Os três ciclos republicanos no Brasil

Faço aqui uma proposição de análise sobre os ‘três ciclos republicanos’, como um exercício de interpretação das principais tendências observadas na evolução histórica do Brasil, desde o advento da República, em 1889. A cada um desses ciclos correspondeu a hegemonia intelectual e política de um determinado grupo profissional, articulado em suas instituições de classe e nas esferas institucionais do Estado, capaz de determinar e de delimitar os rumos do País. Primeiro, os engenheiros; em seguida, os economistas; e, atualmente, os juristas. Trata-se de uma indagação sobre a possibilidade de analisar os três ciclos do processo de desenvolvimento do Brasil republicano, sob a ótica dos formuladores das políticas públicas que orientaram o seu percurso até o presente.

Antes de estabelecer as diferenças e as especificidades de cada um desses grupos profissionais, talvez seja significativo questionar: o que há de comum entre eles? Em primeiro lugar, cumpre ressaltar que os luminares de cada profissão tendem a ser representantes diretos da classe dominante brasileira (aquela dos ‘donos do poder’), ou a ela se articulam ocupando os principais postos de comando do País, em suas respectivas áreas de atuação. Na maior parte dos casos, já nascem no berço esplêndido dos privilégios e das oportunidades. E são dotados de uma concepção elitista, na qual eles mesmos se atribuem o papel e a função de reformadores e intérpretes da sociedade em geral, cujas propostas e soluções são as melhores e não dependem (nem deveriam depender) do referendo popular.

São profissionais com instrução de nível superior, o que, numa formação social marcada por profunda desigualdade, já lhes confere autoridade e mérito para decidir quais os caminhos a serem trilhados pela maioria. O conhecimento científico e acadêmico que possuem, como conhecimento altamente especializado que é, tende a lhes garantir uma espécie de saber incontestável, uma supremacia intelectual quase natural, que raros ousam contestar. Disso resulta uma visão de mundo voluntarista e impositiva, que se une aos privilégios de origem e de riqueza, para configurar um padrão de organização social e política que reforça e aprofunda as disparidades, em vez de mitiga-las.

Engenheiros e economistas assentaram as suas bases profissionais sobre uma ideia de progresso que marcou de modo indelével o advento e a evolução das modernas sociedades industriais capitalistas. Quanto aos primeiros, sua matéria-prima fundamental tem sido a criação e o aprimoramento de métodos e técnicas destinados a aparelhar com eficiência e produtividade a organização da produção material. Já os segundos, vêm se propondo a oferecer os melhores instrumentos de administração dos ciclos econômicos, a fim de garantir bons resultados nas fases de expansão e algum equilíbrio nos momentos de retração. No caso brasileiro, por mais dependente e desarticulado que tenha sido, um princípio de desenvolvimento econômico se forjou nos dois ciclos conduzidos por engenheiros e economistas, com significativa expansão da atividade industrial, urbanização, diversificação agrícola e modernização dos serviços.

Tudo isso se deu sem um enfrentamento direto e sistemático da desigualdade secular do País, e as camadas mais pobres da população só puderam experimentar algum alívio em suas carências estruturais (saúde, educação, moradia, saneamento, mobilidade) de forma esporádica e pontual, num processo totalmente ausente de continuidade e de efetividade. Não raramente os ganhos obtidos em determinados períodos acabaram sendo perdidos por completo no desenrolar dos acontecimentos seguintes. Ao primeiro sinal de crise, os benefícios sociais que dependem de políticas públicas são rapidamente desarticulados e dão lugar a novas fases de penúria.

Pode-se dizer que o ciclo dos engenheiros se iniciou ainda no período monárquico, com a criação das escolas de engenharia e a construção ferroviária, mas se consolidou mesmo na Primeira República, quando os engenheiros brasileiros buscaram incorporar os principais atributos tecnológicos e científicos dos países industrializados à realidade brasileira. E fizeram isso sem um questionamento muito profundo das limitações impostas pelos séculos de colonização e de escravismo. Ao longo de décadas, o Brasil criou as suas ilhas de modernidade, em meio a um vasto cenário de incipiente progresso econômico e social, em que se habituaram a conviver duas realidades bastante distintas entre si, que se articulavam criando uma espécie de ‘colonialismo interno’. Nessa dinâmica contraditória, as regiões mais prósperas definiam e delimitavam a evolução do conjunto, sem corrigir as distorções assim geradas e, ao contrário, reforçando-as.

