Política e religião

“(…) O papel de Deus era atender os que sentiam dor, oferecer conforto aos que eram tão pobres que nem podiam educar seus filhos, cuidar dos mendigos da rua que passavam o tempo todo invocando o Seu nome e ajudar os inocentes de coração em momentos de dificuldade.” (Pamuk, p.189)

Uma das experiências mais marcantes de transformação histórica aconteceu na Turquia, após a Primeira Guerra Mundial, quando, em 1922, foi finalmente abolido o Sultanato Otomano, que dominara o país durante séculos. Liderado por Mustafá Kemal Ataturk, instalou-se no país um regime republicano secular, que se consolidou com o apoio de uma elite intelectualizada e europeizada, aspirante à modernidade ocidental. A Turquia vivera por muito tempo sob a influência do islamismo e das tradições culturais do Oriente Médio, em especial durante o longo domínio otomano, ao mesmo tempo em que uma parcela de sua população mais abastada, sobretudo, de Istambul, voltava os olhos para as experiências sociais e culturais da Europa. O triunfo republicano representou a ascensão dessa camada mais secular e modernizadora da sociedade turca.

A república turca inaugurada em 1923 foi um regime de partido único até 1945. Depois disso, seguiu-se um período histórico de muita instabilidade marcado por diversos golpes militares, em que o país buscou se adaptar a um modelo pluripartidário que pudesse abarcar pelo menos algumas tendências políticas mais influentes.  No período republicano sob inspiração de Ataturk, que durou até 1945, a secularização foi perseguida de modo quase obstinado, na medida em que se convencionou vincular política e religião ao extinto regime otomano, que se notabilizara por uma acentuada intolerância e por uma forte repressão. Uma das medidas mais simbólicas desse período republicano foi a proibição de uso do véu pelas mulheres em espaços públicos. Por mais irônico que pareça, entretanto, no longo e traumático processo de renovação política do país, que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial, os partidos mais votados foram justamente os que tinham as mais fortes tendências islâmicas.

Uma das explicações mais tocantes para esse fenômeno fui encontrar na literatura do grande escritor turco Orhan Pamuk. Ao traçar as linhas da sua história de vida em Istambul, ele oferece um panorama sensível e delicado das combinações e contradições presentes numa sociedade que vivia espremida entre um esforço modernizador à moda europeia, que beneficiava alguns, e uma herança cultural arraigada, que atravessou gerações, partilhada por muitos. Embora convivendo no mesmo meio socioeconômico, essas duas tendências pareciam não se comunicar. Eram estranhas uma à outra, e essa estranheza vinha justamente da separação das classes. Mundos distintos, sentimentos e percepções totalmente diversos. O legado das crenças, dos valores morais associados à religião, tinha permanecido nos redutos mais miseráveis.

“(…) como todos os outros membros da minha prudente família aprendi que sempre era sensato, se você tinha acabado de rir da religião ou de manifestar a sua falta de interesse por ela, mudar de assunto imediatamente; identificávamos a devoção com a pobreza, mas nunca em voz alta.” (Pamuk, p.191)

Por isso mesmo, embora o regime republicano tivesse feito um enorme esforço para lançar a Turquia no “mundo moderno”, tal qual o modelara a Europa, uma parte bastante significativa da sua população permanecia apegada ao padrão secular de valores morais e espirituais legado pela religião islâmica. Era justamente a parcela que ficara à margem desse processo de modernização que trouxe alguns benefícios óbvios para determinados setores da sociedade turca, mas não fora capaz de incluir a maioria. A elite letrada, europeizada e aburguesada que triunfara com a república não compreendia esse apego dos demais às velhas tradições religiosas, e as enxergava com indisfarçável preconceito.

“Assim, em vez de considerar que a religião era um sistema por meio do qual Deus falava conosco através dos profetas, dos livros e das leis, reduzíamos a religião a um conjunto estranho e às vezes engraçado de regras em que as classes mais baixas confiavam (…)” (Pamuk, p.193)

O mais grave não era manifestar o preconceito em si. Além desse menosprezo muito mal dissimulado, pesava sobre os crentes uma acusação ainda mais opressiva: a de que eles eram diretamente responsáveis pelo atraso do país, pela incapacidade cada vez mais manifesta da sociedade de realizar a verdadeira transformação da Turquia na direção do progresso e da civilização. A sua mera existência era a própria condenação do país à ignorância, ao obscurantismo, à barbárie. Havia uma convicção amplamente difundida entre a elite burguesa letrada de que a religiosidade da imensa maioria da população mais pobre se constituíra no principal obstáculo à efetiva transição da Turquia para a era moderna. O fracasso já tinha um nome.

