O fantasma das próximas eleições

Corria o ano de 1981 e o ambiente político no Brasil andava agitado, com a perspectiva de eleições para governadores de Estado no ano seguinte. Após quase vinte anos de ditadura civil-militar, e em pleno curso daquilo que denominavam de “distensão do regime”, o eleitorado brasileiro seria convocado novamente para eleger, por meio do voto direto e secreto, os governadores de seus Estados. Figuras carimbadas da política nacional, como Tancredo Neves, José Sarney, Paulo Maluf, Teotônio Villela, Jânio Quadros, Nilo Coelho, Antonio Carlos Magalhães, José Richa, Chagas Freitas, Amaral Peixoto, já iniciavam conversas e possíveis entendimentos para compor chapas e confrontar os adversários potenciais, ao mesmo tempo em que algumas novas lideranças surgiam em campo. Entre elas, destacava-se Leonel Brizola, que venceria o pleito de 1982 e se tornaria o governador do Estado do Rio de Janeiro. Embora não fosse propriamente um novato, Brizola representava uma alternativa aos grupos hegemônicos que controlavam a política brasileira e era, neste sentido, uma novidade.

Mas o grande fantasma que parecia assombrar a elite política tupiniquim era outro. Num lampejo de total sinceridade, o Jornal do Brasil estampou em primeira página da edição de domingo, dia 22 de fevereiro de 1981, a seguinte chamada:

Crescimento do PT surpreende até Tancredo

Parlamentares que voltam a Brasília depois do recesso estão assustados com as possibilidades do Partido dos Trabalhadores, que poderá tornar-se o fantasma das eleições de 1982. Mesmo políticos mais cautelosos, como o Senador Tancredo Neves, presidente do Partido Popular, confessam sua surpresa com o crescimento e o potencial do PT.

O partido liderado pelo metalúrgico Luís Inácio da Silva encontra maior receptividade entre lideranças sindicais emergentes, Comunidades Eclesiais de Base da Igreja e estudantes universitários. Já tem convenções municipais marcadas para junho e suas bases mais fortes estão em São Paulo, onde nasceu, durante as greves no ABC, em 1979.

Seguindo essas perspectivas que se anunciavam, o Jornal do Brasil decidiu convocar seus correspondentes em todas as sucursais para que fizessem um levantamento das reais condições e possibilidades eleitorais do PT como alternativa para o pleito de 1982. E disponibilizou algumas conclusões nas páginas 4 e 5 desta mesma edição dominical. É forçoso notar que o jornal empregou algumas expressões carregadas de sentido, como quando se referiu ao fato de muitos políticos estarem “assustados” com a emergência da nova legenda no cenário eleitoral. Ou quando escolheu o termo “fantasma” para denotar a condição do PT no meio político brasileiro. Embora não fosse intimamente ligado ao regime, como outros tantos órgãos de mídia que chegaram a emprestar seus veículos para transportar presos políticos ou que se beneficiaram enormemente da proximidade com os militares, a ponto de construir verdadeiros impérios de comunicação, o Jornal do Brasil mostrava-se perfeitamente alinhado com o governo federal.

Por isso mesmo, suas indagações acerca da emergência do PT na cena política partiram justamente dessas premissas de medo e preocupação. O olhar era de desconfiança. Apesar disso, a matéria trouxe alguns elementos interessantes para discussão. Entre todas as unidades da federação examinadas pela reportagem, por exemplo, São Paulo se destacava como a mais promissora, onde o partido já contava com lideranças conhecidas e militância crescente. Mas havia ainda outras em que a agremiação petista começava a crescer de forma exponencial, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e alguns Estados do Nordeste, como Ceará. E algumas surpresas, como a força mostrada no Acre e a adesão dos professores do Amazonas. Não custa lembrar que o PT tinha sido fundado em 1980 (era recém-nascido, portanto).

“O PT é, por enquanto, apenas um susto para os outros Partidos.” (p.4)

Ainda incipiente em sua capacidade de mobilização, o Partido dos Trabalhadores despertava, contudo, a preocupação dos setores políticos hegemônicos. A possibilidade de tornar-se o grande “fantasma” de 1982 não era de todo fantasiosa. Seus próprios dirigentes temiam um crescimento descontrolado nas eleições vindouras, que acabasse atraindo lideranças não identificadas com os propósitos do partido e pudesse desfigura-lo. [Uma verdadeira premonição.] Havia grande expectativa por parte do eleitorado, no sentido das mudanças no regime e da democratização do Brasil. A eleição direta dos governadores prometia ser um momento de celebração dos mais esperados. Capitalizar essa esperança era um dos maiores objetivos do PT.

