O desespero do desemprego

No início dos anos 1980, o Brasil passou a viver uma nova realidade resultante das décadas anteriores de desenvolvimento, nas quais uma migração maciça do campo para as cidades provocou um adensamento populacional urbano nunca antes visto no País. As várias consequências socioeconômicas desse processo histórico de concentração da população nas grandes cidades já são por demais conhecidas, e se materializaram em caráter definitivo na paisagem das principais regiões do seu território. Favelas e periferias ausentes de benefícios urbanísticos (inclusive de saneamento básico), e super populosas, são a feição mais contundente desse movimento migratório que reagiu à promessa — tantas vezes descumprida — de oferecer condições de vida mais dignas e prósperas aos trabalhadores pobres.

Na base desse processo de transferência da dinâmica econômica do campo para a cidade estava o processo de industrialização brasileiro, que se acelerou significativamente a partir dos anos 1950. O surgimento e o crescimento das diversas formas de atividade industrial trouxeram junto a formação de novas profissões e de novas habilidades, que demandavam uma força de trabalho jovem e capaz de se adaptar às novas condições da produção em escala fabril. Os principais polos industriais brasileiros nasceram assim da combinação desses elementos que tinham no operariado urbano o seu segmento mais importante. O maior destaque ficava com o Estado e a cidade de São Paulo.

Ao mesmo tempo, e também por causa disso, as grandes cidades acabaram sendo um verdadeiro catalisador das tendências essenciais que impulsionavam o desenvolvimento econômico do Brasil. Da mesma forma que os estímulos ali se refletiam provocando uma dinamização das atividades, os momentos de crise se tornavam ainda mais agudos e provocavam reações imediatas nas partes afetadas. Foi o que se passou com o aumento do desemprego, sobretudo, na indústria, que se intensificou nos primeiros anos da década de 1980, embora já viesse se manifestando desde o final dos anos 1970. Os números começaram a ficar alarmantes, e a população atingida pela falta de trabalho começou a demonstrar a sua inquietação e o seu desconforto com uma intensidade e uma gravidade cada vez maiores. As cidades ferviam.

“Supermercados, padarias, lojas e açougues saqueados. Mais de 30 automóveis e ônibus tombados. A violência que começou com uma pequena passeata contra o desemprego no bairro de Santo Amaro, Zona Sul da capital de São Paulo e área de maior concentração industrial e operária da cidade, alastrou-se por outros bairros pobres e envolveu milhares de pessoas. Ao final de 12 horas de tumulto havia 80 presos e 120 feridos.

Com tropas de choque, a Polícia Militar enfrentou com energia as pedras e paus atirados pelos manifestantes e fez disparos para o alto ao dispersar multidões e reprimir os saques. Fechado desde o início dos distúrbios, o comércio — que teve até portas de aço arrombadas — não calcula ainda os prejuízos.” (Jornal do Brasil, 05 de abril de 1983, p.1)

Mas não ficou nisso. Embora esses fatos relatados pela imprensa já tivessem gravidade suficiente — saques, depredações, prisões e ferimentos —, a revolta popular alcançou o coração político de São Paulo, ao cercar o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. Nele, estavam reunidos para um almoço de trabalho os governadores de Rio, Minas e São Paulo, numa primeira confraternização oficial daqueles que representavam as populações de três dos mais ricos e importantes estados brasileiros. Entre os temas abordados, estava justamente o crescimento do desemprego nos grandes centros urbanos, que ainda daria muita dor de cabeça aos governantes. Enquanto debatiam as consequências sociais de uma política econômica fracassada, foram surpreendidos pela manifestação dos desempregados de São Paulo.

“São Paulo viveu, ontem, quase 20 horas de saques e depredações. A violência popular ocorreu em duas frentes: uma no bairro de Santo Amaro, na Zona Sul, onde anteontem começaram as manifestações contra o desemprego. De lá, 3 mil pessoas saíram em passeata, alcançaram e sitiaram o Palácio dos Bandeirantes por três horas, e destruíram algumas de suas grades. Os Governadores de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro se preparavam para almoçar.

