Entre ricos e pobres

Temos acompanhado, nos últimos dias, uma série de denúncias de corrupção que atinge em cheio o núcleo do governo que tomou o poder após a destituição da presidenta eleita em 2014 — Dilma Rousseff. São casos graves de corrupção e tráfico de influência que envolvem, principalmente, o atual presidente, Michel Temer, e o principal líder político do governo, senador Aécio Neves. Tendo à frente dessas denúncias o procurador-geral da República (Rodrigo Janot) e o ministro do Supremo Tribunal Federal responsável pela operação que investiga a corrupção na Petrobras (Edson Facchin), percebe-se uma reviravolta no rumo das ações judiciais contra políticos, as quais, até então, miravam exclusivamente nos membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e seus aliados. Como explicar isso é o desafio enfrentado por todos aqueles que se interessam pelos destinos do Brasil. Por ora, as análises parecem todas inconclusivas. No calor da hora, é muito mais difícil perceber claramente a direção dos ventos.

Em todo caso, muitos analistas audaciosos que se dispõem a navegar nesses mares revoltos têm se perguntado onde estão aqueles que encheram as ruas e esbravejaram para tirar Dilma Rousseff da presidência? E sem que pesasse sobre ela nenhuma denúncia de corrupção ou malfeito. E o mais intrigante: a principal/maior rede de comunicação do País já desembarcou da canoa furada conduzida por Temer e pede a sua renúncia em editoriais e noticiários de TV. Algo impensável há apenas alguns dias…

Sempre desconfiei dos pruridos éticos de uma sociedade, como a brasileira, que tende a fechar os olhos para o golpismo e a vigarice. O convívio alegre e cordial com os mais variados tipos de escroque percorre a história do Brasil. Alguns, inclusive, passaram a fazer parte do folclore político e costumam ser evocados em artigos e charges. A chegada do PT ao poder, no entanto, produziu mudanças importantes nesse padrão de comportamento e deu origem a uma nova roupagem ideológica que seria vestida por muitos, muitos: a dos “moralistas sem moral”, como bem os definiu a presidenta Dilma Rousseff. De uma hora para outra, o País se encheu de indignados! Intolerantes e preconceituosos, e bastante influenciados pela mídia, eles passaram a identificar o PT e seus representantes com o que havia de pior na política. Práticas condenáveis, que jamais deveriam ter sido admitidas, mas sempre foram toleradas ou ignoradas, começaram a ser condenadas com violência e serviram de base a uma perseguição implacável aos petistas. O ponto culminante dessa escalada de ódio foi a destituição da presidenta Dilma, sem que pudessem lhe imputar nenhum crime de responsabilidade. Golpe, portanto.

Hoje, quando nos vemos diante de denúncias tão graves contra os atuais governantes, é impossível não indagar: onde estão os indignados de ontem? Por que não enchem mais as ruas com suas camisas da seleção brasileira de futebol para dar um basta à corrupção? Por que tantas vozes estridentes subitamente se calaram?

Não tenho respostas conclusivas, apenas indagações. Em primeiro lugar, observo que grande parte das massas que encheram as ruas para depor Dilma Rousseff era composta de membros da classe média. Em sua maioria, brancos, alguns acompanhados das babás dos seus filhos, outros a beber champanhe. Todos, sem exceção, se diziam patriotas e gritavam “eu quero o meu país de volta!”, tendo na bandeira brasileira o seu principal adereço. A ela se abraçavam com imenso ardor, como se lhe pedissem abrigo. Estavam inflamados de ódio ao PT e dispostos a fazer de tudo para escorraçá-lo.

Muito já se falou sobre o papel da classe média no tênue equilíbrio das sociedades capitalistas contemporâneas. “Espremida” entre os poucos ricos e os muitos pobres, a classe média tem enorme dificuldade de compreender o seu desconforto, porque não consegue ou não quer enxergar que seu algoz está no andar de cima, e não no andar de baixo. Isso ocorre, em grande medida, por causa das escolhas ideológicas que muitos membros da classe média costumam fazer, a meu ver, de forma equivocada. Como almejam pertencer um dia àquele 1% de ricos privilegiados que governam o mundo, tendem a negar qualquer crítica ou condenação a esse grupo e tentam preservá-lo a todo custo. Não se pode esquecer que a burguesia recém-criada na era dos Estados nacionais europeus buscou a ascensão social justamente por meio de casamentos e de alianças profissionais com os aristocratas — aqueles que detinham o poder de fato. Mal comparando, a classe média de hoje tem objetivos semelhantes: seu grande projeto é chegar lá, no mundo dos ricos (mesmo que faça isso servindo a eles).

