Sobre o Sínodo da Amazônia

“Fiquei surpreso ao saber que a Igreja Católica em Manaus está sob suspeita de estar preparando uma ofensiva contra o governo no Sínodo que vai acontecer em outubro. Ao que tudo indica, as reuniões preparatórias que aconteceram na nossa cidade foram monitoradas pelos órgãos de informação. A minha primeira reação foi de estranheza, pois nada fizemos de secreto.” Dom Sérgio Eduardo Castriani, Arcebispo de Manaus

Dias atrás, correu a notícia de que o governo brasileiro, através de suas instituições de inteligência, estaria preocupado em “conter os avanços” da Igreja Católica na liderança da oposição a Jair Bolsonaro. O foco principal dessa preocupação é a realização do Sínodo da Amazônia, que reunirá em Roma, sob os auspícios do Papa Francisco, um grande número de bispos católicos de todos os continentes, em outubro deste ano.

Segundo matérias veiculadas pela imprensa, durante os 23 dias do Sínodo, o Vaticano pretende debater a situação da Amazônia e abordar alguns temas sociais sensíveis, como a condição atual dos povos indígenas, a gravidade da degradação ambiental e a vulnerabilidade das populações ribeirinhas da região. De acordo com o exposto na mídia, para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), trata-se de uma “agenda de esquerda” que visa elevar as críticas ao governo atual e ganhar visibilidade internacional. Com o intuito de neutralizar esse risco, os escritórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) dos Estados amazônicos — Roraima, Pará, Amazonas — estariam sendo mobilizados para “acompanhar” as reuniões preparatórias para o Sínodo, em várias paróquias e dioceses.

Ecoaram protestos e queixas contra a espionagem dos bispos católicos pelo governo brasileiro. Era a essa intromissão que Dom Sérgio se referia na epígrafe acima. Diante do exposto, é inevitável qualificá-la como um anacronismo…

Parece que os fantasmas do passado ainda assombram os militares que comandam o governo atual. Nos anos 1960 e 1970, a Teologia da Libertação, com sua “opção preferencial pelos pobres”, ocupou um espaço extraordinário na luta política travada em benefício das pautas progressistas, e ajudou a intensificar o combate à desigualdade social e à degradação ambiental. Naquela época, quando as oposições de esquerda se encontravam esmagadas pela ditadura militar, as vozes da Igreja Católica foram fundamentais para manter ativas as agendas sociais. Hoje, embora a Teologia da Libertação não seja mais uma corrente poderosa dentro do catolicismo, os principais movimentos sociais mundo afora carregam as bandeiras mais importantes levantadas pelos seus teólogos.

Num contexto global como o atual, em que a desigualdade social explode sem controle, em que 1% da população mundial concentra mais de 50% da riqueza existente, em que os desastres ambientais se acumulam assustadoramente, em que o aquecimento global faz cada vez um número maior de vítimas, é de se esperar que novas vozes se levantem contra as injustiças e despertem seguidores. São muitos os fluxos que alimentam essa correnteza, eles não são exclusivamente católicos. Mas, ao mesmo tempo, com seus discursos e com sua postura, o Papa Francisco tem se tornado “suspeito” de trazer de volta esses ideais para o cerne da Igreja Católica. Daí o medo da liderança dos bispos e padres, como demonstra, por exemplo, a reação dos militares brasileiros.

Não é exatamente uma novidade que a Igreja Católica entre na mira dos serviços de inteligência. Ao longo da segunda metade do século XX, a força do clero progressista junto às massas sempre foi reconhecida como um “perigo” pelos governos de direita, e sempre esteve no radar dos seus espiões. Controlar a palavra dos “emissários de Deus” tem sido missão regular dos movimentos conservadores — muitas vezes, por meio de manobras políticas eficazes; outras vezes, por intermédio de atividades e dispositivos nem tão imaculados assim…

Em fevereiro de 1985, a Linha V da CNBB — Divisão de Ecumenismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil — lançou um documento em que denunciava os grupos religiosos de origem estadunidense que teriam sido infiltrados pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos, no território brasileiro. De acordo com a denúncia, esses “grupos evangélicos fundamentalistas e violentamente anticomunistas” pretendiam dificultar e até eliminar a ação da Igreja Católica progressista. Sua entrada no Brasil seria amplamente facilitada pelos órgãos fiscalizadores, ao passo que missionários católicos ou evangélicos comprometidos com as “causas dos marginalizados” enfrentavam inúmeras dificuldades e, muitas vezes, tinham até o visto negado. Autoridades de vários matizes colaboravam com a estratégia exposta.

