Todo golpe tem um quê do 18 Brumário

Parece cada dia mais claro o verdadeiro conluio do golpe que está em curso no Brasil, desde 2016: bancos, mídia, grupos multinacionais, políticos e empresários inescrupulosos se uniram para promover o assalto às riquezas e ao patrimônio do País, ao mesmo tempo em que suprimem direitos e eliminam toda e qualquer garantia de bem-estar de grande parte da população. Para destruir o projeto de inclusão social que vinha sendo colocado em prática pelos governos do PT (2003-2015), ainda que de forma tímida e dosada, optaram por destruir o próprio País. Alguns indicadores já começam a apontar para as graves consequências desse retrocesso: o recrudescimento da violência e o aumento das doenças contagiosas. A sífilis já sinaliza crescimento substancial no número de casos registrados.

Entretanto, não são de todo estranhas as suposições de que o pior ainda está por vir: de um lado, porque ainda há certa ‘gordura para queimar’ resultante de medidas protetivas dos governos anteriores, que não foram completamente eliminadas, por enquanto; de outro, porque a ‘PEC dos gastos’ impôs um limite draconiano aos gastos públicos por pelo menos 20 anos consecutivos. Ou seja, tanto a gordura que resta e que será queimada em breve tempo quanto a falta de recursos para investimentos públicos futuros farão estragos significativos nas condições gerais do País. O alto número de desempregados — algo em torno de 13 a 14 milhões — é apenas uma das faces trágicas desse processo acelerado de destruição.

Mas, por que todo golpe tem um quê do 18 Brumário?

Porque, como bem disse Engels, no prefácio à edição de 1885, de O 18 Brumário de Luís Bonaparte, as revelações ali oferecidas jamais cessaram de mostrar que nada mais faziam além de refletir a realidade. Escrito por Marx, no calor dos eventos que caracterizaram as transformações políticas da França, em pleno rescaldo das ebulições de 1848 que ‘varreram a Europa’, o texto fornece uma análise detalhada e afiada dos principais aspectos daquele processo histórico, além de lançar as bases da teoria política que marcaria os séculos.

“Foi precisamente Marx que descobriu a primeira grande lei segundo a qual todas as lutas históricas, quer se processem no domínio político, religioso, filosófico, ou qualquer outro domínio ideológico, são efetivamente a expressão mais ou menos clara da luta de classes, lei em virtude da qual a existência dessas classes e, portanto, também as suas contradições são, por seu lado, condicionadas pelo grau de desenvolvimento da sua situação econômica, pelo seu modo de produção e troca, esta determinada pela precedente.” (p.12)

Assim sendo, as lutas de classes como fundamentos de todas as lutas históricas não podem escapar de seus condicionamentos determinantes. As grandes rupturas, as crises revolucionárias, segundo Marx, tendem a evocar os ‘espíritos do passado’, nos quais se buscam as inspirações e os encorajamentos necessários para as transformações desejadas. Por mais ambiciosos que sejam esses desígnios, no entanto, eles se ajustam às circunstâncias do presente e são moldados por elas, em parte:

“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem arbitrariamente, nas condições escolhidas por eles, mas antes sob as condições diretamente herdadas e transmitidas pelo passado.” (p.15)

Dessa forma, tanto no plano da realidade concreta quanto no âmbito das evocações subjetivas, o passado cumpre papel determinante nas escolhas das coletividades. Em geral, heróis e momentos de glória e esplendor anteriores tendem a ser preferidos para guiar o presente numa direção fecunda e promissora.

Em certos aspectos, porém, essa busca de recriação de uma experiência passada gloriosa acaba resultando em fiasco, sobretudo, quando não se escora numa aspiração legítima do conjunto da sociedade, mas, antes, atende às ambições de grupos que pretendem ascender ao poder apenas para colocar em prática programas e projetos que sirvam exclusivamente aos seus próprios interesses. Marx resumiu isso de forma brilhante ao cunhar tal assertiva:

“Hegel faz notar algures que todos os grandes acontecimentos e personagens históricos ocorrem por assim dizer duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” (p.15)

O golpe, nas suas mais variadas manifestações temporais — isto é, tanto com Napoleão Bonaparte, em 1799, quanto com Luís Napoleão, em 1852 — serviu, segundo Marx, para recompor o poder de classe da burguesia francesa ameaçada pela emergência das lutas populares cada vez mais acirradas. E ontem, como hoje, esse propósito se reveste de máscaras palatáveis que buscam iludir a opinião pública com as boas intenções dos golpistas — a ‘salvação nacional’, a ‘restauração da ordem’, o ‘combate à corrupção’. A recomposição de um poder de classe é anunciada como o atendimento dos principais anseios e esperanças da maioria. Ao longo da história, dezenas de episódios desse tipo se repetem com relativa frequência e velocidade, em situações de crise e de graves transformações que possam colocar em risco — de forma real, ou meramente pressentida — o poder de classe dos detentores do capital. Por isso, dizemos que todo golpe tem um quê do 18 Brumário: ele representa sempre a retomada do controle sobre a situação política por parte da elite dominante, sempre que, de alguma forma, ela se veja ameaçada pela atuação das forças populares organizadas em luta pelos seus direitos e conquistas.

Mas não se pode negligenciar a profundidade e a abrangência com que Marx envolve a sua análise. Mesmo reconhecendo a energia propulsora dos trabalhadores urbanos, potencialmente capazes de aglutinar as forças populares em sua luta contra a opressão do capital, e de liderar os movimentos revolucionários, ele admite a heterogeneidade de interesses e conflitos dentro dos campos do próprio trabalho e do capital. Segundo Marx, foram os camponeses das pequenas parcelas endividadas e decadentes que deram a vitória a Luís Bonaparte, em dezembro de 1851, pondo fim à chamada República Parlamentar, que fora instaurada em 1848, sob os auspícios dos operários urbanos dos grandes centros do país. O ‘velho’ (campesinato) em confronto aberto com o ‘novo’ (operariado urbano), tentando em vão resgatar uma época de bonança propiciada pela Revolução de 1789, que tirara dos camponeses os grilhões impostos pela aristocracia destronada. Dois conjuntos de forças sociais que, embora pertencentes ao mesmo campo da luta de classes, se tornaram antagônicos.