Em inúmeros aspectos, a engenharia brasileira se equiparou à engenharia do chamado mundo desenvolvido, embora o seu impacto transformador sobre as condições materiais do País tenha ficado aquém da sua própria capacidade técnica e científica, isto é, muito mais poderia ter sido feito em benefício da coletividade se essa capacitação intelectual dos engenheiros pudesse ter sido explorada de forma plena. Mais estradas, mais pontes, mais portos, mais moradias, mais saneamento, mais mobilidade urbana, mais energia: o conhecimento estava ali disponível, mas as condições políticas não fomentavam o seu emprego mais amplo e contínuo.

Nas décadas de 1930 e 1940, a economia ganhou autonomia e passou a ser ensinada nas universidades brasileiras como disciplina especializada, deixando de ser um apêndice dos cursos de direito e de engenharia. Desde a criação das primeiras faculdades de direito no Brasil, a Economia Política era estudada como matéria complementar. Na Escola Politécnica do Rio de Janeiro (‘berço da engenharia nacional’), passou a fazer parte da grade curricular em 1864, e teve entre os seus professores o célebre José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco, além dos engenheiros Vieira Souto e Aarão Reis. Não é de se estranhar que a economia tenha se tornado uma carreira de nível superior no Brasil, justamente naquele momento histórico em que o modelo agrário-exportador acabava de entrar em choque, com a crise de 1929 e a derrocada das exportações de café. Era preciso repensar o desenvolvimento do País, e ninguém poderia fazer isso melhor do que os novos especialistas.

Os economistas têm oscilado entre os pêndulos de um Estado intervencionista e indutor do desenvolvimento econômico e/ou de uma iniciativa privada como fonte primordial de todo o crescimento econômico e do progresso material em geral. Desde o início dos anos 1940, com a célebre controvérsia havida entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin em torno dos rumos a serem seguidos pela economia brasileira, diante da debacle do modelo primário-exportador, esse debate controverso tem se expandido e incorporado outros temas, mas preserva a sua essência. No cerne da discussão, a necessidade de se promover a industrialização do Brasil, para livrá-lo da dependência secular do setor exportador e garantir uma expansão contínua e acelerada de suas potencialidades. É na indústria que reside a redenção do atraso. E no Estado, a força propulsora. (Ou não.)

“Ao engenho e à capacidade da iniciativa privada, amparada e fomentada pelo Estado, cabe promover o bem-estar econômico e a melhoria do padrão de vida do povo brasileiro.”

“Ao Estado cabe cooperar com a iniciativa privada, através de medidas legislativas e administrativas, que permitam e facilitem a livre expansão de seus empreendimentos.”

“Deve o Estado abster-se de participar dos empreendimentos da seara da iniciativa privada ou de com eles concorrer por meio de organizações ou entidades estatais, paraestatais ou mistas.” (Eugênio Gudin, p.120)

“Se a renda nacional é baixíssima, se os níveis de vida, em grandes zonas, são miseráveis, se possuímos recursos naturais de monta e extensos espaços de terra não aproveitados, se a técnica e a ciência modernas oferecem os instrumentos essenciais para, dentro de um planejamento racional, corrigir esse estado de atraso, por que não adotá-lo? É um erro supor que o conceito de planejamento se prenda, obrigatoriamente, a escolas políticas ou econômicas antidemocráticas.” (Roberto Simonsen, p.134)

Tanto engenheiros como economistas têm em comum o fato de que atuam sobre a realidade concreta da produção e da distribuição de bens e serviços, para a qual julgaram (e ainda julgam) ter as melhores soluções. Muitas vezes, seus projetos são complementares; uns atrelados aos outros. Não há em seus propósitos a intenção de destruir as bases econômicas do Brasil: pelo contrário, há um esforço claro de defender políticas que venham a proporcionar o melhor ambiente para um desempenho positivo dos principais indicadores econômicos nacionais: renda, emprego, investimento, produção, comércio exterior etc. Pelo menos, é o que pregam.

Nos últimos anos, contudo, temos assistido à emergência de um novo grupo profissional hegemônico — os juristas —, que parece estar caminhando no sentido oposto. O ciclo republicano atual, no qual os juristas assumem o protagonismo, parece sugerir que estes pairam acima da realidade econômica e social, numa esfera de competência autoproclamada, em que se incumbem da missão ciclópica de ‘curar’ a doença da corrupção que gangrenou todo o sistema político brasileiro. E também o empresarial. Para cumprir a sua missão obstinada de ‘acabar de vez com a corrupção’, membros do Ministério Público e do judiciário têm desconsiderado o impacto de suas ações sobre o mundo real da economia, contribuindo para desarticular setores inteiros de atividade, com quedas bruscas no investimento e no emprego. Sem oferecer contrapartidas.

