O desespero do desemprego

No início dos anos 1980, o Brasil passou a viver uma nova realidade resultante das décadas anteriores de desenvolvimento, nas quais uma migração maciça do campo para as cidades provocou um adensamento populacional urbano nunca antes visto no País. As várias consequências socioeconômicas desse processo histórico de concentração da população nas grandes cidades já são por demais conhecidas, e se materializaram em caráter definitivo na paisagem das principais regiões do seu território. Favelas e periferias ausentes de benefícios urbanísticos (inclusive de saneamento básico), e super populosas, são a feição mais contundente desse movimento migratório que reagiu à promessa — tantas vezes descumprida — de oferecer condições de vida mais dignas e prósperas aos trabalhadores pobres.

Na base desse processo de transferência da dinâmica econômica do campo para a cidade estava o processo de industrialização brasileiro, que se acelerou significativamente a partir dos anos 1950. O surgimento e o crescimento das diversas formas de atividade industrial trouxeram junto a formação de novas profissões e de novas habilidades, que demandavam uma força de trabalho jovem e capaz de se adaptar às novas condições da produção em escala fabril. Os principais polos industriais brasileiros nasceram assim da combinação desses elementos que tinham no operariado urbano o seu segmento mais importante. O maior destaque ficava com o Estado e a cidade de São Paulo.

Ao mesmo tempo, e também por causa disso, as grandes cidades acabaram sendo um verdadeiro catalisador das tendências essenciais que impulsionavam o desenvolvimento econômico do Brasil. Da mesma forma que os estímulos ali se refletiam provocando uma dinamização das atividades, os momentos de crise se tornavam ainda mais agudos e provocavam reações imediatas nas partes afetadas. Foi o que se passou com o aumento do desemprego, sobretudo, na indústria, que se intensificou nos primeiros anos da década de 1980, embora já viesse se manifestando desde o final dos anos 1970. Os números começaram a ficar alarmantes, e a população atingida pela falta de trabalho começou a demonstrar a sua inquietação e o seu desconforto com uma intensidade e uma gravidade cada vez maiores. As cidades ferviam.

“Supermercados, padarias, lojas e açougues saqueados. Mais de 30 automóveis e ônibus tombados. A violência que começou com uma pequena passeata contra o desemprego no bairro de Santo Amaro, Zona Sul da capital de São Paulo e área de maior concentração industrial e operária da cidade, alastrou-se por outros bairros pobres e envolveu milhares de pessoas. Ao final de 12 horas de tumulto havia 80 presos e 120 feridos.

Com tropas de choque, a Polícia Militar enfrentou com energia as pedras e paus atirados pelos manifestantes e fez disparos para o alto ao dispersar multidões e reprimir os saques. Fechado desde o início dos distúrbios, o comércio — que teve até portas de aço arrombadas — não calcula ainda os prejuízos.” (Jornal do Brasil, 05 de abril de 1983, p.1)

Mas não ficou nisso. Embora esses fatos relatados pela imprensa já tivessem gravidade suficiente — saques, depredações, prisões e ferimentos —, a revolta popular alcançou o coração político de São Paulo, ao cercar o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. Nele, estavam reunidos para um almoço de trabalho os governadores de Rio, Minas e São Paulo, numa primeira confraternização oficial daqueles que representavam as populações de três dos mais ricos e importantes estados brasileiros. Entre os temas abordados, estava justamente o crescimento do desemprego nos grandes centros urbanos, que ainda daria muita dor de cabeça aos governantes. Enquanto debatiam as consequências sociais de uma política econômica fracassada, foram surpreendidos pela manifestação dos desempregados de São Paulo.

“São Paulo viveu, ontem, quase 20 horas de saques e depredações. A violência popular ocorreu em duas frentes: uma no bairro de Santo Amaro, na Zona Sul, onde anteontem começaram as manifestações contra o desemprego. De lá, 3 mil pessoas saíram em passeata, alcançaram e sitiaram o Palácio dos Bandeirantes por três horas, e destruíram algumas de suas grades. Os Governadores de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro se preparavam para almoçar.

A segunda frente se formou no Centro tradicional de São Paulo, a partir das 15h: sem protestar contra o desemprego, populares partiram para o saque. A polícia agiu com violência, mas sempre chegava depois de a agitação ter começado. Às 22h de ontem, havia 600 pessoas presas e uma morta.” (Jornal do Brasil, 06 de abril de 1983, p.1)

De imediato, o Governo Federal, que acompanhava de perto qualquer distúrbio dessa ordem, colocou de prontidão todas as unidades do II Exército na cidade de São Paulo, por determinação do General Figueiredo. Os governadores, por sua vez, que tinham sido recém-empossados e eram oriundos das fileiras da oposição — PMDB e PDT —, manifestaram a sua preocupação quanto à possibilidade de aquilo ter sido “coisa encomendada”, destinada a desestabilizar os governantes e a reforçar a ditadura. Não se pode esquecer que aquela havia sido a primeira eleição direta para os governos estaduais, desde 1964, e a vitória dos líderes oposicionistas, que tinham potencial para uma candidatura à presidência da República, tinha frustrado os principais articuladores políticos do regime. Isso era público e notório.