As contradições no campo do capital não eram menores. A única ‘virtude’ maior que lhe assegurava certa proteção diante do caos das rupturas e das dissensões presentes era a percepção de uma real ameaça vinda da base. Entre a ‘anarquia’ de um governo popular e o despotismo, a burguesia francesa optou pelo despotismo e legitimou o golpe. Marx se diverte ao relatar as idas e vindas de um governo que pretendia atuar como árbitro entre as classes, mas acabava não conseguindo agradar a ninguém:

“A indústria e o comércio, e portanto os interesses da classe média devem prosperar em estilo de estufa sob um governo forte. (…) Mas há necessidade de dar trabalho ao povo. Ordena-se pois o início dos trabalhos públicos. (…) Diminuem então os impostos em detrimento dos rentistas, convertendo os títulos de 5% em títulos de 4,5%. (…) As organizações operárias existentes são dissolvidas, e prometem-se maravilhas sobre futuras associações. Os camponeses necessitam de auxílio. Criam-se bancos de crédito agrícola, que provocam o seu endividamento e aceleram a concentração da propriedade.” (pp.157-157)

E assim por diante. Uma arbitragem acima das classes se revela impossível: o que dá a uma tira da outra!

O golpe ora em curso no Brasil tem essa mesma natureza: é um projeto de restauração do poder de classe dos detentores do capital. Sendo um país da periferia do capitalismo, não poderia ser de outro modo. Contando com o apoio inarredável da mídia e de boa parte do judiciário, ele se dispensa, porém, de oferecer qualquer máscara para encobrir a sua face deformada e abjeta. É escancaradamente contra a população trabalhadora, da qual retira direitos e benefícios de forma impiedosa. Muito embora os governos petistas que o antecederam não tivessem promovido nenhuma ruptura na ordem do capital, ousaram explorar algumas brechas que possibilitaram investimentos na melhoria das condições de vida da população trabalhadora. Jamais serão perdoados por isso.

Por outro lado, o forte apelo que vem sendo feito pela máquina de propaganda dos conservadores em torno daquilo que chamam de a ‘questão moral’ tende a frear e a confundir a mobilização popular. Talvez para encobrir o descalabro das medidas de política econômica que esmagam os trabalhadores, e os revertem a uma condição de dependência e de empobrecimento cada vez maior, elevam-se os gritos estridentes dos moralistas de plantão, que denunciam ataques contra os ‘valores da família’ e das ‘pessoas de bem’. Essa histeria fundamentalista não costuma falhar. Resta saber quanto tempo vai durar.

Referência:

Karl Marx. O 18 Brumário de Louis Bonaparte. Tradução: Maria Teresa de Sousa. Coimbra: Nosso Tempo, 1971.

 

 

Estado e cidadania

Está em curso no Brasil do golpe uma disputa muito clara pelos recursos públicos. Em manifestação constrangedoramente explícita, as camadas privilegiadas da sociedade brasileira desencadearam uma ação resoluta de retirada de direitos da população trabalhadora, que parece marcada por um visível espírito de revanche contra os mais pobres ou menos afortunados. A impressão que dá é que o governo implantado por meio de um golpe parlamentar em 2016 se move pela vingança e pela hostilidade contra os trabalhadores, que ousaram reivindicar mais direitos e desfrutar de alguns benefícios gerados por políticas públicas mais inclusivas, a partir de 2003.

Os argumentos vulgarmente empregados para a defesa daquilo que chamam de “Estado mínimo” se baseiam fundamentalmente na necessidade imperiosa de um ajuste fiscal — isto é, um equilíbrio relativo entre receitas e despesas no orçamento público — e de um governo, portanto, não intervencionista, inativo em relação à realidade econômica, da qual deve ser mero espectador recatado. No cerne dessa argumentação, repousa a ojeriza aos impostos e taxas, cuja permanência e/ou elevação poderia ampliar as receitas governamentais em benefício de mais gastos e investimentos. Ojeriza a cobranças sobre grandes fortunas e demais privilégios — que fique bem claro. Porque, na maior parte das vezes, são os próprios trabalhadores que pagam a conta dos desajustes orçamentários, por meio de impostos que incidem diretamente sobre o consumo e os salários. É assim, por exemplo, que as autoridades econômicas do golpe pretendem enfrentar o alegado déficit da previdência social: aumentando o tempo de contribuição para as aposentadorias e elevando as alíquotas pagas pelos trabalhadores assalariados. Os servidores do Estado do Rio de Janeiro tiveram as suas alíquotas previdenciárias elevadas de 11% para 14%, e parece que esse percentual será estendido para outros Estados da federação e para os servidores da União também.

Enquanto isso, grandes proprietários de terras (ligados ao agronegócio), bancos e outros investidores robustos têm recebido perdão para as suas dívidas previdenciárias e os seus impostos devidos. Perdão! A baixa arrecadação dos governos se explica também pelo não pagamento de montantes extraordinários por parte dos maiores devedores do País. Com seus serviços jurídicos muito bem remunerados, eles conseguem recursos e mais recursos nos tribunais para adiar e, por fim, evitar o acerto de contas com o erário. No limite, acabam se livrando da maior parte de suas obrigações fiscais. Ao lado disso, as maiores fortunas do Brasil se beneficiam ainda das altas taxas de juros que regulam a dívida pública brasileira e faturam fortunas ainda maiores no mercado de capitais. É o chamado “rentismo”, uma das piores desgraças do nosso modelo econômico, por meio do qual o dinheiro se remunera (e se multiplica) pelo simples fato de existir, sem precisar gerar nada. Nada mesmo. Os juros da dívida consomem mais de 40% do orçamento público federal — uma verdadeira indecência.

É claro que chegar a este ponto em que estamos dependeu de um trabalho ideológico maciço para desacreditar o Estado como regulador da economia. O grande apelo desse discurso tem sido o de condenar os “gastos públicos excessivos”, cujo corolário, segundo a lenda, é sempre o desajuste fiscal e o risco de aumento de impostos. Deve-se observar que aquilo que apontam como gastos públicos excessivos e perdulários são despesas efetuadas com finalidades sociais explícitas. O perdão às dívidas estratosféricas dos magnatas e o percentual elevadíssimo da dívida pública no orçamento da União jamais são considerados fatores de desequilíbrio econômico, aos olhos dos formuladores desse ideal de Estado mínimo. Disso resulta que suas propostas conduzem, inevitavelmente, à retirada de direitos dos trabalhadores e ao encolhimento significativo dos serviços públicos prestados à população. Duas facetas de um projeto perverso que só reduz benefícios ao grupo majoritário da sociedade.

Há fatos ilustrativos a esse respeito. No final de 2009, por exemplo, a BBC publicou uma pesquisa que buscou avaliar a percepção dos cidadãos em relação à presença do Estado na economia, e se surpreendeu com as respostas. Nessa investigação curiosa, descobriu que 64% dos brasileiros entrevistados queriam um maior controle do governo sobre as principais atividades econômicas do País. E apostavam, sobretudo, na riqueza do pré-sal para ampliar os investimentos em saúde e educação. Nas ruas de Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, a BBC ouviu 835 pessoas que opinaram, na maior parte, em favor de uma regulação estatal mais firme.