A segunda frente se formou no Centro tradicional de São Paulo, a partir das 15h: sem protestar contra o desemprego, populares partiram para o saque. A polícia agiu com violência, mas sempre chegava depois de a agitação ter começado. Às 22h de ontem, havia 600 pessoas presas e uma morta.” (Jornal do Brasil, 06 de abril de 1983, p.1)

De imediato, o Governo Federal, que acompanhava de perto qualquer distúrbio dessa ordem, colocou de prontidão todas as unidades do II Exército na cidade de São Paulo, por determinação do General Figueiredo. Os governadores, por sua vez, que tinham sido recém-empossados e eram oriundos das fileiras da oposição — PMDB e PDT —, manifestaram a sua preocupação quanto à possibilidade de aquilo ter sido “coisa encomendada”, destinada a desestabilizar os governantes e a reforçar a ditadura. Não se pode esquecer que aquela havia sido a primeira eleição direta para os governos estaduais, desde 1964, e a vitória dos líderes oposicionistas, que tinham potencial para uma candidatura à presidência da República, tinha frustrado os principais articuladores políticos do regime. Isso era público e notório.

“Para o Governador Brizola [PDT], há interesse numa intervenção nos estados governados por oposicionistas. ‘Isso realmente poderá acontecer porque há muita gente inconformada com a democracia. Nós, entretanto, trazemos conosco uma consciência tão grande de nossas responsabilidades, que já estamos preparados para conviver com essas ameaças’, afirmou o Governador do Rio de Janeiro.” (Jornal do Brasil, 06 de abril de 1983, p.14)

Mas a questão social se sobrepunha aos conflitos políticos, pelo menos naquele momento dramático vivido pelos operários de São Paulo. Havia desemprego mesmo. A instabilidade que se observava nas ruas não era uma fabricação maquiavélica de grupos interessados em recuperar o poder. Com o passar dos dias e das semanas, isso se confirmaria com a emergência de novas manifestações e novos tumultos provocados por trabalhadores em busca de empregos. Inclusive fora de São Paulo. Uma nota melancólica, no entanto, vai para a opinião do governador Tancredo Neves (PMDB), de Minas Gerais, ao comentar o agravamento do desemprego em seu Estado, onde pequenas e médias empresas estavam sendo desativadas e falindo. Tudo se resumiria a uma questão de temperamento, de feitio dos trabalhadores:

— Mas acredito na índole mineira, que é muito diferente da paulista e carioca. O mineiro tem uma extraordinária capacidade de resignação. (idem)

Segundo dados fornecidos pelo IBGE, só em São Paulo havia mais de 300 mil desempregados em janeiro, de acordo com as últimas estatísticas. Outros 35 mil estavam trabalhando como autônomos e mais de 100 mil eram trabalhadores por conta própria, ganhando menos de um salário mínimo, numa população economicamente ativa de 4 milhões e 650 mil pessoas. No Rio de Janeiro, por sua vez, o IBGE apontava a presença de cerca de 250 mil desempregados e de 229 mil subempregados em janeiro. Índices elevados de desemprego também estavam presentes em Belo Horizonte e Recife, segundo a mesma avaliação. O IBGE havia começado a medir o desemprego em janeiro de 1980; outros dados eram complementados pelo Ministério do Trabalho e pela Fiesp. A atividade que mais dispensava trabalhadores era a indústria. (idem)

O governador de São Paulo, Franco Montoro (PMDB), se reuniu com empresários dos principais setores da atividade econômica — indústria, comércio e agricultura — em busca de soluções para a gravidade do desemprego. Pediu aos empregadores que evitassem novas demissões, e se comprometeu, em troca, a garantir a ordem pública e a preservação do patrimônio. Mas havia uma questão fundamental na base dessa negociação, e que não estava sendo ainda devidamente tratada: em curto prazo, essa desocupação crescente da força de trabalho acabaria se tornando insustentável, pois o País não contava com nenhuma forma de seguro-desemprego. O que fazer?