“Para o Governador Brizola [PDT], há interesse numa intervenção nos estados governados por oposicionistas. ‘Isso realmente poderá acontecer porque há muita gente inconformada com a democracia. Nós, entretanto, trazemos conosco uma consciência tão grande de nossas responsabilidades, que já estamos preparados para conviver com essas ameaças’, afirmou o Governador do Rio de Janeiro.” (Jornal do Brasil, 06 de abril de 1983, p.14)

Mas a questão social se sobrepunha aos conflitos políticos, pelo menos naquele momento dramático vivido pelos operários de São Paulo. Havia desemprego mesmo. A instabilidade que se observava nas ruas não era uma fabricação maquiavélica de grupos interessados em recuperar o poder. Com o passar dos dias e das semanas, isso se confirmaria com a emergência de novas manifestações e novos tumultos provocados por trabalhadores em busca de empregos. Inclusive fora de São Paulo. Uma nota melancólica, no entanto, vai para a opinião do governador Tancredo Neves (PMDB), de Minas Gerais, ao comentar o agravamento do desemprego em seu Estado, onde pequenas e médias empresas estavam sendo desativadas e falindo. Tudo se resumiria a uma questão de temperamento, de feitio dos trabalhadores:

— Mas acredito na índole mineira, que é muito diferente da paulista e carioca. O mineiro tem uma extraordinária capacidade de resignação. (idem)

Segundo dados fornecidos pelo IBGE, só em São Paulo havia mais de 300 mil desempregados em janeiro, de acordo com as últimas estatísticas. Outros 35 mil estavam trabalhando como autônomos e mais de 100 mil eram trabalhadores por conta própria, ganhando menos de um salário mínimo, numa população economicamente ativa de 4 milhões e 650 mil pessoas. No Rio de Janeiro, por sua vez, o IBGE apontava a presença de cerca de 250 mil desempregados e de 229 mil subempregados em janeiro. Índices elevados de desemprego também estavam presentes em Belo Horizonte e Recife, segundo a mesma avaliação. O IBGE havia começado a medir o desemprego em janeiro de 1980; outros dados eram complementados pelo Ministério do Trabalho e pela Fiesp. A atividade que mais dispensava trabalhadores era a indústria. (idem)

O governador de São Paulo, Franco Montoro (PMDB), se reuniu com empresários dos principais setores da atividade econômica — indústria, comércio e agricultura — em busca de soluções para a gravidade do desemprego. Pediu aos empregadores que evitassem novas demissões, e se comprometeu, em troca, a garantir a ordem pública e a preservação do patrimônio. Mas havia uma questão fundamental na base dessa negociação, e que não estava sendo ainda devidamente tratada: em curto prazo, essa desocupação crescente da força de trabalho acabaria se tornando insustentável, pois o País não contava com nenhuma forma de seguro-desemprego. O que fazer?

Paulo Francini, um dos empresários presentes e diretor da Fiesp, fez algumas colocações interessantes sobre os problemas debatidos. Segundo sua avaliação, a verdade é que governos e empregadores não estariam acostumados a lidar com o desemprego naquela escala então apresentada, sendo a sua compreensão da real dimensão do desemprego “igual a zero”. E, ao mesmo tempo, se perguntou por quanto tempo um desempregado conseguiria se manter com a sua poupança e com eventuais bicos. Isto é, durante quanto tempo um sujeito desempregado poderia sobreviver sem um novo emprego e um novo salário? O prazo seria exíguo:

 “Sempre tivemos a consciência de que a situação é explosiva. Logo quando um trabalhador é demitido, há uma certa inércia. Ele começa a recorrer às poupanças. Mas a situação vai piorando e se pronuncia no quarto, quinto ou sexto mês da data da demissão.” (idem)

No dia seguinte a essa reunião, uma nova onda de violências e tumultos agitou o centro da cidade de São Paulo. A polícia usou inclusive a cavalaria contra os manifestantes. O diretor regional do Departamento de Polícia Federal de São Paulo considerou que a exibição do filme F.I.S.T. realizada na véspera pela Rede Globo de Televisão estimulou o clima de violência em São Paulo. A emissora teria feito insistentes chamadas ao público para que assistisse à trama, inclusive nos intervalos do Jornal Nacional, o seu programa de maior audiência, apelando para as cenas de maior agitação e intensidade do filme. Estrelado por Sylvester Stallone, um dos mais famosos valentões de Hollywood, o enredo retrata episódios de intensas lutas sindicais dos caminhoneiros dos Estados Unidos, durante os anos 1950. (Jornal do Brasil, 07 de abril de 1983, p.19)

Então, é assim. A questão social provocada pelo desemprego maciço nas grandes cidades do Brasil fica totalmente minimizada pela ênfase dada à exibição de um filme que aborda as lutas sindicais na terra do Tio Sam.

No Rio de Janeiro, o desespero dos desempregados também começava a sacudir as ruas da cidade. Aos gritos de “queremos emprego”, centenas de pessoas apedrejaram carros e ônibus, saquearam um caminhão carregado de gêneros alimentícios e interromperam o tráfego na Avenida Presidente Vargas, uma das mais importantes do centro. Eram uma parte dos quase dois mil candidatos frustrados, que atenderam a um anúncio publicado nos jornais de domingo, oferecendo “vagas para todos os cargos”, mesmo sem experiência. ”A gente vem pensando em trabalhar em escritório e o negócio é vender carnê”, protestou Maria da Conceição Neide, 21 anos, há um ano desempregada, que veio de Japeri. Iludidos com a expectativa de arrumar um bom emprego, conforme prometia o anúncio falado, voltaram para casa de mãos vazias.