“Não apenas isso: 87% dos entrevistados defenderam que o governo tenha um maior papel regulando os negócios no país, enquanto 89% defendem que o Estado seja mais ativo promovendo a distribuição de riquezas.”

“A insatisfação dos brasileiros com o capitalismo de livre mercado chamou a atenção dos pesquisadores, que classificaram de ‘impressionantes’ os resultados do país.”

Ao cabo de quase duas décadas de globalização capitalista avançada, uma experiência histórica alardeada como o grande bálsamo para os males do mundo, a percepção dos entrevistados era mais cética e mais crítica. Um sistema econômico internacional globalizado, ao contrário do que prometera a intensa propaganda que o exaltara desde o começo dos anos 1990, não cumpriu exatamente as promessas de promover um desenvolvimento acelerado e dinâmico entre os países interligados à grande corrente global do capitalismo. Ao contrário, as desigualdades na distribuição da riqueza dentro dos e entre os países participantes tornara-se cada vez mais evidente. E mais incômoda também.

“Vimos em pesquisas anteriores que os brasileiros não são os mais entusiasmados com a globalização…”

“Eles ainda são bastante negativos em relação à globalização, e o que vemos aqui (nesta pesquisa) é mais o desejo de que o governo faça mais para mitigar os efeitos negativos dela, melhorar a distribuição de renda e colocar mais restrições à atividade das empresas.”

Essas respostas revelam o espírito de uma época. Não são conclusivas, por certo, mas permitem compreender um estado de alma prevalente naqueles anos em que o Brasil tentou dar um salto maior em direção ao desenvolvimento econômico com justiça social. O Estado, como instituição reguladora primária, era visto por muitos como o instrumento definidor por excelência desse projeto, capaz de dar a ele a abrangência e a dimensão necessárias. Daí que, para aniquilar esse espírito da época, marcado por esperanças e desejos de superação das graves dificuldades sociais e econômicas do Brasil, promoveu-se uma campanha ideológica maciça e incansável, destinada a desacreditar por completo os governos e os governantes que ousaram escutá-lo. O ponto culminante desses esforços sórdidos de desestabilização daquele projeto foram os meses que antecederam o golpe de 2016. As medidas tomadas a partir dali, no sentido de retirar direitos dos trabalhadores e de jogar sobre os seus ombros todo o peso do desajuste fiscal, são as faces mais visíveis da retomada do controle sobre os recursos públicos, por parte daqueles que sempre se julgaram os únicos merecedores dos benefícios proporcionados pelo conjunto da sociedade brasileira.

https://noticias.uol.com.br/bbc/2009/11/09/ult5022u3974.jhtm?action…

Religião e contrarrevolução

“O Metodismo impediu a revolução, ou o desenvolvimento de um movimento revolucionário na Inglaterra? A pergunta há muito interessa aos historiadores. O período de 1789-1848 é cheio de revoluções em todas as partes da Europa Ocidental, mas não na Inglaterra, e ele parece também ser o período em que o Metodismo cresceu mais rapidamente neste país. Que o Metodismo tenha mantido a Inglaterra imune à revolução é, na verdade, uma crença generalizada. A History of the English People do falecido Elie Halévy sustenta fortemente esta opinião. Pode, portanto, ser útil elucidar as relações entre o Metodismo e a ameaça de revolução neste período.” (p.32)

Muitos têm se perguntado por que a população brasileira em geral se mostra tão apática diante dos desmandos praticados pelo governo de Michel Temer, que resultou do golpe parlamentar de 2016, que destituiu Dilma Rousseff. Não apenas pela gravidade do golpe em si, que tirou do cargo uma presidenta legitimamente eleita, sem que ela tivesse cometido qualquer crime de responsabilidade devidamente comprovado. Mas também pelas inúmeras medidas que vêm sendo adotadas pelo governo e pelas leis que vêm sendo aprovadas no Congresso Nacional, cujo teor fundamental é justamente a retirada de direitos dos cidadãos brasileiros. E mais: como explicar ainda tamanha insensibilidade das pessoas diante da sucessão de denúncias de corrupção que são apresentadas contra o presidente golpista, acusado de diversos crimes e flagrado em conversas estranhas com um empresário para lá de suspeito?

Essa apatia, que também pode ser chamada de indiferença, desinteresse, omissão, desleixo, desperta a curiosidade de qualquer observador mais atento. E estimula a busca de explicações possíveis. Neste sentido, parece oportuno voltar a esse texto em que Eric Hobsbawm explora as relações prováveis entre o crescimento de determinadas seitas pentecostais na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX e a ausência de movimentos revolucionários, no mesmo período. Embora existisse uma razoável tradição historiográfica que defendia uma correlação direta entre esses dois fenômenos — estabelecendo um peso mais considerável sobre o Metodismo Wesleyano (do fundador John Wesley), uma das vertentes mais profundamente contrárias à ideia de revolução — Hobsbawm afirmou que a relação é complexa e difícil de determinar.

“Não houve assim nenhuma revolução e o Metodismo Wesleyano era hostil a ela; mas daí não segue que o segundo fato foi a causa do primeiro.” (p.33)

A liderança oficial da seita metodista era terminantemente contrária a qualquer agitação radical, quanto mais revolucionária. A pregação conservadora, no entanto, dificilmente teria sido suficiente, sozinha, para afastar todos os seus seguidores das lutas sociais. É pouco provável que todos os adeptos tenham se mantido alheios aos movimentos sociais, sobretudo, àqueles que envolveram a luta por direitos trabalhistas e eclodiram nos momentos de maior turbulência entre os trabalhadores. Pode-se supor que as condições materiais adversas e os sofrimentos impostos pela rotina fabril tenham feito a sua parte. Não há dúvida de que muitas seitas tendem a pregar a resignação e a estrita obediência àquilo que chamam os “desígnios de Deus”. Mas, não operam isoladamente nos contextos sociais e dependem da interação com diversos outros fatores.

“… é pouco provável que o Wesleyanismo pudesse ter impedido uma revolução se outras condições a houvessem favorecido na primeira metade do século dezenove.” (p.41)

Citando Lênin, Hobsbawm argumenta que uma deterioração das condições de vida das massas e um aumento da sua atividade política não são suficientes para causar uma revolução. Uma conjuntura favorável a isso pressupõe o surgimento de uma crise severa no seio do poder dominante e, ao mesmo tempo, uma liderança revolucionária capaz de conduzir o movimento. Sem isso, dificilmente ocorre uma mobilização social vigorosa, que produza mudanças significativas e desejadas.