Ora, a emergência dos pobres, por intermédio de políticas públicas de inclusão social e de enfrentamento às desigualdades, colocadas em prática pelos governos do PT, foi pressentida como uma grande ameaça a esses propósitos. Por um lado, porque aumentaria o contingente de remediados a disputar um lugar entre os ricos. Por outro, porque colocaria em risco os poucos privilégios já alcançados, que poderiam escapar das mãos diante de alguma eventualidade ou crise. Esses receios, embora possam parecer frutos da imaginação, na verdade, estão escorados em experiências históricas concretas que deixaram marcas profundas na formação ideológica desses grupos.

Períodos prolongados de recessão econômica, por exemplo, costumam jogar muita gente na pobreza. Os ricos, que estão respaldados em patrimônios de grande porte e variedade, normalmente, têm mais segurança para enfrentar etapas demoradas de dificuldade. Os pobres, por sua vez, oscilam entre situações mais ou menos dramáticas de privação, e podem ser transformados em miseráveis. É um risco sempre presente, sobretudo, porque as condições sociais de sua existência só se modificam com muita lentidão e excepcionalidade. Sem ações governamentais concretas, a pobreza raramente retrocede. A história tem demonstrado isso, mesmo nos países mais desenvolvidos. Já a classe média, diante de situações extremas de crise, enfrenta enormes dificuldades decorrentes da perda de poder aquisitivo e da necessidade de mudança de hábitos. Esse declínio não é apenas de natureza material, mas também simbólica. É decréscimo de prestígio, de significado, de posição. É um recuo de vantagens e benefícios usufruídos, uma aproximação perigosa e indesejada da pobreza. E, ao mesmo tempo, um distanciamento cada vez maior daquele mundo almejado dos ricos.

Em meio ao quadro de recessão que marcou a economia brasileira nos anos 1980, os jornais noticiavam que “o empobrecimento causava a evasão escolar”. Dos mais pobres? Não, da classe média, que, encontrando-se “apertada” (sem dinheiro), tirava os filhos das escolas particulares e os transferia para a rede pública. Ao todo, no Rio de Janeiro, entre 1975 e 1981, por exemplo, estimava-se que 100 colégios particulares tinham sido fechados, provocando o aumento do desemprego entre os professores. No depoimento de uma mãe, é possível perceber como parcelas da classe média enxergavam o problema sob o prisma da desdita:

“Conheço muita gente que não encara com naturalidade a escola pública e, algumas vezes, vê a situação como sendo humilhante. A visão que a escola pública não é boa abrange o preconceito de que quem a frequenta são favelados, crianças da periferia e subúrbios. Assim, muitas pessoas acham que elas são portadoras da violência, transmitindo tais impressões para os filhos.” (Jornal do Brasil, 07 de janeiro de 1982, p.8)

O terrível mesmo é a proximidade com a pobreza, o compartilhamento dos mesmos espaços, o risco de contágio da pior doença social — a violência.

O prolongamento da recessão serviu para agravar ainda mais a condição da classe média, nesse período. A instabilidade econômica afetava não apenas os salários mais altos, mas também as faixas intermediárias de remuneração. Tanto no valor nominal dos salários pagos quanto na oferta de empregos qualificados e mais bem remunerados, as perdas havidas se davam tanto no plano material quanto no plano simbólico. Essas experiências marcaram de modo profundo a visão de mundo desse grupo.

“O poder aquisitivo da classe média está sofrendo uma corrosão aguda, concluiu um estudo produzido por economistas da Federação do Comércio de São Paulo. Dois são os agentes da corrosão: o reajuste semestral [de salários] em índices abaixo do INPC (índice nacional de preços ao consumidor) e a incidência crescente de tributos, especialmente o Imposto de Renda sobre os salários.” (Jornal do Brasil, 04 de agosto de 1982, p.15)

“São Paulo — De 1975 até agora, os executivos brasileiros (os profissionais em cargos de gerência e diretoria nas empresas) tiveram uma perda real de 85% em seu poder aquisitivo. Enquanto em 1975 eles chegavam a ganhar, em dólares anuais, 30% mais do que um executivo norte-americano em cargo semelhante, hoje ganham 30% menos. A perda é um pouco mais amena na área dos bancos, que pagam salários até 20% superiores aos vigentes no mercado.” (Jornal do Brasil, 19 de agosto de 1982, p.22)

Pelos cálculos dos consultores contratados para avaliar a situação, os salários dos executivos haviam retrocedido ao nível de 1971. Em parte, pela queda na demanda por esse tipo de profissional, tendo em vista que as empresas estavam fazendo mais “reposição” de pessoal do que criação de novos cargos. A recessão, por sua vez, levava à diminuição das contratações nessa faixa de atuação (gerentes de vendas, gerentes de marketing, gerentes de produção e gerentes de produto).