“Segundo o documento, há indicações de que esse plano não é só de governos nacionais de direita ou militares, mas faz parte também da geopolítica norte-americana. Haveria infiltração da CIA em certos grupos ou estes estariam a serviço da mesma.” (Jornal do Brasil, 15 de fevereiro de 1985, p.1 e 4)

Enquanto os meandros da ação política destinada a enfraquecer ou eliminar os movimentos religiosos progressistas permaneciam resguardados pela censura ou pelo poderio extraordinário dos seus artífices, suspeitas e desconfianças ganhavam terreno entre os adeptos das agendas sociais. Entre as denúncias apresentadas no documento da Linha V da CNBB, acima citado, incluía-se a suspeição de que muito dinheiro vinha sendo destinado ao financiamento das seitas religiosas infiltradas pela CIA no Brasil. Isso era de tal forma escandaloso que exigiu um comunicado incisivo da cúpula episcopal, no sentido de amenizar o seu impacto:

“A CNBB divulgou nota oficial afirmando que o documento é de inteira responsabilidade da Linha V e que não envolve formalmente o órgão episcopal. Diz a nota que o relatório julga carecer de fundamentos qualquer afirmação generalizada sobre somas fabulosas vindas do exterior, especialmente dos Estados Unidos, para tais grupos e movimentos, destacando que se refere apenas a indícios de infiltrações da CIA.” (Idem)

No corpo da matéria do jornal, lê-se ainda que a embaixada estadunidense, é claro, declarou oficialmente que “o governo dos Estados Unidos não tem nenhum interesse em fomentar a criação ou o desenvolvimento de seitas, quaisquer que sejam, na América Latina”. Imagine se admitiria uma atuação desse porte.

Dois dias depois disso, Dom Hélder Câmara, um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação, no Brasil, ganhou destaque no Caderno Especial do Jornal do Brasil, por ocasião do recebimento do seu 14º prêmio internacional — o Testimonio 85. Em sua longa entrevista, ele defendeu o voto para os analfabetos, analisou a pobreza no Nordeste, disse que “a reforma agrária precisaria vir para evitar a violência” e afirmou que “hoje quem manda no mundo são as multinacionais”. (Jornal do Brasil, 17 de fevereiro de 1985, p.1 e Caderno Especial)

A atualidade da sua agenda é impressionante. Talvez por isso mesmo, pela perenidade dos anseios dos homens por justiça social e por direitos humanos, a identificação entre os padres progressistas e os movimentos sociais continue assombrando os grupos que estão no comando do país. A vigilância sobre o Sínodo da Amazônia é mais um capítulo dessa longa história de sonhos e de lutas por um mundo melhor. Por um Brasil melhor.

Referências:

http://www.vermelho.org.br/noticia/318759-1#.XG3ZPplh3ic.twitter

https://www.brasil247.com/pt/247/brasilia/383383/Abin-espiona-bispos-e-cardeais-e-Heleno-tra%C3%A7a-combate-%C3%A0-igreja-cat%C3%B3lica.htm

Abertura, mas nem tanto

O processo de “abertura” inaugurado com a presidência do general Figueiredo (1979-1985), último presidente da ditadura instaurada no Brasil em 1964, apesar das promessas recorrentes do chefe de governo, teve lá os seus percalços. Coloquei a palavra abertura entre aspas, na primeira frase, justamente para enfatizar esse aspecto. Embora o general Figueiredo tenha reiterado inúmeras vezes que o seu propósito de conduzir o Brasil no rumo da democracia plena era inabalável e inarredável, o contexto político nacional sofreu alguns abalos traumáticos naquele período. Houve bombas explodindo em bancas de jornal, houve bomba matando a secretária da OAB no Rio de Janeiro, enviada por uma carta, houve uma intensificação acentuada dos conflitos pela posse da terra no país inteiro, com mortos e feridos. As tensões se aguçaram.

Leonel Brizola chegou a afirmar, naquela época, que o general Figueiredo seria lembrado muito mais pelo que não deixou acontecer — a interrupção ou o fim mesmo do processo de abertura política — do que propriamente por aquilo que fez de fato. Ele certamente se referia às contradições que cercaram o retorno do País à sua plenitude democrática. Apesar das tensões e dos percalços, algumas mudanças avançaram e foi permitida, por exemplo, a fundação de novos partidos políticos (entre eles, PT e PDT), assim como a escolha dos novos governadores de Estado por voto direto a partir de 1982.  Mas, segundo Brizola, o mérito maior do general Figueiredo foi mesmo o de ter garantido a continuidade do processo de abertura e evitado qualquer retrocesso, diante das ameaças perpetradas por grupos de extrema-direita com seus atos extremos.