Não deixa de ser curioso pensar que isso ocorre num momento histórico em que se aprofunda e se agiganta o poder irrestrito do mercado financeiro sobre todas as coisas. A ‘financeirização’ da vida é um dado dramático e global que, desde a crise de 2008, tem contribuído para concentrar cada vez mais recursos nas mãos de uma minoria que controla, em todas as partes do mundo, as decisões mais importantes sobre investimento e desenvolvimento econômico. E faz isso levando em conta exclusivamente os seus próprios interesses lucrativos. Sem nenhuma conexão com as necessidades humanas. Os governos parecem ter sido todos capturados por essa lógica perversa que a tudo domina E, mais grave do que isso, as instituições dos Estados nacionais também. A comunidade internacional assumiu uma feição amorfa, em que tudo se parece e se ilude.

O judiciário se converteu, assim, numa trincheira de classe, que tem servido para legitimar as ações desses grupos poderosos que controlam o dinheiro do mundo. Eles abatem sem tréguas todos aqueles que resistem aos seus ataques ou que se interpõem em seu caminho. A criminalização das resistências tem se mostrado bastante efetiva nesse combate. Mas a corrupção de potenciais aliados também se revela muito funcional para os propósitos maléficos de concentração da riqueza em escala global.

Por isso mesmo, o combate à corrupção per se não significa um projeto político efetivo. Serve apenas para manipular a opinião pública e levar a cabo os desígnios de uma elite financeira predadora, que corrói as bases do desenvolvimento econômico e social voltado para o conjunto da sociedade. Rever a famosa controvérsia entre Simonsen e Gudin permite observar a atualidade das questões ali levantadas. Não deixa de ser inquietante pensar que, passadas tantas décadas, ainda estejamos naquele lugar.

 

Referências:

ciclo 1 espaço de tempo durante o qual ocorre e se completa, com regularidade, um fenômeno ou um fato, ou uma sequência de fenômenos ou fatos (os c. astronômicos podem ser determinados com exatidão) (o c. da vida) 2 série de fenômenos, fatos ou ações de caráter periódico que partem de um ponto inicial e terminam com a recorrência deste (o c. das estações) (o c. litúrgico da igreja) 3 conjunto de fatos, de ações, de obras que se sucedem no tempo e evoluem, marcando uma diferença entre o estágio inicial e o estágio conclusivo (o c. de fabricação de um automóvel) (o c. das sonatas de Beethoven) … 11 ECON flutuação das atividades econômicas que compreende períodos alternados de expansão e de recessão … 17 HIST SOC fase em que predomina determinado fato político, social, econômico etc. (o c. do ouro no Brasil) (o c. das navegações) 18 HIST SOC recorrência de fatos ou situações análogas e/ou vinculadas entre si (o c. das guerras de independência na América)

*Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 1ª ed., 2001, p.713.

http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/3183/1/livro_A_controv%C3%A9rsia_do_planejamento_na_economia_brasileira_3ed.pdf

 

O cúmulo

Fala-se muito hoje em dia do complexo de vira-lata que atormenta a elite brasileira. Basicamente, esse complexo se manifesta no menosprezo por tudo que é autenticamente brasileiro e na exaltação de tudo que vem de fora. Mas não um “de fora” qualquer — tem de ser originário da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, parâmetros de civilização e progresso que essa elite deseja seguir e incorporar. Ao espichar os olhos sobre uma realidade que não é a sua, mas comporta tudo que há de mais admirável e desejável, tal camada social se sente profundamente frustrada com aquilo que a cerca, e despeja o seu ressentimento de todas as formas possíveis sobre tudo e todos que “conspiram” para afastá-la do seu ideal.

Há quem atribua essa concepção de mundo ao passado colonial que definiu a formação do Brasil. Mas, quando se observa que houve aqui um processo de independência em relação a Portugal, em que se formou um “partido brasileiro” que se opunha frontalmente ao “partido português”, no qual se reuniam os partidários da colonização e os defensores da supremacia portuguesa, se é levado a perguntar como foi que tudo isso se perdeu? Como foi que a elite brasileira que rompeu os laços coloniais com Portugal e buscou sua afirmação nacional se tornou assim tão “vira-lata”, a ponto de ficar de costas para praticamente tudo que foi gerado de forma autenticamente brasileira ao longo do processo de evolução do País?

