Os patrões fazem passeata de protesto!

É bastante difundida a noção de que os países escandinavos desfrutam de uma sociedade equilibrada, na qual se combinam harmoniosamente um desenvolvimento econômico sustentável e um bem-estar social amplamente disseminado e eficiente, capaz de prover à população as melhores condições de vida e, ao mesmo tempo, assegurar perspectivas contínuas de progresso e aprimoramento. Nascer num desses países, costuma-se pensar, é meio caminho andado para uma vida digna e produtiva. Pouco se discute, no entanto, como foi que chegaram a esse estágio de equilíbrio em que se encontram (ou se encontravam). O presente fala (ou falaria) por si mesmo.

Não temos embasamento acadêmico suficiente para discutir as principais linhas do desenvolvimento econômico e social dos países escandinavos. Reconhecemos, como se faz em grande medida, que o salto para o progresso social de que desfrutam ocorreu, principalmente, após a Segunda Guerra Mundial, e por meio da adoção de políticas públicas de incentivo ao crescimento econômico e de investimentos públicos diretos, sobretudo em infraestrutura, além de um reforço substancial nas áreas de educação, saúde, moradia e transportes. Para tanto, seus governos abraçaram as políticas macroeconômicas de orientação keynesiana e fortaleceram o papel do Estado como grande indutor do novo alinhamento social e econômico de seus países.

Olhando de relance, pode-se ter a impressão equivocada de que tudo se passou em total harmonia, e de que todos os setores sociais estiveram identificados com esse projeto de desenvolvimento, que tinha no Estado o seu principal agente e que promovia medidas fortes e contínuas de intervenção e regulação econômicas. Mas, é claro que  não foi bem assim. Na sequência da pesquisa que fazemos nos exemplares do JORNAL DO BRASIL, encontramos uma notícia para lá de curiosa a esse respeito. Corria o mês de outubro de 1983, e ficamos sabendo que os empresários suecos saíram às ruas em protesto contra uma série de medidas governamentais que incidiriam diretamente sobre o destino dos lucros das suas empresas. A matéria é de Helen Womack, da Agência Reuters.

“Mais de 100 mil pessoas, a maioria empresários, fizeram em Estocolmo a maior manifestação do século na Suécia, em protesto contra o plano do Governo social-democrata de taxar o lucro das empresas com mais de 50 funcionários para criar um fundo de investimentos controlado pelos sindicatos. A Oposição acha que ‘o plano igualará a economia sueca à dos países do Leste Europeu’.

Vindos de todo o país até em voos charter, vestidos como para ir às compras, muitos participavam pela primeira vez de um protesto. Na sessão de abertura do Riksdag, o prédio do Parlamento fechado há 12 anos para reforma, o Primeiro-Ministro Olof Palme defendeu o fundo como vital para aumentar o investimento e criar empregos.” (Jornal do Brasil, 05 de outubro de 1983, p.6)

Nada poderia ser mais atual do que esse embate entre certos governos que pretendem direcionar recursos para fins socialmente justos e empresários que se recusam a contribuir para a construção de uma sociedade mais igualitária (se depender do seu dinheiro, lógico). Mas, falamos aqui da Suécia, e do ano de 1983. A convocação para o gigantesco protesto em Estocolmo, a capital do país, havia sido feita pela oposição conservadora e pelas oito federações patronais suecas mais importantes. Entre os seus argumentos mais contundentes, havia o receio declarado de que a economia de mercado que prevalecia na Suécia viesse a ser substituída por uma economia de planejamento centralizado, “igual à de qualquer outro Estado socialista do leste europeu”.

Mal comparando, a América Latina vive hoje uma turbulência clara entre esses dois tipos de enfoque sobre economia e sociedade, e um dos principais fantasmas alegados pelos conservadores latino-americanos é o assim chamado “socialismo bolivariano” da Venezuela. O pavor de que ele se espalhe pelo continente e leve de roldão todos os países dessa imensa região é decantado aos quatro ventos por inúmeros porta-vozes muito bem pagos e muito bem situados dentro da mídia hegemônica. Lá como cá, os empresários manifestantes da Suécia também agarraram a bandeira pátria como o seu principal símbolo de resistência, e cobriram a sua passeata chique e bem vestida com as cores azul e amarelo do pavilhão nacional. Entre as faixas que empunhavam, uma chamou especialmente a atenção: “O fundo é o começo, o fim é o socialismo.”

Um pequeno grupo de jovens socialdemocratas remava contra a maré da manifestação vip e gritava contra a multidão de empresários oriundos de todos os cantos do país: “Capitalistas, vão para casa e criem empregos!” A ideia de criação do fundo de investimento proposto pelo governo socialdemocrata era justamente a de levantar recursos para promover o combate ao desemprego, que era cada vez mais preocupante, sobretudo, entre os mais jovens. Embora a atividade produtiva sueca não estivesse enfrentando nenhum tipo de adversidade, e apesar dos seus lucros altíssimos a cada ano, essa abundância não se refletia na melhoria das condições gerais de emprego e renda.

Uma pequena pista para explicar esse estado de coisas, aparentemente contraditório — lucros elevados dos capitalistas e um correspondente aumento do desemprego — pode ser encontrada na fala do primeiro-ministro sueco, Olaf Palme, ao abrir a sessão do Parlamento:

O fundo é necessário para aumentar a produção e o emprego no momento em que a especulação e as operações financeiras ameaçam minar a confiança em nosso sistema econômico.

Um pequeno parágrafo a seguir na matéria do jornal indica que as companhias suecas começavam a dirigir parte substancial dos seus lucros para atividades de especulação financeira, em claro prejuízo aos investimentos produtivos que geram emprego e renda. Segundo o texto, algumas delas estiveram, inclusive, envolvidas em pequenos escândalos na Bolsa de Valores de Estocolmo, por conta de aplicações ilícitas no mercado financeiro. Era essa liberdade que defendiam em sua manifestação. Era contra essa velhacaria que o governo socialdemocrata tentava impor restrições, ao criar um fundo para garantir investimentos produtivos que assegurassem o crescimento econômico continuado do país e o emprego e a renda dos seus trabalhadores.

Dentro do modelo capitalista de organização econômica e social, talvez, não seja possível escapar desse pêndulo. O embate entre propostas distintas que pregam a primazia absoluta das chamadas “forças do mercado” (a iniciativa privada) ou a preferência pela intervenção estatal em prol do bem-estar social e econômico tem dominado o cenário político dos últimos cem anos, pelo menos. Essa pequena anedota sobre a experiência sueca, de todo uma experiência muito bem sucedida do ponto de vista socioeconômico, mostra duas coisas principais: primeiro, que a coesão política dos socialdemocratas garantiu a salvaguarda de grande parte das conquistas sociais obtidas ao longo de décadas de luta; e, segundo, que havia naquele episódio uma provável antevisão do que estava por vir — isto é, uma tendência cada vez mais acentuada das empresas capitalistas de buscar incessantemente o lucro fácil da especulação financeira, em detrimento dos investimentos produtivos que geram emprego e renda para os trabalhadores em geral.