Esses episódios, que se repetiram e se repetem em outros períodos históricos e de outras maneiras, são exemplos das contingências sociais e políticas que influenciam a formação ideológica de boa parcela da classe média brasileira, em especial, nos grandes centros urbanos do País. Embora não provem nada, posto que não possuam dimensão estatística, ajudam a pensar sobre as características desse imenso grupo de pessoas que, ontem, encheram as ruas plenas de indignação, e, hoje, diante de circunstâncias ainda mais graves, talvez, simplesmente se calam e lavam as mãos.

Por que tanto ódio?

Objeto de diversos processos judiciais nos quais é acusado de corrupção e de enriquecimento ilícito, o presidente Lula dia desses perguntou por que tanto ódio a ele e ao PT? Ao denunciar o emprego sistemático de lawfare para promover o desgaste da imagem de Lula junto à opinião pública, seus advogados alegam prejuízos à plena defesa do presidente e um verdadeiro massacre do seu legado político e da sua pessoa, com ampla utilização da mídia para esse fim. O fato é que, quando se chega ao cúmulo de utilizar recibos de pedágio como “comprovantes” da propriedade de um imóvel, algo saiu completamente do controle e perdeu-se totalmente qualquer noção de respeito e de justiça. É disso que se trata.

Que fique claro aqui que defendo o direito de Lula a uma investigação imparcial e justa. A bem da verdade, acho mesmo que o Congresso Nacional poderia preparar uma legislação específica para determinar que todo ocupante de cargo executivo no serviço público deveria ser investigado ao deixar o posto. Pelo bem de toda a sociedade. Prefeitos, governadores de Estados, presidentes da República, assim como ministros, dirigentes de órgãos estatais e de secretarias de governo precisariam passar por um “pente fino” conduzido por investigadores especializados no combate à corrupção. Isso implicaria um senso de justiça muito mais acurado do que o hoje existente, e nos livraria do uso político do judiciário para fins de perseguição a adversários políticos. Teríamos uma rotina de avaliação da conduta de todos os mandatários, sem exceção e sem estardalhaço midiático.

Tenho certeza, ao mesmo tempo, de que o presidente Lula tem plenas condições de entender e explicar as razões de todo esse ódio que é devotado a ele e ao PT, vocalizado na máxima potência pela mídia nativa em todos os quadrantes. Um olhar de relance sobre o ataque feroz que vem sendo desferido pelo atual governo do Brasil aos direitos sociais e trabalhistas permite vislumbrar a natureza desse ódio desmedido. A plena implantação das medidas legislativas que visam eliminar as garantias fundamentais dos trabalhadores brasileiros — férias, 13º salário, jornada de 44 horas semanais ou de 8 horas/dia, insalubridade, horas extras, licença médica e tantas outras —, destruindo a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e devastando a previdência social (pensões e aposentadorias), seria tanto mais rápida quanto mais eficiente se Lula e o PT, identificados como “guardiães” desses direitos essenciais, fossem arrastados de roldão num turbilhão de denúncias, acusações e desonra.

Porque foi nos governos petistas que se avançou no progressivo aumento do salário mínimo — principal base de cálculo dos salários e remuneração específica de grande parte dos trabalhadores brasileiros. Foi nos governos petistas que a inclusão social — “colocar os pobres no orçamento”, como defende o presidente Lula — ganhou fôlego impressionante e se transformou num conjunto de políticas públicas destinadas a vencer a pobreza extrema e a superar o quadro de miséria e abandono que marcou inúmeras gerações de brasileiros. Foram os governos petistas que tiraram o Brasil do mapa da fome da ONU.

Apagar esse legado é fundamental para a consecução dos objetivos do golpe político que ora está em curso. Com a imagem de Lula e do PT resguardada, seria muito mais difícil. Um Partido dos Trabalhadores forte e combativo constituiria um obstáculo quase intransponível para esses desígnios. Daí que desgastá-lo, colocando suas principais lideranças na defensiva e no descrédito, foi a estratégia mais eficiente empregada pelos golpistas para atingir os seus intentos: abolir a legislação protetiva do trabalho e anular as expectativas de uma velhice digna e serena para a maior parte da classe trabalhadora brasileira. Este é o sentido do ódio em questão.

