diante de qualquer sintoma de mudança, o modo de vida da classe média reage em conjunto com uma fúria desmedida. E passa a fazer carga pesada contra toda e qualquer iniciativa de promoção social que eleve a condição dos mais pobres. Uma grande ameaça é percebida quando começam a se mover as engrenagens sociais, no sentido de uma participação mais ampla de novos contingentes populacionais nos benefícios oferecidos pela sociedade. O risco de perda dos privilégios conquistados enfurece uma grande parte da classe média e a converte num poderoso e intimidador vetor de ódio e de ressentimento, que perpassa todo o conjunto das relações sociais. E ela se dispõe a defender de modo intransigente e radical as regalias dos ricos, como se fossem suas, numa tentativa quase desesperada de salvar o seu quinhão. É com essa visão de mundo que o pobre de direita se identifica. Pois é a ascensão à classe média o que ele almeja mais imediatamente.

Aquele 1% mais rico, que consegue se apropriar cada vez mais facilmente da maior parcela da riqueza nacional, sem fazer muita força, observa com sarcasmo “os de baixo” fazerem o trabalho para ele. Enquanto pobres e remediados se digladiam por uma fatia minúscula do bem-estar social que lhes é permitida, os ricaços se refestelam em seus banquetes infindáveis de luxo e esplendor. Estão de tal forma seguros, que nada nem ninguém consegue atingir a alegria, a exaltação e o conforto supremo que uma prosperidade extraordinária e inabalável pode sempre lhes proporcionar.

Referência:

István Mészáros. O poder da ideologia. Tradução: Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004.

 

 

“O Povo e o Presidente”

Durante o período de transmissão do programa ‘O Povo e o Presidente’ na TV Globo (1982-83), as condições socioeconômicas do Brasil se degradavam rapidamente. Os principais dados macroeconômicos eram bastante preocupantes. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a inflação de 1980 tinha atingido o incrível patamar de 110,2%, um índice assustador, embora representasse uma pequena queda em relação ao ano anterior (1979), quando havia chegado à cifra de 113%. (Jornal do Brasil, 08 de janeiro de 1981, 1ª página) O cômputo de 1982 indicava que a inflação continuaria seguindo uma trajetória de baixa relativa, mas mantendo uma taxa significativamente elevada: 99,7% naquele ano. (Jornal do Brasil, 31 de dezembro de 1982, 1ª página)

O mau desempenho da administração econômica repercutiu negativamente na imprensa. Diante da queda anunciada de 3,5% do PIB, alardeada como “a maior desde 1947”, as críticas começaram a subir o diapasão: “Folha de São Paulo acusa Delfim Neto, ministro do Planejamento, de ter feito revisão dos cálculos do PIB pela FGV.” (Jornal do Brasil, 20 de fevereiro de 1982, 1ª página) Isso porque, alegava-se, pelos cálculos preliminares realizados, a queda do PIB teria sido ainda mais dramática: 4,7%! Mas ninguém caiu por isso, só mesmo o ritmo da atividade econômica. Não houve CPI, nem pedido de impeachment. Foram dadas as explicações de praxe, e tudo continuou como antes. Sem maiores problemas.

O noticiário tendia a privilegiar a situação da classe média. Havia constantes referências ao progressivo empobrecimento dos setores médios da população — resultante tanto da inflação e da baixa dos salários quanto do desemprego. O Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, por exemplo, tomou a decisão ousada de escrever uma carta para as Câmaras de Vereadores de mais de quatro mil municípios brasileiros, por conta do alto índice de desemprego e de subemprego que afetava quase a metade dos 30 mil médicos do Estado do Rio. Conseguiu 220 ofertas de emprego, sendo a de melhor salário a do município de Carajás, no Norte do País. (Jornal do Brasil, 04 de março de 1982, p.1 e 4) E pensar que algumas décadas depois disso o programa Mais Médicos, do governo federal, seria tão duramente atacado pela mesma categoria.

A perda do poder aquisitivo da classe média provocava mudanças consequentes em seus hábitos de consumo. As restrições orçamentárias atingiam desde o acesso às escolas particulares até o uso dos coletivos apelidados de “frescões” — ônibus executivos com ar condicionado em que só se viaja sentado. O momento era de grande aperto. É claro que essa inquietação acabaria se refletindo nas escolhas políticas, e era isso que o governo tentava evitar: o Rio de Janeiro, por exemplo, elegeu Leonel Brizola (PDT), um trabalhista histórico, para governador, em 1982. Mesmo com toda a manipulação da mídia em benefício do regime militar em vigor.