São questões complexas que não cabem por ora neste breve comentário que faço a respeito, mas merecem toda atenção. Quero explorar aqui uma anedota que ilustra bem esse estado de espírito vira-lata.

Nos idos da década de 1920, os principais países capitalistas se debruçavam sobre os desafios do urbanismo moderno. Com uma feição cada vez mais urbana, na qual cidades significativamente populosas se transformavam no espaço emblemático de seu modelo de desenvolvimento econômico e social, as grandes potências se preparavam para enfrentar os dilemas da urbanização crescente de seus territórios: sistemas de águas e esgotos, transportes coletivos, moradias populares, vigilância e segurança. Debates, projetos, propostas dos mais variados tipos preenchiam as agendas políticas da época. Em seu retorno de uma viagem à Inglaterra, um dos sócios do Clube de Engenharia relatou assim o que viu no Congresso Internacional de Casas Baratas, que assistiu em Londres:

“O rei Jorge V, da Inglaterra, disse, diante de 300 delegados de 34 nações, que o problema da casa dos proletários é a questão fundamental e primordial de todo e qualquer progresso nas sociedades modernas e que, sem a sua solução, não haveria paz e tranquilidade nas nações.” (1)

E pensar que o rei inglês se fez presente a um encontro que visava debater justamente a questão das moradias populares! Outros tempos, sem dúvida. No Brasil, a construção de casas populares como política pública foi uma demanda que se arrastou durante décadas, sofrendo alguns espasmos de realização e depois retrocedendo. A favelização das nossas cidades e a degradação de suas periferias são a melhor evidência do seu fracasso. O reconhecimento de que o tema era merecedor de muita atenção e de programas efetivos de ação governamental, como ficou claro na fala do rei da Inglaterra, sempre careceu de força entre nós. Ainda hoje, iniciativas desse tipo continuam sendo objeto de ataques frequentes e contínuos.

Essa profunda influência exercida pelo urbanismo europeu sobre os engenheiros brasileiros era bastante seletiva, como se pode perceber. Neste sentido, vale destacar a longa digressão de Paulo de Frontin sobre as possibilidades de transpor para o Rio de Janeiro — capital do País e cidade-símbolo — alguns recursos que pudessem corrigir aquilo que ele chamou de as “falhas existentes na beleza” da cidade, tais como a ausência de rios e de geleiras no cume de suas montanhas. Rios e montanhas geladas, como se sabe, são partes integrantes das paisagens europeias, os paradigmas da beleza almejada. Como sua sugestão, o rio Meriti poderia ser aproveitado para esse fim, embora ficasse um tanto afastado da área central da cidade. (2) Ao mesmo tempo, afirmava que as novas tecnologias desenvolvidas na Europa se encarregariam de proporcionar os meios de gelar os picos nos trópicos!

“Quem percorre Paris ou Londres, lá encontra rios que embelezam extraordinariamente a cidade, pelas suas pontes, como a Torre de Londres e a de Alexandre III. Além do mais, essas pontes constituem locais de observação de primeira ordem para o visitante da cidade. (…) Não temos geleiras. Não possuímos temperatura que permita encontrar o gelo no alto cume das nossas montanhas, mas, do mesmo modo que se abriu o túnel do Quai d’Orsay, gelando o terreno a 40 graus abaixo de zero, poderemos gelar o pico da Tijuca, o do Papagaio, e, artificialmente, resolver o problema, dotando quando o entendermos a cidade daquilo que lhe falta. (…) Resolvidos esses dois pontos, nada mais haverá a desejar senão não estragar o que a natureza nos deu.” (3)

Cumpre dizer que o engenheiro Paulo de Frontin era reconhecido e respeitado dentro e fora do Brasil. Professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, ex-diretor da Central do Brasil, construtor da Avenida Central e prefeito do Rio por seis meses, em 1919, entre tantas outras coisas, possuía uma longa lista de obras e serviços prestados à engenharia nacional. Sua condição social de membro efetivo da elite nativa responde por esses arroubos de exaltação acrítica a tudo que vem da Europa. A imitação de meios e modos lhe parecia somente uma questão de vontade. E bastaria para resolver os “problemas”. Quem não conhece o Rio de Janeiro pode buscar imagens na Internet e perceber como a cidade é bonita — mesmo sem rios e geleiras! Quem a conhece não pode deixar de sorrir diante de sugestões assim tão excêntricas.

