Homem x natureza

O legado religioso do cristianismo, entre os seus inúmeros atributos, também foi considerado como responsável pela ideia da supremacia do homem sobre o mundo natural. Criado à imagem e semelhança de Deus, segundo os dogmas cristãos, o homem se tornaria portador de certa divindade, recebendo uma autorização aí implícita para dispor de todos os recursos oferecidos pela natureza, para satisfazer não só as suas necessidades, como ainda as suas ambições e o seu prazer. Embora os problemas ecológicos decorrentes da evolução humana — a erosão dos solos, o desmatamento, a extinção de espécies — não sejam exclusivos do Ocidente, e possam ser observados em outras culturas do Oriente, por exemplo, é na cultura ocidental originada na Europa moderna que vamos encontrar a elaboração plena dessa visão antropocêntrica, que elege o homem como a criatura mais nobre de todo o espectro natural.

“O homem, dizia-se, era mais belo e perfeitamente formado que qualquer dos outros animais.” (Thomas, p.37)

Seria bonito se desse antropocentrismo brotasse uma solidariedade universal, que acolhesse e amparasse socialmente todos os seres humanos, indiscriminadamente. Mas, não. Tal pendor antropocêntrico revelou-se altamente seletivo e cheio de sutilezas. E relegou à margem de tal “humanidade” criada por direito divino os mais indefesos e vulneráveis: loucos, bêbados, mendigos, deficientes. E, além disso, ainda manteve numa subcategoria humana, merecedora de toda vigilância e de todo controle, as mulheres e as crianças, raramente portadoras de direitos, por tempos enormes. Patriarcal, branca e cristã, essa “humanidade” era detentora de todos os direitos, inclusive o de definir direitos e de determinar a supremacia do homem sobre a natureza.

Sobre esse pano de fundo ideológico que se moldava, expandiu-se a fase histórica do Ocidente em que predominou uma atividade econômica cada vez mais dinâmica e integrada. É forçoso lembrar aqui que Karl Marx, em sua extraordinária abordagem dialética sobre a origem do capitalismo, argumentou que os cristãos europeus não se conduziram propriamente por sua religião, mas, pelo surgimento da propriedade privada moderna e da troca mercantil cada vez mais acentuada. Segundo Marx, foi o capital em seu processo de acumulação vertiginoso que pôs fim à deificação da natureza e aos vestígios do animismo pagão — que atribuía sentido místico às forças da natureza. Todos os elementos naturais passariam a ser objetos da ação do capital, desde que oferecessem perspectivas lucrativas. E desse propósito nasceria ainda a convicção rapidamente disseminada pela sociedade de que o não aproveitamento de todas as potencialidades disponíveis poderia (e deveria) ser considerado um vergonhoso desperdício.

“Com efeito, civilização humana era uma expressão virtualmente sinônima de conquista da natureza.” (Thomas, p.31)

A expansão territorial dos europeus sobre a América e sobre a África ocorreria no bojo dessa transição que converteu o ideal civilizatório numa realização fundamentalmente material, cujo corolário era a transformação intensificada do meio natural. Um dos resultados mais evidentes desse avanço foi o crescimento cada vez maior das cidades na Europa, a ponto de convertê-la numa das regiões mais densamente urbanizadas do mundo. Em menos de dois séculos a concentração populacional nos centros urbanos europeus tinha se tornado uma realidade. No final do século XIX, a grande cidade industrial moderna já tinha se tornado o símbolo maior do progresso econômico do Ocidente. Por outro lado, uma das facetas mais dramáticas desse processo foi a destruição de civilizações inteiras em outros continentes, além da apropriação avassaladora de territórios e riquezas, com sua consequente modificação de valores e costumes ancestrais.

Não demorou muito para que a intensificação da exploração do mundo natural e a concentração urbana cada vez mais acentuada fizessem surgir nos corações e mentes uma inquietação perturbadora. Dúvidas quanto à validade do caminho trilhado passaram a assaltar os espíritos com intensidade crescente, e obrigaram ao questionamento acerca do lugar ocupado pelo homem na natureza. Os estudos aprofundados de biologia e de história natural contribuíram para aumentar as incertezas quanto às convicções anteriormente partilhadas, e promoveram a emergência de preocupações autênticas com o sofrimento dos animais e com a devastação de florestas e outros santuários naturais.

