Plantar em terra fértil

Há um dilema claro posto para a esquerda (sobretudo, o PT) no quadro político brasileiro atual: a perda relativa de eleitores, bem observada nas últimas eleições municipais (out/nov de 2016), que definiram os novos prefeitos e vereadores em todas as cidades do País. Há quem suponha que essa derrota parcial, em que o partido perdeu inclusive algumas das prefeituras nas quais sempre se elegeu, possa ser atribuída à mídia corporativa nativa, especialmente as Organizações Globo, que sempre se posicionaram como adversárias dos governos e dos candidatos petistas, conduzindo campanhas de difamação e de desestabilização que culminaram com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Tais campanhas se caracterizaram por manifestações gigantescas nas ruas convocadas pela televisão, por mobilização permanente de colunistas e celebridades dispostos a emprestar sua popularidade a esse combate, por noticiários tendenciosos que privilegiam os aspectos negativos dos adversários.

Não é possível negar nem reduzir o peso dessa atuação política da mídia brasileira nos desdobramentos da crise econômica e política que hoje se enfrenta no País — o público cativo que lhe garante audiência em todos os meios midiáticos (rádio, televisão, imprensa escrita) tem sido manipulado com relativa facilidade, e tem garantido alguns dos resultados esperados pelas campanhas sistemáticas conduzidas pela mídia em geral para afastar e/ou enfraquecer seus desafetos.

Todavia, apesar desse poder e dessa influência escandalosos da mídia nativa sobre o contexto político atual, não acredito que ela exerça unilateralmente essa imensa capacidade de mobilização das consciências — existem outros fatores, talvez ainda mais complexos, que precisamos explorar a fim de entender os fenômenos da participação e da apatia política. É necessário estar atento aos meandros e desvios que movem as pessoas em direção a esse ou àquele rumo, que as fazem reagir ou não a determinados apelos, que as levam a desejar ou a recusar determinados projetos e ideias. Nem tudo se resume às manobras e artimanhas da mídia.

Se fosse possível representar graficamente, poderíamos dizer que a esquerda é horizontal e a direita é vertical. A horizontalidade traz uma noção de conjunto, de linearidade, de homogeneidade: são todos (ou quase todos), são comuns, são coletivos. Seus projetos visam estender ao maior número de criaturas que for factível os benefícios proporcionados pela sociedade — boas escolas, atendimento médico-hospitalar, moradia, segurança, lazer e outros mais. Trata-se da ampliação dos direitos humanos, da intensificação das conquistas civis, políticas e sociais numa escala cada vez maior, capaz de abranger a maior parte dos segmentos, setores e âmbitos da coletividade. Isso traz em si uma nítida concepção de igualdade entre as pessoas, um reconhecimento tácito de que todos, indiscriminadamente, são portadores desses direitos e, portanto, devem exercê-los em plenitude.

A verticalidade, por sua vez, que é um atributo da direita, tende a abolir por completo essa noção de simetria e prega a diferença entre as partes, a dissemelhança, a distinção, estabelecendo, no limite, um princípio de hierarquia que pretende ser decorrente da meritocracia, ou seja, os “melhores”, os “mais aptos”, os “mais dedicados”, os “mais esforçados”, os “mais talentosos” serão sempre os mais bem aquinhoados pelos benefícios que a sociedade oferece (conforto material, oportunidades, bem-estar, e até luxo e grandeza). Mas, é fundamental observar atentamente este ponto, recebem mais por uma questão de mérito: fizeram por merecer, e qualquer um que também tiver as mesmas qualidades e a mesma obstinação poderá “chegar lá”, ao topo da hierarquia, ao ápice da verticalidade que explica o mundo, segundo esse ponto de vista, e ignora todas as formas de desigualdade e a sua origem.

Acho que aqui reside uma das armadilhas mais complexas do quadro político-ideológico atual: enquanto a esquerda acena com uma proposta que visa melhorar a qualidade de vida da maioria (senão de todos), a direita oferece um caminho em que alguns poderão sonhar com muito mais do que isso para si mesmos — como a glória suprema de se tornar um jogador de futebol milionário, uma celebridade artística adorada por milhares de fãs e rica, um empresário bem-sucedido que descobre uma mina de ouro na internet, uma beldade que desfila e posa para a publicidade, enfim, alguém colhido por um golpe de sorte e que desponta em todo o seu esplendor para a riqueza e a fama. E passe a usufruir de todas as comodidades e de todos os prazeres que uma vida de luxo pode proporcionar.

