Perplexidade

Olhamos com perplexidade, tomados de espanto e até mesmo aterrorizados, para o quadro político atual do Brasil. A cada dia que se inicia, uma enxurrada de notícias e novidades mais estapafúrdias, mais estrambólicas, mais extravagantes do que as outras. São juízes e promotores de justiça cometendo ilegalidades e arbítrios, desrespeitando as leis e até a Constituição Federal; são ministros do Supremo Tribunal Federal dando declarações desairosas e fazendo ameaças a este ou aquele representante dos demais poderes; são políticos de todos os quadrantes diuturnamente acusados de participação em roubalheiras e esquemas, inclusive ministros de Estado; são manifestações de rua comandadas pela mídia. que se dizem contrárias à corrupção, mas que defendem o efetivo governo dos corruptos! É de assustar qualquer um.

Hoje, para não ficar diferente, estamos sendo brindados com a notícia de que o senador Renan Calheiros resolveu descumprir uma liminar do ministro Marco Aurélio, do Supremo, que recomendou o seu afastamento da presidência do Senado. Apoiado por toda a mesa diretora da casa, Renan teria dito que pretende aguardar a decisão do plenário do STF sobre o caso. Segundo alguns juristas consultados pela mídia, o descumprimento de uma ordem judicial leva necessariamente à prisão. Mas isso só poderia ocorrer, de fato, numa circunstância em que as instituições estivessem sendo realmente respeitadas. Não é o caso do Brasil de hoje.

Tudo isso vem acontecendo à sombra de uma delicada situação da economia, que teima em não reagir às “medidas de estímulo” adotadas até agora e exibe indicadores quase alarmantes (PIB em franco declínio, desemprego crescente e queda da renda dos trabalhadores, só para citar alguns). Começam a aparecer nos noticiários as primeiras manifestações de preocupação dos “empresários” brasileiros quanto á demora da retomada do crescimento econômico, que havia sido prometido como um bálsamo do golpe. “Tira a Dilma e tudo será maravilhoso!” O mais deprimente e constrangedor é que tenham acreditado nisso. Será que esses cidadãos que se dizem empresários não possuem conselheiros, assessores ou assemelhados que lhes possam explicar a natureza das coisas? Qualquer noção básica de história econômica serviria para fornecer casos e exemplos ilustrativos e inspiradores. Não precisava ser um gênio para perceber que o caminho tomado pelos golpistas acabaria levando a esse abismo trágico em que nos encontramos agora. Como puderam não ver isso?!

Ah, sim, as principais medidas propostas pelo desgoverno golpista destinam-se a retirar direitos dos trabalhadores em praticamente todos os campos: de um lado, por meio da PEC 55, pretendem congelar os investimentos públicos em saúde e educação (além de outras áreas) por exatos vinte anos, penalizando uma geração inteira, que ficará sem oportunidades para melhorar a sua qualificação profissional e sem assistência básica; de outro, ampliam o tempo de contribuição para a aposentadoria, levando a maioria dos brasileiros mais jovens a uma vida extenuante de trabalho até idade avançada. Embora receba o apoio obsequioso da mídia, a alegada crise da previdência social brasileira não é reconhecida, entre outros, por uma pesquisadora qualificada da UFRJ, a professora Denise Gentili, cuja entrevista recomendamos abaixo. Em vez de simplesmente cortar os benefícios, como quer fazer o golpismo, cumpre ao Estado desenvolver uma política econômica que favoreça o crescimento da economia e promova o aumento dos recursos para o bem estar da população. Ou seja, há alternativas!

A reação popular a essas desmedidas vem sendo confrontada por uma violência policial desproporcional. Como era de se esperar. Diante da sua ilegitimidade, o atual governo do Brasil só encontra na brutalidade implacável da polícia uma resposta à altura das suas necessidades de garantir uma mínima sobrevida diante de tamanhas injustiças. Hoje, para não fugir à rotina, o centro do Rio de Janeiro voltou a ser tomado pelas manifestações de servidores do Estado que estão com os seus salários atrasados. Reclamam um direito mais do que legítimo — o de receber o pagamento pelo trabalho realizado. Não podem ser tratados como bandidos ou arruaceiros. Mas, hoje, fomos obrigados a ver policiais atirando contra os manifestantes do alto das janelas de uma igreja. Uma igreja!