Guardadas as devidas proporções, encontramos alguns paralelos com a experiência alemã do Segundo Império. Sob a inspiração de Bismarck, o chanceler da unificação e da expansão econômica, o parlamento alemão redigiu uma legislação que tentou responder a algumas das maiores ameaças à capacidade de trabalho do proletariado — a saber, doença, acidente, invalidez e velhice. Embora fossem inovadoras, tais medidas davam respostas apenas parciais à maioria dos problemas. As aposentadorias, por exemplo, cujos custos seriam divididos entre governo, empregadores e empregados, só deveriam contemplar aqueles que atingissem a idade de 70 anos, coisa bastante rara numa época em que a expectativa de vida era relativamente baixa. Igualmente, os seguros de saúde e as coberturas para acidentes de trabalho seriam divididos entre patrões e operários, numa negociação que demorou anos para se consolidar, dadas as desconfianças generalizadas que prevaleciam entre as partes.

Apesar do seu caráter modernizador, essas medidas ficaram aquém das pretensões trabalhistas e não serviram para alcançar aquele que seria o principal objetivo político de Bismarck: impedir o crescimento do Partido Social-Democrata alemão, de inclinação claramente socialista. Do ponto de vista dos trabalhadores, as preocupações centrais eram a melhoria das condições de trabalho e o aumento dos salários, o que só poderia ser conquistado por meio da proteção aos direitos dos trabalhadores e da liberdade sindical. O que reivindicavam, acima de tudo, era o direito de organização para fins de alcance das suas principais demandas trabalhistas.

“(…) Mas Bismarck recusava, teimosamente, qualquer legislação sobre jornada laboral, trabalho feminino e infantil, inspeção das fábricas, assim como qualquer tipo de revisão da política governamental sobre os sindicatos.” (Holborn, p.292)

Na prática, o que o chanceler se recusava a fazer era limitar a super exploração da classe trabalhadora, assegurando assim uma margem de lucros cada vez mais excepcional para os capitalistas alemães. O processo de acumulação, então, não deveria sofrer nenhum tipo de restrição. Cabe lembrar que a política de poder que Bismarck idealizara para uma Alemanha forte no coração da Europa se articulava a uma industrialização acelerada e altamente competitiva e inovadora, de altos custos e investimentos elevados. Sua legislação trabalhista, portanto, manteve-se nos estreitos limites de uma acumulação do capital veloz e intensiva, restringindo direitos e impondo sacrifícios aos trabalhadores, em geral.

Para conter a intensificação das lutas operárias, uma lei especificamente antissocialista, promulgada em 1878, seria utilizada pelo Estado alemão com frequência cada vez maior, perseguindo e condenando “agitadores” e militantes, e buscando barrar toda e qualquer tentativa de organização dos movimentos trabalhistas, especialmente, as greves. Os ativistas da socialdemocracia eram vistos como os principais inimigos da nação e como a ameaça mais devastadora à ordem social existente. Além de coibir a ação política dos socialistas, nem sempre bem-sucedida, o governo alemão também procurou converter o sistema educacional em ferramenta estratégica para evitar a difusão das ideias socialistas e comunistas. Nas escolas médias e fundamentais, procurava-se incutir nas crianças e nos jovens o temor a Deus e o amor à pátria, de modo a criar gerações de indivíduos devotados à obediência integral aos princípios morais e éticos pregados pelos governantes. (É de se notar que os defensores do movimento “escola sem partido”, no Brasil, não são nada originais.)

Malgrado as adversidades políticas, nas condições então existentes de uma industrialização acelerada e de uma urbanização irreversível, o Partido Social-Democrata alemão cresceu de forma significativa e ampliou o seu raio de ação de maneira consistente. Isso pode ser verificado nos números das eleições legislativas: em 1881, os socialistas receberam 312 mil votos e conquistaram 12 cadeiras no Reichstag; em 1890, menos de dez anos depois, portanto, essa posição subiu para 1.427.300 votos e 35 cadeiras no parlamento. (Cury, p.89)

“(…) Essas vitórias sucessivas acabaram forçando-os a se comprometer de modo ainda mais acentuado com o aprimoramento das instituições democráticas em vigor na Alemanha. Por outro lado, o intenso acirramento das lutas de classes e o seu envolvimento com a causa socialista terminaram por empurrá-los para o confronto aberto e, por fim, para o banimento político e a clandestinidade.” (Cury, p.91)

Reconheço que as semelhanças com a realidade brasileira são longínquas. Mais de um século de história separa ambas as experiências. Mesmo assim, nos dois casos, observa-se o esforço de uma classe dirigente para barrar as conquistas trabalhistas e sociais, em prol de uma acumulação capitalista cada vez mais acentuada. No caso brasileiro, tirando direitos já consolidados. No caso alemão, impedindo que eles se implantassem em definitivo. No bojo dessas tensões, um partido político que representa, com todas as suas contradições, os maiores anseios da classe trabalhadora: salários dignos e condições de trabalho justas. O inimigo a ser batido!