Ora, segundo afirma Hobsbawm, “a classe dominante inglesa nunca perdeu o controle da situação política” (p.33). E esse era o principal ponto de contato de um texto que trata da primeira metade do século XIX, na Inglaterra, com a realidade do Brasil, em pleno ano de 2017, em minha opinião. O controle efetivo do poder político pela classe dominante, corolário do seu completo domínio sobre o poder econômico, é de tal porte e de tal amplitude temporal que beira a ordem natural do mundo. E isso se demonstra, inclusive, nos contextos em que, aparentemente, ela se retira de cena. Já escrevi sobre isso aqui neste espaço, num texto chamado “A ordem das coisas” (28 de setembro de 2016). A classe dominante brasileira também jamais saiu do comando:

“Aquela fotografia do presidente golpista sendo empossado com os seus ministros — todos velhos, brancos e ricos — foi emblemática dessa estrutura de poder que domina o Brasil há séculos. São eles que mandam. Assim como sempre mandaram. E de tal forma que a sua presença nas esferas de mando pode ser percebida como algo ‘natural’ — no sentido da natureza mesmo. Coisas que se repetem de modo infindável acabam adquirindo essa feição costumeira, imutável, perene, e se confundem com a própria origem de tudo. Aquilo que sempre foi e sempre será. E todos aceitam, e se submetem.”

Isso não quer dizer que as mudanças sejam impossíveis. Quer dizer apenas que teremos um pouquinho mais de trabalho para compreender as condições que poderão torná-las possíveis. A contrarrevolução não está numa apatia supostamente determinada pela religião ou por qualquer outro tipo de crença, isoladamente. Ela se configura num conjunto complexo de forças que atuam em consonância, para legitimar estruturas de poder que se perpetuam graças à aceitação da grande maioria. O silêncio e a distância dos brasileiros em relação aos desmandos do golpe atual expressam, em parte, essa noção amplamente disseminada de que estamos vivendo sob a ordem das coisas.

“Os velhos brancos e ricos, que sempre exerceram esse poder sobre os brasileiros, estão de volta. Eles se movem com a mais absoluta naturalidade, certos de que o seu lugar no mundo está previamente determinado pela ‘ordem das coisas’. Eles se julgam os únicos merecedores do direito de mandar, os verdadeiramente capazes de governar as cidades, os estados, o País, os exclusivos detentores da riqueza, do conhecimento e do poder, os legítimos autores dos projetos que definem os rumos do conjunto. Mas, para que exerçam de fato todo esse domínio, é fundamental que tenham a contrapartida de uma aceitação arraigada, obstinada, incontestável daqueles que os legitimam.”

Referência:

Eric Hobsbawm. Os Trabalhadores. Estudos sobre a história do operariado. (Cap. 3 “O Metodismo e a ameaça de revolução na Inglaterra”) Tradução: Marina Leão T. V. de Medeiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

Perplexidade

Olhamos com perplexidade, tomados de espanto e até mesmo aterrorizados, para o quadro político atual do Brasil. A cada dia que se inicia, uma enxurrada de notícias e novidades mais estapafúrdias, mais estrambólicas, mais extravagantes do que as outras. São juízes e promotores de justiça cometendo ilegalidades e arbítrios, desrespeitando as leis e até a Constituição Federal; são ministros do Supremo Tribunal Federal dando declarações desairosas e fazendo ameaças a este ou aquele representante dos demais poderes; são políticos de todos os quadrantes diuturnamente acusados de participação em roubalheiras e esquemas, inclusive ministros de Estado; são manifestações de rua comandadas pela mídia. que se dizem contrárias à corrupção, mas que defendem o efetivo governo dos corruptos! É de assustar qualquer um.

Hoje, para não ficar diferente, estamos sendo brindados com a notícia de que o senador Renan Calheiros resolveu descumprir uma liminar do ministro Marco Aurélio, do Supremo, que recomendou o seu afastamento da presidência do Senado. Apoiado por toda a mesa diretora da casa, Renan teria dito que pretende aguardar a decisão do plenário do STF sobre o caso. Segundo alguns juristas consultados pela mídia, o descumprimento de uma ordem judicial leva necessariamente à prisão. Mas isso só poderia ocorrer, de fato, numa circunstância em que as instituições estivessem sendo realmente respeitadas. Não é o caso do Brasil de hoje.

Tudo isso vem acontecendo à sombra de uma delicada situação da economia, que teima em não reagir às “medidas de estímulo” adotadas até agora e exibe indicadores quase alarmantes (PIB em franco declínio, desemprego crescente e queda da renda dos trabalhadores, só para citar alguns). Começam a aparecer nos noticiários as primeiras manifestações de preocupação dos “empresários” brasileiros quanto á demora da retomada do crescimento econômico, que havia sido prometido como um bálsamo do golpe. “Tira a Dilma e tudo será maravilhoso!” O mais deprimente e constrangedor é que tenham acreditado nisso. Será que esses cidadãos que se dizem empresários não possuem conselheiros, assessores ou assemelhados que lhes possam explicar a natureza das coisas? Qualquer noção básica de história econômica serviria para fornecer casos e exemplos ilustrativos e inspiradores. Não precisava ser um gênio para perceber que o caminho tomado pelos golpistas acabaria levando a esse abismo trágico em que nos encontramos agora. Como puderam não ver isso?!

Ah, sim, as principais medidas propostas pelo desgoverno golpista destinam-se a retirar direitos dos trabalhadores em praticamente todos os campos: de um lado, por meio da PEC 55, pretendem congelar os investimentos públicos em saúde e educação (além de outras áreas) por exatos vinte anos, penalizando uma geração inteira, que ficará sem oportunidades para melhorar a sua qualificação profissional e sem assistência básica; de outro, ampliam o tempo de contribuição para a aposentadoria, levando a maioria dos brasileiros mais jovens a uma vida extenuante de trabalho até idade avançada. Embora receba o apoio obsequioso da mídia, a alegada crise da previdência social brasileira não é reconhecida, entre outros, por uma pesquisadora qualificada da UFRJ, a professora Denise Gentili, cuja entrevista recomendamos abaixo. Em vez de simplesmente cortar os benefícios, como quer fazer o golpismo, cumpre ao Estado desenvolver uma política econômica que favoreça o crescimento da economia e promova o aumento dos recursos para o bem estar da população. Ou seja, há alternativas!