O Estado do Rio de Janeiro se declara falido. Não consegue nem pagar os seus servidores corretamente. Mas o ex-governador está preso, acusado de corrupção. E a mulher dele acabou de ser levada para a cadeia, por suspeita de se beneficiar de meios escusos para obter vantagens e enriquecer…

 

http://linkis.com/noticias.uol.com.br/2y4mx

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http://www.dw.com/pt-br/senado-se-recusa-a-afastar-renan-da-presid%C3%AAncia/a-36670924

O salvador da pátria

Nos últimos tempos, a direita brasileira tem feito um esforço memorável para criar um “ídolo popular”, que seja capaz de atrair as massas para suas fileiras. Campanhas massivas de publicidade tentam projetar um homem que reúna as principais qualidades atribuídas a um verdadeiro líder e que possa conduzir o País a um futuro auspicioso. No cerne dessa procura por uma liderança carismática, habilitada a arregimentar milhares ou milhões de seguidores, sobressai-se o inarredável combate à corrupção — o que exige desse almejado e provável salvador da pátria uma conduta imaculada e uma reputação inquestionavelmente ilibada. Quase um santo.

A crença em um messias redentor é tão antiga quanto a tradição judaico-cristã. Contra os males do mundo, a esperança na vinda de um salvador que redima a sociedade como um todo e seja capaz de estabelecer uma ordem social baseada na justiça, na paz e na liberdade. Um ideal romântico que paira sobre uma realidade concreta eivada de contradições, dilemas e desafios, que precisam ser enfrentados e resolvidos. Uma aspiração tão antiga e tão enraizada no coração das pessoas. Por isso mesmo, tão fácil de reacender toda vez que se torna imprescindível clamar por um novo salvador.

Há historiadores que estabelecem os vínculos dessa manobra ideológica da direita, que pretende fazer as mudanças pelo alto — isto é, por meio de um ídolo popular construído para esse fim —, ao mito do sebastianismo, nascido em Portugal. Em 1578, o rei D. Sebastião morreu/desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, sem deixar herdeiros. Em razão de disputas dinásticas, o trono português acabou ficando nas mãos do rei da Espanha, o que provocou uma insatisfação generalizada entre os portugueses e, por consequência, uma esperança renovada no retorno do rei, que muitos acreditavam não estar morto (apesar de seus restos mortais terem sido levados a Belém).

Daí criou-se o mito de que, com a volta de D. Sebastião, seriam renovadas as esperanças na chegada de um governante bom, capaz de propiciar um destino promissor para toda a nação. Um ser mítico, agregador, em condições de unificar os diferentes e de superar as divergências, de conduzir tudo e todos na direção da felicidade geral. Um salvador e tanto! Um herói imbatível, um defensor da justiça e da igualdade!

Durante o longo período da União Ibérica (1580-1640), quando os tronos de Portugal e Espanha ficaram reunidos, o Brasil foi invadido pelos holandeses e acabou se tornando palco das disputas dinásticas da Europa. Nessa época, o mito do sebastianismo alcançou nossas praias, sobretudo, no Nordeste, e se espalhou por várias regiões da colônia. A espera por um líder carismático passou a fazer parte da cultura política nativa e deu margem a vários episódios marcantes: um dos mais expressivos ocorreu em Canudos, com Antônio Conselheiro, que reafirmou a crença na vinda de um rei libertador.

Pela força criadora desse mito, ele vai e volta ao sabor das circunstâncias. Em situações de crise, por exemplo, ganha uma força extraordinária. Diante das mazelas de uma realidade conturbada e adversa, não é difícil convencer as pessoas de que haverá uma redenção à sua espera. Esta tanto pode ser o paraíso pós-morte, que muito conforta pelos sacrifícios dolorosos da vida terrena, quanto pode ser ainda a expectativa depositada no surgimento de alguém que venha “dar sentido ao caos e restaurar a ordem”, pelo bem de todos e felicidade geral da nação. É aqui que entra a máquina de propaganda destinada a dar cor e forma a essa promessa.

