O jogo político da contravenção

“(…) Assim o jogo do bicho, a ‘fezinha’ da população mais pobre atraída pela tentativa de se obter uma riqueza rápida e fácil que a dura realidade não lhe permitia encontrar, foi deitando raízes nos hábitos populares e justificando a construção de uma verdadeira rede de contatos, um histórico, uma relação de lideranças e traços de fidelidades entre diferentes grupos e pessoas.” (Evangelista, p.31)

O jogo do bicho, como é de domínio público, foi uma das invenções mais populares do Rio de Janeiro. Criado pelo Barão de Drummond, em 1892, para financiar o jardim zoológico que este mantinha no bairro de Vila Isabel, o famoso jogo de apostas acabou ganhando vida própria e resistiu às inúmeras mudanças sociais ocorridas na história da cidade e às diversas investidas das forças de segurança para mantê-lo sob rígido controle e até para eliminá-lo. Combinando uma lista de 25 animais bastante conhecidos (águia, borboleta, cachorro, galo, macaco, porco, veado e outros) com pares de números de 00 a 99, o jogo caiu no gosto popular com enorme rapidez e se difundiu para além das fronteiras do próprio RJ, dando ainda origem a um grupo de “banqueiros”, como são chamados os operadores do negócio, que marcariam época na vida da cidade.

Não cabe aqui uma análise detalhada do jogo do bicho e de suas implicações na história do Rio de Janeiro. Há vários estudos competentes sobre isso, como esse que está referido abaixo. O objetivo que se apresenta é mostrar um momento da ação política desse grupo de contraventores dedicados basicamente à exploração da rentável tarefa de coordenar as apostas na tabela dos bichos e suas dezenas combinadas. O mês era junho de 1985, e o Jornal do Brasil estampava em primeira página a seguinte manchete: “Jogo do bicho paga campanha de candidatos” e, na matéria completa, anunciava que “O jogo do bicho financiará candidatos que o tolerarem”. Assinada por Luiz Eduardo Rezende, a reportagem deu amplo espaço ao porta-voz da contravenção.

A previsão de gastos dos bicheiros com as campanhas dos candidatos à Prefeitura do Rio de Janeiro alcançaria a cifra das centenas de milhões, e teria como sua principal meta que os políticos assumissem publicamente o compromisso de tolerar a contravenção e de lutar pela legalização do jogo, a mais alta aspiração do grupo. Eles acreditavam-se “apolíticos”, de acordo com o seu porta-voz, e se declaravam interessados apenas na “preservação do jogo do bicho no Rio”. Por isso mesmo, não mostravam preferências partidárias e distribuíam os recursos sem ver as siglas, visando apenas e exclusivamente os próprios objetivos.

— O nosso apoio aos candidatos, além de se traduzir em muitos votos, será financeiro. Mas não daremos dinheiro vivo na mão de ninguém. Vamos é pagar cédulas, santinhos, panfletos e cartazes. (Jornal do Brasil, 22 de junho de 1985, p.4)

Em defesa da sua tese apartidária, o porta-voz da contravenção lembrou que apenas dois candidatos não haviam recebido apoio financeiro dos banqueiros do bicho, na eleição para governador do RJ, em 1982: Lysâneas Maciel, do PT, “porque não tinha nenhuma possibilidade de vitória e nós não podemos jogar para perder”; e outro postulante que ousou fazer “exigências consideradas acima do normal” e ameaçou perseguir os contraventores depois de eleito, caso não atendessem ao seu pleito de receber sozinho todas as doações destinadas aos demais candidatos. Tentou o tudo ou nada, e ganhou o apoio dos bicheiros contra a sua candidatura! Perdeu a eleição.