Referências:

(1) Ata da sessão do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, em 07 de dezembro de 1925. Publicada no Jornal do Commercio, em 27 de janeiro de 1926. Atas do Conselho Diretor – Imprensa, 24/12/1921 a 16/12/1925, p.189.

(2) O rio Meriti fica situado na Baixada Fluminense e separa os municípios de Duque de Caxias e São João de Meriti. Bem distante, portanto, da área central do Rio de Janeiro (aproximadamente 25 km).

(3) Ata da sessão do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, em 16 de janeiro de 1929. Revista do Clube de Engenharia. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1930, p.566-567.

Prendam-se todos!

Li por esses dias um artigo excelente do professor Sidney Chalhoub, no qual ele faz uma analogia entre o Brasil de finais do século XIX e o Brasil dos dias atuais  Para ilustrar a sua argumentação, usa o personagem Simão Bacamarte, de O Alienista, de Machado de Assis, cujas pretensões saneadoras levadas ao extremo muito o fazem se parecer com um juiz que está atualmente em grande evidência na mídia brasileira. Tal qual o médico criado por Machado de Assis, que diagnostica todos — absolutamente todos — como portadores de distúrbios mentais variados, que merecem cuidados e reparos necessários, portanto, membros do judiciário nativo vêm se atribuindo o papel de detratores absolutos da corrupção, cuja erradicação definitiva dizem perseguir como missão. A analogia do professor Chalhoub é brilhante.

Do antigo “despotismo científico” que caracterizou o fim da Monarquia e o início da República caímos agora, como bem o mostra o professor Chalhoub, no “despotismo judiciário”; isso depois de termos vivido décadas de “despotismo econômico”, nas quais fomos conduzidos à força por economistas implacáveis e seus planos mirabolantes. O autoritarismo que viceja em nosso País há tanto tempo apenas muda de mãos. Mas permanece intacto. Ora deslocam-se os mais pobres para regiões cada vez mais distantes das cidades, em nome da saúde pública. Ora castigam-se trabalhadores e consumidores por sua “responsabilidade” pelo aumento da inflação. Ora destrói-se um país inteiro a pretexto de acabar com a corrupção. Prendam-se todos!

No limiar do século XX, quando o Brasil também comemorava o quarto centenário do seu descobrimento, essas percepções autoritárias sobre a realidade se evidenciaram durante a realização de três congressos científicos organizados como partes das comemorações oficiais pelo “nascimento” do País. Juristas, médicos e engenheiros reunidos na cidade do Rio de Janeiro, em 1900, pretenderam discutir os principais problemas de seus campos específicos de conhecimento, e oferecer soluções. Uma preocupação comum perpassava todos esses encontros: dar ao mundo mostras claras de que o Brasil pretendia fazer parte, em caráter definitivo, do “rol das nações civilizadas do planeta”. Para isso, manifestaria, por meio de seus principais luminares, a adesão aos princípios norteadores da civilização moderna.

Os juristas apresentaram o seu “mais completo apreço à ordem institucional vigente”, declarando o primado da Constituição e do Estado de Direito, e tendo como o seu fim supremo a equidade, diretamente decorrente da democracia e da liberdade. A questão da federação seria o tema central dos debates propostos. Tendo em vista que a República assumira a forma federativa, havia uma preocupação clara de definir os limites e as prerrogativas dos Estados e da União, a fim de assegurar uma institucionalidade estável, uniforme e duradoura. O sistema político, portanto, representou o cerne dos desafios a serem enfrentados. Equilibrar demandas e poderes nos três níveis de governo é, sem dúvida, uma tarefa tremendamente difícil. (Ouso dizer que a “questão da federação” permanece atual no Brasil, e talvez inconclusa. Vez por outra surgem novos atritos entre Estados, municípios e União, regra geral, em função de recursos para investimentos e custeio, embora existam ainda fontes de desconforto na esfera administrativa.)

Os médicos se encontravam cada vez mais envolvidos com um perfil higienista. Ainda que o orador oficial do congresso de medicina tenha mencionado os problemas da febre amarela, da tuberculose, da varíola e de outras endemias que comprometiam a qualidade de vida dos brasileiros, a ênfase do seu discurso recaiu mesmo sobre as questões de saúde pública no Brasil e, em especial, na cidade do Rio de Janeiro.  Já haviam sido realizados até aquela data diversos estudos médicos que procuravam apontar os principais fatores de insalubridade da cidade, realçando as características do seu solo, do sistema de esgotos imperfeito e insuficiente (ou inexistente?!), do precário abastecimento de água e das condições do porto, que colocavam em constante ameaça a saúde da população.