Alguns impasses estavam sendo criados, no entanto. O mais dramático de todos era a perseguição política de suas lideranças: das 45 pessoas que estavam indiciadas naquela altura, com base na Lei de Segurança Nacional [uma excrescência do regime], 35 eram do PT! Entre elas, ninguém menos do que Lula. Esse indiciamento era apenas a etapa inicial de um processo judicial que culminaria na condenação e na consequente prisão dos acusados. Com a respectiva suspensão dos seus direitos políticos. Uma espada sobre a cabeça do partido, que colocaria em xeque ou adiaria por tempo indeterminado suas pretensões de consolidar um espaço no cenário político nacional. Essas ameaças tinham tal peso que foram mesmo reconhecidas pela matéria do Jornal do Brasil, que concluiu um de seus parágrafos nos seguintes termos:

“Lula tem um forte carisma junto às bases, e perdê-lo seria para o PT um golpe praticamente fatal.” (p.4)

No dia 26 de fevereiro de 1981, Lula recebeu a notícia de sua condenação à prisão, pela 2ª Auditoria Militar de São Paulo, por um período de 3 anos e 6 meses. As acusações eram incitação à desobediência coletiva às leis e propaganda subversiva durante a greve de abril, no ABC. Outros companheiros seus foram sentenciados nos mesmos termos, com algumas variações em relação ao tempo de encarceramento determinado pelos juízes militares. Ao ser indagado sobre suas impressões, Lula declarou:

“Os empresários devem estar comemorando, gritando gol. Mas devo lembrar-lhes de que logo virá o empate e, depois, os gols da vitória da classe trabalhadora.”

(Jornal do Brasil, 26 de fevereiro de 1981, 1ª página)

 

 

O ataque aos programas sociais

Há uma ação coordenada em curso no Brasil, cujo objetivo final é alijar o PT das disputas eleitorais de 2016 e 2018. A oposição vem tentando por todos os meios — inclusive com o auxílio de parcela expressiva do judiciário e com o apoio descarado da mídia — inviabilizar as candidaturas petistas, principalmente, a presidencial de 2018. Para isso, está lançando mão agora de um ataque frontal aos programas sociais do governo federal, sobretudo, o Bolsa Família.

De um lado, vem o pedido de afastamento da presidenta Dilma Rousseff — todo ele fundamentado na “irregularidade” dos repasses destinados ao pagamento desses benefícios, tentando fazê-lo configurar um “crime de responsabilidade” que simplesmente não existe. A base legal (jurídica mesmo) desse pedido já foi considerada totalmente infundada por um conjunto expressivo e respeitável de juristas brasileiros. Mas a oposição insiste em levar adiante essa tentativa abjeta de golpe contra a democracia brasileira, tendo em vista única e exclusivamente os seus objetivos de tomar o poder. Como foi incompetente para consegui-lo no voto, agora tenta alcançá-lo com esse artifício golpista que envergonha qualquer um que tenha um pingo de caráter.

De outro lado, vem o relator do orçamento de 2016 (também da oposição) propor o corte de 10 bilhões de reais no programa Bolsa Família, o mais decisivo dos programas sociais implantados pelo governo federal, que atende às famílias mais pobres do País e impede que fiquem prisioneiras da mais terrível miséria. Esse corte proposto pelo relator do orçamento significaria um baque tremendo nos recursos desse benefício e comprometeria o alcance e a abrangência de sua cobertura. Mesmo sabendo disso — e é óbvio que, sendo relator do orçamento, conhece bem a matéria — o relator insiste nessa proposição, ainda que o governo federal já tenha apresentado os seus argumentos em favor da manutenção dos recursos destinados ao programa.

O fato de que o Brasil tenha sido retirado do mapa da fome da ONU, graças em grande medida a esse tipo de ação governamental, algo que deveria ser motivo de orgulho para todos os brasileiros, é mero detalhe para essa oposição destrutiva e maléfica. Pouco importa que milhões de conterrâneos sejam relegados à miséria e ao abandono. O que conta mesmo é derrotar o PT e, de preferência, aniquilar todas as suas possibilidades eleitorais futuras. É o que pretendem fazer. Com certeza, usariam o eventual fracasso dos programas sociais (coisa que essa redução de recursos pode causar) para atacar o partido e suas candidaturas, denunciando o que chamam de “manipulação eleitoreira” dos programas sociais. Na eleição passada, não custa lembrar, foi espalhado um boato de que o pagamento do Bolsa Família seria suspenso, o que provocou uma correria desesperada dos beneficiários às agências pagadoras, quase causando tumultos.