Ao mesmo tempo, o ambiente poluído e insalubre que tendia a caracterizar as grandes cidades industriais, onde se concentravam os maiores contingentes populacionais e onde se avolumavam os problemas de saneamento e de saúde pública, também colaborava para a formação de uma consciência crítica diante dos rumos tomados pela civilização. Muito embora essa nostalgia do campo, que passara a ser retratado com as cores vivas da mistificação, pudesse mesmo ser enganosa, ela acabava expressando um estado de espírito saturado pela sujeira e pela promiscuidade dos grandes centros urbanos, que se mostravam cada vez mais hostis a uma vida humana minimante saudável e pacata. Tais contradições atravessaram os séculos, antepondo uma atividade econômica e social intensa e diversificada, nas cidades, a um meio rural cheio de evocações de quietude, bem-estar e salubridade, ainda que isso não correspondesse plenamente à realidade.

“… Os ideais da cidade-jardim e do cinturão verde mostravam-se duradouros; na verdade, como combinar as vantagens sociais e econômicas da cidade com o ambiente físico do campo continua sendo um problema candente do planejamento urbano.” (Thomas, p.301)

Mais do que a oposição campo-cidade como fonte de preocupações e de inquietações para o nosso tempo, a necessidade urgente de preservação do mundo natural remete à própria possibilidade de sobrevivência da espécie humana. A supremacia do homem sobre a natureza, da qual decorreu o modelo de civilização que nos abarca, carece de profunda revisão, se o que nos toca é a continuação da vida na terra. E isso diz respeito à própria saúde mental da espécie. A salvação das florestas e dos povos originários que as habitam, no Norte do Brasil, é uma imposição desse tempo de tantas incertezas. É em nome deles que recorremos aos sábios para orientar os nossos caminhos.

“A criação do domínio mental da fantasia encontra um paralelo perfeito no estabelecimento de ‘reservas’ ou ‘parques naturais’ em lugares onde as exigências da agricultura, das comunicações e da indústria ameaçam ocasionar mudanças na face original da terra que logo a tornarão irreconhecível. Uma reserva natural conserva o estado original que em todas as outras partes foi, para nosso pesar, sacrificado à necessidade. Todas as coisas, incluindo o que é inútil e mesmo nocivo, nela podem crescer e proliferar livremente.” (Sigmund Freud [Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise III], citado em Thomas, p.288)

Referência:

Keith Thomas. O homem e o mundo natural. Mudanças de atitude em relação às plantas e aos animais (1500-1800). Tradução: João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 1988

Política e religião

“(…) O papel de Deus era atender os que sentiam dor, oferecer conforto aos que eram tão pobres que nem podiam educar seus filhos, cuidar dos mendigos da rua que passavam o tempo todo invocando o Seu nome e ajudar os inocentes de coração em momentos de dificuldade.” (Pamuk, p.189)

Uma das experiências mais marcantes de transformação histórica aconteceu na Turquia, após a Primeira Guerra Mundial, quando, em 1922, foi finalmente abolido o Sultanato Otomano, que dominara o país durante séculos. Liderado por Mustafá Kemal Ataturk, instalou-se no país um regime republicano secular, que se consolidou com o apoio de uma elite intelectualizada e europeizada, aspirante à modernidade ocidental. A Turquia vivera por muito tempo sob a influência do islamismo e das tradições culturais do Oriente Médio, em especial durante o longo domínio otomano, ao mesmo tempo em que uma parcela de sua população mais abastada, sobretudo, de Istambul, voltava os olhos para as experiências sociais e culturais da Europa. O triunfo republicano representou a ascensão dessa camada mais secular e modernizadora da sociedade turca.