No Brasil atual, as forças da direita vão fazendo as suas apostas. Já pensaram contar com um ex-presidente do Supremo que presidiu o estrondoso “julgamento do mensalão”, pelo qual acreditavam ser possível eliminar o seu principal adversário: o governo que está no poder. É preciso reconhecer que foi um combate duríssimo e incansável. A consagração do personagem escolhido foi tamanha, com tanta exaltação popular, que lhe atribuíram uma provável candidatura (vitoriosa) à presidência da República e imaginaram a sua máscara como o grande hit do carnaval vindouro. Não foi o que esperavam, e hoje nem se fala mais nele.

Rapidamente apareceu outro candidato sob medida para representar o mito do salvador da pátria: o juiz que preside as investigações da Operação Lava Jato, que apura desvios na Petrobrás. Mais uma vez, o figurino da direita repete as mesmas proposições: eis aí alguém capaz de restaurar a dignidade e a esperança da nação, tão profundamente abaladas e vilipendiadas pela sucessão de más notícias e de expectativas pavorosas, diuturnamente apregoadas pela máquina de propaganda destinada a combater o governo que está no poder. Crise, crise, crise. O País está afundando, as instituições estão em perigo, o horizonte é sombrio. Somente um líder que reúna as qualidades necessárias de honradez e coragem poderá nos salvar…

Como já começaram a surgir, aqui e ali, contestações a determinados procedimentos do juiz, que podem colocar em risco o seu papel de messias redentor, os olhos iniciam uma nova busca entre potenciais candidatos ao papel principal desse enredo — e eis que tem sido lembrado com relativa insistência o nome de um deputado histriônico e bufão, que persegue os homossexuais, agride verbalmente as mulheres e se opõe a praticamente todas as agendas de direitos humanos defendidas pelo governo que está no poder. Sem dúvida, um perfil bastante polêmico, mas com forte apelo popular, sobretudo, junto àqueles segmentos mais conservadores que rejeitam mudanças nos costumes.

Seja como for, não custa lembrar que o verdadeiro jogo é jogado em torno dos recursos públicos e da sua destinação. A questão fundamental é definir como serão gastos e investidos esses recursos, em benefício de quais políticas eles serão utilizados. Ou bem servirão para alimentar a ganância daqueles que sempre tiveram todos os privilégios, ou bem poderão ser empregados para mitigar a gravíssima desigualdade social que sempre caracterizou o Brasil. É disso que se trata. O mito do salvador da pátria serve apenas para encobrir a verdadeira natureza da disputa política que ora se dá.

Importa menos o figurino utilizado pelo “líder popular” que se deseja seguir, seja ele uma liderança de fato ou mera fabricação da propaganda. Importa mais conhecer suas ideias e seus projetos, saber concretamente que tipos de preocupações nortearão seu governo. A ilusão de um mito salvador não pode nem deve se sobrepor à realidade de um governante comprometido com os reais problemas a enfrentar.

A Doutrina do Choque

“A brutalidade física direta cria apenas ressentimento, hostilidade e futura rebeldia. (…) Interrogados que tenham suportado a dor são mais difíceis de manipular com outros métodos. O efeito tem sido o de restaurar a confiança e a maturidade do sujeito, e não o de reprimi-lo.” (p.385)

Kubark Counterintelligence Interrogation, manual da CIA, 1963

Tive a honra e o prazer de traduzir um dos livros mais impressionantes que li na vida — A Doutrina do Choque. Ascensão do capitalismo de desastre, de Naomi Klein. Sua tese principal, resultante de uma pesquisa meticulosa acerca dos últimos 40 anos de expansão capitalista, é a de que, aproveitando as circunstâncias traumáticas que cercam a ocorrência de choques e desastres, naturais (tsunamis) ou provocados (golpes de Estado), o grande capital consegue se tornar dominante e hegemônico onde antes não existia ou enfrentava barreiras e obstáculos.