Paulo Francini, um dos empresários presentes e diretor da Fiesp, fez algumas colocações interessantes sobre os problemas debatidos. Segundo sua avaliação, a verdade é que governos e empregadores não estariam acostumados a lidar com o desemprego naquela escala então apresentada, sendo a sua compreensão da real dimensão do desemprego “igual a zero”. E, ao mesmo tempo, se perguntou por quanto tempo um desempregado conseguiria se manter com a sua poupança e com eventuais bicos. Isto é, durante quanto tempo um sujeito desempregado poderia sobreviver sem um novo emprego e um novo salário? O prazo seria exíguo:

 “Sempre tivemos a consciência de que a situação é explosiva. Logo quando um trabalhador é demitido, há uma certa inércia. Ele começa a recorrer às poupanças. Mas a situação vai piorando e se pronuncia no quarto, quinto ou sexto mês da data da demissão.” (idem)

No dia seguinte a essa reunião, uma nova onda de violências e tumultos agitou o centro da cidade de São Paulo. A polícia usou inclusive a cavalaria contra os manifestantes. O diretor regional do Departamento de Polícia Federal de São Paulo considerou que a exibição do filme F.I.S.T. realizada na véspera pela Rede Globo de Televisão estimulou o clima de violência em São Paulo. A emissora teria feito insistentes chamadas ao público para que assistisse à trama, inclusive nos intervalos do Jornal Nacional, o seu programa de maior audiência, apelando para as cenas de maior agitação e intensidade do filme. Estrelado por Sylvester Stallone, um dos mais famosos valentões de Hollywood, o enredo retrata episódios de intensas lutas sindicais dos caminhoneiros dos Estados Unidos, durante os anos 1950. (Jornal do Brasil, 07 de abril de 1983, p.19)

Então, é assim. A questão social provocada pelo desemprego maciço nas grandes cidades do Brasil fica totalmente minimizada pela ênfase dada à exibição de um filme que aborda as lutas sindicais na terra do Tio Sam.

No Rio de Janeiro, o desespero dos desempregados também começava a sacudir as ruas da cidade. Aos gritos de “queremos emprego”, centenas de pessoas apedrejaram carros e ônibus, saquearam um caminhão carregado de gêneros alimentícios e interromperam o tráfego na Avenida Presidente Vargas, uma das mais importantes do centro. Eram uma parte dos quase dois mil candidatos frustrados, que atenderam a um anúncio publicado nos jornais de domingo, oferecendo “vagas para todos os cargos”, mesmo sem experiência. ”A gente vem pensando em trabalhar em escritório e o negócio é vender carnê”, protestou Maria da Conceição Neide, 21 anos, há um ano desempregada, que veio de Japeri. Iludidos com a expectativa de arrumar um bom emprego, conforme prometia o anúncio falado, voltaram para casa de mãos vazias.

No mesmo dia, em Ipanema, aproximadamente 1500 desempregados se organizaram em fila, desde as 5h30m, para disputar uma das oito vagas “para admissão imediata”, em serviços gerais, com um salário pouco maior do que o mínimo regional. (Jornal do Brasil, 12 de abril de 1983, p.4)

Às frustrações, aos enganos e às longas esperas por uma oportunidade, vieram juntar-se os engraçadinhos que, sem nenhuma empatia com a condição dos desempregados, se compraziam em publicar chamados falsos para prometer empregos inexistentes. Por pouco essas brincadeiras de mau gosto não provocaram tragédias. Desesperadas e aflitas, as pessoas logo respondiam à oferta dos anúncios, sem poder se proteger das armadilhas dos cafajestes de plantão.

“O boato de que, para conseguir emprego na Comlurb, teriam que arranjar uma ‘carta de apresentação’, levou milhares de pessoas, ontem de manhã, à sede da companhia e à porta do Palácio Guanabara. Era tudo mentira: nem a Comlurb tem vagas, nem o Palácio dava cartas a ninguém. Na Ilha do Governador, quem sofreu foi o bancário Gerson Pina: um anúncio falso deu sua casa como endereço de uma transportadora que convocava 80 motoristas e ajudantes.