A república turca inaugurada em 1923 foi um regime de partido único até 1945. Depois disso, seguiu-se um período histórico de muita instabilidade marcado por diversos golpes militares, em que o país buscou se adaptar a um modelo pluripartidário que pudesse abarcar pelo menos algumas tendências políticas mais influentes.  No período republicano sob inspiração de Ataturk, que durou até 1945, a secularização foi perseguida de modo quase obstinado, na medida em que se convencionou vincular política e religião ao extinto regime otomano, que se notabilizara por uma acentuada intolerância e por uma forte repressão. Uma das medidas mais simbólicas desse período republicano foi a proibição de uso do véu pelas mulheres em espaços públicos. Por mais irônico que pareça, entretanto, no longo e traumático processo de renovação política do país, que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial, os partidos mais votados foram justamente os que tinham as mais fortes tendências islâmicas.

Uma das explicações mais tocantes para esse fenômeno fui encontrar na literatura do grande escritor turco Orhan Pamuk. Ao traçar as linhas da sua história de vida em Istambul, ele oferece um panorama sensível e delicado das combinações e contradições presentes numa sociedade que vivia espremida entre um esforço modernizador à moda europeia, que beneficiava alguns, e uma herança cultural arraigada, que atravessou gerações, partilhada por muitos. Embora convivendo no mesmo meio socioeconômico, essas duas tendências pareciam não se comunicar. Eram estranhas uma à outra, e essa estranheza vinha justamente da separação das classes. Mundos distintos, sentimentos e percepções totalmente diversos. O legado das crenças, dos valores morais associados à religião, tinha permanecido nos redutos mais miseráveis.

“(…) como todos os outros membros da minha prudente família aprendi que sempre era sensato, se você tinha acabado de rir da religião ou de manifestar a sua falta de interesse por ela, mudar de assunto imediatamente; identificávamos a devoção com a pobreza, mas nunca em voz alta.” (Pamuk, p.191)

Por isso mesmo, embora o regime republicano tivesse feito um enorme esforço para lançar a Turquia no “mundo moderno”, tal qual o modelara a Europa, uma parte bastante significativa da sua população permanecia apegada ao padrão secular de valores morais e espirituais legado pela religião islâmica. Era justamente a parcela que ficara à margem desse processo de modernização que trouxe alguns benefícios óbvios para determinados setores da sociedade turca, mas não fora capaz de incluir a maioria. A elite letrada, europeizada e aburguesada que triunfara com a república não compreendia esse apego dos demais às velhas tradições religiosas, e as enxergava com indisfarçável preconceito.

“Assim, em vez de considerar que a religião era um sistema por meio do qual Deus falava conosco através dos profetas, dos livros e das leis, reduzíamos a religião a um conjunto estranho e às vezes engraçado de regras em que as classes mais baixas confiavam (…)” (Pamuk, p.193)

O mais grave não era manifestar o preconceito em si. Além desse menosprezo muito mal dissimulado, pesava sobre os crentes uma acusação ainda mais opressiva: a de que eles eram diretamente responsáveis pelo atraso do país, pela incapacidade cada vez mais manifesta da sociedade de realizar a verdadeira transformação da Turquia na direção do progresso e da civilização. A sua mera existência era a própria condenação do país à ignorância, ao obscurantismo, à barbárie. Havia uma convicção amplamente difundida entre a elite burguesa letrada de que a religiosidade da imensa maioria da população mais pobre se constituíra no principal obstáculo à efetiva transição da Turquia para a era moderna. O fracasso já tinha um nome.

“(…) tornava mais difícil realizar o sonho de uma Turquia moderna, próspera e ocidentalizada. Na qualidade de proprietários prósperos e ocidentalizados, tínhamos o direito de governar aqueles semiletrados, e tínhamos o interesse de impedir que se tornassem presos demais às suas superstições — não só porque isso convinha a nós em particular mas também porque o futuro do nosso país dependia disso.” (Pamuk, p.194)

Lembrei-me desse belo livro do Pamuk justamente agora, quando soubemos que um líder religioso de matriz evangélica ganhou a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro. Pelas redes sociais, observo que uma verdadeira indignação tomou conta de inúmeros representantes da esquerda, que se julgavam os mais preparados para governar a cidade, o Estado, o País. Mas perderam, como dizem, para o bispo, para a religião, para o obscurantismo… E andam em busca dos culpados, lançando os seus impropérios a todos aqueles que julgam serem os responsáveis pela “tragédia”. Parece que a experiência turca mostra bem o quanto determinados projetos de modernização pelo alto são incapazes de afetar os espaços profundos de uma sociedade desigual. Por mais linda e digna que seja uma proposta política, ela precisa falar à alma das pessoas.