Na base desse processo, vicejam os ensinamentos de Milton Friedman, considerado o maior teórico do livre mercado e o economista mais influente da segunda metade do século XX. De acordo com os preceitos defendidos por ele, medidas impopulares, que tendem a subtrair direitos e prerrogativas de sociedades inteiras, mas que beneficiam amplamente alguns segmentos dominantes do capital, precisam ser tomadas e aplicadas nas circunstâncias em que a maior parte das pessoas está sob o efeito do choque e, portanto, sem condições de reagir positivamente.

“Por mais de três décadas, Friedman e seus poderosos seguidores se dedicaram a aprimorar essa mesma estratégia: esperar uma grave crise, vender partes do Estado para investidores privados enquanto os cidadãos ainda se recuperavam do choque, e depois transformar as ‘reformas’ em mudanças permanentes.” (p.16)

E é preciso agir rapidamente. Aproveitar o estado generalizado de abatimento e dor para obter as maiores vantagens; pois, passado esse quadro de torpor traumático, superado o abalo provocado pela crise, a sociedade tende a voltar ao controle da situação. Por isso mesmo, Friedman recria um dos ensinamentos mais contundentes de Maquiavel: o de que os sofrimentos devem ser infligidos “todos de uma vez”.

Mas isso é só o começo. O prolongamento desses arranjos políticos e econômicos é uma fissura cada vez mais drástica nos meios sociais. Como o objetivo principal é abocanhar valiosos recursos que anteriormente se encontravam sob domínio público, ocorre a eliminação progressiva de direitos econômicos tradicionais e o esmagamento de qualquer forma de resistência. Para Naomi Klein, esse sistema que unifica o Grande Governo e o Grande Negócio não pode ser chamado senão de “corporativo”:

“Suas principais características são enormes transferências de riqueza pública para mãos privadas, frequentemente acompanhadas de uma explosão de endividamento, uma polarização cada vez maior entre os muito ricos e os pobres descartáveis, e um nacionalismo agressivo que justifica gastos exorbitantes com a segurança. Para aqueles que vivem dentro da bolha da extrema riqueza criada por esse tipo de arranjo, não existe melhor modo de organizar uma sociedade. No entanto, em função das desvantagens impostas à grande maioria da população que fica fora dessa bolha, outros aspectos do Estado corporativo são vigilância agressiva (de novo, com troca de favores e contratos entre governo e grandes corporações), prisões maciças, redução drástica dos direitos civis e, com frequência, porém nem sempre, tortura.” (p.25)

Os exemplos abordados no livro são muitos e elucidativos. Vão desde as ditaduras latino-americanas dos anos 1960-1980 aos regimes de exceção da Ásia (com destaque especial para o caso da Indonésia), e aos fatos mais recentes do Leste Europeu (pós-queda do Muro de Berlim) e do Oriente Médio (inclusive o Iraque). Em todos eles, sobressaem-se situações de crises extremas em que a capacidade de compreensão e de resistência das pessoas fica dramaticamente afetada pela sucessão implacável de circunstâncias negativas, fortemente exploradas pela publicidade. É a estratégia do choque e pavor. Vai-se de uma coisa a outra num verdadeiro furor de instabilidade que favorece a ação de “refazer o mundo”, preparada pelos artífices da mudança assim realizada e cuidadosamente planejada.

O que está em jogo, regra geral, é alcançar os objetivos formulados pelos economistas da Escola de Chicago, cujo patrono é Milton Friedman. Do seu ponto de vista, o modelo ideal de capitalismo de livre mercado na sua forma mais pura, mais plena, mais acabada é algo que se está sempre por fazer, uma construção sempre passível de ser reelaborada. Nesse percurso, todas as esferas da vida social vão sendo incorporadas a esse modelo, e constantemente reinseridas em razão das alterações e das inovações havidas nas formas de organização e de controle dos processos de produção e de distribuição. Em cada etapa, uma terapia de choque é empregada para completar o circuito. O alvo dessas políticas, não custa dizer, é o Estado de bem-estar social criado no bojo da mais grave crise do capitalismo, ocorrida no período entre-guerras. Sua destruição final é o troféu definitivo dos arautos do livre mercado.