Para falar francamente, acho que é isso que desejam muitas pessoas. Talvez, a maior parte delas. As que ainda acreditam numa possibilidade qualquer de “chegar lá”, mesmo que esse chegar lá não seja muito longe, continuam participando das escolhas políticas e votam com a direita, com a verticalidade. As que se recolhem ressentidas, reconhecendo que não têm a menor chance de “chegar lá”, mas gostariam muito de fazer isso, não apostam em mais nada e rejeitam qualquer candidatura. São os niilistas pós-modernos! Sofrem amargamente as decepções e as frustrações com a própria vida (sempre desejando ter sido muito mais do que foram de fato), e se recusam a apostar em qualquer projeto. Há muitos desses por aí. Os que se gabam de votar nulo ou branco e se revoltam contra a obrigatoriedade do voto. Para eles, ninguém presta, nada vai dar certo. Não aceitam a horizontalidade porque lhes soa modesta demais — onde já se viu apostar todas as fichas na melhoria de “todo mundo”, sobretudo, nas coisas essenciais da vida?! Não vislumbram a verticalidade porque perceberam, de um jeito ou de outro, o grande engodo que reside na ideia da meritocracia — as vantagens imensas de uns contra as desvantagens de outros.

É nesse terreno fértil que a mídia tem plantado as suas sementes. Ela não cria esse caldo ideológico de ressentimentos e expectativas frustradas, apenas o alimenta com doses diárias de ódio e desinformação. E é isso que se constitui no grande desafio político da atualidade. Como tornar atraente um projeto de esquerda que vise a coletividade, o bem-estar comum, os benefícios para todos? Como romper esse bloqueio gerado pela desilusão diante das injustiças e das dificuldades cotidianas? Como amenizar essa carga brutal de mágoa e rancor que tantas pessoas acumulam dentro de si e que inviabiliza qualquer forma de comunhão e de cumplicidade?

Não é nada fácil. Mas precisa começar a ser feito. Os caminhos pelos quais as pessoas se identificam com as coisas do mundo são tortuosos demais. Nem sempre os oprimidos se identificarão com aqueles que lutam contra a opressão — ao contrário, muitas vezes, tenderão a se identificar justamente com o opressor. Nem sempre os pobres sentirão simpatia pelos projetos que buscam o enfrentamento à pobreza e ao abandono. Não é porque são pobres que, automaticamente, serão eleitores de esquerda. Muito pelo contrário! Todo esse ataque aos programas sociais do PT, em especial ao Bolsa Família, gerou um embate social bastante dramático, no qual os beneficiários foram muitas vezes chamados de “vagabundos” e “aproveitadores”, sendo discriminados de maneira cruel. Pode ser que isso pese nas suas escolhas futuras. Desvendar esses mistérios da ideologia é um grande desafio político. Por que eles acontecem? Como é possível estabelecer um diálogo promissor com essas pessoas?

Lembro que, numa entrevista, o presidente Lula contou um episódio marcante que viveu durante uma campanha eleitoral (acho que foi a primeira em que disputou a presidência): num casebre miserável pelo interior do Brasil, a mulher disse que não votaria nele porque ele “iria tomar tudo o que era dela”. Tudo o que era dela: uma casinha paupérrima no meio do nada! Lula disse que chorou naquela hora. Que diálogo mais difícil! Também conheci uma moça negra de origem muito modesta, moradora de um subúrbio distante, que adorava as novelas do Manoel Carlos porque se via retratada ali. “Ele fala das nossas vidas.” Justo um autor que sempre escreveu sobre os dramas da classe média alta, branca, moradora do Leblon (o bairro dos endinheirados do Rio de Janeiro)! Essa questão da identificação é complexa, perturbadora…

Política e religião

“(…) O papel de Deus era atender os que sentiam dor, oferecer conforto aos que eram tão pobres que nem podiam educar seus filhos, cuidar dos mendigos da rua que passavam o tempo todo invocando o Seu nome e ajudar os inocentes de coração em momentos de dificuldade.” (Pamuk, p.189)

Uma das experiências mais marcantes de transformação histórica aconteceu na Turquia, após a Primeira Guerra Mundial, quando, em 1922, foi finalmente abolido o Sultanato Otomano, que dominara o país durante séculos. Liderado por Mustafá Kemal Ataturk, instalou-se no país um regime republicano secular, que se consolidou com o apoio de uma elite intelectualizada e europeizada, aspirante à modernidade ocidental. A Turquia vivera por muito tempo sob a influência do islamismo e das tradições culturais do Oriente Médio, em especial durante o longo domínio otomano, ao mesmo tempo em que uma parcela de sua população mais abastada, sobretudo, de Istambul, voltava os olhos para as experiências sociais e culturais da Europa. O triunfo republicano representou a ascensão dessa camada mais secular e modernizadora da sociedade turca.

A república turca inaugurada em 1923 foi um regime de partido único até 1945. Depois disso, seguiu-se um período histórico de muita instabilidade marcado por diversos golpes militares, em que o país buscou se adaptar a um modelo pluripartidário que pudesse abarcar pelo menos algumas tendências políticas mais influentes.  No período republicano sob inspiração de Ataturk, que durou até 1945, a secularização foi perseguida de modo quase obstinado, na medida em que se convencionou vincular política e religião ao extinto regime otomano, que se notabilizara por uma acentuada intolerância e por uma forte repressão. Uma das medidas mais simbólicas desse período republicano foi a proibição de uso do véu pelas mulheres em espaços públicos. Por mais irônico que pareça, entretanto, no longo e traumático processo de renovação política do país, que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial, os partidos mais votados foram justamente os que tinham as mais fortes tendências islâmicas.