No mesmo dia, em Ipanema, aproximadamente 1500 desempregados se organizaram em fila, desde as 5h30m, para disputar uma das oito vagas “para admissão imediata”, em serviços gerais, com um salário pouco maior do que o mínimo regional. (Jornal do Brasil, 12 de abril de 1983, p.4)

Às frustrações, aos enganos e às longas esperas por uma oportunidade, vieram juntar-se os engraçadinhos que, sem nenhuma empatia com a condição dos desempregados, se compraziam em publicar chamados falsos para prometer empregos inexistentes. Por pouco essas brincadeiras de mau gosto não provocaram tragédias. Desesperadas e aflitas, as pessoas logo respondiam à oferta dos anúncios, sem poder se proteger das armadilhas dos cafajestes de plantão.

“O boato de que, para conseguir emprego na Comlurb, teriam que arranjar uma ‘carta de apresentação’, levou milhares de pessoas, ontem de manhã, à sede da companhia e à porta do Palácio Guanabara. Era tudo mentira: nem a Comlurb tem vagas, nem o Palácio dava cartas a ninguém. Na Ilha do Governador, quem sofreu foi o bancário Gerson Pina: um anúncio falso deu sua casa como endereço de uma transportadora que convocava 80 motoristas e ajudantes.

Cerca de mil homens fizeram fila, desde a madrugada, em frente à casa de Gerson e alguns, revoltados, apedrejaram a residência. Mas o bancário, que soube do anúncio, tirou a família de casa. A PM dispersou os desempregados.” (Jornal do Brasil, 26 de abril de 1983, p.1)

Da parte dos governantes, por sua vez, embora houvesse promessas e comprometimentos, as soluções costumavam demorar. Eram encontros e reuniões com empresários, a fim de propor medidas de longo alcance que pudessem minorar o sofrimento das famílias em desemprego, mas a sua efetividade era quase nula. O drama tendia a se arrastar por longas temporadas. O “mercado”, como sempre, mostrava-se uma anti-solução. Ao mesmo tempo em que jogava o problema para os governos, lavava as mãos diante da própria ineficiência. Crise, recessão, inflação, desemprego: as autoridades que os resolvessem. À chamada inciativa privada cabia apenas “proteger-se dos estragos de uma política econômica desastrosa”, que não atendia às reais necessidades do País. Eram os trabalhadores que pagavam a conta do desastre.

Foi Carlos Drummond de Andrade quem retratou de forma feliz e contundente esse descalabro que lançaria o Brasil em mais um período funesto de subdesenvolvimento:

“De repente o País acorda (ou apenas cochilava?) e observa, estarrecido, que este mundo de terra brasileira por aí está cheio de desempregados. Há desemprego até no subemprego. Total. E, simultaneamente, lojas saqueadas, veículos depredados, terras invadidas, agitação social. O Governo — melhor: os Governos assustam-se, concentram-se um momento e logo partem para providências espetaculares.

— Vamos dar emprego aos desempregados! Vamos gerar 30 mil empregos!

— Pois eu vou gerar 50 mil!

— E eu gero 80 mil! Cem mil!

Nunca se viu tamanha capacidade súbita de geração. Será, talvez, o fenômeno da geração espontânea? Parece que uma força nova impulsionou as autoridades, concedendo-lhes um vigor de que jamais haviam suspeitado. Vigor e verba. Uma verba elástica, inesgotável, que dá para admitir todos os desempregados do Brasil (…)

Antes não se sabia de verba nenhuma, enquanto as fábricas mandavam para as ruas milhares de empregados de todas as categorias, e outras empresas pediam concordata ou faliam. Isso vem acontecendo há anos, e chama-se recessão. Mas nossas amadas autoridades recusavam esta palavra: recessão coisa nenhuma. Portanto, não havia desemprego, filho dileto da recessão.

Mas havia. E foi preciso um organizadíssimo quebra-quebra em São Paulo para que se reconhecesse que atrás da turbulência está a fome, consequência do desemprego. Foi também um fecundo quebra-quebra, pois graças a ele todo mundo voltará a ter trabalho garantido ou começará a tê-lo. Acabou o desemprego. São tão elevadas as estimativas oficiais de novos empregos, em fase acelerada de geração, que talvez não se consiga recrutar bastante candidatos para preenche-los.” (“Acabou o desemprego”. Jornal do Brasil. 26 de abril de 1983, Caderno B, p.1)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Perplexidade

Olhamos com perplexidade, tomados de espanto e até mesmo aterrorizados, para o quadro político atual do Brasil. A cada dia que se inicia, uma enxurrada de notícias e novidades mais estapafúrdias, mais estrambólicas, mais extravagantes do que as outras. São juízes e promotores de justiça cometendo ilegalidades e arbítrios, desrespeitando as leis e até a Constituição Federal; são ministros do Supremo Tribunal Federal dando declarações desairosas e fazendo ameaças a este ou aquele representante dos demais poderes; são políticos de todos os quadrantes diuturnamente acusados de participação em roubalheiras e esquemas, inclusive ministros de Estado; são manifestações de rua comandadas pela mídia. que se dizem contrárias à corrupção, mas que defendem o efetivo governo dos corruptos! É de assustar qualquer um.

Hoje, para não ficar diferente, estamos sendo brindados com a notícia de que o senador Renan Calheiros resolveu descumprir uma liminar do ministro Marco Aurélio, do Supremo, que recomendou o seu afastamento da presidência do Senado. Apoiado por toda a mesa diretora da casa, Renan teria dito que pretende aguardar a decisão do plenário do STF sobre o caso. Segundo alguns juristas consultados pela mídia, o descumprimento de uma ordem judicial leva necessariamente à prisão. Mas isso só poderia ocorrer, de fato, numa circunstância em que as instituições estivessem sendo realmente respeitadas. Não é o caso do Brasil de hoje.