“Keynes propôs exatamente esse tipo de economia mista e regulada após a Grande Depressão, uma revolução nas políticas públicas que criou o New Deal e gerou transformações similares em todo o mundo. Foi exatamente contra esse sistema de conciliação, controle e equilíbrio que a contra-revolução de Friedman foi deslanchada, buscando desmantelá-lo em todos os países.” (p.30)

Uma história de violências e de brutalidades impressionantes.

Referência:

Naomi Klein. A Doutrina do Choque. Ascensão do capitalismo de desastre. Tradução: Vania Cury. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

 

Dilemas da globalização

Giovanni Arrighi publicou em 1994 um livro extraordinário que denominou O Longo Século XX. Trata-se de um trabalho teórico de grande complexidade, que abrange toda a história do capitalismo, analisada a partir dos seus vários “ciclos sistêmicos de acumulação”, cada qual conduzido por uma potência hegemônica — Gênova, Holanda, Grã-Bretanha, Estados Unidos. É uma obra densa, que requer enorme esforço de compreensão. Não cabe aqui, no propósito desses breves comentários que faço, dissertar sobre ela. Mas é possível extrair alguns aspectos pontuais que permitem abordar questões mais gerais sobre o nosso tempo.

Arrighi despertou intensos debates com essa sucessão de ciclos que escolheu para nortear sua análise, porque muitos se perguntaram se a hegemonia estadunidense seria algo como o “fim da história”, posto que nenhuma outra potência capitalista se encontrasse em condições de desafiá-la. Nem mesmo o Japão (ou qualquer outro dos chamados “tigres asiáticos” que, durante algum tempo, chegaram a impressionar). Embora seja mais prudente fugir de qualquer tentativa de adivinhação sobre o futuro desse longo processo histórico de evolução, Arrighi escreveu um prólogo em que levantou a possibilidade de esgotamento do próprio modelo em si. Ou seja, poderíamos estar diante não do fim da história, mas do fim do capitalismo?

“… Ocorre que cada um dos sucessivos ciclos sistêmicos de acumulação que fizeram a fortuna do Ocidente teve como premissa a formação de blocos territoriais capitalistas cada vez mais poderosos, compostos de organizações governamentais e empresariais dotadas de maior capacidade do que o bloco precedente para ampliar ou aprofundar o alcance espacial e funcional da economia mundial capitalista. A atual situação parece ser de tal ordem que esse processo evolutivo atingiu, ou está prestes a atingir, seus limites.” (p.369)

Isto é, não surgiu nenhuma etapa nova na sucessão dos ciclos sistêmicos de acumulação porque não apareceu nenhuma potência capaz de suplantar a atual e de levar a economia capitalista mundial a um novo estágio de expansão e de inovação. Se isso representa o esgotamento em si da própria capacidade de crescimento contínuo do capitalismo, o tempo dirá. É um debate tremendamente interessante.

Em relação à hegemonia dos Estados Unidos, vale destacar os dois pilares fundamentais sobre os quais se ergueu a liderança exercida durante décadas, em especial após a Segunda Guerra Mundial: a defesa do direito de autodeterminação dos povos, que incluiu as sociedades não ocidentais e periféricas no rol das nações reconhecidas pela ONU e tratadas como “iguais”; e a expansão do consumo de massa como expressão da prosperidade material que todos mereceriam usufruir. É claro que o acesso aos “benefícios” oferecidos pelo sistema econômico mundial liderado pelos Estados Unidos (recursos do FMI, do Banco Mundial e dos demais organismos da ONU) passava, obrigatoriamente, pela aceitação dos princípios políticos e ideológicos vigentes no campo capitalista — democracias representativas para escolha dos dirigentes e proteção à livre iniciativa empresarial, nacional e estrangeira.

