Manaus

Passei uns dias em Manaus, e adorei. Tudo de bom e interessante que eu imaginava encontrar lá, encontrei, e ainda mais. O melhor de tudo foram os manauaras — os habitantes do lugar. Que gente mais doce, amorosa, sorridente. Em todos os cantos, fui super bem tratada, acolhida mesmo. O sotaque ali falado é delicioso de ouvir, dava gosto. A simplicidade e a ausência de estresse nas pessoas me encantaram profundamente. Percebi, mais uma vez, que quem faz o lugar são os seus moradores, em grande medida. E a atmosfera que respirei em Manaus me deixou bem leve e tranquila, fazendo com que minha estada se tornasse a mais agradável.

Há exceções, é claro, como o motorista de táxi que peguei e era saudoso da ditadura instaurada em 1964. Um verdadeiro troglodita: homofóbico, machista, contrário ao Estado de bem-estar social. Nossa conversa durou pouco, diante da sua falta de argumentos. Mas, serviu para confirmar o velho ditado de que “toda regra tem exceção”. De resto, todas as pessoas com quem interagi, de uma forma ou de outra, foram delicadas, amorosas e gentis. Seu interesse pelo Rio de Janeiro (a minha cidade) deve ter facilitado as coisas: praticamente todos ali torcem por algum time de futebol carioca (com maioria esmagadora para o Flamengo) e têm uma escola de samba de coração (Mangueira, Portela, Beija Flor). Não foi difícil eu me sentir em casa!

A beleza do rio Negro — em cujas margens nasceu e cresceu a cidade de Manaus — e a exuberância da floresta são de fato impressionantes. Fiz aquele óbvio passeio de barco pelo rio, até o famoso encontro das águas — quando o rio Negro e o rio Solimões finalmente se encontram para formar o magnífico rio Amazonas. Que espetáculo! As águas negras de um e as águas barrentas de outro se encontram, mas não se misturam —disse o guia que os cientistas “quebram a cabeça” tentando explicar esse fenômeno curioso e instigante. Também me aventurei num passeio pela floresta, seguindo um índio muito falante que acabara de dar baixa em sua carreira no exército. Que coisa mais impressionante! Jamais senti um calor tão grande na vida, parecia estar trancada numa estufa. A densidade da mata é assustadora e fascinante ao mesmo tempo. Os sons da mata são soturnos e suaves ao mesmo tempo: assovios, chilreios, gorjeios, silvos. De resto, um silêncio esmagador. Precisávamos ter cuidado e falar baixo: segundo o nosso guia, ao nos escutar, os bichos poderiam vir ao nosso encontro para saber o que estava acontecendo — cobras, abelhas e até onças! Tenho certeza de que ele se divertiu às nossas custas! Havia um grupo de japoneses entre nós que não entendia nada e não parava de gritar, irritando algumas pessoas. Abandonei por completo aquela ideia de japoneses silenciosos, comedidos, discretos…

Come-se muito bem em Manaus. Tanto em bons restaurantes sofisticados (como o Banzeiro, por exemplo) quanto no rústico restaurante flutuante onde almoçamos um cardápio excepcional — baião de dois, muitas saladas, filé de pirarucu à milanesa e um doce de banana de comer rezando. Uma fartura de dar água na boca! Há uma boa marca local de sorvetes (Glacial) que aproveita muito bem as frutas da região — cupuaçu, açaí, graviola, camu-camu. Um frenesi de sabores! Há diversas castanhas à venda nos mercados, com destaque para a maravilhosa castanha do Pará, que também aparece em bombons apetitosos. Para quem gosta, tem uma marca de guaraná que é simplesmente imperdível: o guaraná Baré. E quiosques vendendo açaí servido de várias maneiras tentadoras. Viva Manaus!

Como as grandes cidades brasileiras, Manaus é uma cidade do automóvel. Pelo que fiquei sabendo, tem pouco mais de 2 milhões de habitantes e ruas bastante engarrafadas. O transporte público, como nas grandes cidades brasileiras, em geral, é precário e insuficiente — não há trens nem metrô, e os ônibus me pareceram velhos e desconfortáveis. Anda-se muito de barco pelo rio Negro, mas a navegação fluvial não atende às principais necessidades de mobilidade da capital amazonense. Vi uma única empresa de ônibus com aqueles veículos articulados, circulando mais pelas ruas do centro. Os coletivos, em sua maioria, eram modelos antigos e aparentavam sinais de desgaste. Todos os pontos de ônibus por onde passei estavam lotados de gente, a qualquer hora do dia. Ou seja, assim que a oportunidade se oferece, a pessoa vai preferir comprar um carro…

O potencial turístico de Manaus é formidável e pode ser bem aproveitado. Mas senti certa “preguiça” no ar. As autoridades municipais e estaduais — responsáveis pelas políticas do setor — não se fizeram presentes nas diversas situações que vivenciei como turista. Boas empresas privadas que atuam na atividade se encarregam de fazer a sua parte, e os serviços que oferecem são bem razoáveis. Mas poderia haver mais investimento na profissionalização do setor, por exemplo. E incentivos para renovação das frotas de barcos e ônibus também surtiriam efeitos positivos. O aeroporto funciona muito bem, o que estimula a vinda de estrangeiros. Mas a cidade poderia oferecer muito mais — senti falta de manifestações da cultura local (música, dança, folclore), de uso dos espaços públicos com festas e eventos, desfiles e outras coisas mais. Companhias de teatro locais dariam vazão às aspirações e à criatividade de inúmeros artistas que existem ali e seriam um atrativo a mais para os visitantes. Enfim, faltam políticas para dinamizar o turismo na região…

Falta sobretudo o reconhecimento pelo poder público de suas atribuições e de seus compromissos com a melhoria das condições de vida dos cidadãos. Mas temos alguns vícios de elite que são mesmo de lascar.

