Plantar em terra fértil

Há um dilema claro posto para a esquerda (sobretudo, o PT) no quadro político brasileiro atual: a perda relativa de eleitores, bem observada nas últimas eleições municipais (out/nov de 2016), que definiram os novos prefeitos e vereadores em todas as cidades do País. Há quem suponha que essa derrota parcial, em que o partido perdeu inclusive algumas das prefeituras nas quais sempre se elegeu, possa ser atribuída à mídia corporativa nativa, especialmente as Organizações Globo, que sempre se posicionaram como adversárias dos governos e dos candidatos petistas, conduzindo campanhas de difamação e de desestabilização que culminaram com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Tais campanhas se caracterizaram por manifestações gigantescas nas ruas convocadas pela televisão, por mobilização permanente de colunistas e celebridades dispostos a emprestar sua popularidade a esse combate, por noticiários tendenciosos que privilegiam os aspectos negativos dos adversários.

Não é possível negar nem reduzir o peso dessa atuação política da mídia brasileira nos desdobramentos da crise econômica e política que hoje se enfrenta no País — o público cativo que lhe garante audiência em todos os meios midiáticos (rádio, televisão, imprensa escrita) tem sido manipulado com relativa facilidade, e tem garantido alguns dos resultados esperados pelas campanhas sistemáticas conduzidas pela mídia em geral para afastar e/ou enfraquecer seus desafetos.

Todavia, apesar desse poder e dessa influência escandalosos da mídia nativa sobre o contexto político atual, não acredito que ela exerça unilateralmente essa imensa capacidade de mobilização das consciências — existem outros fatores, talvez ainda mais complexos, que precisamos explorar a fim de entender os fenômenos da participação e da apatia política. É necessário estar atento aos meandros e desvios que movem as pessoas em direção a esse ou àquele rumo, que as fazem reagir ou não a determinados apelos, que as levam a desejar ou a recusar determinados projetos e ideias. Nem tudo se resume às manobras e artimanhas da mídia.

Se fosse possível representar graficamente, poderíamos dizer que a esquerda é horizontal e a direita é vertical. A horizontalidade traz uma noção de conjunto, de linearidade, de homogeneidade: são todos (ou quase todos), são comuns, são coletivos. Seus projetos visam estender ao maior número de criaturas que for factível os benefícios proporcionados pela sociedade — boas escolas, atendimento médico-hospitalar, moradia, segurança, lazer e outros mais. Trata-se da ampliação dos direitos humanos, da intensificação das conquistas civis, políticas e sociais numa escala cada vez maior, capaz de abranger a maior parte dos segmentos, setores e âmbitos da coletividade. Isso traz em si uma nítida concepção de igualdade entre as pessoas, um reconhecimento tácito de que todos, indiscriminadamente, são portadores desses direitos e, portanto, devem exercê-los em plenitude.

A verticalidade, por sua vez, que é um atributo da direita, tende a abolir por completo essa noção de simetria e prega a diferença entre as partes, a dissemelhança, a distinção, estabelecendo, no limite, um princípio de hierarquia que pretende ser decorrente da meritocracia, ou seja, os “melhores”, os “mais aptos”, os “mais dedicados”, os “mais esforçados”, os “mais talentosos” serão sempre os mais bem aquinhoados pelos benefícios que a sociedade oferece (conforto material, oportunidades, bem-estar, e até luxo e grandeza). Mas, é fundamental observar atentamente este ponto, recebem mais por uma questão de mérito: fizeram por merecer, e qualquer um que também tiver as mesmas qualidades e a mesma obstinação poderá “chegar lá”, ao topo da hierarquia, ao ápice da verticalidade que explica o mundo, segundo esse ponto de vista, e ignora todas as formas de desigualdade e a sua origem.

Acho que aqui reside uma das armadilhas mais complexas do quadro político-ideológico atual: enquanto a esquerda acena com uma proposta que visa melhorar a qualidade de vida da maioria (senão de todos), a direita oferece um caminho em que alguns poderão sonhar com muito mais do que isso para si mesmos — como a glória suprema de se tornar um jogador de futebol milionário, uma celebridade artística adorada por milhares de fãs e rica, um empresário bem-sucedido que descobre uma mina de ouro na internet, uma beldade que desfila e posa para a publicidade, enfim, alguém colhido por um golpe de sorte e que desponta em todo o seu esplendor para a riqueza e a fama. E passe a usufruir de todas as comodidades e de todos os prazeres que uma vida de luxo pode proporcionar.

Para falar francamente, acho que é isso que desejam muitas pessoas. Talvez, a maior parte delas. As que ainda acreditam numa possibilidade qualquer de “chegar lá”, mesmo que esse chegar lá não seja muito longe, continuam participando das escolhas políticas e votam com a direita, com a verticalidade. As que se recolhem ressentidas, reconhecendo que não têm a menor chance de “chegar lá”, mas gostariam muito de fazer isso, não apostam em mais nada e rejeitam qualquer candidatura. São os niilistas pós-modernos! Sofrem amargamente as decepções e as frustrações com a própria vida (sempre desejando ter sido muito mais do que foram de fato), e se recusam a apostar em qualquer projeto. Há muitos desses por aí. Os que se gabam de votar nulo ou branco e se revoltam contra a obrigatoriedade do voto. Para eles, ninguém presta, nada vai dar certo. Não aceitam a horizontalidade porque lhes soa modesta demais — onde já se viu apostar todas as fichas na melhoria de “todo mundo”, sobretudo, nas coisas essenciais da vida?! Não vislumbram a verticalidade porque perceberam, de um jeito ou de outro, o grande engodo que reside na ideia da meritocracia — as vantagens imensas de uns contra as desvantagens de outros.