Uma das explicações mais tocantes para esse fenômeno fui encontrar na literatura do grande escritor turco Orhan Pamuk. Ao traçar as linhas da sua história de vida em Istambul, ele oferece um panorama sensível e delicado das combinações e contradições presentes numa sociedade que vivia espremida entre um esforço modernizador à moda europeia, que beneficiava alguns, e uma herança cultural arraigada, que atravessou gerações, partilhada por muitos. Embora convivendo no mesmo meio socioeconômico, essas duas tendências pareciam não se comunicar. Eram estranhas uma à outra, e essa estranheza vinha justamente da separação das classes. Mundos distintos, sentimentos e percepções totalmente diversos. O legado das crenças, dos valores morais associados à religião, tinha permanecido nos redutos mais miseráveis.

“(…) como todos os outros membros da minha prudente família aprendi que sempre era sensato, se você tinha acabado de rir da religião ou de manifestar a sua falta de interesse por ela, mudar de assunto imediatamente; identificávamos a devoção com a pobreza, mas nunca em voz alta.” (Pamuk, p.191)

Por isso mesmo, embora o regime republicano tivesse feito um enorme esforço para lançar a Turquia no “mundo moderno”, tal qual o modelara a Europa, uma parte bastante significativa da sua população permanecia apegada ao padrão secular de valores morais e espirituais legado pela religião islâmica. Era justamente a parcela que ficara à margem desse processo de modernização que trouxe alguns benefícios óbvios para determinados setores da sociedade turca, mas não fora capaz de incluir a maioria. A elite letrada, europeizada e aburguesada que triunfara com a república não compreendia esse apego dos demais às velhas tradições religiosas, e as enxergava com indisfarçável preconceito.

“Assim, em vez de considerar que a religião era um sistema por meio do qual Deus falava conosco através dos profetas, dos livros e das leis, reduzíamos a religião a um conjunto estranho e às vezes engraçado de regras em que as classes mais baixas confiavam (…)” (Pamuk, p.193)

O mais grave não era manifestar o preconceito em si. Além desse menosprezo muito mal dissimulado, pesava sobre os crentes uma acusação ainda mais opressiva: a de que eles eram diretamente responsáveis pelo atraso do país, pela incapacidade cada vez mais manifesta da sociedade de realizar a verdadeira transformação da Turquia na direção do progresso e da civilização. A sua mera existência era a própria condenação do país à ignorância, ao obscurantismo, à barbárie. Havia uma convicção amplamente difundida entre a elite burguesa letrada de que a religiosidade da imensa maioria da população mais pobre se constituíra no principal obstáculo à efetiva transição da Turquia para a era moderna. O fracasso já tinha um nome.

“(…) tornava mais difícil realizar o sonho de uma Turquia moderna, próspera e ocidentalizada. Na qualidade de proprietários prósperos e ocidentalizados, tínhamos o direito de governar aqueles semiletrados, e tínhamos o interesse de impedir que se tornassem presos demais às suas superstições — não só porque isso convinha a nós em particular mas também porque o futuro do nosso país dependia disso.” (Pamuk, p.194)

Lembrei-me desse belo livro do Pamuk justamente agora, quando soubemos que um líder religioso de matriz evangélica ganhou a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro. Pelas redes sociais, observo que uma verdadeira indignação tomou conta de inúmeros representantes da esquerda, que se julgavam os mais preparados para governar a cidade, o Estado, o País. Mas perderam, como dizem, para o bispo, para a religião, para o obscurantismo… E andam em busca dos culpados, lançando os seus impropérios a todos aqueles que julgam serem os responsáveis pela “tragédia”. Parece que a experiência turca mostra bem o quanto determinados projetos de modernização pelo alto são incapazes de afetar os espaços profundos de uma sociedade desigual. Por mais linda e digna que seja uma proposta política, ela precisa falar à alma das pessoas.

Aldous Huxley disse uma vez que só se pode prescindir de Deus ou quando se é muito jovem, ou quando se é muito próspero!

 

Referências:

Orhan Pamuk. Istambul. Memória e cidade. Tradução Sergio Flaksman São Paulo: Companhia das Letras. 2007.

http://especiais.g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/apuracao-zona-eleitoral-prefeito/rio-de-janeiro/2-turno/

Quem são os poderosos?

“(…) No Brasil, a ação social e econômica dos poderosos fundamenta-se em torno do aparelho de Estado, como forma direta e indireta de controles do fluxo de informações, capitais e privilégios essenciais para a reprodução ampliada da classe dominante. O mesmo vale em outro sentido: a pobreza, a carência e a miséria também podem ser consideradas produtos da falta de políticas sociais de Estado. Pobreza e riqueza, poder e carência são diferentes lados da mesma moeda social, econômica e política.” (1)

Partindo dessas premissas, o professor Ricardo Costa de Oliveira se lança numa busca verdadeiramente extraordinária dos elementos que permitam desvendar a natureza quase sempre obscura dos donos do poder. Tomando como ponto de partida as condições presentes no Estado do Paraná, seu principal objeto de estudo, ele desenvolve um quadro analítico apoiado em farta fundamentação histórica, que facilita a sua ampliação para outras regiões do País.

