Façam as suas apostas

Com a votação de ontem à noite no Senado, foi sacramentado em definitivo o golpe contra a democracia brasileira, determinando o afastamento cabal da presidenta Dilma Rousseff, eleita em 2014 com 54.501.118 votos. Ainda resta uma última votação, a ser realizada antes do final deste mês de agosto, mas ninguém mais duvida de que o seu resultado seja apenas a confirmação do de ontem. Com a montagem de um esquema pesado de chantagens e vantagens, o governo interino golpista conseguiu atrair para o seu campo político (ou seria magnético?) a maioria dos senadores que foram encarregados de decidir a questão. Tudo correu conforme o programado pelos agentes do golpe, sob as bênçãos do Supremo Tribunal Federal (STF), cujo presidente comandou formalmente a sessão de ontem no Senado. Essa roupagem ritual pretendeu dar ao golpe o selo de legitimidade que, por todas as demais razões, lhe falta.

Por mais que os técnicos do próprio Senado Federal tenham afirmado que os atos da presidenta da República legitimamente eleita não configurassem crime; por mais que o próprio Ministério Público tenha se pronunciado na mesma direção, isentando-a por completo da condição de criminosa; por mais que juristas consagrados e respeitados, do Brasil e do exterior, tenham dito aos quatro ventos que não havia razão judicial legítima para tirar Dilma Rousseff do poder, ainda assim, perpetrou-se mais um atentado contra a democracia brasileira. Mais de cinquenta anos depois do último golpe que implantou uma ditadura militar no País, em 1964, nos vemos às voltas com um novo ataque aos direitos políticos e às liberdades democráticas que levamos tanto tempo para reconquistar. Naquele caso, a interrupção da legalidade constitucional do Brasil demorou exatos 21 anos. Isso porque consideraram como o “fim da ditadura” a chegada ao poder do primeiro presidente civil, desde 1964, eleito de forma indireta pelo Congresso Nacional em 1985. Não sei se concordo que uma eleição indireta represente exatamente a restauração democrática. Enfim, esse foi o registro histórico que ficou.

Agora que o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff também foi sacramentado, começam as análises e as interpretações sobre os desdobramentos possíveis para a nova situação política que se instaurou no País. Quanto tempo irá durar essa nova ditadura? Quais as condições reais que esse grupo tem para se perpetuar no poder? No calor da hora, é muito mais difícil fazer observações imparciais e serenas. Mas também é muito mais difícil resistir à vontade de entender e explicar tudo o que está acontecendo dessa forma tão insólita e inusitada. Um golpe desse tipo, em pleno século XXI! Acho que poucos imaginaram que pudéssemos estar passando por isso outra vez. Quais as perspectivas que temos pela frente? Como será feita a recomposição das forças derrotadas nessa patifaria? Como mero exercício de reflexão, faço então algumas considerações neste breve comentário sobre o golpe.

Logo começaram a surgir suposições (algumas até com cara de prova cabal) de que o Temer não ficará muito tempo na presidência da República. O #ForaTemer virou a grande sensação das redes sociais, pelo menos no campo que se opôs ao golpe comandado por ele. Cartazes com essa mesma expressão se espalharam pelos estádios e arenas dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, numa clara demonstração de que uma parte da população não o quer no cargo. Pesquisas também indicam a mesma coisa: o seu grau de aceitação é baixíssimo, e a maioria parece desejar novas eleições. É um presidente sem nenhuma legitimidade, portanto. Mas não creio que vá cair tão cedo. Acho que completa o mandato, talvez com algumas dificuldades grandes, e poderá inclusive tentar a reeleição. È uma opinião apenas. Mas vou tentar explicar os meus fundamentos.