É nesse terreno fértil que a mídia tem plantado as suas sementes. Ela não cria esse caldo ideológico de ressentimentos e expectativas frustradas, apenas o alimenta com doses diárias de ódio e desinformação. E é isso que se constitui no grande desafio político da atualidade. Como tornar atraente um projeto de esquerda que vise a coletividade, o bem-estar comum, os benefícios para todos? Como romper esse bloqueio gerado pela desilusão diante das injustiças e das dificuldades cotidianas? Como amenizar essa carga brutal de mágoa e rancor que tantas pessoas acumulam dentro de si e que inviabiliza qualquer forma de comunhão e de cumplicidade?

Não é nada fácil. Mas precisa começar a ser feito. Os caminhos pelos quais as pessoas se identificam com as coisas do mundo são tortuosos demais. Nem sempre os oprimidos se identificarão com aqueles que lutam contra a opressão — ao contrário, muitas vezes, tenderão a se identificar justamente com o opressor. Nem sempre os pobres sentirão simpatia pelos projetos que buscam o enfrentamento à pobreza e ao abandono. Não é porque são pobres que, automaticamente, serão eleitores de esquerda. Muito pelo contrário! Todo esse ataque aos programas sociais do PT, em especial ao Bolsa Família, gerou um embate social bastante dramático, no qual os beneficiários foram muitas vezes chamados de “vagabundos” e “aproveitadores”, sendo discriminados de maneira cruel. Pode ser que isso pese nas suas escolhas futuras. Desvendar esses mistérios da ideologia é um grande desafio político. Por que eles acontecem? Como é possível estabelecer um diálogo promissor com essas pessoas?

Lembro que, numa entrevista, o presidente Lula contou um episódio marcante que viveu durante uma campanha eleitoral (acho que foi a primeira em que disputou a presidência): num casebre miserável pelo interior do Brasil, a mulher disse que não votaria nele porque ele “iria tomar tudo o que era dela”. Tudo o que era dela: uma casinha paupérrima no meio do nada! Lula disse que chorou naquela hora. Que diálogo mais difícil! Também conheci uma moça negra de origem muito modesta, moradora de um subúrbio distante, que adorava as novelas do Manoel Carlos porque se via retratada ali. “Ele fala das nossas vidas.” Justo um autor que sempre escreveu sobre os dramas da classe média alta, branca, moradora do Leblon (o bairro dos endinheirados do Rio de Janeiro)! Essa questão da identificação é complexa, perturbadora…

Chico Buarque

Dentre tantas coisas marcantes que Chico falou em seu belíssimo depoimento ao cineasta Miguel Farias Jr. (Chico — artista brasileiro), uma chamou especialmente a minha atenção. Ao contrário do que muitos gostam de afirmar, para Chico, o Brasil não piorou, o Brasil melhorou. Costuma-se dizer agora que o país perdeu expressão e significado, que algumas de suas mais caras tradições e simbologias foram substituídas pela vulgaridade, pelo mau gosto, pela falta de discernimento. Essa mudança se expressaria em todas as esferas da vida social e teria a sua face mais evidente nos aeroportos — “cada vez mais parecidos com as rodoviárias”, segundo a avaliação ressentida de alguns.

O que Chico observou com sagacidade exemplar foi que o Brasil de agora representa com mais abrangência a sua totalidade — antes, a população como um todo estava sub-representada, uma minoria elitizada tinha voz e vez para falar por todos. O exemplo que ele deu foi o da bossa nova, um dos gêneros musicais mais importantes da história brasileira, que ajudou a mostrar ao mundo alguns dos melhores talentos artísticos do País. Fantástico, sem dúvida, mas incapaz de revelar o conjunto da arte musical brasileira e, portanto, impossibilitado de responder por sua totalidade. Desse modo, a inexistência de um movimento como o da bossa nova, nos dias de hoje, não é um sinal de piora. E pode ser visto como um sinal de melhora, na medida em que vários gêneros se articulam e se interpõem no cenário artístico nacional, dando vez e voz a tantos talentos que ficavam escondidos. Tudo vai depender do ponto de vista que se escolhe.

O fenômeno da inclusão social é tão dinâmico que interfere em praticamente todas as searas da vida. Foi isso que Chico me ensinou. Ainda que não tenha dito as coisas com essas palavras.

Pois bem, ontem, vi uma reportagem interessante sobre um dos mais renomados intelectuais brasileiros do século XX. Sua viúva e suas duas filhas comandavam os depoimentos, elucidando aspectos marcantes da vida pessoal e profissional daquele homem talentoso que havia colecionado amigos, honrarias e prêmios. Bem no final, uma das filhas exibiu todo o seu ressentimento diante deste Brasil de hoje que, para ela, “não valoriza os seus verdadeiros intelectuais, não presta as devidas homenagens aos seus grandes profissionais, se apequenou e se tornou medíocre, não tendo mais esperanças nem futuro”. O tipo de diagnóstico que exala pessimismo e desencanto.

Na hora eu me lembrei do Chico. E também me lembrei de que essa mesma senhora, tão ressentida com a perda de centralidade do grupo ao qual julga pertencer, veio a público debochar dos trejeitos da presidenta Dilma Rousseff no ato de posse do seu segundo mandato, em 1º de janeiro de 2015. Ela desancou a presidenta, por seu jeito de andar e de se apresentar. Correu as redes sociais com seu escárnio e com sua maledicência, recebendo muitas críticas, a bem da verdade. Eu achei ridículo. E fiquei me perguntando qual seria a razão de tamanho despeito. Hoje, eu entendi.