Cerca de mil homens fizeram fila, desde a madrugada, em frente à casa de Gerson e alguns, revoltados, apedrejaram a residência. Mas o bancário, que soube do anúncio, tirou a família de casa. A PM dispersou os desempregados.” (Jornal do Brasil, 26 de abril de 1983, p.1)

Da parte dos governantes, por sua vez, embora houvesse promessas e comprometimentos, as soluções costumavam demorar. Eram encontros e reuniões com empresários, a fim de propor medidas de longo alcance que pudessem minorar o sofrimento das famílias em desemprego, mas a sua efetividade era quase nula. O drama tendia a se arrastar por longas temporadas. O “mercado”, como sempre, mostrava-se uma anti-solução. Ao mesmo tempo em que jogava o problema para os governos, lavava as mãos diante da própria ineficiência. Crise, recessão, inflação, desemprego: as autoridades que os resolvessem. À chamada inciativa privada cabia apenas “proteger-se dos estragos de uma política econômica desastrosa”, que não atendia às reais necessidades do País. Eram os trabalhadores que pagavam a conta do desastre.

Foi Carlos Drummond de Andrade quem retratou de forma feliz e contundente esse descalabro que lançaria o Brasil em mais um período funesto de subdesenvolvimento:

“De repente o País acorda (ou apenas cochilava?) e observa, estarrecido, que este mundo de terra brasileira por aí está cheio de desempregados. Há desemprego até no subemprego. Total. E, simultaneamente, lojas saqueadas, veículos depredados, terras invadidas, agitação social. O Governo — melhor: os Governos assustam-se, concentram-se um momento e logo partem para providências espetaculares.

— Vamos dar emprego aos desempregados! Vamos gerar 30 mil empregos!

— Pois eu vou gerar 50 mil!

— E eu gero 80 mil! Cem mil!

Nunca se viu tamanha capacidade súbita de geração. Será, talvez, o fenômeno da geração espontânea? Parece que uma força nova impulsionou as autoridades, concedendo-lhes um vigor de que jamais haviam suspeitado. Vigor e verba. Uma verba elástica, inesgotável, que dá para admitir todos os desempregados do Brasil (…)

Antes não se sabia de verba nenhuma, enquanto as fábricas mandavam para as ruas milhares de empregados de todas as categorias, e outras empresas pediam concordata ou faliam. Isso vem acontecendo há anos, e chama-se recessão. Mas nossas amadas autoridades recusavam esta palavra: recessão coisa nenhuma. Portanto, não havia desemprego, filho dileto da recessão.

Mas havia. E foi preciso um organizadíssimo quebra-quebra em São Paulo para que se reconhecesse que atrás da turbulência está a fome, consequência do desemprego. Foi também um fecundo quebra-quebra, pois graças a ele todo mundo voltará a ter trabalho garantido ou começará a tê-lo. Acabou o desemprego. São tão elevadas as estimativas oficiais de novos empregos, em fase acelerada de geração, que talvez não se consiga recrutar bastante candidatos para preenche-los.” (“Acabou o desemprego”. Jornal do Brasil. 26 de abril de 1983, Caderno B, p.1)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Olimpíadas

Enfim, a Olimpíada Rio2016 terminou e foi um grande sucesso. Contra as expectativas de alguns que, dentro e fora do Brasil, previram diversos problemas e pregaram o caos — desde uma “explosão” do zika vírus até a ocorrência de atos terroristas, passando por dificuldades técnicas e organizacionais que nos cobririam de vergonha —, o evento correu dentro do programado e deu tudo certo. A ponto de o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) declarar que faria outra Olimpíada no Rio de Janeiro, tranquilamente. Isso tudo, depois de se derramar em elogios a todos os brasileiros envolvidos na realização dos jogos, autoridades ou não, e de agradecer encarecidamente pelo empenho geral. Para muitos, foi um alívio. Para outros, foi motivo de orgulho.