Um dos episódios mais marcantes dessa época, em especial por conta do seu significado simbólico, foi a expulsão do padre italiano Vito Miracapillo, motivada por denúncia do deputado Severino Cavalcanti ao Ministério da Justiça. Padre Vito teve o seu visto de permanência no Brasil cancelado porque se recusou a celebrar duas missas requisitadas pelo prefeito de Ribeirão, em Pernambuco, durante as comemorações da Independência do Brasil. O prefeito, se sentindo ultrajado com a negativa do padre, deu queixa ao deputado Severino Cavalcanti que, então, apresentou denúncia à justiça, por “afronta à pátria”. Padres e bispos vinham sendo olhados com forte desconfiança por políticos e outros tantos poderosos conservadores, pela famosa declaração de “opção preferencial pelos pobres” que norteava o comportamento da ala progressista da Igreja Católica em toda a América Latina. O gesto do padre Vito, ao recusar aquilo que considerou como uma interferência do prefeito na rotina dos serviços religiosos da sua paróquia, foi a gota d’água que faltava para entornar o caldo dessas tensões já existentes.

Por meio de um decreto, o general Figueiredo determinou a expulsão do padre Vito. De acordo com o porta-voz do Palácio do Planalto, Alexandre Garcia, o chefe do governo teria esperado 18 dias por uma resposta do Vaticano, que não veio. Através do Núncio Apostólico, o governo brasileiro teria solicitado a Roma que transferisse o religioso para outro país. Não sendo atendido, decidiu expulsá-lo em definitivo, usando o patriotismo como justificativa. Mas, nesse meio tempo, foi impetrado junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de habeas corpus para que a expulsão fosse avaliada com base na legislação vigente. Por 11 votos a 0, então, o Supremo decidiu que a expulsão de estrangeiros era competência exclusiva do presidente da República e legitimou o decreto presidencial. Antes de embarcar para o Rio de Janeiro, onde aguardou o julgamento do seu habeas corpus no STF, padre Vito deixou uma carta-aberta no Recife, em que manifestou as suas convicções:

“É patriótica a violência sistemática contra brasileiros no campo, nas fábricas, nas prisões? É patriótico o desrespeito aos mais elementares direitos da pessoa humana? É patriótico manter ou impor o analfabetismo para assegurar mão de obra, dar esmola em vez de salário, elogiar os ‘homens de bem’ que tudo fazem para massacrar os indefesos e tirar-lhes o pão, a paz, a dignidade, a vida?”

(…)

“O decreto de expulsão do Brasil não me surpreendeu, pois desde o interrogatório tive a clara impressão de que a expulsão já estava decidida e o inquérito fora instaurado para dar uma aparência de legalidade a um ato de autoritarismo.”

(Jornal do Brasil, 25 de outubro de 1980, p.4)

Dias antes da decisão final do Supremo, diante das declarações de outros religiosos em defesa do padre Vito, o deputado Severino Cavalcanti defendeu também a expulsão do Dom Pedro Casaldáliga, de nacionalidade espanhola e um dos maiores expoentes da Igreja Católica no Brasil, e ameaçou entrar com requerimento formal no Ministério da Justiça. Mas não foi adiante. O motivo dessa desavença foi uma afirmação de Dom Pedro Casaldáliga destinada a justificar a recusa do padre Vito em contribuir para as celebrações da Independência do Brasil, que acabara embasando o decreto de sua expulsão. Segundo Dom Pedro Casaldáliga, como seria possível festejar a independência, se “o povo brasileiro não é independente, pois vem sendo há muito tempo expulso da terra, da participação e das riquezas, dentro do seu próprio país”? (Jornal do Brasil, 21 de outubro de 1980, p.4)

Décadas se passaram e vemos esses mesmos personagens em destaque novamente. Severino Cavalcanti, deputado pelo PP de Pernambuco, acabou renunciando ao cargo de presidente da Câmara dos Deputados, em 2005, sob a acusação de cobrar propina de R$ 10.000,00 (dez mil reais) mensais de um dos restaurantes da Câmara. E não conseguiu se reeleger mais para o cargo de deputado federal.

Vito Miracapillo obteve a revalidação do seu visto de permanência no Brasil em 2012.

Dom Pedro Casaldáliga escreveu uma carta-aberta em 03 de abril de 2016, na qual defende a manutenção do atual mandato da presidenta Dilma Rousseff e qualifica o processo de impeachment em curso no Congresso como tentativa de golpe.