Com a queda do Muro de Berlim, os países que formavam o chamado “bloco soviético” na Europa foram imediatamente incorporados a esse modelo capitalista dominante. Uma parcela cada vez maior da humanidade passou a fazer parte do mundo capitalista, aderindo a todos os seus cânones. Apesar disso, os resultados concretos desse domínio não são assim alvissareiros. “O mundo como uma coisa só”, fantasia que acalentou os sonhos e esperanças de diversos idealistas, parece hoje cada vez mais distante. As democracias representativas são indiscutivelmente mais favoráveis às mudanças do que as ditaduras, mas não concedem, de modo automático, todos os direitos de cidadania reclamados pelos povos. A luta para alcança-los é duríssima e muitas gerações têm sido privadas deles. A decepção maior é perceber que o “sistema” segue em frente, no seu ritmo, apesar de tantos descompassos. E convive, em sua infinita hipocrisia, com regimes de exceção e com ditaduras sanguinárias.

No plano material, as promessas também não foram cumpridas. O aumento vertiginoso das desigualdades sociais nas últimas décadas tem contribuído para oferecer um quadro de desajustes econômicos e sociais gravíssimos, com potencial significativo de explosões periódicas. A um quadro já marcado por inquietações e insatisfações crônicas veio somar-se o problema humanitário dos refugiados, cujo número não para de crescer. E o retorno incômodo das epidemias e pandemias, dos mais variados tipos. Aquela ideia de que o “mundo livre” proporcionaria aos seus habitantes paz social e prosperidade econômica se desvaneceu completamente. Sem condições de prover adequadamente as necessidades dos cidadãos, em grande parte, por causa das próprias escolhas políticas, o corpo hegemônico atual tem precisado lançar mão cada vez mais frequentemente de sua força militar e política. O número de conflitos bélicos em escala global só faz aumentar. Os custos disso, em termos humanos e materiais, crescem a cada ano e penalizam com maior dureza os mais fracos e os mais pobres. Será que Arrighi tinha razão ao se perguntar se o processo evolutivo do capitalismo teria atingido seus limites?

Referência:

Giovanni Arrighi. O Longo Século XX. Tradução: Vera Ribeiro. Revisão de tradução: César Benjamin. Rio de Janeiro: Contraponto, São Paulo: Unesp, 1996.

Fomentando a crise

Nas últimas semanas, temos sido sobressaltados por novas tentativas, dentro do Congresso Nacional, de introduzir mudanças na legislação que regula a exploração do pré-sal, uma das maiores reservas de petróleo do mundo, recentemente descoberta pela Petrobras em águas territoriais brasileiras. O principal objetivo dessa iniciativa, ao que parece, é eliminar a participação obrigatória da Petrobras em todos os processos de extração de petróleo nessas reservas, estipulada em 30%. Há quem levante a hipótese de que toda a investigação conduzida no âmbito da Operação Lava-Jato da Polícia Federal, que desnudou um esquema de propinas e desvios dentro da Petrobras, acabe servindo para fundamentar a defesa dos argumentos em favor dessas mudanças propostas na legislação que está em vigor. Pode ser um exagero, mas soa plausível.

A “crise” na Petrobras, decorrente desse ambiente de suspeição e corrupção que resultou da descoberta do esquema de desvios e propinas, alimentou as expectativas daqueles que buscam a eliminação de sua primazia na exploração do petróleo brasileiro. No auge das investigações, começaram a ouvir-se inclusive as vozes daqueles que defendem abertamente a privatização da empresa. Algo no estilo de “jogar fora a água da bacia com a criança junto”; ou seja, qualquer saneamento da Petrobras teria de passar, obrigatoriamente, pela sua privatização, como se fosse a sua metade estatal a responsável pela ocorrência dos malfeitos. Contudo, com a amenização relativa da situação de crise, embora sistematicamente alimentada pela mídia, e com a recuperação dos resultados positivos da empresa (como, por exemplo, a elevação contínua de suas ações na Bolsa de Valores), a privatização pura e simples foi gradativamente substituída pela proposta de alteração das regras do pré-sal. O objetivo, no entanto, continua sendo o mesmo: ampliar o acesso de outras petroleiras às reservas do Brasil.