O fato é que o Brasil, com a organização da Copa do Mundo, em 2014, e dos Jogos Olímpicos, em 2016, provou que é capaz de sediar grandes eventos internacionais com a competência necessária. Ainda que tenhamos dado alguns tropeços eventuais, “a maior competição esportiva do planeta realizada pela primeira vez na América do Sul” não ficou devendo àquelas que a antecederam. A organização dos jogos olímpicos é sempre cercada de contratempos, onde quer que aconteça, dadas as características e a magnitude das competições, dado o número de atletas e de comissões técnicas participantes, e o volume de obras exigidas, além das despesas elevadas que precisam ser feitas na preparação dos acontecimentos.

Tendo em vista essas condições, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) vetou certa vez uma proposta de candidatura de São Paulo a sede dos jogos olímpicos de 1988. Apresentada pelo então governador do Estado, Paulo Maluf, essa pretensão foi recusada por unanimidade pelo Conselho Consultivo da instituição. Elaborada em apenas duas laudas e meia, a proposta foi considerada cheia de imprecisões e limitações, e custou ao governador a acusação de demagogo. Segundo os responsáveis pelo veto, o primeiro erro era o de que a candidatura deveria partir do prefeito, e não do governador, posto que, conforme determinação do Comitê Olímpico Internacional, o direito de sediar os jogos é dado a uma cidade, e não a um Estado da federação ou a um país.

Outras exigências do COI também foram completamente ignoradas pela petição do senhor Paulo Maluf. As mais importantes seriam a indicação precisa das fontes de recursos que assegurariam o empreendimento, e o pagamento de 500 mil francos suíços, exigidos como depósito de garantia de todos os pretendentes, conforme estipulado na Carta Olímpica. Na falta desses e de outros atributos considerados essenciais, o COB recusou terminantemente o prosseguimento da iniciativa. Ao ser entrevistado sobre o assunto, o presidente do COB, major Sílvio de Magalhães Padilha, ainda apontou para as graves dificuldades econômicas e financeiras do País:

“Temos pouco feijão, estão ocorrendo greves, pedidos por melhores vencimentos. Vocês sabem o custo de uma Olimpíada? No Canadá, há quatro anos, foram Cr$ 99 bilhões, bilhões mesmo.” (Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1980, p.24)

[Em valores atualizados, 99 bilhões de cruzeiros em 1976, seriam em agosto de 2016: R$ 167.337.063.826,93]

Embora recusasse a candidatura de São Paulo naqueles termos e naquelas condições, o COB, em sua nota oficial, reconhecia o elevado significado de uma Olimpíada para toda e qualquer nação, sobretudo, para as parcelas mais jovens da população — principais competidoras e espectadoras dos esportes disputados. E mais: deixava claro que os ganhos de um empreendimento desse porte nem sempre se resumem aos resultados financeiros. A imagem do país e de seu povo seria grandemente beneficiada por uma exposição positiva diante do mundo inteiro, propiciando uma oportunidade única de projeção internacional.

“2) Ninguém mais do que nós, do COB, tem interesse e desejo de realizar os Jogos Olímpicos em nosso país, pois eles são uma das maiores realizações para a juventude que um país pode desejar, e cujo retorno em melhoramentos e em propaganda é indiscutível.” (Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1980, p.24)

Quer dizer, por maiores que sejam os dispêndios exigidos pela preparação dos jogos, o retorno em forma de reconhecimento e de estímulo ao desempenho esportivo, ou mesmo administrativo e técnico, terá valido a pena. Os efeitos positivos de uma atuação bem sucedida tendem a perdurar muito tempo ainda depois do encerramento dos eventos esportivos, angariando para diversas categorias profissionais e esportivas um sem número de oportunidades incomensuráveis.

Todavia, diante das circunstâncias econômico-financeiras do Brasil naquele momento histórico, o COB desaconselhava por completo uma candidatura local a sede dos Jogos Olímpicos de 1988. Mesmo reconhecendo que há ganhos espetaculares que não se medem em números, a entidade olímpica brasileira buscou fundamentar suas precauções nos saldos efetivos que restaram dos últimos jogos disputados no mundo — dívidas consideráveis para os realizadores. E o Brasil não estaria em condições de aumentar o seu próprio endividamento.