Em primeiríssimo lugar, infelizmente, faço o registro de que, pelo que vimos na reação popular, ou na falta dela, a democracia ainda não se constituiu num valor supremo para grande parte da população brasileira. Há uma indiferença constrangedora no ar. Quando se anda pelas ruas, não se ouve qualquer comentário sobre o andamento do golpe político, com raríssimas exceções. Isso me faz pensar sempre no fato de que Dilma Rousseff se elegeu com 38% dos votos válidos, tendo sido elevado o montante de abstenções, votos nulos e brancos, algo em torno de 27%. Acredito que esse percentual deverá crescer nas próximas eleições. O primeiro teste será agora em outubro próximo, nos pleitos municipais. Além disso, Dilma sofreu também uma campanha implacável de desgaste político e econômico, amplificada pelo obsequioso serviço da mídia nativa, que fez de tudo para arruinar a sua imagem e para apresentá-la como incompetente e impopular. O resultado não poderia ter sido mais eficaz: a presidenta perdeu apoio e ficou refém dos seus principais detratores.

Do lado dos golpistas, o esquema foi muito bem montado. De forma rápida e eficiente, eles tomaram conta do Congresso Nacional, de partes significativas do judiciário e do próprio executivo federal. Com os votos necessários para impor decisões, com os cargos para distribuir aos aliados e com a chave do cofre nas mãos, não foi difícil atrair para as suas hostes os grupos e indivíduos que puderam fazer a diferença na concretização do golpe. Foi assim que concederam aumentos de salários para algumas categorias de servidores públicos cujo peso é decisivo na consolidação do golpe. Foi assim que obtiveram a subserviência de parlamentares e de membros do judiciário, logrando promover a eliminação de qualquer possibilidade de restauração do mandato de Dilma Rousseff. Com o legislativo, o executivo e o judiciário nas mãos, é pouco provável que esse grupo perca o poder tão cedo.

Muitas críticas se ergueram para acusar o PT de ter sido ingênuo ao trazer o PMDB para dentro do governo, principalmente com a figura do vice-presidente Michel Temer, que traiu o projeto que ajudou a eleger e conduziu o golpe. Como se o PMDB não tivesse estado sempre ali, nas searas do poder, oferecendo seus préstimos e cobrando seus proveitos, há décadas. Como se o PMDB não fosse o partido com a trajetória mais longeva da história política recente do País. Pois vejo agora o PSDB, que foi a grande força por trás da destruição do segundo mandato da presidenta Dilma, a eminência parda do golpismo, o derrotado inconformista, se arvorar no direito de exigir a saída do PMDB para que ele próprio venha a ocupar o lugar que julga seu por direito! Querem uma eleição indireta para conduzi-los ao cargo supremo da República! Será que o PSDB também foi ingênuo ao escolher os peemedebistas para fazerem o, digamos assim, “serviço sujo” de tirar a presidenta legítima para depois entregar o governo aos tucanos?! Pois eu tenho uma forte suspeita: o grupo do PMDB que tomou de assalto o poder não vai sair de jeito nenhum. Com o legislativo, o executivo e partes do judiciário nas mãos, vai fazer de tudo para afastar qualquer ameaça ao seu domínio. Estou pagando pra ver.

Acima de tudo, porque é exatamente o controle dessas forças que lhes garante a imunidade frente às investigações de corrupção que começam a declinar no País, mas que ainda podem fazer alguns estragos. Bastou o procurador-geral, senhor Rodrigo Janot, apontar suas baterias para nomes consagrados do PMDB que apareceram nas delações dos esquemas da Petrobras, para que o senador Renan Calheiros, presidente do Congresso Nacional, anunciasse que examinaria um pedido de impeachment contra ele que havia sido protocolado no Senado. Desde então, o procurador-geral tem andado numa discrição sem tamanho! Não custa lembrar que o Senado Federal tem a prerrogativa de cassar ministros do Supremo, procuradores federais e juízes. Quem vai se arriscar? Um conhecido ministro do Supremo, que é também o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, andou propondo cassar o registro do Partido dos Trabalhadores, com base nas acusações de propina e caixa 2 provenientes dos esquemas da Petrobras. Pois hoje mesmo, uma outra ministra do mesmo tribunal eleitoral, já indicou que fará a mesma proposição para dois outros partidos envolvidos nos mesmos esquemas: o PMDB e o PP, seu aliado. Quem acredita que o PMDB vai permitir a extinção da sua sigla, com todas as prerrogativas que possui para ordenar as instituições republicanas?