A disputa pelo controle dos principais ativos econômicos existentes no mundo e pela riqueza produzida em todas as esferas sociais continua significativamente ativa, embora não seja tão facilmente percebida pela grande maioria da população. Ela se esconde e se disfarça com inúmeros artifícios e, dado o imenso poder de alguns competidores (como as grandes corporações internacionais), pode até ser mascarada pelo propósito ilusório de possuir as melhores intenções. Por exemplo, “acabar com a corrupção”, “garantir a concorrência”, “ampliar as oportunidades”, “aprimorar a gestão”. São argumentos poderosos que conquistam adeptos com relativa facilidade, porque prometem alguns princípios éticos já amplamente considerados como desejáveis pela maioria das sociedades contemporâneas (ainda que não venham a cumpri-los de fato). Assim sendo, um projeto socioeconômico altamente concentrador da riqueza e do poder, que visa eliminar ou restringir a capacidade do Estado de regular os mercados e de disciplinar o acesso aos recursos naturais, torna-se ideologicamente palatável graças à sua hábil manipulação de dados, fatos e crises.

Ao mesmo tempo, as principais instituições globais que lidam com a economia foram sendo incorporadas a esse ideário chamado neoliberal, com maior intensidade a partir dos anos 1980, justamente como uma solução ideal para a “crise” que se instalou nas economias capitalistas avançadas, ao longo da década anterior (1970). Sob sua influência, praticamente todos os países participantes do sistema econômico mundial também foram ajustando as suas políticas econômicas a esses ditames, inserindo-se nas regras internacionais de comércio e finanças ditadas pelos mesmos princípios teóricos. Esse processo, feito de avanços e recuos, de maior ou menor impacto, dependendo das circunstâncias, pode ser resumido assim:

A colonização do FMI e do Banco Mundial pela Escola de Chicago não foi um processo assumido, mas acabou se tornando oficial em 1989, quando John Williamson apresentou aquilo que denominou de “Consenso de Washington”. Segundo sua afirmação, tratava-se de uma lista de políticas consideradas vitais para a saúde econômica — “o núcleo comum de sabedoria aceito por todos os economistas sérios”. Essas políticas, apresentadas como técnicas e incontestáveis, incluíam ainda aquelas alegações ideológicas do tipo “todas as empresas estatais devem ser privatizadas” e “barreiras à entrada de empresas estrangeiras devem ser abolidas”. A lista se completava com o triunvirato neoliberal de [Milton] Friedman, baseado na privatização, na desregulamentação/liberação do comércio e nos cortes drásticos dos gastos públicos. (p.197)

Todavia, em regimes democráticos, a introdução de medidas econômicas impopulares é sempre mais problemática, em razão das reações dos grupos sociais organizados (como sindicatos, partidos políticos, associações profissionais) e do apoio popular aos governos legitimamente eleitos. Por isso mesmo, as situações de crise — real ou presumida — costumam ser tão rapidamente aproveitadas pelos advogados das receitas amargas. Para implementá-las de fato, é preciso ser ágil e convincente. Neste sentido, um conjunto de “pensadores” e divulgadores com forte apelo popular é fundamental para difundir os preceitos desejados e, ao mesmo tempo, demonizar tudo e todos que se colocarem contra eles. Não é de estranhar, portanto, que estejamos diante de tantos discursos anticomunistas e antissocialistas, hoje, no Brasil, justamente quando estamos tão longe de uma coisa e de outra. Essa confusão conceitual deliberada serve exatamente para dar a esse combate o tom emocional que costuma atrair potenciais adeptos e “combatentes”.

Esse é o caminho fecundo para mobilizar pessoas que serão capazes de lutar contra aqueles que talvez pudessem ser os seus verdadeiros interesses. Acreditando estar contribuindo para melhorar as condições do país, elas defendem planos e projetos que eliminam prerrogativas governamentais que poderiam garantir maior proteção social e econômica à população como um todo. E fazem isso movidas pelas crenças mais rudimentares de que é preciso vencer “a crise”, seja ela qual for. Para tanto, poderão aceitar os remédios amargos que normalmente são receitados em situações de instabilidade e de desequilíbrio relativos, ainda que estas sejam transitórias e suportáveis e possam ser contornadas com outras medidas.

Referência:

Naomi Klein. A Doutrina do Choque. A ascensão do capitalismo de desastre. Tradução: Vania Cury. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.