“4) Todos os países que realizaram os últimos jogos olímpicos estão até hoje endividados em consequência direta dos gastos com os jogos, uns mais do que outros, embora seja lógico admitir que o encargo tenha resultado em melhoramentos substanciais, como a construção de estradas, hotéis, instalações esportivas e outros.” (Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1980, p.24)

Desde 1952, observava-se uma tendência para que os jogos olímpicos se tornassem cada vez mais deficitários para os seus organizadores. Somente Tóquio, em 1964, rompeu essa cadeia de progressivo endividamento resultante da preparação de uma Olimpíada. Exigências técnicas cada vez maiores, modalidades esportivas cada vez mais variadas, crescimento significativo do número de países e de atletas participantes, enfim, um volume cada vez mais robusto de despesas necessárias à montagem do espetáculo contribuíam para o encarecimento cada vez mais acentuado da festa do esporte. Seja como for, ainda que os custos se tornassem astronômicos, as candidaturas jamais deixaram de acontecer, e sempre foram bastante disputadas. Para o Brasil, não era um objetivo a ser alcançado logo, mas um sonho a ser acalentado por muito tempo ainda.

Embora os dados de Montréal (1976) e de Moscou (1980) até aquela data ainda não estivessem disponibilizados, o COB acreditava que a elevação dos gastos continuasse a crescer e desencorajava as pretensões dos brasileiros de conquistar uma sede olímpica.

U$ milhões

Local Ano Renda Despesa Saldo
Londres 1948 6.332 5.998 334
Helsinqui 1952 10.045 11.402 -1.357
Melbourne 1956 8.331 9.335 -1.004
Roma 1960 11.149 67.952 -56.803
Tóquio 1964 40.658 37.601 3.057
México 1968 98.714 225.778 -127.064
Munique 1972 424.690 714.593 -289.903

(Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1980, p.24)

 

Os meninos de São Paulo

Faz algumas semanas que temos recebido uma verdadeira lição de cidadania dos estudantes secundaristas de São Paulo. Diante de um projeto do governo do Estado (Geraldo Alckmin, PSDB), que previa a “reorganização” do ensino médio, com o fechamento de 94 escolas, e a respectiva transferência de alunos e professores para outras unidades, os meninos resolveram enfrentar a mudança prevista com protestos e questionamentos (“não fechem a minha escola” era o coro que entoavam). A isso, o governo do Estado respondeu com a truculência habitual — repressão policial e mais ameaças. Os adolescentes, então, numa demonstração vigorosa de seus brios juvenis, iniciaram a ocupação das escolas destinadas ao fechamento. Resistiram e têm resistido com tamanha bravura, que o governador foi obrigado a rever sua decisão e acabou assinando um decreto com a suspensão temporária do tal projeto de “reorganização”. Dizem os jornais que ele vai promover o diálogo com alunos, pais e professores, no intuito de realizar as mudanças previstas com mais serenidade. A ver.

Qualquer que seja a proposta pedagógica envolvida no caso, a simples ideia de fechar escolas (94) tende a causar uma péssima impressão. Num país como o Brasil, cujo déficit educacional acumulado durante décadas apenas começou a ser enfrentado nos últimos anos, fechar escolas é uma proposta digna de todo rechaço. Nós deveríamos estar propondo a abertura de mais escolas, de mais vagas, de mais turnos. Nós deveríamos estar discutindo meios de formar mais professores e de lhes dar uma remuneração mais elevada, condizente com as tarefas de significativa relevância social que exercem. Mas deparamos com um projeto que pretende justamente eliminar dezenas de colégios tradicionalmente voltados para o ensino médio, porta de entrada no futuro, na vida adulta e na universidade. Como assim?

Não li o projeto proposto pelo governo de São Paulo. As informações que fui achando pelo caminho eram meio desencontradas: ora em defesa do projeto, ora em franca discordância dele. Talvez, tenha faltado mesmo a iniciativa por parte das autoridades paulistas de abrir o diálogo com a sociedade e mostrar os principais pontos a serem defendidos em sua proposta. Nas poucas fotos que vi (e não foram muitas), as escolas em questão eram prédios muito bonitos e bem instalados, alguns inclusive com uma arquitetura digna de nota, outros bem arborizados e aprazíveis.