Desde o início, o governo interino golpista se comportou como se fosse efetivo: nomeou desafetos e adversários da presidenta e de seu partido para alguns dos principais cargos do poder, desarticulou os principais programas sociais implantados pelos governos do PT, anunciou medidas completamente opostas ao projeto que estava em curso, extinguiu pastas e secretarias que simbolizavam uma série de conquistas sociais dos petistas. Ou seja, desde o início, esse grupo que tomou de assalto a República tinha plena certeza de que permaneceria no comando, sem que qualquer ameaça pudesse detê-lo. Por isso mesmo, tendo em vista todas as circunstâncias que cercam esse movimento atual de subversão da ordem democrática no Brasil, tendo a acreditar que dificilmente o PMDB será desalojado da presidência. Por mais que parte da mídia grite por isso, por mais que os tucanos exijam aquilo que consideram o seu “direito”, por mais que a presidenta legitimamente eleita exerça o seu direito de defesa, a forma pela qual o golpe foi tramado e consolidado parece que vai garantir ao atual governante uma longa estrada pela frente.

Um único entrave aparece no horizonte: o processo eleitoral. Com as medidas impopulares que pretendem adotar, por meio de uma agenda sinistra de privatizações, reformulação da legislação trabalhista (inclusive com a eliminação do 13º salário e das férias de 30 dias), adiamento do prazo para aposentadorias, cortes nos investimentos em saúde e educação e outros mais, os golpistas talvez enfrentem algumas dificuldades junto aos eleitores. Mas estão testando a opinião pública, por enquanto. Anunciam que vão fazer isso e aquilo, e esperam as reações. Não têm sido muito espalhafatosas, até o momento. Parece que a indiferença constrangedora da maioria prevalece. Se conseguirem mesmo cassar o registro do PT e aniquilar as suas principais lideranças, podem se eleger com um percentual baixo de votos e seguir no comando do País. Com a máquina pública nas mãos, distribuindo benesses e coisa e tal, fica mais fácil. Por outro lado, há quem diga que não haverá nem eleições no futuro próximo, será o apocalipse total! Viveremos numa ditadura de fato e de direito, em que a escolha dos dirigentes por meio do voto popular será abolida de vez. Então, a aplicação dessas medidas drásticas de retirada de direitos sociais e políticos será muito mais radical porque não dependerá do crivo eleitoral.

Em qualquer uma das duas hipóteses sugeridas acima, o grupo do PMDB que tomou o poder leva vantagem. Tanto pode vencer eleições com baixo percentual quanto pode continuar governando sem eleições, se tiver o respaldo das demais instituições. Forças Armadas, STF, demais instâncias judiciais já demonstraram que chancelam o golpe atual. Empresários e rentistas apoiam entusiasmados essa agenda de ataque aos direitos sociais e econômicos. A mídia sempre poderá ser cooptada com generosas verbas publicitárias. Uma população desmobilizada, desinteressada e indiferente à própria sorte, desacreditada da política em geral, será tragada pelas circunstâncias sem esboçar reação. A hipocrisia dos falsos moralistas sairá vencedora e o submundo dos corruptos continuará dando as cartas. Diante desse quadro, sou levada a pensara que o #ForaTemer será um cântico puxado cada vez mais pelos tucanos!

30% ou 33%

Sempre fomos uma minoria. Juntando os militantes e os simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT), temos ficado em torno de 30% a 33% da população brasileira. Em termos históricos, esse tem sido o índice de apoio ao PT ao longo do tempo, com algumas oscilações para mais ou para menos, dependendo da conjuntura. No momento presente, por exemplo, parece que a legenda enfrenta a sua pior baixa; algo que só será efetivamente avaliado nas próximas eleições municipais, que ocorrem em outubro deste ano de 2016. As sucessivas prisões de suas lideranças e representantes no âmbito da Operação Lava Jato (que investiga a corrupção da Petrobras), a campanha maciça da mídia para demonizar o partido e o desgastante processo de impedimento por que passa a presidenta Dilma Rousseff têm dado uma larga contribuição ao enfraquecimento do PT, e culminaram com dois ataques violentos contra a sede do partido em São Paulo, na semana que passou, resultando na destruição total da fachada do prédio.