Ao avançar a sua compreensão sobre os meandros da estrutura de poder que prevalece entre nós, desnuda alguns mitos tão frequentemente difundidos de que essa elite de poderosos retira a sua força de princípios tais como “a modernidade, a racionalidade, a adesão a valores e práticas de um capitalismo regido pelos princípios da impessoalidade e da eficiência”. Nunca será demais lembrar que na última campanha eleitoral houve um candidato que bradou aos quatro ventos o seu mantra favorito: “meritocracia”. Esse tipo de suposição, de que somente os méritos pessoais de cada um representam a sua ponte exclusiva para a ascensão e o sucesso, ainda engana um bocado de gente.

De fato, famílias, riqueza e poder, isto é, oligarquias poderosas com ampla influência sobre todas as esferas políticas do Estado (inclusive o judiciário, além do legislativo e do executivo) representam a verdadeira face do domínio secular que prevalece no Brasil, de norte a sul. Apesar desse poderio espetacular, passado de geração a geração, esses grupos tendem a ser significativamente silenciosos. O alarde não faz parte de sua conduta regular. Ao contrário, mesmo quando seus membros estão em evidência, fazem um esforço permanente e sério para manter com discrição as bases do seu poder. E sabem muito bem os objetivos que devem preservar.

“Grosseiramente, as oligarquias brasileiras baseiam-se em 500 famílias. É nelas que está a estrutura fundamental do poder no país. Delas, 250 estão no Nordeste e 250 no Centro-Sul. Não se pode dizer que elas governem o Brasil, nem que tenham o mesmo poder nas diversas regiões. Apenas têm poder. (…) Você encontra a oligarquia ao lado do progresso, mas não vai encontrá-la ao lado da ampliação da cidadania. São silenciosos, burocratas e progressistas, mas conservadores na questão dos direitos dos cidadãos. Seu compromisso essencial é a defesa da ordem.” (2)

Ora, o que seria a ordem senão esse estado de coisas que conserva tudo exatamente como está? Em especial, do ponto de vista do equilíbrio social. Manter a ordem, em outras palavras, significa preservar o status quo, garantir que as bases econômicas e sociais se perpetuem de modo a prosseguir na mesma trajetória ascendente e excludente. Quando perguntado se essa sua tese não se aplicaria a qualquer país, o professor Ricardo Costa de Oliveira argumentou que não. De fato, essas características estão mais presentes em sociedades pouco permeadas pela mobilidade, nas quais se solidificam estruturas de poder bastante antigas e, ao mesmo tempo, restritas (e restritivas).

“(,,,) Aplica-se a inúmeras nações europeias, mas não se aplica de modo algum aos Estados Unidos. (…) Poucos presidentes americanos têm uma genealogia parecida com a de Fernando Henrique Cardoso, filho, neto e bisneto de militares de alta patente.” (2)

Não é de estranhar, portanto, que iniciativas recentes destinadas a mexer nessas bases fundamentais tenham despertado tamanho horror nesses grupos. Por mais leve e sutil que seja, qualquer tentativa de expandir os direitos sociais tende a ser vista como muito ameaçadora. Justamente, porque pode alterar os elementos basilares que dão suporte e sustentação a essas estruturas de poder, impermeáveis à entrada de “estranhos”. Elas funcionam como verdadeiras reservas de mercado: pertencem, em caráter exclusivo, aos membros dessas oligarquias, por afinidades ou por parentesco. Somente os escolhidos, os indicados, os preferidos podem aspirar a reais condições de comando dentro dessas estruturas. Aos outros, ficam reservadas as posições de subalternidade e de dependência, nas quais se sujeitam a obedecer e a servir. Jamais a mandar ou a decidir!

“A estrutura de poder não é uma abstração, ela se materializa em situações objetivas de posse de riqueza, se reproduz e se consolida graças a redes políticas, sociais e de parentesco. As redes políticas de poder são definidas neste artigo como conexões de interesses envolvendo, basicamente, empresários e cargos políticos no aparelho de Estado, no executivo, no legislativo e no judiciário e, também, em outros espaços de poder buscando assegurar vantagens e privilégios para os participantes. Além da ideologia que lhe reforça a legitimidade, as redes podem utilizar artifícios tais como o nepotismo, o clientelismo e a corrupção.” (1)

Disso resulta que toda e qualquer medida destinada a furar esse bloqueio de acesso ao poder, que define as políticas de Estado e direciona os recursos públicos para este ou aquele fim, tende a repercutir de modo muito negativo dentro dessas esferas que controlam efetivamente o mando na República. Tais oligarquias não admitem ser desafiadas, não aceitam condicionar o seu domínio exclusivo a este ou àquele fator. Pretendem manter com mão de ferro todas as prerrogativas que o tempo, o nascimento e os conchavos lhes deram como se fosse por direito. Quase um direito divino.