A tragédia da política brasileira atual é que a oposição ao PT não teve competência para construir o seu próprio projeto político e o seu próprio programa de governo. Apostou todas as suas fichas no ataque ao partido que está no governo e tem contado com o apoio incondicional da mídia para destruir todas as realizações positivas alcançadas. Ao terceirizar para a mídia essa tarefa de se contrapor aos governistas, a oposição deixou de cumprir o seu papel político fundamental de representar uma alternativa viável e atraente para os eleitores. Sem propostas, sem projetos, sem futuro, alimenta o ódio contra os pobres e contra os programas sociais do PT para conseguir uma adesão social mínima às suas pretensões. Aqueles que se deixam mobilizar pelo ódio aos oprimidos (basta ver a quantidade de ataques racistas que têm sido proferidos a artistas negros no Brasil), infelizmente, não são poucos e rapidamente se prontificam a marchar a favor desse tipo de violência. O resultado é esse que estamos vendo aqui hoje: de todos os lados, se atacam os programas sociais do PT, tendo em vista unicamente a sua retirada do poder. Pouco importa que, para isso, seja necessário tirar todas as chances daqueles que mais precisam de apoio.

Duas leis que nos governam

Sempre costumava dizer aos meus alunos que nós, humanos, somos governados por duas leis fundamentais: a lei da gravidade e a lei do menor esforço.

A primeira dispensa apresentações. Não fosse pela força gravitacional, não poderíamos sequer caminhar, pular ou dançar! Além de muitas outras coisas ainda mais importantes para o nosso processo civilizatório e histórico. A segunda, porém, embora pareça uma espécie de brincadeira, merece alguns comentários, por sua força extraordinária, por sua imensa capacidade de condicionar o comportamento das pessoas.

Devo esclarecer que, por décadas, fui professora de história econômica na UFRJ. Ao tentar debater os principais temas da disciplina por meio do confronto de ideias, propondo a leitura de autores muitas vezes controversos e antagônicos, esbarrei sempre na manifestação de uma agonia profunda e sincera de vários alunos diante da dúvida sobre qual deles escolher. A simples possibilidade de ficar diante de duas ou mais interpretações distintas sobre o mesmo fenômeno ou processo histórico levava-os quase ao desespero! Era preciso escolher logo uma delas, era urgente definir qual delas afinal venceria a disputa!

Não tenho dados estatísticos sobre isso, mas, pela experiência de décadas em sala de aula, posso intuir que há um número verdadeiramente significativo de pessoas que não suporta a ideia do próprio esforço para tirar conclusões e/ou para definir posições sobre as coisas da vida. Essas pessoas, que acredito sejam muitas, preferem que lhes sejam dadas opiniões já prontas, conclusões já tiradas, posições já definidas sobre tudo e sobre qualquer coisa. Dói-lhes mais a dúvida do que a certeza, embora eu sempre clamasse que a dúvida é muito mais criadora e florescente do que a certeza!

Pois bem, ao ler e ver tantas manifestações odiosas nos últimos dias, diante da vitória nas urnas da presidenta Dilma Rousseff, eu me lembrei dessa experiência. E pude constatar, mais uma vez, e com enorme tristeza, que a lei do menor esforço continua fazendo seus estragos em nossos corações e mentes. Muitas pessoas que expeliram o seu ódio incontrolável nestes dias pertencem a esse imenso e árido contingente de “preguiçosos” que não se dão sequer ao trabalho de ler e/ou ouvir o “outro lado”. Compraram a versão envenenada pela mídia (televisão, rádio, jornal e revista) e se puseram a repeti-la sem nenhum filtro, sem nenhuma interrogação.

Pelo menor esforço, terceirizaram suas consciências. O que está escrito e dito nos meios de comunicação da grande mídia empresarial é tomado como a única forma possível de apreensão da realidade. Não há alternativas. Agarram-se a essas versões como se fossem tábuas de salvação no mar da agonia da dúvida. E não querem ouvir mais nada. Recusam os questionamentos, receiam as incertezas.

Não sou ingênua de supor que essas pessoas (em grande número) não estão a defender seus próprios privilégios e prerrogativas. Estão sim. Mas fazem isso também porque se acostumaram a repetir sem nenhuma hesitação tudo que ouvem e leem nos órgãos de comunicação. Não têm coragem de duvidar, de questionar, de divergir, de contrapor. E, pelo menor esforço, chancelam até as mentiras, as calúnias e as boçalidades.

 

Rio de Janeiro, 30 de outubro de 2014.