Tudo isso vem acontecendo à sombra de uma delicada situação da economia, que teima em não reagir às “medidas de estímulo” adotadas até agora e exibe indicadores quase alarmantes (PIB em franco declínio, desemprego crescente e queda da renda dos trabalhadores, só para citar alguns). Começam a aparecer nos noticiários as primeiras manifestações de preocupação dos “empresários” brasileiros quanto á demora da retomada do crescimento econômico, que havia sido prometido como um bálsamo do golpe. “Tira a Dilma e tudo será maravilhoso!” O mais deprimente e constrangedor é que tenham acreditado nisso. Será que esses cidadãos que se dizem empresários não possuem conselheiros, assessores ou assemelhados que lhes possam explicar a natureza das coisas? Qualquer noção básica de história econômica serviria para fornecer casos e exemplos ilustrativos e inspiradores. Não precisava ser um gênio para perceber que o caminho tomado pelos golpistas acabaria levando a esse abismo trágico em que nos encontramos agora. Como puderam não ver isso?!

Ah, sim, as principais medidas propostas pelo desgoverno golpista destinam-se a retirar direitos dos trabalhadores em praticamente todos os campos: de um lado, por meio da PEC 55, pretendem congelar os investimentos públicos em saúde e educação (além de outras áreas) por exatos vinte anos, penalizando uma geração inteira, que ficará sem oportunidades para melhorar a sua qualificação profissional e sem assistência básica; de outro, ampliam o tempo de contribuição para a aposentadoria, levando a maioria dos brasileiros mais jovens a uma vida extenuante de trabalho até idade avançada. Embora receba o apoio obsequioso da mídia, a alegada crise da previdência social brasileira não é reconhecida, entre outros, por uma pesquisadora qualificada da UFRJ, a professora Denise Gentili, cuja entrevista recomendamos abaixo. Em vez de simplesmente cortar os benefícios, como quer fazer o golpismo, cumpre ao Estado desenvolver uma política econômica que favoreça o crescimento da economia e promova o aumento dos recursos para o bem estar da população. Ou seja, há alternativas!

A reação popular a essas desmedidas vem sendo confrontada por uma violência policial desproporcional. Como era de se esperar. Diante da sua ilegitimidade, o atual governo do Brasil só encontra na brutalidade implacável da polícia uma resposta à altura das suas necessidades de garantir uma mínima sobrevida diante de tamanhas injustiças. Hoje, para não fugir à rotina, o centro do Rio de Janeiro voltou a ser tomado pelas manifestações de servidores do Estado que estão com os seus salários atrasados. Reclamam um direito mais do que legítimo — o de receber o pagamento pelo trabalho realizado. Não podem ser tratados como bandidos ou arruaceiros. Mas, hoje, fomos obrigados a ver policiais atirando contra os manifestantes do alto das janelas de uma igreja. Uma igreja!

O Estado do Rio de Janeiro se declara falido. Não consegue nem pagar os seus servidores corretamente. Mas o ex-governador está preso, acusado de corrupção. E a mulher dele acabou de ser levada para a cadeia, por suspeita de se beneficiar de meios escusos para obter vantagens e enriquecer…

 

http://linkis.com/noticias.uol.com.br/2y4mx

http://linkis.com/www.ocafezinho.com/2/AYPJG

http://www.dw.com/pt-br/senado-se-recusa-a-afastar-renan-da-presid%C3%AAncia/a-36670924

Política e religião

“(…) O papel de Deus era atender os que sentiam dor, oferecer conforto aos que eram tão pobres que nem podiam educar seus filhos, cuidar dos mendigos da rua que passavam o tempo todo invocando o Seu nome e ajudar os inocentes de coração em momentos de dificuldade.” (Pamuk, p.189)

Uma das experiências mais marcantes de transformação histórica aconteceu na Turquia, após a Primeira Guerra Mundial, quando, em 1922, foi finalmente abolido o Sultanato Otomano, que dominara o país durante séculos. Liderado por Mustafá Kemal Ataturk, instalou-se no país um regime republicano secular, que se consolidou com o apoio de uma elite intelectualizada e europeizada, aspirante à modernidade ocidental. A Turquia vivera por muito tempo sob a influência do islamismo e das tradições culturais do Oriente Médio, em especial durante o longo domínio otomano, ao mesmo tempo em que uma parcela de sua população mais abastada, sobretudo, de Istambul, voltava os olhos para as experiências sociais e culturais da Europa. O triunfo republicano representou a ascensão dessa camada mais secular e modernizadora da sociedade turca.

A república turca inaugurada em 1923 foi um regime de partido único até 1945. Depois disso, seguiu-se um período histórico de muita instabilidade marcado por diversos golpes militares, em que o país buscou se adaptar a um modelo pluripartidário que pudesse abarcar pelo menos algumas tendências políticas mais influentes.  No período republicano sob inspiração de Ataturk, que durou até 1945, a secularização foi perseguida de modo quase obstinado, na medida em que se convencionou vincular política e religião ao extinto regime otomano, que se notabilizara por uma acentuada intolerância e por uma forte repressão. Uma das medidas mais simbólicas desse período republicano foi a proibição de uso do véu pelas mulheres em espaços públicos. Por mais irônico que pareça, entretanto, no longo e traumático processo de renovação política do país, que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial, os partidos mais votados foram justamente os que tinham as mais fortes tendências islâmicas.