Referências:

Ricardo Costa de Oliveira*. O silêncio dos vencedores. Curitiba: Moinho do Verbo, 2001.

(1) Ricardo Costa de Oliveira. “Famílias, poder e riqueza: redes políticas no Paraná em 2007. http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=185

(2) Ricardo Costa de Oliveira. Entrevista. Folha de São Paulo, 21 de abril de 2002. www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2104200225.htm

*Professor da Universidade Federal do Paraná

 

Imprensa e política 2

“A relação da imprensa com o poder público é uma tradição histórica do jornalismo brasileiro, que o acompanha desde o seu surgimento no início do século XIX.” (p.168)

A década de 1950 é marcante na história da imprensa brasileira porque representa a inauguração de uma nova fase, na qual o modelo norte-americano de jornalismo foi implantado, trazendo uma proposta de “modernização das empresas e dos textos”, assim como a profissionalização dos jornalistas. Esse novo tipo de organização e de gestão da prática jornalística criou para si mesmo uma mística própria: de sua “aura de fidelidade aos fatos” emergiu um considerável poder social que lhe é conferido pela sociedade como um todo — um voto de confiança calcado no reconhecimento pelo público de que o jornalismo é veiculador dos acontecimentos, é “registro factual por excelência”. Daí para sacramentar uma crença universal na objetividade e na imparcialidade aí implícitas foi apenas um passo.

Dificilmente, o distinto público se questiona sobre a escolha das notícias, a ênfase dos destaques, a ausência de certos temas e personalidades. Há uma espécie de reconhecimento tácito de que o que está sendo veiculado é a legítima expressão dos fatos. Um dos riscos mais graves desse tipo de acepção é supor que aquilo que não está na mídia simplesmente não existe, ao mesmo tempo em que tudo que recebe atenção ali é necessariamente visto como digno desse merecimento. Por outro lado, é fundamental reconhecer que as diversas mídias não se encontram distribuídas de forma equânime pelo conjunto da sociedade, a fim de difundir os diversos pontos de vista e as diversas expectativas aí presentes. Muito se observa, no Brasil, o altíssimo grau de concentração da propriedade dos meios de comunicação, que restringe sobremaneira o acesso à expressão oral e/ou escrita. Existe um incontestável monopólio da narrativa, concentrado em pouquíssimas mãos.

Uma das melhores definições desse controle altamente restritivo de poucas empresas sobre o jornalismo brasileiro foi dada pelo jornalista David Nasser, numa entrevista à revista Manchete, publicada na edição de 15 de outubro de 1965:

“E a minha fazenda não é herdada, nem doada. Foi comprada com o dinheiro que ganhei como jornalista. Eu resolvi me emancipar porque cheguei à seguinte conclusão: no Brasil, nunca houve, na realidade, liberdade de imprensa. O que existe e sempre existiu é a opinião do dono do jornal. Ora, a minha opinião nem sempre coincidia com a de meu patrão e eu era despedido. Então eu resolvi ser rico, para poder ter opinião como jornalista. No jornalismo, como vocês sabem, só se faz fortuna sendo picareta ou então alugando a opinião. Essa eu nunca aluguei. (…) Sempre fui bem remunerado e resolvi me emancipar economicamente para não depender do diretor do jornal. (…) No dia que não publicarem o que eu realmente penso, vou-me embora para a minha fazenda, tranquilamente, para escrever meus livros e viver minha vidinha.” (Apud., p.175)

Sem fazer qualquer julgamento sobre o mérito das alegações acima, é indiscutível esse predomínio da opinião do dono sobre todas as coisas. Acima de tudo, porque a imprensa sempre foi um meio poderoso de barganha com outros grandes interesses, e não poderia colocar em risco as vantagens dos seus proprietários. A proximidade (ou, caso se queira, a promiscuidade) dos donos dos meios de comunicação com o poder político, no Brasil, se conservou mesmo após o processo de modernização inaugurado nos anos 1950. A adoção das novas técnicas gráficas e textuais, bem como o profissionalismo cada vez mais acentuado dos jornalistas — que passaram a se formar em cursos universitários especializados —, não impediu a perpetuação de relações íntimas com os políticos e a política, em geral. Algumas prerrogativas do jornalismo dito moderno não foram incorporadas:

“Os jornais brasileiros nunca puderam assumir, por exemplo, o papel de watchdogs que lhes era reservado no ideário norte-americano. Nunca conseguiram exercer, de fato, vigilância sobre a ação do Estado, no sentido clássico do liberalismo, pois nunca mantiveram uma distância suficiente dos personagens públicos. A imprensa sempre teve uma relação simbiótica com a política.” (p.348)

Talvez a imprensa nativa tenha protagonizado mais um caso clássico de “modernização sem mudança”. Isto é, alguns aspectos mais aparentes e mais superficiais são adotados por aquelas estruturas que resistem a se modificar verdadeiramente, preservando-se tudo que elas têm de essencial (“plus ça change, plus c’est la même chose”). “Nos bastidores da notícia”, os arranjos, acordos e conchavos continuam ditando as regras. Personagens e eventos são poupados ou execrados ao sabor desses meandros. A política não é apenas a das esferas públicas, nas várias instâncias do Estado. A política também é a dos donos de jornal.