É claro que diante de tantas desventuras muitos se ponham a refletir sobre a situação desalentadora que vive o Partido dos Trabalhadores. Ouço gente reclamar da indiferença do povo diante de toda essa degringolada da legenda, e começo a pensar nos números da eleição de 2014, que levaram ao segundo mandato da Dilma. Ora, dos 142 milhões de eleitores aptos, mais de 37 milhões (para ser mais exata: 37.279.085) simplesmente não apareceram para votar, ou anularam o voto ou votaram em branco. Cerca de 26% do total de eleitores habilitados. É um bocado de gente! Certamente, um contingente que corresponde à população total de muitos países do mundo. Essas pessoas já estavam sinalizando ali a sua mais completa insensibilidade aos destinos do País. Afinal de contas, a escolha daquele ou daquela que irá governa-lo pelos quatro anos seguintes não é coisa trivial que não tenha importância para qualquer um. É algo da maior relevância, que afeta a vida e o futuro de cada um de nós. Mas esse imenso grupo de cidadãos brasileiros preferiu dar as costas ao evento e ignorou o chamado das urnas, mesmo estando obrigado a ir até a sessão eleitoral para cumprir o seu dever constitucional. Foi, mas não escolheu nenhum candidato! Ou não foi, e deu lá suas desculpas!

Não é de estranhar, assim, que boa parte da população continue indiferente ao cenário político do Brasil e assista ao golpe sendo perpetrado contra a democracia, sem esboçar reação alguma. A indiferença continua. Dilma Rousseff se reelegeu em 2014 com 38% dos votos válidos, exatamente 54.501.118. Seu adversário teve um número próximo de votos, numa das disputas mais acirradas e apertadas dos últimos anos. Logo em seguida à definição do resultado, começou uma campanha política capitaneada pela mídia e pela oposição para questionar a vitória da Dilma e para desestabilizar o seu governo. De lá para cá, essa ação coordenada só fez acirrar os ânimos e contaminar todo o ambiente político, atingindo em cheio a famigerada “governabilidade”. Seu ponto de chegada foi o processo de impedimento da presidenta que está em curso no Senado Federal, cujo desfecho está marcado para o final de agosto próximo.

A fraca mobilização popular é a grande incógnita do momento. Embora a oposição insista em dizer que foi o “povo nas ruas” que levou à decisão parlamentar de abrir o processo de impedimento da presidenta, é sabido que as manifestações em favor da deposição da Dilma foram majoritariamente organizadas e formadas por eleitores do candidato derrotado em 2014. As próprias pesquisas de opinião realizadas no calor da hora indicavam o perfil claramente oposicionista dos manifestantes que pediam a saída da Dilma. Fica, então, a dúvida quanto ao restante da população: por que se cala? Talvez, daqui a algum tempo, seja possível enxergar com maior discernimento o sentido dessa ausência significativa do povo em defesa de um governo democraticamente eleito. A saída de uma presidenta que não cometeu crime algum, por mera decisão política da maioria parlamentar que controla os votos no Congresso Nacional, é uma ferida de morte na democracia brasileira. E a indiferença de grande parte da população diante desse golpe é mais inquietante ainda.