“(…) tornava mais difícil realizar o sonho de uma Turquia moderna, próspera e ocidentalizada. Na qualidade de proprietários prósperos e ocidentalizados, tínhamos o direito de governar aqueles semiletrados, e tínhamos o interesse de impedir que se tornassem presos demais às suas superstições — não só porque isso convinha a nós em particular mas também porque o futuro do nosso país dependia disso.” (Pamuk, p.194)

Lembrei-me desse belo livro do Pamuk justamente agora, quando soubemos que um líder religioso de matriz evangélica ganhou a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro. Pelas redes sociais, observo que uma verdadeira indignação tomou conta de inúmeros representantes da esquerda, que se julgavam os mais preparados para governar a cidade, o Estado, o País. Mas perderam, como dizem, para o bispo, para a religião, para o obscurantismo… E andam em busca dos culpados, lançando os seus impropérios a todos aqueles que julgam serem os responsáveis pela “tragédia”. Parece que a experiência turca mostra bem o quanto determinados projetos de modernização pelo alto são incapazes de afetar os espaços profundos de uma sociedade desigual. Por mais linda e digna que seja uma proposta política, ela precisa falar à alma das pessoas.

Aldous Huxley disse uma vez que só se pode prescindir de Deus ou quando se é muito jovem, ou quando se é muito próspero!

 

Referências:

Orhan Pamuk. Istambul. Memória e cidade. Tradução Sergio Flaksman São Paulo: Companhia das Letras. 2007.

http://especiais.g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/apuracao-zona-eleitoral-prefeito/rio-de-janeiro/2-turno/

Vivendo em tempos sombrios

Outro dia, entrei num táxi que mais parecia uma alegoria carnavalesca de mau gosto. O painel do carro estava totalmente coberto por imagens de santos, de vários tamanhos. Tinha São Jorge, São João Batista, São Judas Tadeu, Santo Expedito, Santo Antônio, e muitos outros, além de inúmeras versões de Jesus Cristo e da prodigalidade de Nossas Senhoras. Até o teto do carro estava tomado por adesivos gigantescos de santos coloridos. Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas. Logo indaguei do motorista se os evangélicos não se indignavam ao entrar naquele táxi, posto que não sejam favoráveis à “adoração de imagens”. Lembrei inclusive daquele episódio tantas vezes exibido na TV de um pastor chutando uma imagem de Nossa Senhora. Ele me respondeu que não, que aquele episódio estava superado e que os evangélicos encaravam com toda naturalidade aquela sua alegoria estrondosa. Melhor assim, pensei. A tolerância e o respeito às diferenças são bem mais convenientes.

É claro que a pregação daquele motorista não se restringiu à profusão de imagens de santos por todos os cantos do carro. Ele não se fez de rogado e passou boa parte do nosso percurso recitando trechos da Bíblia, para nos “iluminar”. Foi a minha vez de ser tolerante e suportar tudo aquilo com a devida polidez. Por sorte, não demorou tanto!

Não pude deixar de recordar uma reflexão interessante sobre o papel fundamental que a religião exerce na ideologia dominante do capitalismo. Hoje, as várias vertentes do cristianismo, por exemplo, disputam seguidores utilizando-se de todos os recursos de mídia que estão disponíveis: rádios, canais de TV, jornais, revistas, livros, discos. E oferecem os seus ‘produtos’ também da forma mais diversificada possível, a fim de atingir todos os públicos. Muitos pregadores (padres e/ou pastores) se convertem em celebridades e partilham o mesmo tipo de fama e de sucesso de outros artistas. Em certa medida, esses ‘produtos’ religiosos configuram mais um item da cesta de consumo da população em geral. Desse modo, torna-se bastante difícil identificar o limite exato entre a espiritualidade que se deseja de fato alcançar, quando se busca a religião, em meio a tantas atribulações, e o engodo causado pelas exacerbações e parafernálias do mercado da fé.

“(…) O slogan ‘Cristo Salva’, em numerosos cartazes de beira de estrada, as atividades publicitárias em massa das igrejas dos bairros, as exortações cartelizadas para ingressar numa das instituições eclesiásticas que existem em toda parte, as mensagens espirituais despejadas em milhões de lares pelos jornais e pelas ondas aéreas — tudo isso pouco tem a ver com a fé e a moral do povo, e ainda menos com sua percepção da realidade. O que se está pondo à venda no mercado religioso são receitas para adquirir a ‘capacidade de pensamento positivo’ ou para alcançar a ‘paz de espírito’ — em pé de igualdade com as bebidas e as pílulas tranquilizantes, cruzeiros oceânicos e recantos de veraneio.” (p.337 grifo nosso)

Referência:

Paul A. Baran & Paul M. Sweezy. Capitalismo Monopolista. Ensaios sobre a ordem econômica e social americana. Tradução: Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966.