Na viagem de volta (de Manaus para o Rio de Janeiro), sentei ao lado de dois homens que viajavam com suas respectivas famílias para passar as férias na cidade maravilhosa. Pelo que comentavam em termos de suas hospedagens e dos restaurantes que pretendiam frequentar, deu para perceber que eram endinheirados. Vinham ao Rio para usufruir o consumo de luxo que a metrópole carioca pode oferecer. Fiquei me perguntando, então, que interesse eles — que certamente pertenciam à elite manauara — poderiam ter na melhoria das condições turísticas de Manaus? Nenhum. Passam suas feris no Rio e em São Paulo, e no exterior. Não olham para o seu lugar como algo digno de admiração e encantamento, e, assim, não se mobilizam para investir e melhorar. Deixam tudo como está, porque, talvez, jamais tenham acreditado que, com dedicação e empenho, poderiam construir uma magnífica metrópole nas portas da mais bela floresta do mundo. Viva Manaus!

A mobilidade do automóvel

“(…) Em 1900, 2,5 toneladas de esterco e 230 mil litros de urina de cavalo eram depositados nas ruas de Nova York a cada dia. Pense nisso.” *

Há muito tempo, um conhecido novaiorquino me contou que a mãe dele, que viveu nessa época (início do século XX), só saía de casa com um pequeno véu cobrindo seu rosto. Era um hábito comum das mulheres, que tentavam se proteger da poeira fétida que qualquer ventinho podia levantar. O véu sobre o rosto impedia (ou tentava impedir) o contato dessas partículas imundas com os olhos, o nariz e a boca de quem caminhava pelas ruas da metrópole.

Recentemente, visitei uma cidadezinha no interior do Brasil, onde muitas charretes e carroças circulavam por toda parte. O fedor que exalava das ruas coalhadas de fezes e urina de cavalo era quase insuportável.

Quando nos conscientizamos dos danos que o excesso de veículos motorizados, nos dias de hoje, vem causando à atmosfera (poluição) e à mobilidade dos grandes centros urbanos (engarrafamentos), normalmente, nos esquecemos de que o automóvel foi uma solução brilhante e inovadora para inúmeros problemas de transporte que afetavam a vida de milhões de pessoas em todo o mundo. A sua rápida difusão se deveu, é claro, à capacidade de produzi-lo em grande escala (nas linhas de montagem das quais a Ford foi pioneira); mas também decorreu da aceitação quase imediata do “carro de passeio” como o item que melhor encarnaria o fetiche da era moderna de consumo de massa. Muito se falou que o ápice da felicidade humana poderia ser representado por “uma despensa cheia e um carro na garagem”! Ainda hoje, tal imagem do bem-estar humano continua fazendo adeptos.

O fato é que a sociedade do automóvel, apesar de todos os problemas que criou, está longe de chegar ao fim. Se hoje o carro de passeio é um desafio, sobretudo, para os administradores das grandes cidades, continua sendo, porém, uma fonte de desejos e fantasias para grandes contingentes populacionais no mundo inteiro. Além do status, em si, que o automóvel proporciona a seus (felizes) proprietários, ele é ainda sinônimo de independência e de mobilidade. Embora nas principais metrópoles esteja se tornando quase impossível circular de carro nos bairros centrais, quem dirige seu próprio veículo tem mais opções inclusive de escolher moradias mais aprazíveis e baratas, situadas fora dos perímetros mais valorizados do espaço. Morar onde antigamente se fazia o veraneio é um luxo que muitos estão se dando hoje em dia, graças ao automóvel.

Nossas soluções futuras terão de levar isso em conta. Não é possível retroceder à era da “mobilidade nas patas do cavalo”, embora seja mesmo fundamental encontrar soluções adequadas aos enormes problemas criados pela poluição e pelo congestionamento ininterrupto do tráfego. É cruel que um trabalhador precise gastar horas do seu dia indo para o trabalho e/ou a escola e voltando para casa. Ônibus, trens e metrôs lotados e sem nenhum conforto são muito mais problemáticos para a qualidade de vida das pessoas do que automóveis em excesso pelas ruas das cidades. Carros em exagero são um grave desafio, sem dúvida. Mas, transportes de massa inadequados e obsoletos são deveras mais prejudiciais à mobilidade urbana.

A solução da questão não passa pela pura e simples eliminação do automóvel, apesar de todos os dilemas envolvidos. Senão, acabaríamos cometendo aquele erro crasso do qual fala um velho ditado: “jogar fora a água da bacia com a criança junto”.

Referência:

*James J. Flink. The automobile age. (Cambridge: MIT Press, 1988, p.136) apud Richard S. Tedlow. 7 homens e os impérios que construíram. Tradução: Bazán Tecnologia e Linguística. São Paulo: Futura, 2002, p.29.