Uma das explicações mais tocantes para esse fenômeno fui encontrar na literatura do grande escritor turco Orhan Pamuk. Ao traçar as linhas da sua história de vida em Istambul, ele oferece um panorama sensível e delicado das combinações e contradições presentes numa sociedade que vivia espremida entre um esforço modernizador à moda europeia, que beneficiava alguns, e uma herança cultural arraigada, que atravessou gerações, partilhada por muitos. Embora convivendo no mesmo meio socioeconômico, essas duas tendências pareciam não se comunicar. Eram estranhas uma à outra, e essa estranheza vinha justamente da separação das classes. Mundos distintos, sentimentos e percepções totalmente diversos. O legado das crenças, dos valores morais associados à religião, tinha permanecido nos redutos mais miseráveis.

“(…) como todos os outros membros da minha prudente família aprendi que sempre era sensato, se você tinha acabado de rir da religião ou de manifestar a sua falta de interesse por ela, mudar de assunto imediatamente; identificávamos a devoção com a pobreza, mas nunca em voz alta.” (Pamuk, p.191)

Por isso mesmo, embora o regime republicano tivesse feito um enorme esforço para lançar a Turquia no “mundo moderno”, tal qual o modelara a Europa, uma parte bastante significativa da sua população permanecia apegada ao padrão secular de valores morais e espirituais legado pela religião islâmica. Era justamente a parcela que ficara à margem desse processo de modernização que trouxe alguns benefícios óbvios para determinados setores da sociedade turca, mas não fora capaz de incluir a maioria. A elite letrada, europeizada e aburguesada que triunfara com a república não compreendia esse apego dos demais às velhas tradições religiosas, e as enxergava com indisfarçável preconceito.

“Assim, em vez de considerar que a religião era um sistema por meio do qual Deus falava conosco através dos profetas, dos livros e das leis, reduzíamos a religião a um conjunto estranho e às vezes engraçado de regras em que as classes mais baixas confiavam (…)” (Pamuk, p.193)

O mais grave não era manifestar o preconceito em si. Além desse menosprezo muito mal dissimulado, pesava sobre os crentes uma acusação ainda mais opressiva: a de que eles eram diretamente responsáveis pelo atraso do país, pela incapacidade cada vez mais manifesta da sociedade de realizar a verdadeira transformação da Turquia na direção do progresso e da civilização. A sua mera existência era a própria condenação do país à ignorância, ao obscurantismo, à barbárie. Havia uma convicção amplamente difundida entre a elite burguesa letrada de que a religiosidade da imensa maioria da população mais pobre se constituíra no principal obstáculo à efetiva transição da Turquia para a era moderna. O fracasso já tinha um nome.

“(…) tornava mais difícil realizar o sonho de uma Turquia moderna, próspera e ocidentalizada. Na qualidade de proprietários prósperos e ocidentalizados, tínhamos o direito de governar aqueles semiletrados, e tínhamos o interesse de impedir que se tornassem presos demais às suas superstições — não só porque isso convinha a nós em particular mas também porque o futuro do nosso país dependia disso.” (Pamuk, p.194)

Lembrei-me desse belo livro do Pamuk justamente agora, quando soubemos que um líder religioso de matriz evangélica ganhou a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro. Pelas redes sociais, observo que uma verdadeira indignação tomou conta de inúmeros representantes da esquerda, que se julgavam os mais preparados para governar a cidade, o Estado, o País. Mas perderam, como dizem, para o bispo, para a religião, para o obscurantismo… E andam em busca dos culpados, lançando os seus impropérios a todos aqueles que julgam serem os responsáveis pela “tragédia”. Parece que a experiência turca mostra bem o quanto determinados projetos de modernização pelo alto são incapazes de afetar os espaços profundos de uma sociedade desigual. Por mais linda e digna que seja uma proposta política, ela precisa falar à alma das pessoas.

Aldous Huxley disse uma vez que só se pode prescindir de Deus ou quando se é muito jovem, ou quando se é muito próspero!

 

Referências:

Orhan Pamuk. Istambul. Memória e cidade. Tradução Sergio Flaksman São Paulo: Companhia das Letras. 2007.

http://especiais.g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/apuracao-zona-eleitoral-prefeito/rio-de-janeiro/2-turno/

“Bate em mulher!”

No sábado dia 1º de outubro, véspera da eleição municipal, deparei com uma pequena carreata do candidato do PMDB, Pedro Paulo, na principal rua do meu bairro. O PMDB é o partido do atual governador e do atual prefeito do Rio de Janeiro, e também do presidente que assumiu o poder com o golpe iniciado em maio de 2016. Foi muito espantoso observar que, mesmo com toda essa máquina pública nas mãos, o referido candidato não logrou êxito em sua campanha para a prefeitura da Cidade Maravilhosa. O segundo turno da eleição no Rio de Janeiro será disputado entre um representante evangélico, ligado a uma das legendas pentecostais mais estridentes, e um deputado estadual de esquerda. Dizem as pesquisas mais recentes que o evangélico possui larga vantagem de votos.