Referências:

Vania Maria Cury. História da Industrialização no Século XIX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006

Hajo Holborn. A History of Modern Germany, 1840-1945. Princeton: Princeton University Press, 1982.

Plantar em terra fértil

Há um dilema claro posto para a esquerda (sobretudo, o PT) no quadro político brasileiro atual: a perda relativa de eleitores, bem observada nas últimas eleições municipais (out/nov de 2016), que definiram os novos prefeitos e vereadores em todas as cidades do País. Há quem suponha que essa derrota parcial, em que o partido perdeu inclusive algumas das prefeituras nas quais sempre se elegeu, possa ser atribuída à mídia corporativa nativa, especialmente as Organizações Globo, que sempre se posicionaram como adversárias dos governos e dos candidatos petistas, conduzindo campanhas de difamação e de desestabilização que culminaram com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Tais campanhas se caracterizaram por manifestações gigantescas nas ruas convocadas pela televisão, por mobilização permanente de colunistas e celebridades dispostos a emprestar sua popularidade a esse combate, por noticiários tendenciosos que privilegiam os aspectos negativos dos adversários.

Não é possível negar nem reduzir o peso dessa atuação política da mídia brasileira nos desdobramentos da crise econômica e política que hoje se enfrenta no País — o público cativo que lhe garante audiência em todos os meios midiáticos (rádio, televisão, imprensa escrita) tem sido manipulado com relativa facilidade, e tem garantido alguns dos resultados esperados pelas campanhas sistemáticas conduzidas pela mídia em geral para afastar e/ou enfraquecer seus desafetos.

Todavia, apesar desse poder e dessa influência escandalosos da mídia nativa sobre o contexto político atual, não acredito que ela exerça unilateralmente essa imensa capacidade de mobilização das consciências — existem outros fatores, talvez ainda mais complexos, que precisamos explorar a fim de entender os fenômenos da participação e da apatia política. É necessário estar atento aos meandros e desvios que movem as pessoas em direção a esse ou àquele rumo, que as fazem reagir ou não a determinados apelos, que as levam a desejar ou a recusar determinados projetos e ideias. Nem tudo se resume às manobras e artimanhas da mídia.

Se fosse possível representar graficamente, poderíamos dizer que a esquerda é horizontal e a direita é vertical. A horizontalidade traz uma noção de conjunto, de linearidade, de homogeneidade: são todos (ou quase todos), são comuns, são coletivos. Seus projetos visam estender ao maior número de criaturas que for factível os benefícios proporcionados pela sociedade — boas escolas, atendimento médico-hospitalar, moradia, segurança, lazer e outros mais. Trata-se da ampliação dos direitos humanos, da intensificação das conquistas civis, políticas e sociais numa escala cada vez maior, capaz de abranger a maior parte dos segmentos, setores e âmbitos da coletividade. Isso traz em si uma nítida concepção de igualdade entre as pessoas, um reconhecimento tácito de que todos, indiscriminadamente, são portadores desses direitos e, portanto, devem exercê-los em plenitude.

A verticalidade, por sua vez, que é um atributo da direita, tende a abolir por completo essa noção de simetria e prega a diferença entre as partes, a dissemelhança, a distinção, estabelecendo, no limite, um princípio de hierarquia que pretende ser decorrente da meritocracia, ou seja, os “melhores”, os “mais aptos”, os “mais dedicados”, os “mais esforçados”, os “mais talentosos” serão sempre os mais bem aquinhoados pelos benefícios que a sociedade oferece (conforto material, oportunidades, bem-estar, e até luxo e grandeza). Mas, é fundamental observar atentamente este ponto, recebem mais por uma questão de mérito: fizeram por merecer, e qualquer um que também tiver as mesmas qualidades e a mesma obstinação poderá “chegar lá”, ao topo da hierarquia, ao ápice da verticalidade que explica o mundo, segundo esse ponto de vista, e ignora todas as formas de desigualdade e a sua origem.