Embora não houvesse unanimidade a respeito das medidas mais adequadas para a solução desses problemas de saúde pública, os médicos presentes ao encontro acataram algumas opiniões que apontavam as iniciativas profiláticas mais urgentes destinadas a recuperar com maior rapidez as condições de vida da população. A primeira delas foi a recomendação para o fechamento das estalagens e dos cortiços que “infestavam” a área central da cidade, constituindo-se no principal foco de propagação das doenças que assolavam periodicamente a região. Em seguida, precedida de outras advertências de cunho prático (vigilância sanitária no mercado central e no matadouro, proibição da circulação de animais no perímetro urbano), vinha uma medida da maior relevância para os médicos: a melhoria do abastecimento de água para a cidade. E, por fim, mas de igual importância, era aconselhada uma mudança radical nos costumes da população, como, por exemplo, parar de cuspir no chão e de comer com as mãos.

A ciência da engenharia simbolizou, talvez como nenhuma outra pudesse fazê-lo naquela época, o sentido de progresso que havia sido incorporado pela civilização ocidental, notadamente a partir da segunda metade do século XVIII. Síntese bem acabada das ciências naturais e da matemática, a engenharia representaria grande parte dos ideais de supremacia do homem sobre a natureza que o avanço do conhecimento prometera proporcionar. Nas décadas finais do século XIX, ocorreria o auge do seu processo de ascensão como ramo profissional especializado, inclusive no Brasil, quando foram fundadas algumas das suas principais escolas superiores — Escola Politécnica do Rio de Janeiro, 1874; Escola de Minas de Ouro Preto, 1876; Escola Politécnica de São Paulo, 1894 — e quando foi criado o Clube de Engenharia, em 1880, no Rio de Janeiro, a associação mais importante da categoria.

Em condições de oferecer soluções técnicas de eficiência já comprovada, graças aos modelos e aos métodos importados da Europa, os engenheiros brasileiros realizaram uma ascensão bastante rápida nos quadros políticos da República, deslocando médicos e juristas que, tradicionalmente, ocupavam os postos-chave na administração pública do País. Uma de suas frentes de luta mais acirrada foi justamente a reivindicação do emprego de “critérios técnicos” na atribuição de funções dentro da burocracia governamental. Em questões de infraestrutura, consideravam-se mais bem preparados para tomar decisões e executar obras e serviços. A consolidação da sua hegemonia política deveu-se, em grande parte, à capacidade que tiveram de articular o seu projeto de afirmação profissional ao programa de modernização do Brasil.

Muito embora o congresso da categoria tivesse contemplado os mais variados assuntos ligados à base material da sociedade (viação, portos, navegação interior, hidráulica agrícola, obras municipais), foram os problemas urbanos do Rio de Janeiro que ganharam maior destaque na congregação. Tomando como paradigma de seu projeto de modernização do Brasil os estágios de evolução das sociedades capitalistas avançadas, os engenheiros procuraram demonstrar que o crescimento de um país, na era da tecnologia e da indústria, tinha como seu fator primordial a ação da engenharia. Completamente convencidos de que progresso era sinônimo de conhecimento, um conhecimento cada vez maior sobre as leis da natureza que permitiria o controle sobre os seus diversos fenômenos, eles identificavam a si próprios como porta-vozes do progresso. Suas ideias e projetos, portanto, oriundos de uma conformação científica, estavam acima de qualquer crítica e de qualquer questionamento.

A reforma urbana do Rio de Janeiro, levada a cabo durante a administração do prefeito Pereira Passos (1903-1906) tem sido considerada o exemplo perfeito desse tipo de concepção que marcou as primeiras gerações de engenheiros brasileiros. O “despotismo científico” mais bem acabado, que não permite queixas e que não admite desvios. Uma visão de mundo que sacraliza determinados princípios em detrimento de outros, que não faz concessões à dúvida ou ao debate amplo. Levada a cabo por alguns arautos que se enxergam como detentores não apenas de um saber específico, mas de uma missão sublime que lhes foi confiada sabe-se lá por quem.

Referências:

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/moro-e-o-alienista-de-machado-de-assis-por-sidney-chalhoub-de-harvard/

Associação do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil. Livro do Centenário (1500-1900). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1910.