Quando a pequena carreata se aproximou — eram no máximo uns cinco ou seis carros cujos passageiros buzinavam e tremulavam bandeiras do Pedro Paulo —, observei que alguns populares começaram a se manifestar com gritos de “bate em mulher, bate em mulher!” Achei muito curioso. Logo no início da campanha eleitoral, espalhou-se com bastante rapidez a acusação de que o jovem candidato carregava no currículo uma passagem desabonadora com sua ex-mulher, que o acusara de violência física. Embora existam versões dizendo que ela retirou a queixa na polícia e “tudo foi resolvido de forma amigável”, o fato é que a desconfiança permaneceu e perseguiu sua candidatura até o final. É muito provável que outras insatisfações com a atual gestão da prefeitura da cidade tenham pesado fortemente na decisão dos eleitores, e não foi exclusivamente por esse fato que eles rejeitaram o candidato da situação. Mas os gritos daqueles populares que receberam a passagem da carreata com indignação chamou a minha atenção.

Por que certas acusações pegam, e outras, não? Por que foi tão fácil e rápido convencer tantas pessoas de que o referido candidato agrediu sua ex-mulher fisicamente e, portanto, mereceu ser recusado, talvez, banido da vida pública? Com certeza, seriam necessárias as contribuições de diversos campos do conhecimento para responder a essa questão, e eu não me atreveria a oferecer uma solução definitiva para o caso. Apenas fiquei intrigada com o que vi e me fiz algumas perguntas que deixo aqui registradas. O primeiro aspecto que considero essencial é que as pessoas tendem a acreditar naquilo que reconhecem como possível, verdadeiro e/ou real. Pesquisas indicam que a violência contra as mulheres é endêmica no Brasil, de tal modo que foi necessário criar uma série de mecanismos legais e institucionais para começar a combatê-la com maior eficiência. Um dos marcos desse processo recente de enfrentamento foi a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, que tipifica e pune os crimes cometidos contra as mulheres, em razão da sua condição, sobretudo no ambiente doméstico e familiar.

Embora essas medidas venham se revelando fundamentais para coibir a violência contra as mulheres e para lhes garantir um mínimo de proteção legal e de amparo assistencial, o fato é que o problema ainda continua a assombrar milhares de famílias, impondo à condição feminina riscos gravíssimos e perdas lamentáveis. Talvez por isso mesmo a acusação que foi lançada sobre o candidato do PMDB à prefeitura do Rio tenha sido tão eficaz na rejeição do eleitorado à sua figura. De um lado, as pessoas reconhecem como potencialmente verdadeira a desconfiança de que um homem tenha agredido uma mulher, sobretudo, se for a sua mulher. De outro, toda uma legislação que visa proteger as filhas, mães, esposas, companheiras, da brutalidade de seus familiares e parceiros é, de certo modo, uma espécie de guia para as consciências e de referência para os julgamentos. Por mais que essa violência esteja disseminada no meio social, já existe quanto a ela uma restrição moral também generalizada pela força da lei. Não é mais apenas um problema de marido e mulher, no qual ninguém mete a colher!

Do ponto de vista do conjunto, a sociedade brasileira começa a desenvolver uma visão de que a violência doméstica contra as mulheres não é admissível, e deve ser combatida de todas as formas possíveis. Ainda que o problema persista em escalas avassaladoras e dramáticas, a conscientização quanto à sua inaceitabilidade é uma boa notícia, sem dúvida. Ao ouvir os gritos dos populares que receberam a mini carreata do candidato do PMDB bradando “bate em mulher, bate em mulher”, não pude deixar de sentir certo alívio de surpresa. Não é que muitas pessoas já não admitem como corriqueira essa covardia contra as mulheres?! Certamente, o quadro ainda é preocupante e há muito a ser feito. Mas, parece que já temos um começo. Tímido, parcial, lento, mas um começo. Nossos princípios civilizatórios não podem se perder. Precisamos reafirmá-los sempre.

O cúmulo

Fala-se muito hoje em dia do complexo de vira-lata que atormenta a elite brasileira. Basicamente, esse complexo se manifesta no menosprezo por tudo que é autenticamente brasileiro e na exaltação de tudo que vem de fora. Mas não um “de fora” qualquer — tem de ser originário da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, parâmetros de civilização e progresso que essa elite deseja seguir e incorporar. Ao espichar os olhos sobre uma realidade que não é a sua, mas comporta tudo que há de mais admirável e desejável, tal camada social se sente profundamente frustrada com aquilo que a cerca, e despeja o seu ressentimento de todas as formas possíveis sobre tudo e todos que “conspiram” para afastá-la do seu ideal.

Há quem atribua essa concepção de mundo ao passado colonial que definiu a formação do Brasil. Mas, quando se observa que houve aqui um processo de independência em relação a Portugal, em que se formou um “partido brasileiro” que se opunha frontalmente ao “partido português”, no qual se reuniam os partidários da colonização e os defensores da supremacia portuguesa, se é levado a perguntar como foi que tudo isso se perdeu? Como foi que a elite brasileira que rompeu os laços coloniais com Portugal e buscou sua afirmação nacional se tornou assim tão “vira-lata”, a ponto de ficar de costas para praticamente tudo que foi gerado de forma autenticamente brasileira ao longo do processo de evolução do País?

São questões complexas que não cabem por ora neste breve comentário que faço a respeito, mas merecem toda atenção. Quero explorar aqui uma anedota que ilustra bem esse estado de espírito vira-lata.