Acho que aqui reside uma das armadilhas mais complexas do quadro político-ideológico atual: enquanto a esquerda acena com uma proposta que visa melhorar a qualidade de vida da maioria (senão de todos), a direita oferece um caminho em que alguns poderão sonhar com muito mais do que isso para si mesmos — como a glória suprema de se tornar um jogador de futebol milionário, uma celebridade artística adorada por milhares de fãs e rica, um empresário bem-sucedido que descobre uma mina de ouro na internet, uma beldade que desfila e posa para a publicidade, enfim, alguém colhido por um golpe de sorte e que desponta em todo o seu esplendor para a riqueza e a fama. E passe a usufruir de todas as comodidades e de todos os prazeres que uma vida de luxo pode proporcionar.

Para falar francamente, acho que é isso que desejam muitas pessoas. Talvez, a maior parte delas. As que ainda acreditam numa possibilidade qualquer de “chegar lá”, mesmo que esse chegar lá não seja muito longe, continuam participando das escolhas políticas e votam com a direita, com a verticalidade. As que se recolhem ressentidas, reconhecendo que não têm a menor chance de “chegar lá”, mas gostariam muito de fazer isso, não apostam em mais nada e rejeitam qualquer candidatura. São os niilistas pós-modernos! Sofrem amargamente as decepções e as frustrações com a própria vida (sempre desejando ter sido muito mais do que foram de fato), e se recusam a apostar em qualquer projeto. Há muitos desses por aí. Os que se gabam de votar nulo ou branco e se revoltam contra a obrigatoriedade do voto. Para eles, ninguém presta, nada vai dar certo. Não aceitam a horizontalidade porque lhes soa modesta demais — onde já se viu apostar todas as fichas na melhoria de “todo mundo”, sobretudo, nas coisas essenciais da vida?! Não vislumbram a verticalidade porque perceberam, de um jeito ou de outro, o grande engodo que reside na ideia da meritocracia — as vantagens imensas de uns contra as desvantagens de outros.

É nesse terreno fértil que a mídia tem plantado as suas sementes. Ela não cria esse caldo ideológico de ressentimentos e expectativas frustradas, apenas o alimenta com doses diárias de ódio e desinformação. E é isso que se constitui no grande desafio político da atualidade. Como tornar atraente um projeto de esquerda que vise a coletividade, o bem-estar comum, os benefícios para todos? Como romper esse bloqueio gerado pela desilusão diante das injustiças e das dificuldades cotidianas? Como amenizar essa carga brutal de mágoa e rancor que tantas pessoas acumulam dentro de si e que inviabiliza qualquer forma de comunhão e de cumplicidade?

Não é nada fácil. Mas precisa começar a ser feito. Os caminhos pelos quais as pessoas se identificam com as coisas do mundo são tortuosos demais. Nem sempre os oprimidos se identificarão com aqueles que lutam contra a opressão — ao contrário, muitas vezes, tenderão a se identificar justamente com o opressor. Nem sempre os pobres sentirão simpatia pelos projetos que buscam o enfrentamento à pobreza e ao abandono. Não é porque são pobres que, automaticamente, serão eleitores de esquerda. Muito pelo contrário! Todo esse ataque aos programas sociais do PT, em especial ao Bolsa Família, gerou um embate social bastante dramático, no qual os beneficiários foram muitas vezes chamados de “vagabundos” e “aproveitadores”, sendo discriminados de maneira cruel. Pode ser que isso pese nas suas escolhas futuras. Desvendar esses mistérios da ideologia é um grande desafio político. Por que eles acontecem? Como é possível estabelecer um diálogo promissor com essas pessoas?

Lembro que, numa entrevista, o presidente Lula contou um episódio marcante que viveu durante uma campanha eleitoral (acho que foi a primeira em que disputou a presidência): num casebre miserável pelo interior do Brasil, a mulher disse que não votaria nele porque ele “iria tomar tudo o que era dela”. Tudo o que era dela: uma casinha paupérrima no meio do nada! Lula disse que chorou naquela hora. Que diálogo mais difícil! Também conheci uma moça negra de origem muito modesta, moradora de um subúrbio distante, que adorava as novelas do Manoel Carlos porque se via retratada ali. “Ele fala das nossas vidas.” Justo um autor que sempre escreveu sobre os dramas da classe média alta, branca, moradora do Leblon (o bairro dos endinheirados do Rio de Janeiro)! Essa questão da identificação é complexa, perturbadora…

Domésticas

Li por esses dias uma pequena matéria com uma professora da USP (Marta Arretche), em que ela avalia as realizações dos governos do PT e o ressentimento despertado por eles na classe média brasileira. Em sua opinião, os programas sociais colocados em prática passaram a ser olhados com severa desconfiança, a partir do momento em que a mão de obra barata — como a de empregadas domésticas e pedreiros — começou a se tornar cada vez mais escassa e mais cara. Embora a origem desse fenômeno deva ser buscada em etapa anterior da história brasileira, para amplos setores da classe média, o principal responsável por esse quadro seria o PT, que acabou perdendo de forma radical qualquer apoio ou simpatia que pudesse ter entre esses segmentos da sociedade.