“Para Carlos Eduardo Lins e Silva [O Adiantado da Hora: a influência americana sobre o jornalismo brasileiro. São Paulo: Summus, 1991], o jornalismo brasileiro incorporou os princípios do modelo norte-americano no discurso, mas não na sua prática profissional. No Brasil, todos se dizem objetivos, mas ninguém é de fato. ‘Não no sentido de que seja impossível ser, mas no sentido de que se é ostensivamente partidário na cobertura, com títulos de notícias editorializados, com clara preferência por uma tendência política ou ideológica, distorção intencional dos fatos para favorecer uma visão particular de mundo.’ Como o autor afirma, a importação do modelo norte-americano não poderia mesmo ser absoluta, já que as diferenças culturais, políticas, econômicas entre as duas sociedades (a brasileira e a norte-americana) necessariamente modificariam o caráter original das noções.” (p.337)

 

Referência:

Ana Paula Goulart Ribeiro. Imprensa e história no Rio de Janeiro dos anos 1950. Rio de Janeiro: E-papers, 2007.

Imprensa e política

Ou imprensa é política?!

No Brasil, em geral, quando se discute o papel da imprensa na luta política, costuma-se situar o epicentro desse processo na década de 1950, quando se intensificou de modo extremado o confronto entre projetos opostos de poder. Nesse período, no Rio de Janeiro, foi fundado o jornal Última Hora, alinhado aos governos trabalhistas, primeiro o de Getúlio Vargas e depois o de João Goulart, aos quais se opunham diversos outros periódicos que se destinavam a atacá-los. A intensidade dessa disputa que provocou alguns lances verdadeiramente dramáticos — como o suicídio do presidente Vargas, em 1954 —, deixou para a história um registro marcante e emblemático, que acabou condicionando grande parte da visão que se tem sobre o tema. Um olhar mais curioso, no entanto, pode mostrar que o uso da imprensa como instrumento da luta política é tão antigo quanto ela própria. Nos momentos de crise aguda, as vozes transmitidas por seus veículos mais populares amplificam sentimentos, emoções e desejos que podem exercer papel decisivo na “solução” dos problemas e impasses.

Entre as inúmeras inovações trazidas pela corte portuguesa que se instalou no Brasil, em 1808, destacou-se a imprensa. Embora a liberdade de expressão em si jamais estivesse completamente assegurada, a mera possibilidade de publicar e divulgar ideias e opiniões já era um feito extraordinário. Ainda que jornais e demais periódicos tivessem vida muito curta, em alguns casos, tanto em decorrência de dificuldades financeiras para sua manutenção quanto em razão de censura oficial, sua simples existência, mesmo que breve e cercada de toda instabilidade, era uma fonte de grande motivação e expectativa.

Em pouco tempo, a proliferação de jornais se tornou uma das características das cidades brasileiras, em especial, do Rio de Janeiro. Todo o processo de independência, por exemplo, com seus desdobramentos tensos e complexos, foi objeto de uma atuação vibrante e constante, por meio da imprensa, dos principais grupos políticos que pretendiam dirigir os destinos do País. O embate entre “portugueses” e “brasileiros”, como eram chamados os opositores mais importantes, sintetizava os conflitos que se instituíram entre os interesses que pregavam a manutenção dos laços de dependência com Portugal e os que advogavam a ruptura do domínio colonial português e a consequente construção de uma nova nacionalidade autônoma e soberana. Dom Pedro I, proclamado imperador do Brasil, em 1822, se equilibrou de forma precária nesse cenário de aspirações tão contraditórias, tentando impor o seu domínio — que se originara numa dinastia francamente absolutista — sobre uma elite local que se dividia entre “liberais” e “conservadores”, tendo como ponto fundamental de suas divergências o regime constitucional da monarquia. A constitucionalidade era um limite óbvio ao absolutismo, posto que garantisse à assembleia eleita as prerrogativas de legislar e determinar os rumos do País. A luta contra o absolutismo, encarnado em Dom Pedro I — o qual se declarava com frequência um constitucionalista, mas representava uma ameaça autoritária constante no imaginário independentista —, unificou os grupos divergentes até a abdicação do imperador em 1831. Embora o agouro de um retorno ao absolutismo e à união com Portugal sempre assombrasse alguns círculos políticos brasileiros, até a morte de Dom Pedro, em 1834, o fato é que “liberais moderados” e conservadores encontraram o seu patamar de equilíbrio durante o período regencial e o processo de maioridade de Dom Pedro II (1840), logrando a continuidade de um modelo de monarquia constitucional à brasileira — vide o “poder moderador” — que foi capaz de manter as principais estruturas socioeconômicas (o latifúndio e a escravidão) intactas. Aos “liberais radicais” restou o combate pela constitucionalidade ampla e pelo federalismo — cujo objetivo maior era dar às províncias do imenso território brasileiro mais autonomia e mais participação política.