Nos idos da década de 1920, os principais países capitalistas se debruçavam sobre os desafios do urbanismo moderno. Com uma feição cada vez mais urbana, na qual cidades significativamente populosas se transformavam no espaço emblemático de seu modelo de desenvolvimento econômico e social, as grandes potências se preparavam para enfrentar os dilemas da urbanização crescente de seus territórios: sistemas de águas e esgotos, transportes coletivos, moradias populares, vigilância e segurança. Debates, projetos, propostas dos mais variados tipos preenchiam as agendas políticas da época. Em seu retorno de uma viagem à Inglaterra, um dos sócios do Clube de Engenharia relatou assim o que viu no Congresso Internacional de Casas Baratas, que assistiu em Londres:

“O rei Jorge V, da Inglaterra, disse, diante de 300 delegados de 34 nações, que o problema da casa dos proletários é a questão fundamental e primordial de todo e qualquer progresso nas sociedades modernas e que, sem a sua solução, não haveria paz e tranquilidade nas nações.” (1)

E pensar que o rei inglês se fez presente a um encontro que visava debater justamente a questão das moradias populares! Outros tempos, sem dúvida. No Brasil, a construção de casas populares como política pública foi uma demanda que se arrastou durante décadas, sofrendo alguns espasmos de realização e depois retrocedendo. A favelização das nossas cidades e a degradação de suas periferias são a melhor evidência do seu fracasso. O reconhecimento de que o tema era merecedor de muita atenção e de programas efetivos de ação governamental, como ficou claro na fala do rei da Inglaterra, sempre careceu de força entre nós. Ainda hoje, iniciativas desse tipo continuam sendo objeto de ataques frequentes e contínuos.

Essa profunda influência exercida pelo urbanismo europeu sobre os engenheiros brasileiros era bastante seletiva, como se pode perceber. Neste sentido, vale destacar a longa digressão de Paulo de Frontin sobre as possibilidades de transpor para o Rio de Janeiro — capital do País e cidade-símbolo — alguns recursos que pudessem corrigir aquilo que ele chamou de as “falhas existentes na beleza” da cidade, tais como a ausência de rios e de geleiras no cume de suas montanhas. Rios e montanhas geladas, como se sabe, são partes integrantes das paisagens europeias, os paradigmas da beleza almejada. Como sua sugestão, o rio Meriti poderia ser aproveitado para esse fim, embora ficasse um tanto afastado da área central da cidade. (2) Ao mesmo tempo, afirmava que as novas tecnologias desenvolvidas na Europa se encarregariam de proporcionar os meios de gelar os picos nos trópicos!

“Quem percorre Paris ou Londres, lá encontra rios que embelezam extraordinariamente a cidade, pelas suas pontes, como a Torre de Londres e a de Alexandre III. Além do mais, essas pontes constituem locais de observação de primeira ordem para o visitante da cidade. (…) Não temos geleiras. Não possuímos temperatura que permita encontrar o gelo no alto cume das nossas montanhas, mas, do mesmo modo que se abriu o túnel do Quai d’Orsay, gelando o terreno a 40 graus abaixo de zero, poderemos gelar o pico da Tijuca, o do Papagaio, e, artificialmente, resolver o problema, dotando quando o entendermos a cidade daquilo que lhe falta. (…) Resolvidos esses dois pontos, nada mais haverá a desejar senão não estragar o que a natureza nos deu.” (3)

Cumpre dizer que o engenheiro Paulo de Frontin era reconhecido e respeitado dentro e fora do Brasil. Professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, ex-diretor da Central do Brasil, construtor da Avenida Central e prefeito do Rio por seis meses, em 1919, entre tantas outras coisas, possuía uma longa lista de obras e serviços prestados à engenharia nacional. Sua condição social de membro efetivo da elite nativa responde por esses arroubos de exaltação acrítica a tudo que vem da Europa. A imitação de meios e modos lhe parecia somente uma questão de vontade. E bastaria para resolver os “problemas”. Quem não conhece o Rio de Janeiro pode buscar imagens na Internet e perceber como a cidade é bonita — mesmo sem rios e geleiras! Quem a conhece não pode deixar de sorrir diante de sugestões assim tão excêntricas.

Referências:

(1) Ata da sessão do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, em 07 de dezembro de 1925. Publicada no Jornal do Commercio, em 27 de janeiro de 1926. Atas do Conselho Diretor – Imprensa, 24/12/1921 a 16/12/1925, p.189.

(2) O rio Meriti fica situado na Baixada Fluminense e separa os municípios de Duque de Caxias e São João de Meriti. Bem distante, portanto, da área central do Rio de Janeiro (aproximadamente 25 km).

(3) Ata da sessão do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, em 16 de janeiro de 1929. Revista do Clube de Engenharia. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1930, p.566-567.

Gratuidade e mobilidade

Peguei um ônibus no ponto do Largo dos Leões, em direção à Ipanema. Para quem não é do Rio, o Largo dos Leões é uma praça onde se inicia o bairro do Humaitá, que fica coladinho ao bairro de Botafogo, na Zona Sul da cidade. Para chegar a Ipanema, percorremos a rua principal do Humaitá e parte da orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, que chamamos simplesmente de Lagoa. Como eu me sentei no primeiro banco, bem ao lado do cobrador, pude observar que praticamente todos os passageiros que entraram no ônibus pagaram a sua passagem com cartão, em suas várias modalidades: “bilhete único”, “riocard”, “sênior gratuidade”. Cada uma dessas modalidades aparece escrita no visor da máquina, no momento em que se insere o cartão, e pude identificar o tipo de passageiro em cada um daqueles que entravam. Percebi ainda que quase não se usa mais dinheiro nos coletivos da cidade, é curioso.