Qualquer educador minimamente instruído sabe que o processo de aprendizagem envolve o próprio ambiente onde se dá. Não se trata apenas do professor na sala de aula com seus alunos, por mais empenhados que todos estejam em fazer com que tudo dê certo. O ambiente escolar é fundamental — e isso significa o prédio em si, as instalações, o conforto, a beleza do lugar. E ainda as demais facilidades articuladas com o deslocamento, a acessibilidade, a proximidade. Todos aqueles que participam da ação educacional sabem da importância que o ambiente escolar costuma ter no desempenho de alunos e professores. Isso não é nenhuma novidade.

Simplesmente eliminar todos esses aspectos importantes da relação dos estudantes com suas escolas em nome de um critério técnico qualquer, por mais defensável que seja, é desconsiderar alguns princípios pedagógicos indispensáveis.

Levantou-se a questão da especulação imobiliária embutida no projeto de fechamento de escolas do governo de São Paulo. Não sei se já houve compromissos firmados para a venda dos imóveis em questão. Mas, a gentrificação — valorização de áreas e terrenos urbanos resultante de investimentos vultosos, tanto públicos quanto privados, em melhorias e infraestrutura — é uma tendência inelutável nas grandes cidades do mundo. Novos usos do solo, sobretudo, em decorrência da construção de novos espaços comerciais e residenciais nessas áreas e terrenos, provocam o afastamento daqueles cuja renda mensal não acompanha os custos de viver ou de manter um negócio nas regiões gentrificadas. Não é difícil observar processos desse tipo em diversos lugares do mundo — uma das suas características mais marcantes tem sido a transformação de antigas zonas portuárias degradadas em novas opções tanto residenciais quanto comerciais, para grupos de alta renda. O “Porto Maravilha”, no Rio de Janeiro, é uma delas.

Seja como for, os meninos de São Paulo nos ensinaram o valor de resistir, de reivindicar, de lutar para não perder direitos. Espancados e torturados pela polícia, ameaçados pelo governo do Estado, desmoralizados pela imprensa de direita, eles souberam se manter unidos e firmes em seus propósitos. É verdade que também receberam apoio — e tenho certeza de que a acolhida que tiveram de seus pais foi fundamental para que continuassem resistindo. Presto-lhes aqui uma singela homenagem, por tudo que me ensinaram, por tudo que me fizeram ver. Sei que a luta apenas começou para eles. Mas tenho certeza de que tiveram um batismo memorável, que lhes dará garra e coragem para os muitos embates que estão por vir.

Salve os meninos de São Paulo!

A “pátria paulista”

La patrie — era assim que Napoleão Bonaparte se referia à França. Não um país, não uma nação, não uma nacionalidade; acima de tudo, la patrie.

O tema das nações e dos nacionalismos é um dos mais complexos e fascinantes da história humana. Em geral, a busca de uma identidade nacional é suscitada nos momentos de transformação mais aguda das sociedades, quando a escolha de caminhos e rumos se torna mais urgente. Por isso mesmo, ao levar-se em conta as condições específicas de cada uma dessas experiências, é preciso ter cuidado com o excesso de generalizações. No caso brasileiro, por exemplo, o advento da República (1889) foi um desses momentos em que as mudanças econômicas e sociais que estavam em curso provocaram o surgimento de novas aspirações e de novas expectativas em relação ao futuro.

Desde meados do século XIX, com o fim do tráfico de escravos para o Brasil, colocou-se um enorme desafio à continuidade do modelo agrário-exportador predominante, amplamente apoiado no latifúndio e no trabalho escravo. Toda a arquitetura política e administrativa da monarquia se assentava sobre essa base, e eram os representantes dessa economia exportadora que constituíam a elite governante do País.