Sempre desconfiei disso. Quando vi aquelas madames loiras protestando na Avenida Paulista, no auge das “jornadas de junho” de 2013, não pude deixar de fazer a ligação daquele desespero que mostravam com a PEC das Domésticas, que acabara de ser sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, e que estendia aos empregados domésticos do País direitos elementares (como jornada de 8 horas, descanso semanal, férias remuneradas, 13º salário) até então completamente ignorados por muitos. A histeria coletiva que tomou conta das ruas desde aquela época não foi pelos 20 centavos de aumento das passagens de ônibus.

O ódio contra os governos do PT começou a se acentuar justamente ali, quando aquilo que parecia um direito sagrado dos mais abastados — ter serviçais domésticos ao seu dispor, a um custo muito baixo — foi subitamente corrigido por um conjunto de medidas que garantia a eles os mesmos benefícios dos demais trabalhadores. Talvez, poucas outras iniciativas tenham sido assim tão simbólicas e traumáticas como essa ao longo da nossa história.

De certo modo, a existência secular de empregados domésticos mal remunerados e sem direitos pertencia à “ordem das coisas” no Brasil. E era assim que muita gente os compreendia. Poucos se perguntaram por que as condições de trabalho desses grupos eram aquelas. Poucos se atreveram a exigir que essas mesmas condições fossem alteradas para melhor. Era quase como um “dado natural”, algo que pertencia à própria noção de tempo. O que sempre foi, sempre será.

O mundo privado dos lares burgueses é cheio de silêncios e segredos, nos quais as domésticas desempenham um papel significativo. Negras e mulatas jovens (mas não apenas) também têm servido para saciar os desejos e as cobiças dos patrões — seniores e juniores. Quantas não são as histórias de escapadelas noturnas (ou diurnas, quem sabe?) nos quartinhos dos fundos para momentos de prazer e sedução?! Mães, avós e esposas fecham os olhos discretamente, fingindo que não sabem de nada. Algumas vezes, porém, o enredo se altera e surpreende.

Há alguns anos, recebi com enorme surpresa o telefonema de um velho amigo, que eu não via há décadas. Na verdade, ele era o irmão mais novo de um querido amigo de infância, que nós incorporamos à turma porque ele era muito fofo e divertido. Devo a ele alguns dos momentos mais hilários da minha juventude! Pois bem, depois de tanto tempo, ele ligou porque precisava muito conversar comigo. Claro, marcamos uma data e fui até a sua casa. Ele morava sozinho com a mãe já idosa num belo apartamento em Copacabana. Sentamos para conversar.

Enquanto eu bebia um guaraná geladinho, ele ia tomando suas doses de cachaça e fumava sem parar. Contou dos tempos mais recentes, quando teve um AVC e recebeu dos médicos severas advertências para mudar de hábitos, coisa que se recusava a fazer. E então voltou aos tempos passados, mais ou menos na época em que acabamos por nos afastar. Como ele era bem mais novo, na mesma fase em que eu entrava na vida profissional, casava e tinha filhos, ele embarcava numa aventura que durou alguns anos na Europa, estudando dança e teatro, suas duas paixões. Tudo bancado pelo papai, que não sabia dizer não às vontades do filho.

Quando o pai adoeceu, alguns anos depois, ele voltou para casa. Logo que o velho morreu, a revelação mais surpreendente de toda a sua vida: era filho da empregada com o pai. Não aquela empregada nova que trabalhava na casa há pouco tempo. Mas aquela empregada antiga, que trabalhou lá por tanto tempo e que acabara voltando para a sua cidade natal no Nordeste. “Meu mundo caiu”, foi tudo que ele conseguiu verbalizar então. Entre idas e vindas, perguntas daqui e dali, foi atrás da mãe biológica para ouvir a verdade. Tudo que conseguiu arrancar dela foi um seco veredicto: “mãe é quem cria”.

Voltou para casa, desistiu dos sonhos e se enfurnou para sempre ali junto àquela que sempre acreditou ser a sua mãe. Envelheceu ao lado dela, atuando como uma verdadeira empregada doméstica. Fazia a comida dela, lavava a roupa, arrumava a casa, providenciava consertos e reparos, tratava com a diarista que vinha uma vez por semana. Viveu assim durante anos, praticamente sem sair de casa. Pedia tudo pelo telefone: o cigarro e a cachaça estavam garantidos pelo bar da esquina. Morreu algum tempo depois da minha visita. Só queria que eu soubesse da sua história.