A reação popular a essas desmedidas vem sendo confrontada por uma violência policial desproporcional. Como era de se esperar. Diante da sua ilegitimidade, o atual governo do Brasil só encontra na brutalidade implacável da polícia uma resposta à altura das suas necessidades de garantir uma mínima sobrevida diante de tamanhas injustiças. Hoje, para não fugir à rotina, o centro do Rio de Janeiro voltou a ser tomado pelas manifestações de servidores do Estado que estão com os seus salários atrasados. Reclamam um direito mais do que legítimo — o de receber o pagamento pelo trabalho realizado. Não podem ser tratados como bandidos ou arruaceiros. Mas, hoje, fomos obrigados a ver policiais atirando contra os manifestantes do alto das janelas de uma igreja. Uma igreja!

O Estado do Rio de Janeiro se declara falido. Não consegue nem pagar os seus servidores corretamente. Mas o ex-governador está preso, acusado de corrupção. E a mulher dele acabou de ser levada para a cadeia, por suspeita de se beneficiar de meios escusos para obter vantagens e enriquecer…

 

http://linkis.com/noticias.uol.com.br/2y4mx

http://linkis.com/www.ocafezinho.com/2/AYPJG

http://www.dw.com/pt-br/senado-se-recusa-a-afastar-renan-da-presid%C3%AAncia/a-36670924

Façam as suas apostas

Com a votação de ontem à noite no Senado, foi sacramentado em definitivo o golpe contra a democracia brasileira, determinando o afastamento cabal da presidenta Dilma Rousseff, eleita em 2014 com 54.501.118 votos. Ainda resta uma última votação, a ser realizada antes do final deste mês de agosto, mas ninguém mais duvida de que o seu resultado seja apenas a confirmação do de ontem. Com a montagem de um esquema pesado de chantagens e vantagens, o governo interino golpista conseguiu atrair para o seu campo político (ou seria magnético?) a maioria dos senadores que foram encarregados de decidir a questão. Tudo correu conforme o programado pelos agentes do golpe, sob as bênçãos do Supremo Tribunal Federal (STF), cujo presidente comandou formalmente a sessão de ontem no Senado. Essa roupagem ritual pretendeu dar ao golpe o selo de legitimidade que, por todas as demais razões, lhe falta.

Por mais que os técnicos do próprio Senado Federal tenham afirmado que os atos da presidenta da República legitimamente eleita não configurassem crime; por mais que o próprio Ministério Público tenha se pronunciado na mesma direção, isentando-a por completo da condição de criminosa; por mais que juristas consagrados e respeitados, do Brasil e do exterior, tenham dito aos quatro ventos que não havia razão judicial legítima para tirar Dilma Rousseff do poder, ainda assim, perpetrou-se mais um atentado contra a democracia brasileira. Mais de cinquenta anos depois do último golpe que implantou uma ditadura militar no País, em 1964, nos vemos às voltas com um novo ataque aos direitos políticos e às liberdades democráticas que levamos tanto tempo para reconquistar. Naquele caso, a interrupção da legalidade constitucional do Brasil demorou exatos 21 anos. Isso porque consideraram como o “fim da ditadura” a chegada ao poder do primeiro presidente civil, desde 1964, eleito de forma indireta pelo Congresso Nacional em 1985. Não sei se concordo que uma eleição indireta represente exatamente a restauração democrática. Enfim, esse foi o registro histórico que ficou.

Agora que o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff também foi sacramentado, começam as análises e as interpretações sobre os desdobramentos possíveis para a nova situação política que se instaurou no País. Quanto tempo irá durar essa nova ditadura? Quais as condições reais que esse grupo tem para se perpetuar no poder? No calor da hora, é muito mais difícil fazer observações imparciais e serenas. Mas também é muito mais difícil resistir à vontade de entender e explicar tudo o que está acontecendo dessa forma tão insólita e inusitada. Um golpe desse tipo, em pleno século XXI! Acho que poucos imaginaram que pudéssemos estar passando por isso outra vez. Quais as perspectivas que temos pela frente? Como será feita a recomposição das forças derrotadas nessa patifaria? Como mero exercício de reflexão, faço então algumas considerações neste breve comentário sobre o golpe.

Logo começaram a surgir suposições (algumas até com cara de prova cabal) de que o Temer não ficará muito tempo na presidência da República. O #ForaTemer virou a grande sensação das redes sociais, pelo menos no campo que se opôs ao golpe comandado por ele. Cartazes com essa mesma expressão se espalharam pelos estádios e arenas dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, numa clara demonstração de que uma parte da população não o quer no cargo. Pesquisas também indicam a mesma coisa: o seu grau de aceitação é baixíssimo, e a maioria parece desejar novas eleições. É um presidente sem nenhuma legitimidade, portanto. Mas não creio que vá cair tão cedo. Acho que completa o mandato, talvez com algumas dificuldades grandes, e poderá inclusive tentar a reeleição. È uma opinião apenas. Mas vou tentar explicar os meus fundamentos.

Em primeiríssimo lugar, infelizmente, faço o registro de que, pelo que vimos na reação popular, ou na falta dela, a democracia ainda não se constituiu num valor supremo para grande parte da população brasileira. Há uma indiferença constrangedora no ar. Quando se anda pelas ruas, não se ouve qualquer comentário sobre o andamento do golpe político, com raríssimas exceções. Isso me faz pensar sempre no fato de que Dilma Rousseff se elegeu com 38% dos votos válidos, tendo sido elevado o montante de abstenções, votos nulos e brancos, algo em torno de 27%. Acredito que esse percentual deverá crescer nas próximas eleições. O primeiro teste será agora em outubro próximo, nos pleitos municipais. Além disso, Dilma sofreu também uma campanha implacável de desgaste político e econômico, amplificada pelo obsequioso serviço da mídia nativa, que fez de tudo para arruinar a sua imagem e para apresentá-la como incompetente e impopular. O resultado não poderia ter sido mais eficaz: a presidenta perdeu apoio e ficou refém dos seus principais detratores.

Do lado dos golpistas, o esquema foi muito bem montado. De forma rápida e eficiente, eles tomaram conta do Congresso Nacional, de partes significativas do judiciário e do próprio executivo federal. Com os votos necessários para impor decisões, com os cargos para distribuir aos aliados e com a chave do cofre nas mãos, não foi difícil atrair para as suas hostes os grupos e indivíduos que puderam fazer a diferença na concretização do golpe. Foi assim que concederam aumentos de salários para algumas categorias de servidores públicos cujo peso é decisivo na consolidação do golpe. Foi assim que obtiveram a subserviência de parlamentares e de membros do judiciário, logrando promover a eliminação de qualquer possibilidade de restauração do mandato de Dilma Rousseff. Com o legislativo, o executivo e o judiciário nas mãos, é pouco provável que esse grupo perca o poder tão cedo.