Para os mais pobres, no entanto, as perdas foram ainda mais significativas. Uma pesquisa realizada pelo economista Ramonaval Augusto Costa, assessor do Ministério do Trabalho, apontava que a desigualdade de renda havia crescido no período de 20 anos, entre 1960 e 1980. Os 5% mais ricos da população (que representavam, segundo os seus cálculos, cerca de 2 milhões 150 mil pessoas) tinham experimentado um aumento tanto da sua renda mensal quanto da sua participação na renda total. Ou seja, estavam cada vez mais ricos! Por outro lado, a desigualdade social sofrera um crescimento acentuado em meio a um nível já elevado de pobreza absoluta. Tudo isso num quadro econômico em que a subida do PIB havia sido significativamente alta. (Jornal do Brasil, 11 de abril de 1982, p.24) Isto é, está mais do que comprovado que o crescimento econômico, per se, não é garantia de eliminação das desigualdades. Políticas públicas diretamente destinadas a vencer esse problema são essenciais.

Enquanto isso, o General Figueiredo respondia as questões do distinto público na TV. E defendia, por exemplo, acabar com “a gratuidade indiscriminada nas universidades federais”, afirmando que “grátis deve ser o ensino para o estudante pobre, e só para este”. (Jornal do Brasil, 31 de maio de 1982, p.2) Entre diversas outras questões, também pregava a reformulação da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), um dos principais instrumentos de proteção do trabalhador brasileiro, que, segundo ele, “necessita de urgentes correções para evitar abusos e distorções”, mas sem especificar exatamente quais. (Jornal do Brasil, 30 de agosto de 1982, p.2) Abro as notícias do dia e me deparo com propostas idênticas partindo de ministros e parlamentares, hoje. É incrível como essa agenda resiste à passagem do tempo.

Diante da subida descontrolada dos preços, o General Figueiredo fez um “apelo aos brasileiros” para que ajudassem o governo a “fiscalizar a especulação, o lucro exagerado, os atravessadores e o câmbio negro de alimentos”. No limite da indignação, declarou: “Temos de acabar com isso. Chamem a polícia, chamem os fiscais.” (Jornal do Brasil, 06 de setembro de 1982, p.3) As notícias econômicas iam sendo encaminhadas, paulatinamente, para as páginas policiais dos jornais. Vez por outra, ocorria um bafafá na porta de algum açougue ou mercearia. Não demorava a que se apontasse algum culpado — geralmente, um comerciante de pequeno porte, acusado de tentar tirar proveito da situação. Mas a inflação não se debelava! Nem com os gritos do povo, nem com as ordens do General! Tempos depois, a população seria chamada a integrar a equipe dos “fiscais do Sarney” (presidente do Brasil, 1985-1990), a fim de continuar a sua cruzada incansável contra o monstro inflacionário que assolava o País.

Mas não era só de inflação que a economia brasileira se ressentia, o desemprego era outra grande fonte de preocupação. Para isso, também, o General Figueiredo tinha as suas respostas: “Lembrou ainda o presidente que o desemprego, o custo de vida e a inflação não são problemas exclusivos do Brasil, pelo contrário, aumenta o desemprego em vários países industrializados.” (Jornal do Brasil, 06 de setembro de 1982, p.3) Então, está tudo certo. Todos os povos estavam com dificuldades. Era domingo à noite, o trabalhador brasileiro deveria ir para a cama despreocupado. Os males do mundo é que nunca descansavam.

Numa de suas últimas aparições no programa ‘O Povo e o Presidente’, o General Figueiredo advertiu que 1983 seria um ano “muito difícil”, em que todos precisariam ter muita paciência. Os problemas econômicos do País, cada vez mais graves, não seriam resolvidos assim de uma hora para outra. Mas frisou que a mídia em geral tinha um papel fundamental na criação de um ambiente social mais cordato, apesar do todos os problemas. Para tanto, bastaria enfatizar o que havia de bom, relegando o mal para uma posição secundária. A TV Globo lhe dera um espaço privilegiado nas noites de domingo, mas parece que surgiam brechas que a oposição ia conseguindo ocupar: “Figueiredo faz críticas ao comportamento da imprensa: (…) criticou a forma de atuação dos jornais e das emissoras de rádio e televisão, os quais, segundo ele, quando querem combater o Governo, eliminam do seu noticiário tudo o que o Governo faz de bom, de útil para a coletividade, e só apresentam as medidas difíceis.” (Jornal do Brasil, 07 de fevereiro de 1982, p.3)

Qualquer semelhança com fatos presentes não será mera coincidência. A manipulação da mídia brasileira é notória, e sempre soube servir bem aos governantes do seu time.

Infelizmente, o corolário de toda essa situação socioeconômica desajustada foi uma escalada de violência urbana sem precedentes na história do País.