Conheço outros como ele. Soube até de uma patroa que “roubou” o marido da empregada, um tremendo gatão! E segue o baile. No âmbito da nossa infinita hipocrisia, o grande problema mesmo são os programas sociais do PT…

http://www.valor.com.br/politica/4527533/%3Fvinganca-social%3F-de-classe-media-corroeu-apoio-ao-pt-diz-cientista

 

 

O ataque aos programas sociais

Há uma ação coordenada em curso no Brasil, cujo objetivo final é alijar o PT das disputas eleitorais de 2016 e 2018. A oposição vem tentando por todos os meios — inclusive com o auxílio de parcela expressiva do judiciário e com o apoio descarado da mídia — inviabilizar as candidaturas petistas, principalmente, a presidencial de 2018. Para isso, está lançando mão agora de um ataque frontal aos programas sociais do governo federal, sobretudo, o Bolsa Família.

De um lado, vem o pedido de afastamento da presidenta Dilma Rousseff — todo ele fundamentado na “irregularidade” dos repasses destinados ao pagamento desses benefícios, tentando fazê-lo configurar um “crime de responsabilidade” que simplesmente não existe. A base legal (jurídica mesmo) desse pedido já foi considerada totalmente infundada por um conjunto expressivo e respeitável de juristas brasileiros. Mas a oposição insiste em levar adiante essa tentativa abjeta de golpe contra a democracia brasileira, tendo em vista única e exclusivamente os seus objetivos de tomar o poder. Como foi incompetente para consegui-lo no voto, agora tenta alcançá-lo com esse artifício golpista que envergonha qualquer um que tenha um pingo de caráter.

De outro lado, vem o relator do orçamento de 2016 (também da oposição) propor o corte de 10 bilhões de reais no programa Bolsa Família, o mais decisivo dos programas sociais implantados pelo governo federal, que atende às famílias mais pobres do País e impede que fiquem prisioneiras da mais terrível miséria. Esse corte proposto pelo relator do orçamento significaria um baque tremendo nos recursos desse benefício e comprometeria o alcance e a abrangência de sua cobertura. Mesmo sabendo disso — e é óbvio que, sendo relator do orçamento, conhece bem a matéria — o relator insiste nessa proposição, ainda que o governo federal já tenha apresentado os seus argumentos em favor da manutenção dos recursos destinados ao programa.

O fato de que o Brasil tenha sido retirado do mapa da fome da ONU, graças em grande medida a esse tipo de ação governamental, algo que deveria ser motivo de orgulho para todos os brasileiros, é mero detalhe para essa oposição destrutiva e maléfica. Pouco importa que milhões de conterrâneos sejam relegados à miséria e ao abandono. O que conta mesmo é derrotar o PT e, de preferência, aniquilar todas as suas possibilidades eleitorais futuras. É o que pretendem fazer. Com certeza, usariam o eventual fracasso dos programas sociais (coisa que essa redução de recursos pode causar) para atacar o partido e suas candidaturas, denunciando o que chamam de “manipulação eleitoreira” dos programas sociais. Na eleição passada, não custa lembrar, foi espalhado um boato de que o pagamento do Bolsa Família seria suspenso, o que provocou uma correria desesperada dos beneficiários às agências pagadoras, quase causando tumultos.

A tragédia da política brasileira atual é que a oposição ao PT não teve competência para construir o seu próprio projeto político e o seu próprio programa de governo. Apostou todas as suas fichas no ataque ao partido que está no governo e tem contado com o apoio incondicional da mídia para destruir todas as realizações positivas alcançadas. Ao terceirizar para a mídia essa tarefa de se contrapor aos governistas, a oposição deixou de cumprir o seu papel político fundamental de representar uma alternativa viável e atraente para os eleitores. Sem propostas, sem projetos, sem futuro, alimenta o ódio contra os pobres e contra os programas sociais do PT para conseguir uma adesão social mínima às suas pretensões. Aqueles que se deixam mobilizar pelo ódio aos oprimidos (basta ver a quantidade de ataques racistas que têm sido proferidos a artistas negros no Brasil), infelizmente, não são poucos e rapidamente se prontificam a marchar a favor desse tipo de violência. O resultado é esse que estamos vendo aqui hoje: de todos os lados, se atacam os programas sociais do PT, tendo em vista unicamente a sua retirada do poder. Pouco importa que, para isso, seja necessário tirar todas as chances daqueles que mais precisam de apoio.