Muitas críticas se ergueram para acusar o PT de ter sido ingênuo ao trazer o PMDB para dentro do governo, principalmente com a figura do vice-presidente Michel Temer, que traiu o projeto que ajudou a eleger e conduziu o golpe. Como se o PMDB não tivesse estado sempre ali, nas searas do poder, oferecendo seus préstimos e cobrando seus proveitos, há décadas. Como se o PMDB não fosse o partido com a trajetória mais longeva da história política recente do País. Pois vejo agora o PSDB, que foi a grande força por trás da destruição do segundo mandato da presidenta Dilma, a eminência parda do golpismo, o derrotado inconformista, se arvorar no direito de exigir a saída do PMDB para que ele próprio venha a ocupar o lugar que julga seu por direito! Querem uma eleição indireta para conduzi-los ao cargo supremo da República! Será que o PSDB também foi ingênuo ao escolher os peemedebistas para fazerem o, digamos assim, “serviço sujo” de tirar a presidenta legítima para depois entregar o governo aos tucanos?! Pois eu tenho uma forte suspeita: o grupo do PMDB que tomou de assalto o poder não vai sair de jeito nenhum. Com o legislativo, o executivo e partes do judiciário nas mãos, vai fazer de tudo para afastar qualquer ameaça ao seu domínio. Estou pagando pra ver.

Acima de tudo, porque é exatamente o controle dessas forças que lhes garante a imunidade frente às investigações de corrupção que começam a declinar no País, mas que ainda podem fazer alguns estragos. Bastou o procurador-geral, senhor Rodrigo Janot, apontar suas baterias para nomes consagrados do PMDB que apareceram nas delações dos esquemas da Petrobras, para que o senador Renan Calheiros, presidente do Congresso Nacional, anunciasse que examinaria um pedido de impeachment contra ele que havia sido protocolado no Senado. Desde então, o procurador-geral tem andado numa discrição sem tamanho! Não custa lembrar que o Senado Federal tem a prerrogativa de cassar ministros do Supremo, procuradores federais e juízes. Quem vai se arriscar? Um conhecido ministro do Supremo, que é também o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, andou propondo cassar o registro do Partido dos Trabalhadores, com base nas acusações de propina e caixa 2 provenientes dos esquemas da Petrobras. Pois hoje mesmo, uma outra ministra do mesmo tribunal eleitoral, já indicou que fará a mesma proposição para dois outros partidos envolvidos nos mesmos esquemas: o PMDB e o PP, seu aliado. Quem acredita que o PMDB vai permitir a extinção da sua sigla, com todas as prerrogativas que possui para ordenar as instituições republicanas?

Desde o início, o governo interino golpista se comportou como se fosse efetivo: nomeou desafetos e adversários da presidenta e de seu partido para alguns dos principais cargos do poder, desarticulou os principais programas sociais implantados pelos governos do PT, anunciou medidas completamente opostas ao projeto que estava em curso, extinguiu pastas e secretarias que simbolizavam uma série de conquistas sociais dos petistas. Ou seja, desde o início, esse grupo que tomou de assalto a República tinha plena certeza de que permaneceria no comando, sem que qualquer ameaça pudesse detê-lo. Por isso mesmo, tendo em vista todas as circunstâncias que cercam esse movimento atual de subversão da ordem democrática no Brasil, tendo a acreditar que dificilmente o PMDB será desalojado da presidência. Por mais que parte da mídia grite por isso, por mais que os tucanos exijam aquilo que consideram o seu “direito”, por mais que a presidenta legitimamente eleita exerça o seu direito de defesa, a forma pela qual o golpe foi tramado e consolidado parece que vai garantir ao atual governante uma longa estrada pela frente.

Um único entrave aparece no horizonte: o processo eleitoral. Com as medidas impopulares que pretendem adotar, por meio de uma agenda sinistra de privatizações, reformulação da legislação trabalhista (inclusive com a eliminação do 13º salário e das férias de 30 dias), adiamento do prazo para aposentadorias, cortes nos investimentos em saúde e educação e outros mais, os golpistas talvez enfrentem algumas dificuldades junto aos eleitores. Mas estão testando a opinião pública, por enquanto. Anunciam que vão fazer isso e aquilo, e esperam as reações. Não têm sido muito espalhafatosas, até o momento. Parece que a indiferença constrangedora da maioria prevalece. Se conseguirem mesmo cassar o registro do PT e aniquilar as suas principais lideranças, podem se eleger com um percentual baixo de votos e seguir no comando do País. Com a máquina pública nas mãos, distribuindo benesses e coisa e tal, fica mais fácil. Por outro lado, há quem diga que não haverá nem eleições no futuro próximo, será o apocalipse total! Viveremos numa ditadura de fato e de direito, em que a escolha dos dirigentes por meio do voto popular será abolida de vez. Então, a aplicação dessas medidas drásticas de retirada de direitos sociais e políticos será muito mais radical porque não dependerá do crivo eleitoral.

Em qualquer uma das duas hipóteses sugeridas acima, o grupo do PMDB que tomou o poder leva vantagem. Tanto pode vencer eleições com baixo percentual quanto pode continuar governando sem eleições, se tiver o respaldo das demais instituições. Forças Armadas, STF, demais instâncias judiciais já demonstraram que chancelam o golpe atual. Empresários e rentistas apoiam entusiasmados essa agenda de ataque aos direitos sociais e econômicos. A mídia sempre poderá ser cooptada com generosas verbas publicitárias. Uma população desmobilizada, desinteressada e indiferente à própria sorte, desacreditada da política em geral, será tragada pelas circunstâncias sem esboçar reação. A hipocrisia dos falsos moralistas sairá vencedora e o submundo dos corruptos continuará dando as cartas. Diante desse quadro, sou levada a pensara que o #ForaTemer será um cântico puxado cada vez mais pelos tucanos!

30% ou 33%

Sempre fomos uma minoria. Juntando os militantes e os simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT), temos ficado em torno de 30% a 33% da população brasileira. Em termos históricos, esse tem sido o índice de apoio ao PT ao longo do tempo, com algumas oscilações para mais ou para menos, dependendo da conjuntura. No momento presente, por exemplo, parece que a legenda enfrenta a sua pior baixa; algo que só será efetivamente avaliado nas próximas eleições municipais, que ocorrem em outubro deste ano de 2016. As sucessivas prisões de suas lideranças e representantes no âmbito da Operação Lava Jato (que investiga a corrupção da Petrobras), a campanha maciça da mídia para demonizar o partido e o desgastante processo de impedimento por que passa a presidenta Dilma Rousseff têm dado uma larga contribuição ao enfraquecimento do PT, e culminaram com dois ataques violentos contra a sede do partido em São Paulo, na semana que passou, resultando na destruição total da fachada do prédio.