Nesse processo turbulento e árduo de construção de um projeto político nacional, a imprensa teve um papel destacado e constante. Entre as suas atribuições mais expressivas, sem dúvida, ressalta-se a construção do “mito absolutista” de Dom Pedro I, cuja intensificação acabaria levando à abdicação do imperador em favor do filho e o seu retorno a Portugal. A campanha empreendida pelos jornais não deu tréguas, e terminou por provocar uma onda xenófoba dirigida contra os portugueses que viviam no Brasil, sobretudo, na Corte — e que eram muitos. O grande pavor, como já mencionamos, era a suspensão da Constituição (outorgada pelo próprio imperador em 1824) e uma nova reunião do País com Portugal. E Dom Pedro I encarnava esse presságio como ninguém: era português, e oriundo de uma linhagem absolutista incontestável.

“A histeria provocada por uma ameaça imaginária criada por uma imprensa oposicionista e descontrolada, teve lances literalmente trágicos, como o assassinato em São Paulo do médico e jornalista italiano conhecido como Líbero Badaró.” (p.266)

Badaró publicava um jornal chamado Observador Constitucional em que dirigia pesadas críticas ao governo, em especial ao imperador. Muitos acreditam que tenha sido assassinado por suas opiniões políticas. Num quadro de tensões cada vez mais acirradas, os conflitos entre posições distintas logo se transformaram em confrontos. Mais uma vez, os jornais atiçavam os partidários de um lado e de outro.

[em março de 1831] Duas facções, a dos nativistas e a dos portugueses logo passaram a se confrontar — inicialmente com insultos, logo convertidos em ações físicas. Os brasileiros foram expulsos da rua da Quitanda, no centro do Rio, debaixo de garrafadas atiradas pelos portugueses do alto de seus sobrados. Os distúrbios duraram três dias, alimentados como foram pela imprensa e pelos políticos.” (p.269)

Nunca será demais reconhecer que a imprensa não é imparcial nem neutra. Isso não a desqualifica, ao contrário. Apenas permite aos seus leitores que conheçam a verdadeira natureza do que estão lendo e possam se posicionar diante disso. Essa pretensa busca pela imparcialidade nada mais é do que uma ilusão que serve para encobrir a intenção primeira do que está escrito. A própria escolha dos temas tratados, a definição das manchetes, o desenho da primeira página, tudo isso, enfim, evidencia um ou vários pontos de vista que se combinam para criar um noticiário que representa, sim, uma visão de mundo. E isso vale para qualquer mídia. Em outros tempos, quando a escolha de um campo político era franca e aberta, quando os jornais assumidamente representavam um dos muitos lados em conflito, chegando a ser criados para isso, talvez fosse mais fácil identificar e definir os seus objetivos.

 

Referência:

Paulo Rezzutti. D. Pedro: a história não contada. São Paulo: LeYa, 2015.

Um “projeto de país”

No calor do atual debate político, volta e meia uma voz se levanta para dizer que o Brasil carece de um “projeto de país”. São raras as vezes em que se apresentam maiores detalhes sobre o que significa isso: a) seria aquilo que desejamos ser? b) ou o rumo que pretendemos tomar? c) talvez, um destino que nos aguarda? Seja como for, o fato é que essa queixa encontra sempre forte ressonância em grupos e pessoas que danam a repeti-la e a considerá-la praticamente como um axioma. Alguns chegam mesmo a falar em um “projeto de nação”, mas querendo dizer a mesma coisa. Enfim, para eles, o Brasil seria um barco à deriva, carente de direção.

Não é difícil discordar de tal suposição. Historicamente falando, um “projeto de país”, em geral, se apresenta como um projeto de determinado grupo ou classe social que ascende ao poder e implanta um conjunto de medidas e iniciativas convergentes com os seus propósitos políticos. Não há neutralidade alguma. É certo que existem composições possíveis, acertos, acordos, conveniências; mas o que tende a prevalecer é a visão de mundo desse grupo ou classe que está no comando e a sua habilidade de fazer o jogo político pender para o seu lado. Conflitos, desavenças, disputas muitas vezes dramáticas podem acontecer. Mas o cerne desse projeto inicialmente elaborado e posto em prática precisa sobreviver para que o próprio sentido de poder e de comando, que lhe é subjacente, seja devidamente preservado.

As grandes potências econômicas e políticas que hoje lideram o mundo globalizado passaram por processos desse tipo. Cada uma delas experimentou o desenvolvimento econômico em bases capitalistas de modo muito próprio, acelerando a industrialização e a rápida mecanização da agricultura de acordo com as condições particulares de sua trajetória histórica. Em algumas situações, a evolução foi mais veloz e seguiu etapas de duração mais curta; em outras, dadas as limitações ocasionais, o avanço foi mais lento e interrompeu-se para depois prosseguir. Não há uma fórmula única, embora se observe a necessidade de se estabelecerem algumas condições gerais para o desencadeamento desse dinamismo. O que unifica todas essas experiências históricas particulares é o fato de que tiveram uma liderança política firme e decisiva, nas suas principais fases.