Mas, o que mais chamou a minha atenção foi o fato de que todos os idosos portavam o seu cartão “sênior gratuidade”, por meio do qual estão isentos do pagamento de um determinado número de passagens por mês. Todos, sem exceção, velhos e velhas, eram brancos, de classe média, bem vestidos e aparentemente bem dispostos. Dois senhores de cabeça branca que entraram no ônibus num ponto da Lagoa tinham inclusive certo ar aristocrático, pareciam dois lordes perdidos na orla do Rio de Janeiro! E também tiraram dos bolsos os seus cartões “sênior gratuidade”.

É um direito concedido à terceira idade e todos que fazem jus a ele podem e devem usufruí-lo. Mas é preciso refletir sobre o fato de que “alguém” está pagando por isso. E é assim mesmo que procedem as sociedades ditas civilizadas. Direitos sociais são responsabilidades de todos. Devemos nos lembrar disso quando levantarmos a voz para criticar os impostos, para reclamar do “peso da carga tributária do Brasil” que vive sendo alardeado por aí. Direitos e benefícios custam dinheiro, não caem do céu, ao contrário do que muitos querem acreditar. E se desejamos viver numa sociedade que respeita os seus velhos — entre tantas outras coisas fundamentais — precisamos estar conscientes de que devemos pagar por isso.

Um modelo excludente

Gentrificação é uma palavra nova em nossa língua. Na realidade, é mais do que um simples neologismo, porque se trata da importação direta de uma experiência histórica por trás da palavra. A gentry, tal como ficou conhecida, era uma camada relativamente numerosa de pequena nobreza rural inglesa, cuja principal característica sociocultural foi justamente o seu progressivo aburguesamento, ou melhor, a sua mais rápida integração aos valores do capitalismo em formação. Longe de se identificar ao Antigo Regime, a gentry projetou-se no novo modelo socioeconômico em formação e se tornou uma de suas principais protagonistas. É uma “nobreza burguesa”, portanto.

Gentrificação vem daí. O termo começou a ser empregado na própria Inglaterra, a partir dos anos1960, para se referir aos processos de remodelação urbana que se caracterizavam pela rápida valorização imobiliária de determinados bairros e áreas, cujas consequências mais imediatas costumavam ser o deslocamento de antigos moradores e demais ocupantes, em virtude do encarecimento acentuado dos imóveis para compra e/ou aluguel. Embora o termo seja recente, o fenômeno é bastante antigo na história das cidades. O Rio de Janeiro, por exemplo, é pródigo em experiências de gentrificação, que datam mesmo do início do século XX.

Embora seja mais comum tratar do fenômeno da gentrificação em termos de bairros e áreas urbanas mais amplas, podemos começar a pensar em pequenas inserções dessa transformação que acabam afetando sobremaneira a vida cotidiana de diversos grupos sociais e pessoas. Ontem, observei alguns detalhes que me fizeram pensar sobre isso. No bairro onde moro, há um grande supermercado situado bem próximo à única favela do local. Para os moradores do morro, basta descer a ladeira e a rua que fica em frente para chegar lá, o que é uma boa facilidade para quem não tem carro e faz as suas compras (grandes ou pequenas) carregando todo o peso na mão.

Pois bem, o tal supermercado sofreu uma reforma recente, mudou de nome e de fachada, ficou mais limpo e organizado, e aumentou os preços! Ontem, ao entrar lá, me surpreendi com as novas características do local e, sobretudo, com os preços: estavam bem mais caros do que os outros supermercados do bairro costumam cobrar. E percebi que o público pagante era formado principalmente por pessoas brancas e de classe média, pelo menos era isso que seu aspecto indicava (o tipo de roupa e de acessórios que usavam, os carros parados no estacionamento). Enfim, um caso de gentrificação restrito a uma loja, mas capaz de provocar modificações importantes na vida das pessoas do bairro. Os moradores da favela, em sua maioria, provavelmente, serão afastados dali em virtude dos preços cobrados pelos bens essenciais comercializados. E terão de fazer as suas compras em mercados mais distantes, com melhores preços, obrigando-os a andar distâncias maiores ou até a tomar uma condução.

Por enquanto, foi o supermercado que se aburguesou e afastou os consumidores de renda mais baixa. Num claro processo de gentrificação. Mas a cidade do Rio de Janeiro está em ebulição, passando por diversas obras de remodelação como as da área portuária e as da Olimpíada de 2016. É bem provável que esse modelo excludente siga em frente e continue provocando o deslocamento das camadas mais desfavorecidas, privando-as de pequenas comodidades e de pequenos confortos que se tornam tão importantes na vida complexa das grandes cidades. E fazendo com que recaia sobre elas o peso maior da mudança.

Foi na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII que se fortaleceu uma camada social rural, a gentry, cujo processo de ascensão econômica e social se deu em simultâneo às perdas significativas sofridas pelo campesinato. Incapazes de manter os seus pedaços de terra, em razão de endividamentos, más colheitas, degradação ambiental, os camponeses ingleses foram sendo progressivamente privados da sua condição de pequenos proprietários rurais, perdendo a terra e se tornando proletários no campo e/ou na cidade. Qualquer semelhança com os processos atuais de gentrificação, aqui e em qualquer outro lugar do mundo, não é mera coincidência!

Rio de Janeiro, 18 de novembro de 2014.