É claro que diante de tantas desventuras muitos se ponham a refletir sobre a situação desalentadora que vive o Partido dos Trabalhadores. Ouço gente reclamar da indiferença do povo diante de toda essa degringolada da legenda, e começo a pensar nos números da eleição de 2014, que levaram ao segundo mandato da Dilma. Ora, dos 142 milhões de eleitores aptos, mais de 37 milhões (para ser mais exata: 37.279.085) simplesmente não apareceram para votar, ou anularam o voto ou votaram em branco. Cerca de 26% do total de eleitores habilitados. É um bocado de gente! Certamente, um contingente que corresponde à população total de muitos países do mundo. Essas pessoas já estavam sinalizando ali a sua mais completa insensibilidade aos destinos do País. Afinal de contas, a escolha daquele ou daquela que irá governa-lo pelos quatro anos seguintes não é coisa trivial que não tenha importância para qualquer um. É algo da maior relevância, que afeta a vida e o futuro de cada um de nós. Mas esse imenso grupo de cidadãos brasileiros preferiu dar as costas ao evento e ignorou o chamado das urnas, mesmo estando obrigado a ir até a sessão eleitoral para cumprir o seu dever constitucional. Foi, mas não escolheu nenhum candidato! Ou não foi, e deu lá suas desculpas!

Não é de estranhar, assim, que boa parte da população continue indiferente ao cenário político do Brasil e assista ao golpe sendo perpetrado contra a democracia, sem esboçar reação alguma. A indiferença continua. Dilma Rousseff se reelegeu em 2014 com 38% dos votos válidos, exatamente 54.501.118. Seu adversário teve um número próximo de votos, numa das disputas mais acirradas e apertadas dos últimos anos. Logo em seguida à definição do resultado, começou uma campanha política capitaneada pela mídia e pela oposição para questionar a vitória da Dilma e para desestabilizar o seu governo. De lá para cá, essa ação coordenada só fez acirrar os ânimos e contaminar todo o ambiente político, atingindo em cheio a famigerada “governabilidade”. Seu ponto de chegada foi o processo de impedimento da presidenta que está em curso no Senado Federal, cujo desfecho está marcado para o final de agosto próximo.

A fraca mobilização popular é a grande incógnita do momento. Embora a oposição insista em dizer que foi o “povo nas ruas” que levou à decisão parlamentar de abrir o processo de impedimento da presidenta, é sabido que as manifestações em favor da deposição da Dilma foram majoritariamente organizadas e formadas por eleitores do candidato derrotado em 2014. As próprias pesquisas de opinião realizadas no calor da hora indicavam o perfil claramente oposicionista dos manifestantes que pediam a saída da Dilma. Fica, então, a dúvida quanto ao restante da população: por que se cala? Talvez, daqui a algum tempo, seja possível enxergar com maior discernimento o sentido dessa ausência significativa do povo em defesa de um governo democraticamente eleito. A saída de uma presidenta que não cometeu crime algum, por mera decisão política da maioria parlamentar que controla os votos no Congresso Nacional, é uma ferida de morte na democracia brasileira. E a indiferença de grande parte da população diante desse golpe é mais inquietante ainda.

Qualquer conclusão agora seria fadada ao fracasso. Enquanto o processo está em curso, fica muito difícil avaliar corretamente o seu andamento e, por isso mesmo, temos lido e ouvido tantas explicações confusas e atabalhoadas sobre o quadro presente. Uma coisa, no entanto, precisamos superar de imediato: essa noção de que o povo é coitadinho, está sendo sempre manipulado, não percebe o que se passa ao redor. Não concordo com isso. Não acredito em inocentes. Existem muitas formas de apreender o real, que não apenas pelo intelecto. Falta de instrução não nos impede, necessariamente, de compreender o mundo. Temos sentimentos, emoções, intuições, percepções e vivências. Há escolhas sendo feitas. Desde o não comparecimento às urnas até a mais completa indiferença aos destinos do País. “Tanto faz como tanto fez” também é uma escolha política. Não se comprometer, não se engajar, não batalhar pelas coisas é uma forma de estar no mundo. Conveniente para muitos. Lavam as mãos e se isentam de compromissos.

O calendário prossegue, no entanto, e novas candidaturas estão sendo postas para outubro próximo. Embora exista certa tendência de supervalorizar a eleição presidencial no Brasil, sabemos que os municípios são decisivos para a definição do quadro político nacional. A maioria dos parlamentares retira da sua base eleitoral (normalmente, municipal) a força para prosseguir na carreira política. São os prefeitos e vereadores das cidades — grandes, médias ou pequenas —que compõem a estrutura eleitoral primária do País. Não por outra razão, temos visto o governo interino prometer medidas amargas para “depois”. Esse “depois”, certamente, é posterior a outubro que vem, e não ao desfecho do impedimento, que será em agosto, como se supõe. Se os partidos que dão sustentação ao golpe obtiverem um bom resultado nas eleições municipais, terão mais fôlego para prosseguir na sanha demolidora com que miram o Estado brasileiro. O mesmo vale para o PT. Se o partido conseguir, apesar de todo o bombardeio que tem sofrido, manter ou expandir a sua parcela do eleitorado brasileiro, também aumentará as suas chances de continuar sendo um adversário de respeito nas campanhas nacionais.

Resta saber qual será a participação do eleitorado nessa disputa: a abstenção e a indiferença superarão o interesse pelos candidatos? A ver.

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/dilma-se-reelegeu-com-38-dos-votos-totais/

E o povo, onde está?

Tenho lido, aqui e ali, queixas e críticas à “maioria silenciosa” que simplesmente não se manifesta nem se posiciona em relação ao momento político delicado por que passa o Brasil. Mano Brown, um dos rappers mais conhecidos e admirados do País, chegou a dizer que a favela deu as costas à presidenta Dilma Rousseff. Outro que fez declarações chocantes foi o diretor do instituto Data Popular, uma entidade dedicada à pesquisa e à avaliação dos segmentos sociais de renda mais baixa, porém, em franca ascensão, conhecidos como as classes C e D. Ele afirmou que os membros desses grupos consideram essa questão do impeachment “uma briga das elites”, que não lhes diz respeito. Eles estariam mais preocupados em garantir as oportunidades econômicas e sociais que lhes permitam ascender socialmente. Ora, se isso for verdade, acho que estamos diante de uma das declarações mais imbecilizantes de toda a nossa história. Desde quando uma ação política que terá impactos dramáticos e duradouros sobre a vida de todos os brasileiros não diz respeito a este ou àquele segmento social? Como podem supor, ao mesmo tempo, que uma mudança assim tão radical dos rumos políticos do País não terá nenhuma influência sobre o seu futuro?