Aldous Huxley disse uma vez que só se pode prescindir de Deus ou quando se é muito jovem, ou quando se é muito próspero!

 

Referências:

Orhan Pamuk. Istambul. Memória e cidade. Tradução Sergio Flaksman São Paulo: Companhia das Letras. 2007.

http://especiais.g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/apuracao-zona-eleitoral-prefeito/rio-de-janeiro/2-turno/

Vivendo em tempos sombrios

Outro dia, entrei num táxi que mais parecia uma alegoria carnavalesca de mau gosto. O painel do carro estava totalmente coberto por imagens de santos, de vários tamanhos. Tinha São Jorge, São João Batista, São Judas Tadeu, Santo Expedito, Santo Antônio, e muitos outros, além de inúmeras versões de Jesus Cristo e da prodigalidade de Nossas Senhoras. Até o teto do carro estava tomado por adesivos gigantescos de santos coloridos. Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas. Logo indaguei do motorista se os evangélicos não se indignavam ao entrar naquele táxi, posto que não sejam favoráveis à “adoração de imagens”. Lembrei inclusive daquele episódio tantas vezes exibido na TV de um pastor chutando uma imagem de Nossa Senhora. Ele me respondeu que não, que aquele episódio estava superado e que os evangélicos encaravam com toda naturalidade aquela sua alegoria estrondosa. Melhor assim, pensei. A tolerância e o respeito às diferenças são bem mais convenientes.

É claro que a pregação daquele motorista não se restringiu à profusão de imagens de santos por todos os cantos do carro. Ele não se fez de rogado e passou boa parte do nosso percurso recitando trechos da Bíblia, para nos “iluminar”. Foi a minha vez de ser tolerante e suportar tudo aquilo com a devida polidez. Por sorte, não demorou tanto!

Não pude deixar de recordar uma reflexão interessante sobre o papel fundamental que a religião exerce na ideologia dominante do capitalismo. Hoje, as várias vertentes do cristianismo, por exemplo, disputam seguidores utilizando-se de todos os recursos de mídia que estão disponíveis: rádios, canais de TV, jornais, revistas, livros, discos. E oferecem os seus ‘produtos’ também da forma mais diversificada possível, a fim de atingir todos os públicos. Muitos pregadores (padres e/ou pastores) se convertem em celebridades e partilham o mesmo tipo de fama e de sucesso de outros artistas. Em certa medida, esses ‘produtos’ religiosos configuram mais um item da cesta de consumo da população em geral. Desse modo, torna-se bastante difícil identificar o limite exato entre a espiritualidade que se deseja de fato alcançar, quando se busca a religião, em meio a tantas atribulações, e o engodo causado pelas exacerbações e parafernálias do mercado da fé.

“(…) O slogan ‘Cristo Salva’, em numerosos cartazes de beira de estrada, as atividades publicitárias em massa das igrejas dos bairros, as exortações cartelizadas para ingressar numa das instituições eclesiásticas que existem em toda parte, as mensagens espirituais despejadas em milhões de lares pelos jornais e pelas ondas aéreas — tudo isso pouco tem a ver com a fé e a moral do povo, e ainda menos com sua percepção da realidade. O que se está pondo à venda no mercado religioso são receitas para adquirir a ‘capacidade de pensamento positivo’ ou para alcançar a ‘paz de espírito’ — em pé de igualdade com as bebidas e as pílulas tranquilizantes, cruzeiros oceânicos e recantos de veraneio.” (p.337 grifo nosso)

Referência:

Paul A. Baran & Paul M. Sweezy. Capitalismo Monopolista. Ensaios sobre a ordem econômica e social americana. Tradução: Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966.