Qualquer conclusão agora seria fadada ao fracasso. Enquanto o processo está em curso, fica muito difícil avaliar corretamente o seu andamento e, por isso mesmo, temos lido e ouvido tantas explicações confusas e atabalhoadas sobre o quadro presente. Uma coisa, no entanto, precisamos superar de imediato: essa noção de que o povo é coitadinho, está sendo sempre manipulado, não percebe o que se passa ao redor. Não concordo com isso. Não acredito em inocentes. Existem muitas formas de apreender o real, que não apenas pelo intelecto. Falta de instrução não nos impede, necessariamente, de compreender o mundo. Temos sentimentos, emoções, intuições, percepções e vivências. Há escolhas sendo feitas. Desde o não comparecimento às urnas até a mais completa indiferença aos destinos do País. “Tanto faz como tanto fez” também é uma escolha política. Não se comprometer, não se engajar, não batalhar pelas coisas é uma forma de estar no mundo. Conveniente para muitos. Lavam as mãos e se isentam de compromissos.

O calendário prossegue, no entanto, e novas candidaturas estão sendo postas para outubro próximo. Embora exista certa tendência de supervalorizar a eleição presidencial no Brasil, sabemos que os municípios são decisivos para a definição do quadro político nacional. A maioria dos parlamentares retira da sua base eleitoral (normalmente, municipal) a força para prosseguir na carreira política. São os prefeitos e vereadores das cidades — grandes, médias ou pequenas —que compõem a estrutura eleitoral primária do País. Não por outra razão, temos visto o governo interino prometer medidas amargas para “depois”. Esse “depois”, certamente, é posterior a outubro que vem, e não ao desfecho do impedimento, que será em agosto, como se supõe. Se os partidos que dão sustentação ao golpe obtiverem um bom resultado nas eleições municipais, terão mais fôlego para prosseguir na sanha demolidora com que miram o Estado brasileiro. O mesmo vale para o PT. Se o partido conseguir, apesar de todo o bombardeio que tem sofrido, manter ou expandir a sua parcela do eleitorado brasileiro, também aumentará as suas chances de continuar sendo um adversário de respeito nas campanhas nacionais.

Resta saber qual será a participação do eleitorado nessa disputa: a abstenção e a indiferença superarão o interesse pelos candidatos? A ver.

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/dilma-se-reelegeu-com-38-dos-votos-totais/

Divagando sobre o golpe

Que haja um golpe em curso no Brasil é algo praticamente inegável nos dias que correm. Tendo como alvo principal a presidenta Dilma Rousseff, que seria apeada do cargo — para o qual foi legitimamente eleita em outubro de 2014 — por intermédio de razões fabricadas, essa tentativa de ruptura da ordem democrática visa, sobretudo, aniquilar o PT (Partido dos Trabalhadores) como alternativa política.

Nas últimas semanas, as forças do golpe subiram o tom e partiram para o tudo ou nada, chegando mesmo a ameaçar com a prisão ninguém menos do que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a liderança política mais carismática e mais popular do País. E isso sem que pesassem sobre ele quaisquer provas ou acusações fundamentadas. Era puro terrorismo, cujo objetivo final era desestabilizar o governo e emparedar a militância petista junto com os seus simpatizantes. No centro de tudo, a estrela vermelha do PT. Diante de um quadro econômico difícil, em decorrência do agravamento da crise internacional que está longe de ser solucionada (vide a Grécia, a China, outros países da Europa), as forças perversas do golpe engendraram uma “crise política” capitaneada pela presidência da Câmara dos Deputados, que passou a pautar a agenda legislativa com base na aprovação de medidas que feriam cabalmente o esforço de ajuste fiscal que vem sendo feito pelo governo Dilma. Dia sim, outro não, o distinto público se via diante de novas leis e decretos que aumentavam os gastos federais, sem a correspondente indicação das fontes financiadoras dos mesmos — o que representa um indiscutível abismo para as contas nacionais. Mais gastos, sem receitas análogas representam o endividamento irresponsável, leviano, desorientado, que só conduz ao caos.

Pois este era o quadro posto pela oposição, no intuito de derrubar um governo eleito pelo voto direto e democraticamente constituído. Promover a anarquia para justificar sua tomada do poder. Nada poderia ser mais odiosamente antidemocrático. Mas seus acólitos estavam dispostos a tudo. Julgavam-se diante de um governo enfraquecido pelas escolhas feitas no passado e no presente, que teriam gerado uma grande insatisfação popular, e acreditavam que havia chegado a hora de finalmente agarrar a oportunidade de voltar ao comando. Por isso mesmo, apostaram no tudo ou nada. Foram com muita sede ao pote, como se dizia antigamente, e se lambuzaram na expectativa de alcançar seus objetivos. Até que as reações começaram. No começo, de forma tímida e esparsa, mas, com o passar dos dias, mais enfáticas e determinadas.