Uma entidade que se dedica a investigar as tendências dominantes em amplos setores da sociedade brasileira não pode meramente apresentar uma afirmação desse tipo, sem fazer maiores considerações sobre o seu significado. Ao agir assim, presta um desserviço ao conhecimento da realidade social do País e acaba convergindo para a consolidação de uma postura de falsa neutralidade, que representa, de fato, uma aceitação tácita do controle das elites sobre o jogo político. Então, tanto faz o resultado desse processo de impeachment que pode jogar o Brasil numa era de turbulência social e de instabilidade institucional prolongadas? É verdade que uma ampla maioria de pessoas pertencentes às classes C e D não vincula o seu sucesso ou o seu fracasso à existência de programas e políticas públicas que estimulem o seu crescimento e abram oportunidades a isso? Estamos mesmo diante de um quadro de completa aberração ideológica, em que parcelas expressivas da população não são sequer capazes de reconhecer aquilo que lhes interessa e lhes favorece?

Não tenho elementos para contestar essas afirmações. Não consolidei estudos e pesquisas de opinião que me permitissem revidar os argumentos expostos. Mas conheço algumas pessoas das assim chamadas classes C e D que me mostram uma percepção diametralmente oposta ao que foi dito acima. Não constituem uma massa de dados suficiente para desenvolver qualquer teoria ou explicação sobre os fatos. Não podem ser tomadas como contrapartida a tudo que foi concluído pelo instituto mencionado antes. São meros casos isolados que resolvi juntar aqui para fazer uma breve reflexão. Mas ajudam a pensar que essa indiferença apontada em relação ao que se passa hoje no Brasil é, no mínimo, relativa. Não há uma descrença generalizada na política, como faz parecer a conclusão desse último estudo apresentado.

Vou começar pelos porteiros do meu prédio, que conheço há mais de vinte anos. Dois deles, pelo menos, se mostraram profundamente abatidos com o desenrolar dos últimos acontecimentos. O mais velho me confessou que, diante daquela votação grotesca realizada pela Câmara dos Deputados no dia 17 de abril (quando foi aprovada a abertura do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff), ele só fez vomitar. Sentiu-se tão mal, mas tão mal, que no dia seguinte nem conseguiu sair da cama; sorte é que era seu dia de folga. O outro, quando lhe cumprimentei pela manhã e perguntei se estava tudo bem, logo respondeu que não estava não; sentia-se horrorizado pelo que vira na televisão e se mostrava bastante preocupado com o que estava por vir. Como eles conhecem a minha opinião política, costumam se sentir à vontade para desabafar.

E assim tem sido praticamente todos os dias. Volta e meia, eles me perguntam o que estou achando, como será que tudo isso vai terminar? Tento confortá-los, na medida do possível, mas vejo que eles estão abalados. Minha diarista, mulher sofrida e experiente, também tenta me consolar em nossos desabafos e sempre afirma, com uma convicção inabalável, que “tudo isso que Dilma está sofrendo é por ser mulher”. A bem da verdade, ela sempre disse a mesma coisa. Conhece bem as artimanhas do machismo e da violência contra a mulher; ela, que sofreu na pele as agruras de um marido brutal e covarde. Embora sofra com esse ataque violento ao mandato da presidenta, demonstra uma resignação mais calejada. É como se ela já soubesse, com antecedência, quanto pesa a mão dos poderosos sobre os que ousam desafiá-los.

No hortifrúti que frequento, os rapazes que me atendem também demonstram um enorme pesar. Como sabem da minha posição (em virtude dos adesivos que sempre usei nos períodos eleitorais), conversam baixinho sobre o que está acontecendo, quase falando entre os dentes. Estão horrorizados. Um deles comentou comigo que passa pelas favelas a caminho de casa e vê as pessoas fazendo churrasco, tomando cerveja, curtindo o descanso. Praticamente todos têm computador em casa conectado à Internet. No seu condomínio, somente carros de modelos novos estão estacionados no pátio, o dele é o mais velhinho de todos! “O Lula mudou o Brasil, dona Vania! Só não vê quem não quer.” Os outros também confessaram o horror que sentiram diante dos deputados que votaram pelo impeachment da presidenta. Não conseguem entender como o presidente da Câmara, um notório corrupto, pôde conduzir aquela votação. Estão perplexos e atordoados. Querem saber como tudo isso vai terminar. Não sei dizer.

São membros das classes C e D, e não estão indiferentes à sorte do Brasil e dos brasileiros. Como eu disse antes, estes exemplos não significam nada além de uma amostra pessoal de como algumas pessoas estão reagindo ao golpe que está em curso. Talvez não saibam o que fazer. Talvez tenham medo de reagir. Talvez sintam o peso do ódio de classe que se dirige contra elas. Mas não estão indiferentes. Não pensam, como disse o diretor do tal instituto, que isso não passa de “briga das elites”, que não lhes diz respeito. Infelizmente, percebem com enorme clareza o significado dessa guinada que está sendo tentada na política brasileira.

Há, sem dúvida, uma outra parcela dessas classes C e D, eventualmente ainda mais expressiva do que esta, que não está ligando a mínima para o que se passa, ou que torce vivamente para que o golpe se concretize de fato. Conheço alguns exemplares. Mas isso não nos autoriza a tomar as partes pelo todo. Simplesmente deduzir que o conjunto desses grupos sociais está na mais completa alienação diante dos episódios gravíssimos que se abatem sobre nós é forçar a barra numa única direção. É possível que a maior dificuldade de todas seja justamente a de unificar todos esses sentimentos e todas essas perplexidades e lhes dar uma mesma orientação. A nossa maturidade democrática ainda não chegou a esse estágio, lamentavelmente. Hoje, pelo que observamos, só mesmo os setores mais organizados da sociedade conseguem se expressar e se movimentar a contento. Há uma massa (silenciosa, portanto) que não é abarcada por esses movimentos e fica à deriva nos momentos cruciais da história.

Essa dificuldade sempre esteve presente. Dadas a diversidade e a complexidade das organizações sociais modernas, não é trivial organizar movimentos e partidos políticos que consigam dar conta de grupos tão distintos e difusos. Parece que o momento atual é significativamente estimulante para que se faça uma reflexão mais profunda e integrada sobre esse desafio, que pertence a todos os projetos e a todas as perspectivas que visam à emancipação humana.