O que mais chama a atenção é o tratamento dado ao assunto na reportagem. Mais isenção impossível! Nenhuma crítica, nenhum espanto. Tudo dentro da mais completa normalidade. O jogo político da contravenção não choca nem escandaliza o distinto público. Falar no financiamento de campanhas políticas pelos banqueiros do bicho soa como algo corriqueiro, abordado assim com certa naturalidade embaraçosa. Isso se devia, talvez, ao fato de que os personagens ligados à banca do bicho estavam se tornando populares, e sua imagem vinha sendo cuidadosamente burilada para agradar parcelas cada vez mais amplas da população:

“(…) ao longo da década de 1980, no entanto, os principais chefes passaram a ser personalidades comuns na mídia. Foi uma época em que eles passaram a promover, de forma mais clara e aberta, escolas de samba, clubes de futebol e atividades assistenciais (creches etc.).” (Evangelista, p.36)

Assim sendo, tratava-se de uma época de franca ascensão social dos banqueiros do bicho, oriundos dos subúrbios do Rio de Janeiro, que buscavam, por todos os meios disponíveis, legitimar-se como empresários e benfeitores. A passarela do samba, o famoso Sambódromo, inaugurado um pouco antes, tornara-se a sua vitrine preferencial, e nela as escolas de samba patrocinadas pelos maiores contraventores da região desfilavam toda a sua arte e grandiosidade cenográfica para o mundo ver.

“(…) foi a partir do início da década de 1980 que os bicheiros ascenderam em termos de representatividade social, ou seja, se antes eles tinham poder econômico e respectiva respeitabilidade de sua comunidade local, foi durante os anos oitenta que tiveram uma notória ascensão diante da opinião pública carioca/fluminense. Foi a época, por exemplo, que eles tornaram notória a sua ação nas escolas de samba e no campo do futebol; enfim, foi quando eles alcançaram as principais colunas sociais dos jornais do Estado. Os nomes dos principais bicheiros foram conhecidos por boa parte da população fluminense.” (Evangelista, p.32)

Esse período extraordinário de luxo e riqueza em nada parecia prenunciar os revezes que se aproximariam dos contraventores do jogo do bicho, anos depois, jogando muitos deles na cadeia e provocando uma séria desorganização em seus negócios e fortunas. Para eles, esse foi um tempo de glórias e colheitas, que dificilmente voltaria a se repetir. Um tempo em que um grande jornal da capital mencionaria seus lances políticos escancarados, sem nenhum assombro. E em que podiam desfilar nos cenários mais glamorosos sem serem incomodados sequer por caras feias ou ofensas verbais.

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Enquanto isso, um censo de saúde realizado em Brasília, entre 5 mil funcionários federais, constatou que muitos deles sofriam de doenças graves, como a sífilis e a doença de Chagas, ao passo que outros apresentavam sintomas que o médico consultor da Fundação Centro de Formação do Servidor Público atribuiu à desnutrição. Apenas 1% dos funcionários recenseados pela pesquisa foi considerado sadio.

O perfil dos funcionários traçado pelo censo indicava que eles faziam parte de uma massa semialfabetizada de aproximadamente 700 mil brasileiros, com idade média de 49 anos e cerca de 3 dependentes. A maioria ganhava de um e meio a dois salários mínimos, não tinha a assistência médica de que necessitava e vivia sem perspectivas.

Entre os funcionários recenseados do Ministério das Relações Exteriores, do Tribunal de Contas da União, do DASP e da Superintendência da Borracha, cerca de 96% apresentaram problemas dentários e de acuidade visual, sensitiva e auditiva. 60% dos servidores entrevistados queixaram-se de dor de cabeça e de estômago, provavelmente, em decorrência da desnutrição. (Jornal do Brasil, 20 de janeiro de 1985, p.1 e 12)

Eram trabalhadores que não ganhavam o suficiente para sobreviver dignamente. Sua carência de meios se refletia na péssima condição de saúde apresentada e indicava uma sobrevida bem curta, na maioria dos casos. Era o Brasil dos anos 1980.

Referência:

Evangelista, Helio de Araujo. Rio de Janeiro: Violência, Jogo do Bicho e Narcotráfico segundo uma interpretação. Rio de Janeiro: Revan, 2003.