Cabe o registro da responsabilidade que muitos movimentos sociais tiveram nesse enfraquecimento do segundo governo Dilma Rousseff. Logo no início, quando foram anunciados os ministros e algumas medidas destinadas a corrigir o desequilíbrio das contas públicas, a gritaria foi geral. E capitaneada pelas principais lideranças dos movimentos sociais, como CUT e MST, que demonstraram sem nenhuma cerimônia toda a sua contrariedade com a presidenta e com a sua equipe. Não houve nem tempo de dialogar, os gritos impediram que se ouvissem explicações e ponderações. Todos atiravam pedras contra a vidraça de Dilma Rousseff. Todos. E o que dizer, então, de “nobres prepostos” da Força Sindical (outra entidade sindical representativa dos trabalhadores) que tiraram as calças e mostraram as bundas dentro do Congresso Nacional, por ocasião da votação de algumas medidas do ajuste fiscal do governo?!

Foram dias, semanas e meses de perplexidade para corações sensíveis. Cenas jamais vistas antes na história deste País. Uma aberração atrás da outra, tendo à frente figuras ilustres da oposição a convocar marchas de protesto pelo impeachment da presidenta, sobre a qual não pesam quaisquer condenações. E tudo com a mais ampla cobertura de uma mídia tóxica e contaminada, cujo principal objetivo tem sido o de desmoralizar os governos do PT. Para colocar em seu lugar governantes que obedeçam fielmente a agenda neoliberal clássica: Estado mínimo (sobretudo, para programas sociais) e lucro máximo, com radical desregulamentação das atividades econômicas.

Criou-se uma atmosfera de descontentamento artificialmente provocado, dadas as reais condições da economia. Não é um mar de rosas, mas também não é uma catástrofe, como se tenta fazer crer. A inflação incomoda. Mas, os programas sociais seguem no mesmo ritmo, novas concessões (aeroportos, portos) estão sendo planejadas, investimentos em infraestrutura vão sendo implementados, a balança comercial brasileira continua superavitária, com significativo destaque para o agronegócio. É preciso entender que vivemos no capitalismo: as crises são sistêmicas e periódicas e, por isso mesmo, volta e meia os ajustes se tornam imperativos. Socialismo, só com revolução!

O ambiente contaminado pelo pessimismo e pelo derrotismo começou a comprometer a lucratividade de diversos empreendimentos. Na semana passada, foi divulgada uma pesquisa que apontou um declínio de 8,5% na rentabilidade das empresas de comunicação, no primeiro semestre de 2015, com destaque para o segmento de revistas e congêneres. Começaram a se ouvir as vozes dos principais interessados: suas excelências, os empresários. Que até aqui, estavam caladinhos, à espera do sucesso do golpe, talvez. Jornais e outros meios passaram a dar destaque às falas de grandes capitalistas, que se mostravam cautelosos e ousavam até defender a normalidade das instituições. Hoje mesmo se falou muito no presidente do conselho de administração da Nestlé, uma das maiores produtoras de alimentos do mundo, com sólida posição no mercado brasileiro. E o que ele disse de tão importante? Em primeiro lugar, que “o maior risco do Brasil é o da marcha a ré social”. Ou seja, existe um risco sério para a estabilidade econômica, política e social do País caso os ganhos obtidos pelas camadas mais pobres da população nos últimos anos sejam perdidos: “uma queda na demanda pode representar um perigo social extremo”. O sábio Hobsbawm sempre afirmou que uma pessoa que nunca teve nada talvez possa se resignar a uma existência de privações; mas, uma pessoa que experimentou alguma medida de fartura dificilmente irá se conformar em perdê-la. É pagar para ver.