O caso da Alemanha é um dos mais emblemáticos. Uma das peculiaridades resultantes do modelo de desenvolvimento alemão é a de que a sua história econômica não pode ser separada da política de poder. Seu processo de industrialização deve ser interpretado como uma peça essencial do projeto político da classe dominante que pretendia se perpetuar no poder. Isso porque a influência e a pressão exercidas sobre a Alemanha pelas mudanças que ocorriam em outros países da Europa — sobretudo, na França e na Grã-Bretanha — conduziram a aristocracia germânica (tendo à frente a elite prussiana) à formulação de um programa de modernização econômica do país em que as estruturas de dominação deveriam ser preservadas. O exemplo radical da Revolução Francesa ecoava por todas as monarquias conservadoras da Europa como um alerta.

Por um lado, tornara-se evidente que o prestígio internacional da Grã-Bretanha era tributário da força de suas indústrias. O progresso material associado ao crescimento industrial já havia se convertido em senso comum por toda a Europa. Aqueles países que não lograssem um desenvolvimento similar ou maior estariam fadados à condição de “satélites” da economia britânica. Por outro lado, os levantes camponeses e liberal-burgueses que sacudiram a França no final do século XVIII e na primeira metade do século XIX, e promoveram uma revolução, serviram como advertência aos antigos regimes europeus sobre os perigos das transformações operadas a partir da base. Uma transição gradual, cujas diretrizes seriam definidas a partir de cima, ou seja, pelos grupos politicamente dominantes, foi o modelo adotado na Alemanha.

Em 1871, após a vitória contra a França (na Guerra Franco-Prussiana), a Prússia se encontrava em condições de estabelecer a sua hegemonia sobre os demais Estados da Confederação Germânica e concluiu, sem qualquer resistência mais grave, o projeto de unificação que levou à formação do Império Alemão. Paralelamente, a defesa de uma posição internacional de prestígio para a Alemanha, principalmente nos quadros do equilíbrio geopolítico da Europa, tornava a industrialização do país ainda mais imperiosa, do ponto de vista da aristocracia prussiana. Todas as medidas importantes no sentido de dotar o país de força econômica e poderio militar foram tomadas por um governo aristocrático e autoritário. Para a elite dirigente alemã, o progresso industrial não era um objetivo em si mesmo; era, antes, um instrumento básico da política de poder que visava à perpetuação das hierarquias sociais que lhe davam sustentação.

“Na Alemanha, a mais bem-sucedida economia da Europa (pelo menos até a reunificação), uma industrialização rápida e ampla, com um tipo de concentração de capital e forças produtivas que a Grã-Bretanha jamais alcançou, foi realizada, no século XIX, sob os auspícios de um antigo regime, uma monarquia imperial, uma espécie de absolutismo burocrático e uma burguesia subordinada. Aquele mesmo regime foi o introdutor de medidas de bem-estar social e de um avançado sistema de seguridade social, saúde pública e relações industriais. E foi capaz de fazer tudo isso não porque a Alemanha fosse mais ‘moderna’, democrática ou liberal que a Grã-Bretanha e a França, nem porque a sua burguesia fosse mais madura e independente, mas porque o Estado era forte e a burguesia era fraca, dependente da aliança com a monarquia imperial e a velha aristocracia dominante.” (Wood, p.168)

O Japão tem uma experiência histórica semelhante, com a Restauração Meiji, iniciada em 1864 e destinada a dotar o país de certo grau de desenvolvimento econômico (e potência militar) que lhe permitisse enfrentar o assédio dos países ocidentais que percorriam o Extremo Oriente em busca de novos mercados e recursos naturais, e já subjugavam a China por meio de tratados e acordos comerciais desfavoráveis ao grande império celestial. O que tais exemplos nos permitem observar é que essa dinâmica de crescimento econômico acelerado associado a uma política de poder alicerçada no incremento do poderio militar acabou levando a uma investida expansionista com significativo apelo nacionalista e chauvinista (por que não xenófobo?), cujos resultados foram desastrosos. Projetos de país existem muitos. É necessário qualificá-los.

Há que se questionar também por que razão construir moradias dignas, assegurar uma alimentação suficiente, oferecer uma instrução adequada à qualificação das pessoas, promover o bem-estar social por meio de políticas públicas de qualidade não constitui um projeto de país, na visão desses grupos e pessoas que reclamam de sua inexistência no Brasil de hoje. Só é possível qualificar como “projeto de país” um conjunto de medidas e proposições que beneficiam principalmente as elites, como nos exemplos citados acima, ou é viável que se dê esse nome também a uma política governamental que resguarda e protege os direitos da população mais destituída?

Referências:

Ellen M. Wood. The Pristine Culture of Capitalism: a historical essay on old regimes and modern states. London, New York: Verbo, 1992, p.168.

Vania Maria Cury. História da Industrialização no Século XIX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.