A década de 1870 marcou o início das principais mudanças que afetaram esse arranjo. A expansão do cultivo cafeeiro nas terras férteis (e altamente produtivas) do Oeste Paulista não podia mais contar com o braço dos negros escravos e teve de encontrar alternativas — imigrantes europeus foram trazidos em grande escala para povoar as novas fazendas de café e assegurar a sobrevivência das monoculturas de exportação que constituíam a principal riqueza da elite local. Ao mesmo tempo, essa atividade exportadora já passava a contar com um esquema de transporte mais moderno, baseado em grande medida nas ferrovias.

Tanto os custos das viagens dos imigrantes quanto as garantias de juros oferecidas às instituições financeiras que concederam os empréstimos para a construção das estradas de ferro foram bancados pelo governo monárquico. Além dessas despesas, que não eram pequenas, a monarquia se viu ainda diante de um significativo aumento da sua dívida externa em decorrência dos gastos com a participação na Guerra do Paraguai (1864-1870). A situação interna tanto do ponto de vista econômico quanto político era de instabilidade. A isso, veio somar-se a intensificação do movimento abolicionista, que atraiu um número ainda maior de grupos descontentes com o governo imperial, como aqueles que mais dependiam do trabalho escravo (como os cafeicultores do Vale do Paraíba, por exemplo).

Por outro lado, a principal fonte de arrecadação do governo central provinha das receitas alfandegárias de importação e exportação (nem sequer se discutia taxar os latifúndios, principais fontes de riqueza do País), e isso acabou gerando grave insatisfação nas províncias. Sempre sufocadas pela escassez de recursos, demandavam mais aos cofres da monarquia, que não conseguia atendê-las. No início da década de 1880, assim, começou a intensificar-se a difusão do projeto republicano como solução para os principais problemas do Brasil (de fato, o Partido Republicano foi fundado em 1870, mas ganhou força mesmo na década seguinte). As aspirações de maior autonomia administrativa e política, com forte crítica ao excessivo centralismo da monarquia, ganharam cada vez mais adeptos quanto mais se aproximavam do federalismo como melhor forma de organização institucional.

Na província de São Paulo, a ideia da federação acabou desembocando no separatismo. Embora não ecoassem em uníssono e não atraíssem toda a elite local, essas vozes que pregavam a “pátria paulista” fizeram um bocado de barulho e deixaram um legado. Por meio de artigos em jornais, palestras, panfletos e livros, os defensores do separatismo argumentavam que São Paulo contribuía em grande volume para os cofres nacionais sem receber uma devida contrapartida, tendo ainda de compensar o que outras províncias não faziam. As regiões atrasadas e decadentes do País (entenda-se o Norte e o Nordeste, e o Vale do Paraíba fluminense) representavam um verdadeiro obstáculo ao progresso de São Paulo, e torná-lo uma nação independente — a “pátria paulista” — permitiria que toda a renda proveniente do seu desenvolvimento ajudasse a “promover os melhoramentos materiais e difundir conhecimentos úteis, elevando o nível intelectual e moral dos habitantes”. (Viotti da Costa, 1979, p.316)

O fato é que a elite paulista não bancou esse risco. O advento da República, longe de representar uma ruptura com a estrutura socioeconômica vigente, representou mais uma conciliação entre setores emergentes e tradicionais, que permaneceram hegemônicos:

“O ano de 1889 não significou uma ruptura do processo histórico brasileiro. As condições de vida dos trabalhadores rurais continuaram as mesmas, permaneceram o sistema de produção e o caráter colonial da economia, a dependência em relação aos mercados e capitais estrangeiros.” (Viotti da Costa, 1979, p.326)

O separatismo paulista, por sua vez, também não se efetivou. Mas a “pátria paulista” permaneceu como um refúgio na fantasia de todos aqueles que sempre rejeitaram e continuam rejeitando o Brasil tal como é de fato — pobre, mestiço, diverso.

Referências:

Emília Viotti da Costa. Da Monarquia à República: momentos decisivos. 2ª edição. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas Ltda., 1979.

Milene Ribas da Costa. A implosão da ordem: a crise final do Império e o movimento republicano paulista. Dissertação de Mestrado. Orientador: Prof. Dr. Eduardo Kugelmas. FFLCH-USP, São Paulo, 2006.