Ontem, Guilherme Afif Domingos deu uma entrevista numa rede pública de televisão. Para quem não o conhece, ele é um renomado empresário de São Paulo, que presidiu por muitos anos a Associação Comercial de São Paulo, além de ter feito carreira na política (sempre filiado a partidos que se situam à direita do espectro político nacional — PDS [ex-Arena, partido de sustentação da ditadura], PP, PL, PFL e agora PSD). Há dois anos, Afif compõe o ministério de Dilma Rousseff, ocupando a secretaria dedicada às micro e pequenas empresas. Por sua reconhecida competência no setor, foi escalado para ampliar a formação e a estabilização dos micro empresários, um dos segmentos de atividade que mais crescem no Brasil. Hoje, são 5 milhões e 200 mil ao todo, sendo que a meta da presidenta é chegar a 10 milhões. Isso talvez explique porque o desemprego tem tido taxas relativamente baixas entre nós, apesar das dificuldades macroeconômicas enfrentadas na atualidade. Diversas medidas têm sido adotadas no sentido de facilitar a abertura e a continuidade dos micro e pequenos negócios, que representam o maior contingente de empregadores do País. É preciso garantir que eles se estabeleçam, e que prossigam na expansão de suas atividades.

Pois bem, lá pelas tantas, no meio do debate específico sobre os pequenos negócios, Afif resolveu falar do quadro político atual. Disse que não haverá golpe, e que Dilma Rousseff vai concluir o seu segundo mandato. É interessante observar o que ele diz, porque se trata de um conservador. Entre seus argumentos, destaco três aspectos mais relevantes: primeiro, de acordo com ele, Dilma não cai porque não há nada contra ela que justifique sua queda; segundo, ela não é alinhada ao “núcleo político” do PT, portanto, não está contaminada pelos “desastres sucessivos” que o partido acumula e que o levaram a essa crise atual; terceiro, ela não é candidata a nada em 2018 e, pois, não precisa condicionar sua ação política a pressões eleitorais. Além do mais, e aí ele citou um colunista de mídia que havia escrito um artigo intitulado “ruim com ela, pior sem ela”, tirar Dilma Rousseff do poder pode ser muito mais negativo do que positivo para o conjunto da sociedade, desencadeando tensões incontroláveis e favorecendo desfechos indesejáveis.

Este é o estado de espírito da direita brasileira, hoje. Esticou a corda até onde pôde, na certeza de que os ventos lhe eram favoráveis, mas não logrou o seu intento. Pelo menos, não até agora. Parece fazer o cálculo do “vão-se os anéis, ficam os dedos”. Diante da perspectiva de queda acentuada dos negócios, de perdas significativas de lucros e dividendos, de declínio substancial de todas as formas de ganho que uma economia mais inclusiva tem lhe proporcionado, o grande capital (incluídas aí as empresas de mídia monopolistas) parece ter aceitado o recuo imposto pelas circunstâncias. Parece. Em se tratando da direita brasileira, como de resto de toda a direita latino-americana — predadora, mesquinha, cruel e violenta — não dá para fazer apostas muito ambiciosas. Todavia, para ela, o momento é de cautela, porque as forças que apoiam o governo começaram a reagir e a resistir. Vamos ver se essa reação é duradoura.

“Não faça demais”

Há muitos anos, assisti na televisão a uma entrevista do ator Paulo Gracindo, que foi marcante e surpreendente. Mas não apenas pelos depoimentos que deu acerca de sua admirável carreira artística, marcada pela interpretação magistral de personagens inesquecíveis da teledramaturgia brasileira. Gracindo já tinha na bagagem profissional uma carreira muito bem-sucedida no rádio, quando ingressou na televisão para protagonizar algumas das novelas mais tocantes e populares de toda a história: “O Casarão”, “Bandeira 2” e “O Bem-Amado”, enormes sucessos da década de 1970, entre outras. Seu talento excepcional deu vida aos personagens João Maciel, Tucão e Odorico Paraguaçu, respectivamente, de modo a torná-los verdadeiros ícones da cultura televisiva do País. Quem os viu dificilmente os esqueceu.

O que, para mim, foi definitivo naquela entrevista, porém, foi o relato de sua “aventura” na política. (Espero que minha memória não me faça cometer nenhuma gafe aqui. Talvez alguma imprecisão possa ser perdoada.) Lá pelas tantas, o ator disse que resolveu enveredar pela carreira política e tratou de constituir uma base eleitoral. Procurou uma “comunidade carente” pela qual pudesse realizar benfeitorias e começou a trabalhar. Fez muitas coisas. Entre elas, aquela que era uma das demandas mais antigas da população local: a energia elétrica. Gracindo batalhou para levar a eletricidade àquele lugarejo tão desassistido. Chegada a eleição, qual não foi a sua surpresa?! Ele não se elegeu! Ao procurar se informar sobre as razões daquele resultado tão inesperado, ele se deu conta de que havia feito muitas coisas antes de se eleger e, agora, era como se não tivesse mais nada a oferecer. Foi simplesmente descartado. Os eleitores preferiram eleger outro vereador, que tinha muitas promessas a cumprir. Passado o impacto da decepção, ele acabou desistindo da política e se dedicou mesmo à carreira de ator. Todavia, guardou aquela lição amarga como um aprendizado muito doloroso, mas significativamente útil.

Ontem, ao ouvir o discurso de Dilma Rousseff no 5º Congresso do Partido dos Trabalhadores, que está sendo realizado em Salvador, Bahia, me lembrei imediatamente dessa entrevista de Paulo Gracindo. Dilma pediu aos militantes, membros e simpatizantes do PT que se recordassem de tudo que ela já havia feito e continuava a fazer (Brasil sem Miséria, Pronatec, Mais Médicos, Ciência sem Fronteiras, Minha Casa Minha Vida, Viver sem Limites; além da preservação do Bolsa Família, do Prouni, do Fies e muito mais). Dilma reafirmou seu compromisso com o crescimento econômico associado à inclusão social, e com a preservação do meio ambiente, lembrando que o Brasil foi talvez o único país do mundo a atingir uma meta ambiciosa em relação ao clima. Dilma se comprometeu ainda a garantir plenamente todos os direitos dos trabalhadores, assegurando que os sacrifícios impostos pela necessidade de fazer ajustes serão repartidos de forma equilibrada. Em simultâneo aos ajustes, todos os investimentos possíveis serão feitos para promover o crescimento. Dilma asseverou: “Nós não mudamos de lado. Nós não alteramos os nossos compromissos com o Brasil.” E lembrou que, desde 2008, o governo sustentou uma política contra a crise que protegeu o consumo da população, os investimentos e a renda dos trabalhadores. Dilma voltou a frisar que seu governo combate a corrupção de forma incansável, lançando mão de todos os meios legais para coibi-la e puni-la e promovendo a mais ampla liberdade de ação para os órgãos encarregados de investigar e punir os corruptos e os corruptores. E cobrou o apoio de seus correligionários nessa conjuntura difícil.

Pois não é que muitos de seus apoiadores (dentro e fora do PT) estão querendo “pular do barco”, alegando justamente que a presidenta teria abandonado seus compromissos históricos? Pois não é que foi preciso Dilma lembrar que “todos querem ser parceiros na vitória” e que é nos momentos difíceis que se conhecem os verdadeiros aliados (e também os oportunistas)? Pois não é que, ao adotar algumas medidas de ajuste fiscal, Dilma se viu atacada por todos os lados, como se tudo aquilo que tem feito não significasse mais nada e tivesse perdido completamente o valor? Pois não é que tantas realizações importantes e dignificantes para o Brasil e para os brasileiros são assim descartadas sem a menor cerimônia, impondo-se à presidenta um desrespeito sem precedentes na história?

Tive uma grande amiga que sempre me alertou: “Não faça demais. As pessoas só se lembrarão do que você não fez.” Ah, minha querida Adelaide, tenho pensado tanto em você…